{"id":18461,"date":"2011-10-21T13:11:14","date_gmt":"2011-10-21T15:11:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=18461"},"modified":"2013-10-25T01:35:05","modified_gmt":"2013-10-25T03:35:05","slug":"pense-ou-dance-nao-me-chame-de-indie","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-me-chame-de-indie\/","title":{"rendered":"PENSE OU DANCE: N\u00c3O ME CHAME DE INDIE"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"18464\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-me-chame-de-indie\/indie1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/indie1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"indie1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/indie1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/indie1.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-18464\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/indie1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/indie1.jpg?resize=300%2C166 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de oitenta, era um elogio, algo pra definir um militante contra o sistema dominante das r\u00e1dios e paradas de sucesso. Ser independente naquele tempo era usar em parte a metodologia que o punk popularizou, do fa\u00e7a-voc\u00ea-mesmo, sem esperar ajuda de grandes empresas e sem depender dos conglomerados de r\u00e1dio e televis\u00e3o pra difus\u00e3o da m\u00fasica. Era uma ideia bacana.<\/p>\n<p>Surgiram dezenas de pequenas gravadoras e bandas que levavam a ideia a cabo e usavam as <em>college radios<\/em> e fanzines e pequenas publica\u00e7\u00f5es pra divulga\u00e7\u00e3o, e min\u00fasculas casas de shows pra apresenta\u00e7\u00f5es. Coincidentemente, o estilo era parecido em muitas delas: um rock mel\u00f3dico, baseado em guitarras, que podia extrapolar o gosto vigente e experimentar mais, com distor\u00e7\u00f5es, ru\u00eddos, estruturas musicais que fugissem do padr\u00e3o estrofe-estrofe-refr\u00e3o-solo-estrofe (embora na pr\u00e1tica, o punk, o metal e at\u00e9 o rap podiam ser independnetes).<\/p>\n<p>Sonic Youth (na Neutral e na Enigma), REM (na I.R.S.), Dinosaur Jr. (na SST), The Jesus &#038; Mary Chain (na Blanco Y Negro), New Order (na Factory), The Smiths (na Rough Trade), The Fall (na Beggars Banquet), Pixies (na 4AD), Nirvana (na Sub Pop) e uma lista de fato enorme, naquela \u00e9poca, eram independentes. Muitos desses selos se associaram a grandes gravadoras pra distribui\u00e7\u00e3o de seus cat\u00e1logos e ainda lan\u00e7am bandas, mas num esquema bem mais profissional.<\/p>\n<p>Todos eles conseguiram seu espa\u00e7o. Mas foi na ra\u00e7a, no peito, no cora\u00e7\u00e3o e na coragem. Era como dizer: &#8220;n\u00e3o me d\u00e3o espa\u00e7o, arrumo o meu&#8221;.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a &#8220;Never Understand&#8221;, Jesus &#038; Mary Chain:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"315\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/-JhbR4XbN4U?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>O tempo passou e o p\u00fablico foi se acostumando com a sonoridade dessas bandas, do cat\u00e1logo desses e de outros selos e o termo &#8220;indie&#8221; passou a ser ligado diretamente ao estilo de m\u00fasica, o que j\u00e1 era err\u00f4neo, mas aceit\u00e1vel, no momento em que n\u00e3o se encaixava ainda no topo das paradas e n\u00e3o se tratava de um movimento orquestrado. A maioria dessas bandas dos anos oitenta conseguiu ganhar um bom p\u00fablico e levantar uma grana consider\u00e1vel, afinal de contas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, veja, elas j\u00e1 n\u00e3o precisavam conseguir nada na marra. A d\u00e9cada de noventa, j\u00e1 com o ch\u00e3o pavimentado, foi pra colher os frutos e se acomodar no lugar da hist\u00f3ria da m\u00fasica. As dificuldades \u00e9 que as uniram de alguma forma, que as colocaram no mesmo patamar de insatisfa\u00e7\u00e3o, de lutar por espa\u00e7o, na porrada. Quem quer muito alguma coisa, e n\u00e3o a tem, precisa se rebelar, gritar, falar mais alto, fazer algo diferente, ou lamber botas e ser mais um no meio de tantos.