{"id":30329,"date":"2013-01-28T14:09:27","date_gmt":"2013-01-28T16:09:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=30329"},"modified":"2014-01-27T09:49:22","modified_gmt":"2014-01-27T11:49:22","slug":"pense-ou-dance-tragedias-e-tragedias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-tragedias-e-tragedias\/","title":{"rendered":"PENSE OU DANCE: TRAG\u00c9DIAS E TRAG\u00c9DIAS!"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"30330\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-tragedias-e-tragedias\/penseoudance27\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/penseoudance27.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"penseoudance27\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/penseoudance27.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/penseoudance27.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-30330\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/penseoudance27.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/penseoudance27.jpg?resize=300%2C166 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil ficar calado diante do que aconteceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. Mais de duzentas pessoas morreram numa boate, uma trag\u00e9dia aterradora.<\/p>\n<p>O inc\u00eandio, por\u00e9m, exp\u00f5e uma crueldade maior dos nossos tempos: a assimila\u00e7\u00e3o de certas trag\u00e9dias distantes e constantes, diante de outras que batem \u00e0 nossa porta.<\/p>\n<p>Em Santa Maria morreu gente demais &#8211; e de uma vez s\u00f3. Eram jovens, &#8220;com uma vida toda pela frente&#8221;, como se diz por a\u00ed. Eram na maioria universit\u00e1rios, que faz as pessoas acharem que eram todos &#8220;bem de vida&#8221;. Eram &#8220;bonitos&#8221;. Eram &#8220;do sul&#8221;, como se leu nas redes sociais, elevando o n\u00edvel do preconceito.<\/p>\n<p>Foi um evento brutal, desesperador, mas n\u00e3o s\u00f3 pelo enumerado no par\u00e1grafo acima. O horror se d\u00e1 quando vemos uma trag\u00e9dia, um assassinato em massa desses, acontecer t\u00e3o perto. \u00c9 a trag\u00e9dia tang\u00edvel pelas classes de maior alcance de consumo.<\/p>\n<p>S\u00e3o pais, amigos, professores, namorados que v\u00eaem o terror acontecendo ali na sua casa, com os seus, nas suas vidas. Essa tangibilidade e proximidade aumentam o espanto, a dor, a inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas as trag\u00e9dias sempre estiveram a\u00ed, acontecem ao nosso redor, perifericamente \u00e0s vidas de quem tem maior poder aquisitivo. Eis um dos terrores dos nossos tempos: essas outras trag\u00e9dias chocam, mas com uma for\u00e7a cada vez menor.<\/p>\n<p>Veja o caso das enchentes de ver\u00e3o. \u00c9 terr\u00edvel a dor daquelas pessoas que perdem tudo, dos familiares \u00e0s roupas e documentos.<\/p>\n<p>Acontece todo ano. Os jornais de dezembro, janeiro e fevereiro inundam nossos olhos com tais vidas destru\u00eddas. Nos solidarizamos, entristecemos, entretanto esse sentimento diminui de intensidade ano ap\u00f3s ano, porque est\u00e1 parecendo banal, corriqueiro. Fazemos doa\u00e7\u00e3o aos flagelados e, em muitos caso, choramos nossos impostos desviados e mal gastos pelos governos. Mas a l\u00e1grima n\u00e3o vem.<\/p>\n<p>Os governos&#8230; Eles s\u00e3o os culpados por trag\u00e9dias como as das chuvas. N\u00e3o h\u00e1 algu\u00e9m em quem tacar pedras, cuspir e trancar na pris\u00e3o. Como, salvo exce\u00e7\u00f5es (milhares s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es em duas centenas de milh\u00f5es de brasileiros), ningu\u00e9m fica visitando morros, \u00e1reas de risco e moradias impr\u00f3prias com a frequ\u00eancia que vai a um bar e uma boate, Santa Maria parece bem mais pr\u00f3xima e chocante.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de classes. Em Angra Dos Reis, em 2010, <a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/130110\/tragico-absurdo-previsivel-p-054.shtml\" target=\"_blank\">pessoas com contas banc\u00e1rias recheadas perderam suas vidas por conta da chuva<\/a>. Pode acontecer com ricos, pobres, brancos, pretos, ateus, religiosos e at\u00e9 pol\u00edticos. A quest\u00e3o \u00e9 como assimilamos essas trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>A de Santa Maria, com o frescor na mem\u00f3ria, \u00e9 t\u00e3o est\u00fapida e t\u00e3o pr\u00f3xima de n\u00f3s, principalmente amantes da m\u00fasica e do universo pop, que poderia ter acontecido em qualquer boate do Rio de Janeiro ou S\u00e3o Paulo ou Beag\u00e1 ou Bras\u00edlia, cidades com boa concentra\u00e7\u00e3o de casas de espet\u00e1culos, mas com qualidade de estrutura sabe-se l\u00e1 de que porte.