{"id":28116,"date":"2012-12-04T16:32:40","date_gmt":"2012-12-04T18:32:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=28116"},"modified":"2014-02-21T11:06:23","modified_gmt":"2014-02-21T14:06:23","slug":"pense-ou-dance-a-ilusao-e-a-musica-torta-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-ilusao-e-a-musica-torta-brasileira\/","title":{"rendered":"PENSE OU DANCE: M\u00daSICA TORTA BRASILEIRA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"29462\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-ilusao-e-a-musica-torta-brasileira\/penseoudance24\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/penseoudance24.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"penseoudance24\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/penseoudance24.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/penseoudance24.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-29462\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/penseoudance24.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/penseoudance24.jpg?resize=300%2C166 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Nunca quis ser m\u00fasico. Ao contr\u00e1rio do que diz a m\u00e1xima, n\u00e3o escrevo sobre m\u00fasica porque sou um m\u00fasico frustrado. N\u00e3o me considero sequer um cr\u00edtico, ent\u00e3o d\u00e1 pra me tirar desse balaio.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica, sei exatamente como deve se sentir um analfabeto: escurid\u00e3o total. N\u00e3o sei &#8220;ler&#8221; m\u00fasica, n\u00e3o sei distinguir sons muito parecidos, notas pra mim s\u00e3o hieroglifos sonoros, \u00e0s vezes at\u00e9 me dou melhor falando russo do que detectando uma sutileza musical&#8230; S\u00f3 sei o que sinto.<\/p>\n<p>A m\u00fasica causa em mim rea\u00e7\u00f5es que nenhuma outra forma art\u00edstica consegue, nem mesmo o cinema e a literatura. E \u00e9 a\u00ed que me aproprio dela. Tento dissec\u00e1-la com o cora\u00e7\u00e3o e com o que j\u00e1 ouvi no passado. Ter um tanto de bagagem cultural talvez compense a incompreens\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>&#8220;Na concep\u00e7\u00e3o ocidental, o som sempre teve algo de misterioso. Onipresente e, ao mesmo tempo, evanescente, o som n\u00e3o se rende facilmente a um racioc\u00ednio acostumado com coisas, locais e configura\u00e7\u00f5es est\u00e1veis&#8221;, diz Tiago de Oliveira Pinto, diretor do Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha \u2013 ICBRA &#8211; no seu<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/ra\/v44n1\/5345.pdf\" target=\"_blank\"> ensaio &#8220;Som e m\u00fasica. Quest\u00f5es de uma Antropologia Sonora&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p>Achar que algu\u00e9m s\u00f3 pode falar de m\u00fasica se entender de tecnicamente a m\u00fasica \u00e9 besteira. Como em toda arte, o entorno social \u00e9 t\u00e3o ou mais importante do que a pr\u00f3pria obra. O impacto dela na sociedade e vice-versa. Um ouvinte, pois, deve ser mais &#8220;soci\u00f3logo&#8221; e &#8220;antrop\u00f3logo&#8221; do que m\u00fasico.<\/p>\n<p>Segundo Oliveira, foi o livro &#8220;A Antropologia da M\u00fasica&#8221;, de 1964, escrito pelo antrop\u00f3polo estadunidense Alan. P. Merriam, que primeiro formulou uma &#8220;teoria da etnomusicologia&#8221;, &#8220;na qual refor\u00e7ou a necessidade da integra\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de pesquisa musicol\u00f3gicos e antropol\u00f3gicos. M\u00fasica \u00e9 definida por Merriam como um meio de intera\u00e7\u00e3o social, produzida por especialistas (produtores) para outras pessoas (receptores); o fazer musical \u00e9 um comportamento aprendido, atrav\u00e9s do qual sons s\u00e3o organizados, possibilitando uma forma simb\u00f3lica de comunica\u00e7\u00e3o na interrela\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo e grupo&#8221;.