<\/p>\n<p>Os selos independentes corriam paralelamente, na d\u00e9cada de noventa, como &#8220;fomentadores de novos talentos&#8221; \u2013 eram um bra\u00e7o das grandes gravadoras pra isso. E existem at\u00e9 hoje na mesma medida. Continuam independentes, mas faturam bem com essa estampa de independ\u00eancia. Por\u00e9m, ser independente j\u00e1 n\u00e3o requer tanto culh\u00e3o assim. Porque ser &#8220;indie&#8221; hoje em dia virou outra coisa \u2013 j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 alternativa a nada.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio. De Strokes pra c\u00e1, coincidentemente com a populariza\u00e7\u00e3o da Internet, a coisa virou uma grife pra abobalhados e <em>bullynizados<\/em> na escola acharem seu espa\u00e7o. Surgiram, eis, os indies festivos. Eles continuam gostando de bandas e m\u00fasicas que n\u00e3o est\u00e3o necessariamente nas paradas. Mas gostariam que estivessem. Tratam suas bandas preferidas com uma paix\u00e3o de torcida organizada, como fanzocas ensandecidas. Se vestem todos iguais e, curiosamente, adoram festas coloridas e t\u00eam avers\u00e3o a, ou pregui\u00e7a de, conhecer m\u00fasicas novas.<\/p>\n<p>Hoje, s\u00e3o de f\u00e1cil identifica\u00e7\u00e3o: s\u00e3o os que tratam Strokes, Franz Ferdinand, Killers, Arctic Monkeys, Arcade Fire, Wilco e afins como cl\u00e1ssicos intoc\u00e1veis, acima de bem e do mal. Nas roupas, \u00f3culos de aro preto, t\u00eanis (ou sapat\u00eanis) coloridos, camisetas dessas bandas, cabelos desgarrados, pele ausente do contato com o sol e quase nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com a limpeza.<\/p>\n<p>Mas nada disso incomoda. O que pega \u00e9 o discurso politicamente correto. S\u00e3o todos militantes de Internet. Adoram marchas disso e daquilo. Mas s\u00f3 pelas redes sociais. Se tiver que sair \u00e0 rua, \u00e9 trabalho demais. E pode ter pol\u00edcia no meio, sabe como \u00e9. S\u00e3o donos da verdade e recusam tudo o que \u00e9 novo, a n\u00e3o ser que algumas assessorias de imprensa ou blogues e sites digam o contr\u00e1rio, digam &#8220;pode experimentar&#8221;.<\/p>\n<p>V\u00eddeo de &#8220;Talk About The Passion&#8221;, REM:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/zCMy6kq5ZA0?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>Suas bandeiras s\u00e3o defendidas em festas, em clubinhos. S\u00e3o daqueles que se indignam com tal artista ter ganho ou n\u00e3o o VMB ou o Grammy, mas n\u00e3o fazem ideia dos motivos pelos quais a Europa chafurda numa crise preocupante. S\u00e3o apol\u00edticos, a n\u00e3o ser que a causa renda uma boa baladinha. Fogem de qualquer confronto, de qualquer discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Discuss\u00e3o \u00e9 bate-boca sem sentido e quem leva adiante algum argumento a mais pode ser tachado de chato, a ficar procurando eternamente a sua al\u00e7a por a\u00ed. A paci\u00eancia dos indies festivos \u00e9 pouca. Como nas redes sociais, pode ter a extens\u00e3o de 140 caracteres.<\/p>\n<p>A todos eles falta o culh\u00e3o de reverberar contra qualquer coisa longe do conforto do lar.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o me chame de indie: n\u00e3o visto essas roupas, gosto de ser do contra e gosto de discutir, argumentar at\u00e9 o fim. Confrontamento \u00e9 uma das divers\u00f5es mais bacanas que conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o me chame de indie: n\u00e3o dou a m\u00ednima a esses pr\u00eamios de MTV, Grammy ou o que quer que seja. Tento me guiar por outros par\u00e2metros, talvez n\u00e3o t\u00e3o elevados. E posso estar errado, s\u00f3 que pra me convencer disso \u00e9 preciso argumentar, falar, discutir at\u00e9 cansar.