{"id":39256,"date":"2014-09-03T00:44:51","date_gmt":"2014-09-03T03:44:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=39256"},"modified":"2014-09-22T14:25:17","modified_gmt":"2014-09-22T17:25:17","slug":"pense-ou-dance-a-musica-que-e-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-musica-que-e-brasileira\/","title":{"rendered":"PENSE OU DANCE: A M\u00daSICA QUE \u00c9 BRASILEIRA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"39257\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-musica-que-e-brasileira\/penseoudance51\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/penseoudance51.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"penseoudance51\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/penseoudance51.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/penseoudance51.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-39257\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/penseoudance51.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/penseoudance51.jpg?resize=300%2C166 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Pra ser considerada &#8220;m\u00fasica brasileira&#8221; ela precisa ter sido criada e executada por brasileiros? Ela precisa ser cantada em portugu\u00eas? Ela precisa ter elementos regionais, instrumentos locais ou ser cem por cento baseada em ritmos locais? Ela precisa falar dos problemas brasileiros?<\/p>\n<p>Como \u00e9 essa entidade chamada m\u00fasica brasileira?<\/p>\n<p>\u00c9 certo que pensadores e historiadores t\u00eam boas respostas pra essa quest\u00e3o, mas cabe perguntar ainda assim, ao ritmo do novo s\u00e9culo e da incrustada globaliza\u00e7\u00e3o, como de fato identificamos hoje uma m\u00fasica como &#8220;brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que esse entendimento passa por uma das perguntas do primeiro par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>Por exemplo, diz-se que o choro foi o primeiro ritmo tipicamente urbano \u00e0 brasileira. Os grupos eram formados por flauta, viol\u00e3o e cavaquinho. Eram uma express\u00e3o carioca do fim do s\u00e9culo XIX, mas os instrumentos n\u00e3o s\u00e3o tipicamente brasileiros. A flauta tem origem alem\u00e3; o cavaquinho, portuguesa. Por\u00e9m, ningu\u00e9m questiona que o choro \u00e9 &#8220;m\u00fasica brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>Paralelamente, qualquer banda que ouse cantar em ingl\u00eas hoje e toque <em>post-rock<\/em>, <em>punk<\/em>, <em>hardcore<\/em>, p\u00f3s-punk, ou o que for, mesmo que os integrantes tenham nascido no Cariri, no Jequitinhonha ou no Pantanal, pode ter questionada sua brasilidade. <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/50-discos-brasileiros-de-2014-pra-ouvir-de-graca\/\" target=\"_blank\">Veja essa lista, por exemplo: cinquenta bandas vindas de muitas cidades brasileiras&#8230;<\/a> H\u00e1 quem duvide de que elas fazem &#8220;m\u00fasica brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>Acontece que n\u00e3o h\u00e1 m\u00fasica feita no Brasil que n\u00e3o tenha atributos africanos e europeus. A cultura colonizadora se vale at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>Mas essa n\u00e3o me parece ser a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema pode estar na no\u00e7\u00e3o que o patriotismo nos oferece de entendimento do mundo e dos valores. M\u00fasica \u00e9 m\u00fasica. Ela deveria ser universal, sem fronteiras pra compreens\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o, mas o tempo, a hist\u00f3ria e a tradi\u00e7\u00e3o nos deram a entender que dev\u00edamos fortalecer tra\u00e7os culturais pra chamarmos s\u00f3 de nossos e da\u00ed, entre outras coisas, identificamos o samba, o forr\u00f3, o ax\u00e9 etc. como &#8220;m\u00fasicas nossas&#8221;, genuinamente brasileiras.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/papodehomem.com.br\/prisao-patriotismo-2\/\" target=\"_blank\">Vale ler esse texto (longo, aviso) sobre o patriotismo<\/a>: &#8220;\u00e9 deliciosa a sensa\u00e7\u00e3o de irmandade que nos acolhe quando estamos em nossa terra, cercadas de iguais, praticando nossos costumes, ouvindo nossa l\u00edngua, nosso sotaque. \u00c9 reconfortante fazermos parte de um estado-na\u00e7\u00e3o que nos reconhece como pessoas cidad\u00e3s, que garante nossos direitos humanos fundamentais, que nos fornece um passaporte aceito por outras na\u00e7\u00f5es. Infelizmente, essa nossa sensa\u00e7\u00e3o de comunidade, que n\u00e3o \u00e9 menos real, concreta e verdadeira por ter sido imaginada, fabricada, constru\u00edda, muitas vezes nos leva a odiar ou desprezar as outras pessoas que n\u00e3o nasceram no nosso ch\u00e3o, que t\u00eam outros costumes, outras l\u00ednguas, outros sotaques. Ent\u00e3o, se amamos exaltadamente essas abstra\u00e7\u00f5es pol\u00edticas imagin\u00e1rias, com seus simbolozinhos e musiquinhas; se nos dispomos a matar e morrer por elas; se engolimos acriticamente o discurso nacionalista-excludente do &#8216;ame-o ou deixe-o&#8217;, ent\u00e3o, sim, o patriotismo pode ser uma pris\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Essa pris\u00e3o cultural acaba criando algumas aberra\u00e7\u00f5es, como a famosa hist\u00f3ria da <a href=\"http:\/\/anos60.wordpress.com\/2012\/04\/02\/a-famigerada-passeata-contra-a-guitarra-eletrica\/\" target=\"_blank\">&#8220;passeata contra a guitarra el\u00e9trica&#8221;, em 1967<\/a>, da qual at\u00e9 Gilberto Gil participou. Ou a incr\u00edvel avers\u00e3o \u00e0s bandas que cantavam em ingl\u00eas no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1990, como Pin Ups, brincando de deus, Wry etc.