<\/p>\n<p>Treze anos depois, em 1977, Merriam avan\u00e7ou ainda mais. &#8220;Para entender a m\u00fasica enquanto produto e estrutura constru\u00edda seria necess\u00e1rio, de acordo com Merriam, aprender a entender conceitos culturais, que fossem respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o destas estruturas. Merriam caracterizou a pesquisa etnomusicol\u00f3gica como &#8216;o estudo da m\u00fasica <em>na<\/em> cultura&#8217; para, na d\u00e9cada seguinte, acentuar ainda mais o paradigma cultural, definindo a \u00e1rea de pesquisa como &#8216;o estudo da m\u00fasica <em>como<\/em> cultura'&#8221;.<\/p>\n<p>Antes de avan\u00e7ar, vale uma pequena ideia do que \u00e9 exatamente &#8220;m\u00fasica&#8221;, no sentido matem\u00e1tico e f\u00edsico da coisa. Releve essa passada r\u00e1pida e displicente pela Hist\u00f3ria da M\u00fasica (com mai\u00fasculas), porque queremos apenas entender que o sistema musical ocidental funciona com sete notas naturais e cinco acidentais (as sustenidas e bem\u00f3is). S\u00e3o doze notas, dispostas em v\u00e1rias oitavas, que adv\u00e9m de um processo longo de evolu\u00e7\u00e3o. Compreend\u00ea-las hoje \u00e9 f\u00e1cil, no sentido de saber o que \u00e9 &#8220;afinado&#8221; e o que \u00e9 &#8220;desafinado&#8221;.<\/p>\n<p>Fisicamente, o &#8220;som&#8221; pode ser definido em propriedades como &#8220;dura\u00e7\u00e3o&#8221; (o tempo de dura\u00e7\u00e3o dele, indicado pela nota e pelo andamento), a &#8220;intensidade&#8221; (forte ou fraco, indicado pela din\u00e2mica), &#8220;altura&#8221; (grave ou agudo, indicado pela posi\u00e7\u00e3o da nota e pela clave) e &#8220;timbre&#8221; (um atributo espec\u00edfico de cada som).<\/p>\n<p>Segundo Wesley Caesar, autor de v\u00e1rios livros sobre guitarra, ao descrever a &#8220;f\u00edsica do som&#8221; e as &#8220;no\u00e7\u00f5es de ac\u00fastica&#8221; (&#8220;do grego: acuo = ou\u00e7o&#8221;), \u00e9 nessa \u00e1rea que se define exatamente o som que nossos ouvidos foram acostumados a gostar hoje em dia: &#8220;quando um corpo el\u00e1stico, tipo a corda da guitarra, \u00e9 tirado do seu ponto de repouso e portanto produz uma oscila\u00e7\u00e3o, indo e vindo consecutivamente, chamamos de Vibra\u00e7\u00e3o. A dist\u00e2ncia percorrida por este corpo \u00e9 a Amplitude (&#8216;intensidade&#8217;). Se as Vibra\u00e7\u00f5es forem irregulares, o som \u00e9 considerado um ru\u00eddo, se forem regulares o som \u00e9 considerado musical&#8221;.<\/p>\n<p>E continua: &#8220;o n\u00famero de Vibra\u00e7\u00f5es regulares por segundo define a Freq\u00fc\u00eancia, que \u00e9 medida em Hertz (Hz). Uma nota musical determinada tem sempre a mesma freq\u00fc\u00eancia qualquer que seja o instrumento que a produz. A padroniza\u00e7\u00e3o do n\u00famero da freq\u00fc\u00eancia pode ser vari\u00e1vel segundo a conven\u00e7\u00e3o estabelecida. Est\u00e1 fixado desde 1939 a afina\u00e7\u00e3o da nota <em>La<\/em> em 440 hz. Quanto maior a freq\u00fc\u00eancia, mais agudo \u00e9 o som (&#8230;). O ouvido humano percebe aproximadamente de 16 a 30.000 vibra\u00e7\u00f5es por segundo. Os sons de 32 a 4.000 vibra\u00e7\u00f5es por segundo s\u00e3o considerados musicais&#8221;.