<\/p>\n<p>N\u00e3o me chame de indie: n\u00e3o acho que gostar de Lady Gaga, Beyonc\u00e9 e afins me fa\u00e7a mais descolado. A roupa da flexibilidade musical que visto \u00e9 outra. Essas novas Madonnas a\u00ed s\u00e3o c\u00f3pias de algo que j\u00e1 n\u00e3o cheirava bem quando a Madonna verdadeira estava no auge. E est\u00e3o longe de serem independentes. Elas tocam nas noitadas dos indies festivos \u2013 e, acredite, fazem muito mais sucesso que as adoradas bandas deles.<\/p>\n<p>N\u00e3o me chame de indie: n\u00e3o engulo essa leva <em>baixoaugustiana<\/em>, de Jenecis, Criolos, Petits e subg\u00eaneros. N\u00e3o pelos artistas em si \u2013 cada um faz o que melhor lhe apraz como arte \u2013 mas pelo modo como s\u00e3o vendidos, resenhados e aclamados. A eleva\u00e7\u00e3o art\u00edstica deles se torna il\u00f3gica pela falta de argumento, mas ganham sedimento nas dezenas de tu\u00edtes e adjetivos rasos. Afinal, n\u00f3s gostamos ou desgostamos desses caras por qual motivo mesmo?<\/p>\n<p>N\u00e3o me chame de indie: sou um saudosista que procura olhar pro futuro. Adoro anos oitenta, noventa e dois mil. Respeito quem aprecia os sessenta e setenta. Quanto mais ampla a vis\u00e3o melhor. N\u00e3o finco estaca no terreno desse ou naquele g\u00eanero, muito menos no de determinado artista. \u00c9 bom olhar o passado pra entender o presente, analisar o hoje, e se empolgar com o futuro. Bandas novas surgem todos os dias, mas elas s\u00e3o destru\u00eddas com a mesma velocidade que os indies festivos a elevam ao altar. O que \u00e9 neo-bom dura apenas dez minutos, menos que a fama predita por Warhol. \u00c9 bom amadurecer essas m\u00fasicas, bandas e \u00e1lbuns, mas a eles o tempo n\u00e3o permite tal exerc\u00edcio \u2013 a n\u00e3o ser que digam pra faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Veja o v\u00eddeo de &#8220;Star Power&#8221;, Sonic Youth:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/eqh-LRRWhoA?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>Indie, ao p\u00e9 da letra, precisa ter independ\u00eancia de pensamento, de atitude, de postura, pra gritar, se rebelar ou at\u00e9 mesmo aceitar. Mas indie virou uma marca, um estilo que se tornou o rascunho intelectual da classe m\u00e9dia universit\u00e1ria e p\u00f3s-universit\u00e1ria, cujos defeitos e lacunas culturais da puberdade persistem e se tornam base pra pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<p>O horizonte vis\u00edvel, por\u00e9m, \u00e9 mais otimista do que parece. As pessoas crescem e v\u00e3o l\u00e1 batalhar pra pagar suas contas. Um bocado dessa massa vai continuar ac\u00e9fala, bradando palavras de ordem, dentro de casa, contra o pr\u00f3ximo aumento de impostos do governo ou o tr\u00e2nsito ca\u00f3tico da cidade. Nada vai fazer e vai continuar votando talvez na mesma corja ou na pr\u00f3xima corja que deixou e far\u00e1 permanecer as coisas do jeito que est\u00e3o. Um peda\u00e7o dessa massa (quem sabe uma mente apenas, o que j\u00e1 seria um lucro tremendo), talvez crie algo interessante e tenha bolas e gana pra mudar alguma coisa, pra fazer a diferen\u00e7a. Ainda bem que uma mente dessas surge com certa frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Porque a sociedade precisa de uns tapas na cara pra se mexer e evoluir. E n\u00e3o de festas.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na d\u00e9cada de oitenta, era um elogio, algo pra definir um militante contra o sistema dominante das r\u00e1dios e paradas de sucesso. 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