{"id":28258,"date":"2012-09-24T13:49:12","date_gmt":"2012-09-24T16:49:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=28258"},"modified":"2016-12-08T22:39:44","modified_gmt":"2016-12-09T00:39:44","slug":"john-cage-a-anarquia-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/john-cage-a-anarquia-do-silencio\/","title":{"rendered":"JOHN CAGE: A ANARQUIA DO SIL\u00caNCIO"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"28265\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/john-cage-a-anarquia-do-silencio\/johncage1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"johncage1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage1.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-28265\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage1.jpg?resize=300%2C166 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Em 2009, uma exibi\u00e7\u00e3o sobre John Cage ocorreu no Museu d&#8217;Art Contemporani de Barcelona. A ideia da exibi\u00e7\u00e3o partiu de um princ\u00edpio interessante: uma sala de exibi\u00e7\u00e3o vazia, uma galeria completamente pelada, onde os visitantes teriam que se virar sem explica\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>&#8220;Os planos mudaram, e a sala vazia desapareceu, mas foi o que chamou minha aten\u00e7\u00e3o quando me pediram pra escrever o ensaio pra este cat\u00e1logo&#8221; (pra ser entregue na exibi\u00e7\u00e3o), escreveu <a href=\"http:\/\/www.rosewhitemusic.com\/cage\/texts\/WhatSilenceTaughtCage.html\" target=\"_blank\">James Pritchett<\/a>, m\u00fasico e especialista em John Cage, <a href=\"http:\/\/www.rosewhitemusic.com\/cage\/\" target=\"_blank\">com v\u00e1rios textos sobre o artista<\/a>. &#8220;Era uma ideia pouco usual pra uma exibi\u00e7\u00e3o num museu, uma vez que a proposta de visita ali \u00e9 ver coisas belas ou interessantes. Pessoas n\u00e3o v\u00e3o ao museu olhar paredes em branco, ou andar por galerias vazias. Sem o contexto correto, os visitantes poderiam achar apenas que tomaram o caminho errado&#8221;, completa.<\/p>\n<p>Mas o autor alerta: as pessoas que forem a uma exibi\u00e7\u00e3o sobre John Cage sabem do que se trata. &#8220;Ah, aquela m\u00fasica sobre o sil\u00eancio&#8221;, e podem se pegar sorrindo sobre a &#8220;pegadinha&#8221;.<\/p>\n<p>Isso porque, como Pritchett lembra, &#8220;4&#8217;33&#8243;&#8221; \u00e9 de longe a obra mais famosa de John Cage: &#8220;eu poderia dizer que todo mundo que conhece o nome Cage sabe que ele escreveu uma pe\u00e7a de m\u00fasica que consiste inteiramente de sil\u00eancio. \u00c9 uma pe\u00e7a que se tornou \u00edcone da cultura p\u00f3s-guerra, como as latas de sopa de Wharol (&#8230;); o trampolim pra milhares de an\u00e1lises e argumentos; evid\u00eancia da extremada e destrutiva <em>avant-guarde<\/em> que apareceu nos anos 1950 e 60&#8243;.<\/p>\n<p>A primeira performance aconteceu em 29 de agosto de 1952, em Woodstock, Nova Iorque.<\/p>\n<p>Imagine a cena. David Tudor, um pianista dos bons, vestido de gala, senta-se defronte ao seu piano. Al\u00e9m deles, no local, a plateia cheia de expectativas. Tudor, abre a tampa do piano e fica sentado ali, olhando pras teclas, durante trinta segundos. Ent\u00e3o, ele fecha a tampa. De pronto, ele a abre novamente, e novamente fica defronte ao instrumento, sem toc\u00e1-lo, sem emitir uma \u00fanica nota, por longos dois minutos e vinte e tr\u00eas segundos. Ele fecha o tampo do piano e o abre novamente, ato cont\u00ednuo, pra pela terceira vez ficar sentado ali sem nada fazer, agora por um minuto e quarenta segundos. Fim do terceiro e \u00faltimo ato, Tudor fecha a tampa, se levanta, curva-se diante da plateia, e se retira.