<\/p>\n<p>Vamos deixar o papo na esfera t\u00e9cnica s\u00f3 mais um pouco, entrando no Fen\u00f4meno F\u00edsico-Harm\u00f4nico: &#8220;quando uma corda vibra, ela vibra por inteiro, e ao mesmo tempo se divide em duas metades e esta vibra\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria produz uma oitava acima da mesma nota. Enquanto esta nota vibra por inteiro e em duas metades, divide-se tamb\u00e9m ao mesmo tempo em tr\u00eas ter\u00e7os, quatro quartos, cinco quintos etc&#8230; Ent\u00e3o, obtemos aquilo que chamamos de S\u00e9rie Harm\u00f4nica, que \u00e9 o conjunto de notas produzidas por uma \u00fanica nota fundamental. A extens\u00e3o das s\u00e9ries harm\u00f4nicas dos sons fundamentais das vozes humanas e dos instrumentos musicais e principalmente os sons que mais se salientam da s\u00e9rie \u00e9 o que define o Timbre do instrumento. Podemos dizer, ent\u00e3o, que a partir desse processo temos aquilo que chamamos de Bases F\u00edsicas da Tonalidade, isto \u00e9, a base f\u00edsica das Escalas e dos Acordes (Harmonia). Na S\u00e9rie Harm\u00f4nica, segundo sabemos, temos de 16 a 20 notas em harm\u00f4nicos que s\u00e3o percept\u00edveis ao ouvido musical humano, entretanto as divis\u00f5es de harm\u00f4nios dentro da S\u00e9rie continuam se processando e acontecendo, porque na realidade temos v\u00e1rias sub-divis\u00f5es de notas, que v\u00e3o al\u00e9m das notas adotadas pelo nosso Sistema Musical Ocidental, que s\u00e3o doze, mas j\u00e1 foram vinte e duas notas, que \u00e9 a Escala Completa do antigo Sistema Oriental. O que ocorre \u00e9 que h\u00e1 alguns s\u00e9culos o Sistema de Escala da M\u00fasica Ocidental foi dividido e temperado, ou seja, passou a adotar apenas os 12 sons que formam aquilo que chamamos de Escala Crom\u00e1tica: do, do#\/reb, r\u00e9, reb\/mib, mi, fa, fa#solb, sol, sol#lab, la, la#sib, si&#8221;.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o, sigo com Wesley: &#8220;cada Intervalo entre as notas possui um semitom ou meio tom, que \u00e9 o nome da medida que usamos pra definir o espa\u00e7o entre as notas. Entretanto no Sistema Musical Oriental antigo existem outras medidas que na realidade est\u00e3o na pr\u00f3pria natureza da forma\u00e7\u00e3o dos sons. Em nossa cultura, admitimos como sons afinados apenas aqueles que se encontram dentro da Escala temperada, ou seja, aquilo que foi convencionado como nosso Sistema Musical&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 uma conven\u00e7\u00e3o. Baseada em f\u00edsica &#8211; e matem\u00e1tica, com Pit\u00e1goras no meio, atribuindo as comas pitag\u00f3ricas que se encontram dentro do intervalo de um tom (uma coma \u00e9 igual \u00e0 nona parte de um tom).<\/p>\n<p>Tendo isso em dom\u00ednio, pode-se argumentar que &#8220;toda conven\u00e7\u00e3o est\u00e1 a\u00ed pra ser quebrada&#8221;. Ou no m\u00ednimo contestada, ou ainda contrapor com uma outra conven\u00e7\u00e3o existente.<\/p>\n<p>Quando se entra nos tr\u00eas elementos da m\u00fasica, descritos por Wesley, percebe-se que a m\u00fasica pode ser modificada de acordo com a compreens\u00e3o e o aparato antropol\u00f3gico do receptor. Temos a &#8220;Melodia&#8221; (do grego: melos = can\u00e7\u00e3o, ode), como &#8220;uma sucess\u00e3o de sons isolados e combinados em alturas e valores diferentes e que obedecem a um sentido l\u00f3gico musical (&#8230;)&#8221;; o &#8220;Per\u00edodo&#8221;, que &#8220;\u00e9 a sucess\u00e3o de frases diversas dando sentido completo ao trecho musical&#8221;; e a &#8220;Harmonia&#8221;, &#8220;a combina\u00e7\u00e3o das vozes que acompanham uma melodia principal&#8221;.<\/p>\n<p>Oliveira define bem como o nosso ouvido foi &#8220;educado&#8221; pra m\u00fasica que ouvimos: &#8220;como em toda investiga\u00e7\u00e3o de estruturas, a busca por elementos musicais constru\u00eddos e culturalmente significantes vai levar \u00e0s menores unidades classific\u00e1veis do sistema, que servem de refer\u00eancia para a percep\u00e7\u00e3o do todo, o &#8216;som organizado humanamente&#8217;. Dentro da cultura musical estes elementos menores estar\u00e3o ligados uns aos outros de maneira relativamente est\u00e1vel, estabelecendo assim a ordem musical vigente&#8221;.