<\/p>\n<p>A feliz jun\u00e7\u00e3o de batuque com guitarra (que Jorge Ben j\u00e1 havia feito, por exemplo) que os anos 1990 viram em Chico Science; a uni\u00e3o de Ramones com &#8220;nordestinias&#8221; que o Raimundos aplicou, ajudaram a fortalecer essa avers\u00e3o: n\u00e3o precis\u00e1vamos babar ovo pro que aqueles ingleses panacas estavam fazendo.<\/p>\n<p>Entretanto, veja, o Pin Ups fazia m\u00fasica brasileira? E o Cansei De Ser Sexy? E o Sepultura?<\/p>\n<p>Por outra, vale perguntar: pro ga\u00facho, o que o carimb\u00f3 paraense tem pra chamar de seu, a n\u00e3o ser a imposi\u00e7\u00e3o do nacionalismo de que somos todos ligados pela generaliza\u00e7\u00e3o de nos identificarem como &#8220;brasileiros&#8221;? N\u00e3o seria o carimb\u00f3 um ritmo t\u00e3o estranho (estrangeiro) quanto o p\u00f3s-punk ingl\u00eas ou o industrial alem\u00e3o? N\u00e3o seria a chula baiana t\u00e3o sem sentido em identifica\u00e7\u00e3o nacional pro acriano quanto um <em>death metal<\/em> noruegu\u00eas? Apesar disso, de acordo com o entendimento atual, se um brasileiro fizer m\u00fasica pop inserindo elementos de chula ou carimb\u00f3 estar\u00e1 mais perto de fazer &#8220;m\u00fasica brasileira&#8221; do que um bando de moleques do interior de Rond\u00f4nia fazendo <em>trash metal<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou patriota. Minha no\u00e7\u00e3o de &#8220;meu ch\u00e3o&#8221; se atribui a lugares por onde morei e finquei algumas ra\u00edzes, fiz amigos, criei hist\u00f3rias. N\u00e3o me sinto pr\u00f3ximo a um catarinense tanto quanto n\u00e3o me sinto pr\u00f3ximo de um maranhense ou de um carioca em termos de nacionalidade. Minha na\u00e7\u00e3o \u00e9 minha casa, minha rua, meu bairro. \u00c9 onde vivi a vida. \u00c9 ali que est\u00e1 &#8220;meu ch\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Esse sentimento patri\u00f3tico que une pessoas, determinado por leis e tradi\u00e7\u00f5es e transformado for\u00e7osamente em sentimento, pode at\u00e9 servir (e fazer sentido) como agregador pra quest\u00f5es mais importantes, como a preserva\u00e7\u00e3o de oportunidades de vida iguais a todos aqueles que fazem parte daquele determinado povo. Ou seja, o que se produz no Brasil aos brasileiros deve retornar de forma igualit\u00e1ria. Pra isso, talvez sirva vestir-se de patriotismo e lutar por tal ideal.<\/p>\n<p>Pra m\u00fasica, n\u00e3o. Ela \u00e9 universal. Umas est\u00e3o mais pr\u00f3ximas ao &#8220;ch\u00e3o de cada um&#8221;, outras n\u00e3o. \u00c9 certo que o que determinamos normalmente como &#8220;m\u00fasica brasileira&#8221; \u00e9 algo de espectro riqu\u00edssimo. \u00c9 uma hist\u00f3ria que come\u00e7a com os \u00edndios se encontrando com os colonizadores &#8211; o cateret\u00ea e o cantoch\u00e3o. Passa pela for\u00e7a dos africanos escravizados, com o lundu, a umbigada, por exemplo. Chega \u00e0 mistura estrangeira (europeia e de pa\u00edses vizinhos), com valsas, polcas, tangos e afins. Da\u00ed, \u00e0 abrasileira\u00e7\u00e3o, com o choro, o maxixe, o samba.<\/p>\n<p>A m\u00fasica, pois, n\u00e3o tem fronteiras. Ela pode ser identificada como de &#8220;algum lugar&#8221;, por\u00e9m como um leque mais amplo cultural; n\u00e3o s\u00f3 com sons, mas com costumes, dan\u00e7as, vestes, sotaques, pinturas.<\/p>\n<p>Essa &#8220;m\u00fasica brasileira&#8221; \u00e9 uma esp\u00e9cie de imposi\u00e7\u00e3o secular e geracional. Tornou-se cultural da mesma forma. Mas ela n\u00e3o tem uma forma \u00fanica. Ela fala de v\u00e1rias misturas e ritmos. Mesmo que seja estranho um grupo de pagode russo, ou uma embolada tailandesa, ou alguns neozelandeses dan\u00e7ando o jongo, ainda assim isso n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel pelo simples fato de serem dan\u00e7as e ritmos tidos como &#8220;brasileiros&#8221;.<\/p>\n<p>Todos podem tocar a m\u00fasica que lhes fa\u00e7am criar a hist\u00f3ria de seu pr\u00f3prio ch\u00e3o.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pra ser considerada &#8220;m\u00fasica brasileira&#8221; ela precisa ter sido criada e executada por brasileiros? Ela precisa ser cantada em portugu\u00eas? Ela precisa ter elementos regionais, [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":39257,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1144,1130],"tags":[2194],"class_list":["post-39256","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especiais","category-pense-ou-dance","tag-pense-ou-dance"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/penseoudance51.jpg?fit=540%2C300","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-ada","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39256","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39256"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39256\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39257"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}