<\/p>\n<p>Veja o pr\u00f3prio Tudor apresentando a obra j\u00e1 na d\u00e9cada de 1980:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/HypmW4Yd7SY\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A controv\u00e9rsia foi geral. De idiota a g\u00eanio, toda sorte de adjetivos foi vinculada \u00e0 pe\u00e7a e ao autor. &#8220;Eles n\u00e3o entenderam. N\u00e3o h\u00e1 nada como o sil\u00eancio. O que eles pensaram que era sil\u00eancio, porque eles n\u00e3o sabem como ouvir, era algo cheio de sons acidentais. Voc\u00ea poderia ouvir o vento l\u00e1 fora, durante o primeiro movimento. Durante o segundo, gostas de chuva come\u00e7aram a tocar o teto, e durante o terceiro, as pessoas mesmo fizeram todo tipo de sons interessantes, assim que come\u00e7aram a falar e a sair do local&#8221;, disse John Cage sobre a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 sua obra.<\/p>\n<p>Sobre &#8220;4&#8217;33&#8243;&#8221; propriamente, Cage disse: &#8220;originalmente, t\u00ednhamos em mente o que voc\u00ea poderia chamar de uma beleza imagin\u00e1ria, um processo de vazio b\u00e1sico com apenas algumas coisas que surgem dali&#8230; E ent\u00e3o, quando n\u00f3s realmente come\u00e7amos a trabalhar, uma esp\u00e9cie de avalanche veio, uma avalanche que n\u00e3o correspondia em nada com aquela beleza que parecia surgir pra n\u00f3s como um objetivo. Pra onde vamos, ent\u00e3o? Bem, o que temos de fazer \u00e9 ir em frente, sem d\u00favida, uma revela\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o tinha ideia de que isso ia acontecer. (&#8230;) As ideias s\u00e3o uma coisa e o que acontece \u00e9 outra coisa diferente&#8221;.<\/p>\n<p>O que ele criou, talvez sem saber exatamente, foi algo t\u00e3o an\u00e1rquico, que no livro &#8220;Noise\/Music: A History&#8221;, de 2007, Paul Hegarty diz que &#8220;4&#8217;33&#8243;&#8221; \u00e9 o embri\u00e3o do que chamamos hoje de <em>noise music<\/em>, por trabalhar com sons incidentais, justamente como Cage intencionava.<\/p>\n<p>Nas diversas vezes que Cadu Ten\u00f3rio fala sobre <em>noise<\/em>, na sua coluna <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/tag\/engrenagem\/\" target=\"_blank\">&#8220;Engrenagem&#8221;<\/a>, aqui no <strong>Floga-se<\/strong>, e nos seus projetos, como o <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/victim-this-is-what-you-love-young-man-and-it-isnt-beatiful\/\" target=\"_blank\">VICTIM!<\/a>, ele alerta pra import\u00e2ncia do sil\u00eancio: &#8220;os sil\u00eancios no disco s\u00e3o um conforto&#8221;.<\/p>\n<p>Embora sejam formas diferentes de trabalhar o sil\u00eancio, Cage, Ten\u00f3rio e a turma toda do <em>noise<\/em>, sabem da sua import\u00e2ncia. A plateia \u00e9 que parece n\u00e3o ter entendido.<\/p>\n<p>No caso de Cage, como diz Pritchett, &#8220;parte do que comp\u00f5e o drama est\u00e1 na extrema simplicidade do conceito. O compositor n\u00e3o criou nada. O m\u00fasico sobe ao palco e n\u00e3o faz nada. A plateia testemunha esse ato b\u00e1sico, o ato de sentar-se e se manter quieto. (&#8230;) A pe\u00e7a pode ser dif\u00edcil pra plateia. Sentar-se quieta e calada por qualquer tempo n\u00e3o \u00e9 algo que as pessoas est\u00e3o acostumadas na cultura ocidental, muito menos numa sala de concertos. A tens\u00e3o ir\u00e1 surgir, \u00e9 natural. Confrontados com o sil\u00eancio, num ambiente que n\u00e3o podemos controlar, onde n\u00e3o esperamos esse tipo de evento, pode-se ter uma sem n\u00famero de respostas (&#8230;)&#8221;.