<\/p>\n<p>Imagine uma pane el\u00e9trica numa daquelas casas &#8220;indie&#8221; da Rua Augusta. Duas bem famosas s\u00e3o verdadeiras caixas explosivas, com uma sa\u00edda vis\u00edvel. Na hora do desespero, sem conhecimento das rotas de fuga (se \u00e9 que h\u00e1 mais de uma), tal trag\u00e9dia poderia se repetir.<\/p>\n<p>Por conta da burocracia inflada e do jeito sempre esp\u00fario do brasileiro resolver seus problemas, bem descritos <a href=\"http:\/\/andrebarcinski.blogfolha.uol.com.br\/2013\/01\/27\/burocracia-e-corrupcao-tambem-causam-tragedias\/\" target=\"_blank\">aqui pelo Barcinski<\/a>, e <a href=\"http:\/\/blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br\/2013\/01\/28\/um-alvara-nao-torna-uma-casa-noturna-segura-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\">aqui pelo Sakamoto<\/a>, \u00e9 plaus\u00edvel questionar toda e qualquer casa com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua seguran\u00e7a. Mas adianta?<\/p>\n<p>Talvez, como em toda \u00e1rea de influ\u00eancia do Estado, adiante. Reclamando, se mobilizando&#8230; Mas, sim, isso d\u00e1 um trabalho danado, e a maioria n\u00e3o sabe nem por onde come\u00e7ar &#8211; talvez por saber que n\u00e3o ser\u00e1 ouvida, j\u00e1 que o Estado tem por hist\u00f3rico no Brasil se colocar acima do povo e n\u00e3o dar ouvidos. Nos acostumamos a ser assim.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m aposta que isso aconte\u00e7a, mas esse assassinato em massa ga\u00facho poderia servir de inspira\u00e7\u00e3o aos governos pra mudar seus padr\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o, facilitando (e barateando) a entrega de alvar\u00e1s e trabalhando junto com os empres\u00e1rios na qualifica\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a dos locais. Desburocratizar \u00e9 facilitar e traduz-se em economia pra empres\u00e1rios e governos.<\/p>\n<p>E muitos dizem que se um idiota n\u00e3o resolvesse fazer show com pirotecnia num local fechado, nada disso teria acontecido. \u00c9 dif\u00edcil discordar de tal afirma\u00e7\u00e3o. Mas um curto-circuito tamb\u00e9m poderia produzir o mesmo efeito. \u00c9 assassinato da mesma forma, se a casa, como de praxe, mant\u00e9m uma rota de evacua\u00e7\u00e3o apenas (e dificultada, pra que ningu\u00e9m saia sem pagar), superlota seu espa\u00e7o, n\u00e3o treina sua equipe, n\u00e3o faz manuten\u00e7\u00e3o na rede el\u00e9trica, e eventualmente consegue suas licen\u00e7as \u00e0 base de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que esse assassinato em massa ocorrido em Santa Maria sirva de exemplo e fa\u00e7a os governos se mexerem em prol da desburocratiza\u00e7\u00e3o, da n\u00e3o-corrup\u00e7\u00e3o e da fiscaliza\u00e7\u00e3o efetiva. Sobre as leis existentes os especialistas dizem que s\u00e3o \u00f3timas, s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o cumpridas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m quer imaginar um quadro em que boates pegando fogo e centenas de pessoas morrendo se torne banal, como tem ocorrido com as chuvas, as chacinas nas periferias das grandes cidades e os tiroteios nas escolas estadunidenses, por exemplo.<\/p>\n<p>A\u00ed, vale lembrar Nelson Rodrigues alfinetando aqueles que ele chamava de &#8220;idiotas da objetividade&#8221;, que tinham banido os pontos de exclama\u00e7\u00e3o das manchetes dos jornais (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/platb\/geneton\/2009\/09\/04\/recem-nascidos-enforcados-em-fraldas-povoam-a-peca-que-nelson-rodrigues-prometeu-mas-nao-escreveu-na-semana-do-sequestro-do-embaixador-americano\/\" target=\"_blank\">Geneton Moraes Neto tem um causo bacana sobre isso<\/a>, que l\u00e1 pelas tantas diz sobre os jornais, usando Jorge Luis Borges: &#8220;tudo vira miudeza, tudo \u00e9 ef\u00eamero \u2013 mas, no fim das contas, pelo menos uma lembran\u00e7a remota dos fatos se salva, na superf\u00edcie plana, fr\u00e1gil e retangular destes museus de papel \u2013 os velhos jornais armazenados em bibliotecas&#8221;).<\/p>\n<p>Porque toda morte merece l\u00e1grimas, um hist\u00f3rico, um legado, um motivo. E pontos de exclama\u00e7\u00e3o como os deste texto.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil ficar calado diante do que aconteceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. 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