<\/p>\n<p>A\u00ed, chegamos ao ponto que quer\u00edamos chegar: a m\u00fasica torta.<\/p>\n<p>Oliveira fez um estudo interessante: &#8220;em uma an\u00e1lise feita de uma pe\u00e7a de berimbau tocada por um mestre de capoeira em Santo Amaro da Purifica\u00e7\u00e3o (BA), parti das menores unidades, aquelas que identificam o toque, para observar como se constr\u00f3i a unidade maior, a m\u00fasica, de forma organizada e predeterminada quanto \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e combina\u00e7\u00e3o entre si das partes menores. Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que aquilo que os m\u00fasicos chamam de &#8216;improviso&#8217; na verdade n\u00e3o tem nada de imprevisto, por obedecer \u00e0s regras de combina\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o entre as partes menores. Pode ocorrer, isso sim, um desenvolvimento inesperado, mas sempre dentro do previsto, determinado pela cultura musical do berimbau no Rec\u00f4ncavo Baiano. Entender esta pe\u00e7a musical, portanto, requer um conhecimento da m\u00fasica local como um todo. O grande mestre instrumentista e compositor \u00e9 aquele que imp\u00f5e sua vers\u00e3o pessoal, por\u00e9m sem ignorar o aspecto objetivo das regras musicais existentes (&#8230;) Quando se fala em ouvir e entender m\u00fasica, fala-se da &#8216;percep\u00e7\u00e3o&#8217; musical&#8221;.<\/p>\n<p>Outro estudo: &#8220;ao estudar as m\u00fasicas de p\u00edfanos e da pequena gaita dos grupos de caboclinhos de Pernambuco e da Para\u00edba em 1984 e 1985, verifiquei a const\u00e2ncia de um elemento de afina\u00e7\u00e3o destes instrumentos que t\u00eam na ter\u00e7a neutra um recurso b\u00e1sico, que transcende o puramente estil\u00edstico. A remo\u00e7\u00e3o das ter\u00e7as maior ou menor das melodias, e a inser\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s delas, da ter\u00e7a neutra, toma do repert\u00f3rio nordestino das flautas o jugo dos modos maior ou menor, sem os quais, lembre-se, n\u00e3o existiria a m\u00fasica do ocidente, baseada na tonalidade e harmonia funcional. Ora, o fazer m\u00fasica, que n\u00e3o esteja em uma tonalidade maior ou menor e a utiliza\u00e7\u00e3o de intervalos intermedi\u00e1rios, portanto n\u00e3o-temperados, \u00e9 assunto para festivais de m\u00fasica de vanguarda, atonal e de pouca aceita\u00e7\u00e3o do p\u00fablico de massa. No entanto, as bandas de p\u00edfanos do nordeste, os aboios, as trovas dos repentistas, as toadas de caboclinhos, os forr\u00f3s p\u00e9 de serra, todo este vasto repert\u00f3rio \u00e9 caracterizado pela ter\u00e7a neutra&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma s\u00e9rie de estudos que mostram que a m\u00fasica &#8211; ou o &#8220;perceber a m\u00fasica&#8221; &#8211; \u00e9 uma quest\u00e3o de &#8220;educa\u00e7\u00e3o&#8221; de repert\u00f3rio, uma quest\u00e3o de que tipo de som determinada sociedade e seus indiv\u00edduos est\u00e3o h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es ouvindo e se acostumando como &#8220;certo&#8221;, &#8220;afinado&#8221;, &#8220;aceit\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>A m\u00fasica africana, a de algumas tribos americanas (inclusive brasileiras), a oriental e outras fora do esp\u00f3lio geracional ocidental acabam se tornando estranhas aos ouvidos. Elas s\u00e3o fisicamente ineficientes pra compreens\u00e3o ocidental.