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"28266\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/john-cage-a-anarquia-do-silencio\/johncage-433-1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"johncage-433-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-1.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-28266\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-1.jpg?resize=300%2C166 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que no in\u00edcio de sua carreira como compositor, Cage era a ant\u00edtese do sil\u00eancio. Sua obra, no per\u00edodo de 1937 a 1942, era bastante centrada no <em>noise<\/em>. Ou, como aponta Pritchett, &#8220;tomando sua inspira\u00e7\u00e3o de Luigi Russolo e os Futuristas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Cage abra\u00e7ou entusiasticamente a utiliza\u00e7\u00e3o de instrumentos de percuss\u00e3o como forma de expandir sua m\u00fasica pra incluir sons que mais precisamente refletem a natureza da cultura industrial&#8221;. E o pr\u00f3prio Cage falou sobre o assunto no seu ensaio de 1937, &#8220;The Future Of Music: Credo&#8221;: &#8220;onde quer que estejamos, o que ouvimos \u00e9 ru\u00eddo. Quando ignoramos, ela nos perturba. Quando ouvimos, achamos fascinante&#8221;.<\/p>\n<p>Esse ensaio trata sobre muitos dos temas que fariam de Cage uma figura conhecida: os sons s\u00e3o apenas sons; um compositor atua como um experimentador, descobrindo novas possibilidades sonoras; \u00e9 importante o uso das novas tecnologias do s\u00e9culo XX (veja, era 1937!) pra m\u00fasica contempor\u00e2nea&#8230; A \u00fanica coisa que falta nesse ensaio, por\u00e9m, \u00e9 identificar o sil\u00eancio como parte da equa\u00e7\u00e3o. Pritchett at\u00e9 brinca com isso: &#8220;no ensaio, a palavra &#8216;som&#8217; aparece 26 vezes, e as palavras &#8216;tom&#8217; e &#8216;ru\u00eddo&#8217; muitos mais. A palavra &#8216;sil\u00eancio&#8217;, nenhuma vez&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O que aparece aqui \u00e9 a discuss\u00e3o da estrutura musical baseada no tempo: &#8216;o compositor dever\u00e1 encarar n\u00e3o s\u00f3 o campo do som, mas tamb\u00e9m o campo do tempo; a fra\u00e7\u00e3o de segundo&#8230; Provavelmente ser\u00e1 a unidade b\u00e1sica de medida do tempo&#8221;. Nos anos 1930, ele estruturava todas as suas composi\u00e7\u00f5es baseado no tempo, na dura\u00e7\u00e3o de cada som.<\/p>\n<p>&#8220;Sua devo\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica de percuss\u00e3o tamb\u00e9m contribuiu pra sua utiliza\u00e7\u00e3o de &#8216;estruturas de dura\u00e7\u00e3o&#8217;, uma vez que as estruturas baseadas na harmonia ou melodia n\u00e3o estavam dispon\u00edveis pra ele. Embora ele n\u00e3o tinha conhecimento de que, no momento, esta confian\u00e7a no tempo, como a base pra a estrutura musical, foi um dos fatores que o preparariam pro seu encontro mais tarde com o sil\u00eancio&#8221;, observa Pritchett.<\/p>\n<p>Mas a transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi suave. John Cage tinha planos maiores, de musicar e experimentar pra r\u00e1dio e se viu, de repente, numa pendenga entre empregadores e n\u00e3o conseguiu levantar dinheiro pra sua orquestra. Teve que come\u00e7ar de novo, mas n\u00e3o sem experimentar: foi tocando um piano modificado (com objetos entre o cordeamento, pra alterar o som) que ele tateou primeiramente o terreno nova iorquino, seu objetivo no come\u00e7o da pendenga.