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 curioso que um grande n\u00famero de m\u00fasicos, mesmo educado pelo Sistema Musical Ocidental, continue tentando desconstruir utilizando as ferramentas que conhecem, o pr\u00f3prio Sistema Musical Ocidental. O produto desses m\u00fasicos eu chamo de &#8220;m\u00fasica torta&#8221;. E \u00e9 mais interessante ainda perceber que h\u00e1 muitos brasileiros empenhados nessa desconstru\u00e7\u00e3o com o mesmo ferramental.<\/p>\n<p>\u00c9 o que chamo de M\u00fasica Torta Brasileira. Ou simplesmente, MTB.<\/p>\n<p>A MTB sempre existiu. Hermeto Pascoal presentou a cultura brasileira com discos excepcionais. Mas com a Internet, ela tem se proliferado com facilidade maior, j\u00e1 que encontrou um meio de ser difundida &#8211; o r\u00e1dio jamais daria ou deu espa\u00e7o a ela.<\/p>\n<p>Surgiram nomes como Chinese Cookie Poets, Sobre A M\u00e1quina (e todos os experimentos de Cadu Ten\u00f3rio: do Santa Rosa&#8217;s Family Tree ao extremo VICTIM!), Bem\u00f4nio, Farmacop\u00e9ia (e suas guitarras ruidosas), Gimu, I Buried Paul, Deus Nuvem e tantos outros que distorcem as frequ\u00eancias e fazem os &#8220;ponteiros de medi\u00e7\u00e3o tonal&#8221; sa\u00edrem do padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltamos, ent\u00e3o, ao in\u00edcio do texto. Sou um analfabeto em m\u00fasica, n\u00e3o entendo nada, meus ouvidos s\u00e3o descalibrados pra identificar qualquer nota, escala, frequ\u00eancia. N\u00e3o entendo de m\u00fasica, mas sou um inquieto com arte. M\u00fasica sendo arte (&#8220;m\u00fasica como cultura&#8221;, segundo Merriam), prefiro uma arte que me diga algo, que me tire do s\u00e9rio, do padr\u00e3o, do conforto. Gosto da m\u00fasica dentro do sistema a que fui educado, mas prefiro que meus ouvidos se incomodem, prefiro que os t\u00edmpanos sejam invadidos na rudeza, porque a mesmice quase nunca serve pra contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A arte que te tira do equil\u00edbrio \u00e9 aquela arte que te diz alguma coisa, que te marcou de alguma forma, que te modificou.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 brasileiros jovens experimentando pra fazer isso, palmas pra eles, \u00e9 preciso enaltec\u00ea-los, abrir os port\u00f5es da mente, dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, dos palcos e das escolas. N\u00e3o \u00e9 uma competi\u00e7\u00e3o: a m\u00fasica torta brasileira n\u00e3o precisa tomar o lugar da m\u00fasica popular brasileira. S\u00f3 deveria haver espa\u00e7o pras duas.<\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o (informa\u00e7\u00e3o) mostrar que existe alternativa, ver que o mundo tem outras vias &#8211; tortas, especificamente. De mesmice estamos bem servidos e agradecidos. Deixem a m\u00fasica torta brasileira ocupar seu espa\u00e7o.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca quis ser m\u00fasico. Ao contr\u00e1rio do que diz a m\u00e1xima, n\u00e3o escrevo sobre m\u00fasica porque sou um m\u00fasico frustrado. N\u00e3o me considero sequer um [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":29462,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1144,1130],"tags":[2194],"class_list":["post-28116","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especiais","category-pense-ou-dance","tag-pense-ou-dance"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/penseoudance24.jpg?fit=540%2C300","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-7ju","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28116"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28116\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29462"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}