<\/p>\n<p>Foi nesse per\u00edodo que ele conheceu Gita Sarabhai, uma indiana que mostrou a forma como o oriente enxergava a m\u00fasica: &#8220;o prop\u00f3sito da m\u00fasica \u00e9 tranquilizar e limpar a mente, deixando-a suscet\u00edvel \u00e0s influ\u00eancias divinas&#8221;. Isso se tornou um mantra pra sua obra. Mas foi s\u00f3 a partir de 1948 que ele usaria a palavra &#8220;sil\u00eancio&#8221; em suas obras &#8211; e numa palestra, ele afirmou pela primeira vez que o sil\u00eancio e os sons podem coexistir numa obra.<\/p>\n<p>E juntou com a velha m\u00e1xima da dura\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o: &#8220;das quatro caracter\u00edsticas materiais da m\u00fasica, a dura\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o comprimento de tempo, \u00e9 a mais fundamental. O sil\u00eancio n\u00e3o pode ser ouvido em termos de afina\u00e7\u00e3o ou harmonia: ele \u00e9 ouvido em termos de dura\u00e7\u00e3o de tempo&#8221;.<\/p>\n<p>Esse conceito \u00e9 primordial. Ele percebe agora que o sil\u00eancio <em>faz parte<\/em> do processo, independente ainda da rea\u00e7\u00e3o que vai causar no p\u00fablico. Mais importante: ele sempre usou o sil\u00eancio como ferramenta de composi\u00e7\u00e3o, sem se dar conta disso.<\/p>\n<p>Trabalhando em blocos de tempo, Cage admitiu: &#8220;o espa\u00e7o de tempo \u00e9 organizado. N\u00f3s n\u00e3o precisamos temer esses sil\u00eancios, podemos am\u00e1-los. Esta \u00e9 um di\u00e1logo (&#8230;). \u00c9 como um copo de leite. Precisamos do copo e precisamos do leite (&#8230;)&#8221;.<\/p>\n<p>Em resumo, pensando dessa forma, Cage finalmente percebeu que poderia jogar com o tempo, fazer com ele o que quisesse: &#8220;posso n\u00e3o dizer nada e far\u00e1 pouca diferen\u00e7a o que eu digo e como eu digo&#8221;. Era uma nova percep\u00e7\u00e3o de estrutura, porque agora ela \u00e9 constru\u00edda baseando-se no sil\u00eancio, mas, &#8220;al\u00e9m disso, a estrutura de tempo vazio n\u00e3o requer qualquer continuidade particular, sintaxe, encomenda, ou o sentido de progress\u00e3o dos sons dentro dela. Uma composi\u00e7\u00e3o estruturada como per\u00edodos de tempo n\u00e3o depende dos pr\u00f3prios sons pra criar a estrutura: ela existe com ou sem eles (&#8230;)&#8221;, diz Pritchett. Ou seja, as possibilidades se tornam ilimitadas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"28267\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/john-cage-a-anarquia-do-silencio\/johncage-433-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-2.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"johncage-433-2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-2.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-2.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-28267\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-2.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/johncage-433-2.jpg?resize=300%2C166 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>A partir da\u00ed, Cage se viu na sua fase mais prol\u00edfica. Foi inspirando-se no virtuosismo de David Tudor que Cage criou uma enorme variedade de composi\u00e7\u00f5es e eventos musicais pra piano, sempre baseado na estrutura do tempo em sil\u00eancio, embora repleta de sons fortes, barulhentos, ruidosos, en\u00e9rgicos. Mas \u00e9 no sil\u00eancio justaposto que est\u00e1 o ritmo impregnado nas obras.<\/p>\n<p>Eis que ele se viu diante da quest\u00e3o: como a plateia se comportaria diante de uma pe\u00e7a muda? Ele realmente pensou que as pessoas iriam perceber esses sons todos que est\u00e3o constantemente no espa\u00e7o. O &#8220;som do sil\u00eancio&#8221;: &#8220;h\u00e1 toda esp\u00e9cie de sons fluindo no espa\u00e7o, que a gente nunca se deu conta&#8221;, disse.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que pensando assim, Cage admite que o sil\u00eancio propriamente dito nem mesmo existiria. E mais do que isso, ele percebe o sil\u00eancio como compositor, n\u00e3o como um ouvinte, o que certamente pode se tornar um problema.<\/p>\n<p>Justamente o problema encarado por &#8220;4&#8217;33&#8243;&#8221;, que \u00e9 o resultado m\u00e1ximo da experi\u00eancia com o sil\u00eancio na m\u00fasica.<\/p>\n<p>Na verdade, &#8220;4&#8217;33&#8243;&#8221;, por s\u00f3 funcionar dentro do contexto de uma audi\u00eancia pr\u00e9-determinada, agendada, com a plateia tendo pra si a informa\u00e7\u00e3o do que vai &#8220;escutar&#8221;, \u00e9 que esse &#8220;problema&#8221; pode ser dirimido. Fora desse contexto, a obra n\u00e3o vale nada. N\u00e3o \u00e9 &#8220;aus\u00eancia de sons, de acordes, de m\u00fasica&#8221;, \u00e9 s\u00f3 um sil\u00eancio disforme.<\/p>\n<p>John Cage fez quest\u00e3o de nunca explicar muita coisa sobre a obra, muito menos sua motiva\u00e7\u00e3o pra escrev\u00ea-la. Mas o hist\u00f3rico de sua carreira d\u00e1 boas pistas, como vimos.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, com o sucesso e o impacto da obra (uma das mais conhecidas da m\u00fasica), Cage passou a reneg\u00e1-la a um canto da sua hist\u00f3ria, como se isso fosse poss\u00edvel, chegando a se recusar a dar entrevistas sobre ela.<\/p>\n<p>Pritchett diz como devemos apreciar a obra: &#8220;a pe\u00e7a pode ser mais \u00fatil vista como um tributo \u00e0 experi\u00eancia do sil\u00eancio, uma lembran\u00e7a de sua exist\u00eancia e de sua import\u00e2ncia pra todos n\u00f3s; mas ela \u00e9 falha na medida em que pode sugerir que o sil\u00eancio \u00e9 algo que pode ser apresentado a n\u00f3s por outra pessoa; essa n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia que possa ser comunicada de uma pessoa pra outra&#8221;.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 uma obra que nos lembra constantemente que o sil\u00eancio est\u00e1 a\u00ed, ele existe de uma maneira a significar &#8220;aus\u00eancia de sons que se pretende ouvir&#8221;; porque nem mesmo a sua exist\u00eancia de fato pode ser comprovada. Sendo assim, &#8220;4&#8217;33&#8243;&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma obra silenciosa, \u00e9 sobre como o sil\u00eancio pode ser percebido musicalmente. Basta abrir a mente e deixar entrar aqueles sons impercept\u00edveis da vida.<\/p>\n<p>Veja a BBC Symphony Orchestra executando &#8220;4&#8217;33&#8243;&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/qWuNVByFVTY\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/john-cage-433-vira-aplicativo-de-celular\/\" title=\"JOHN CAGE: 4&#8217;33&#8221; VIRA APLICATIVO DE CELULAR\">JOHN CAGE: 4&#8217;33&#8221; VIRA APLICATIVO DE CELULAR<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/cage-against-the-machine-john-cage-pra-numero-1-no-natal\/\" title=\"CAGE AGAINST THE MACHINE &#8211; JOHN CAGE PRA N\u00daMERO 1 NO NATAL\">CAGE AGAINST THE MACHINE &#8211; JOHN CAGE PRA N\u00daMERO 1 NO NATAL<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2009, uma exibi\u00e7\u00e3o sobre John Cage ocorreu no Museu d&#8217;Art Contemporani de Barcelona. 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