{"id":42349,"date":"2015-06-11T16:42:29","date_gmt":"2015-06-11T19:42:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=42349"},"modified":"2018-04-13T14:39:59","modified_gmt":"2018-04-13T17:39:59","slug":"ornette-coleman-o-jazz-e-a-musica-livres","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ornette-coleman-o-jazz-e-a-musica-livres\/","title":{"rendered":"ORNETTE COLEMAN, O JAZZ E A M\u00daSICA LIVRES"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"42350\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ornette-coleman-o-jazz-e-a-musica-livres\/ornettecoleman1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ornettecoleman1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"ornettecoleman1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ornettecoleman1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ornettecoleman1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-42350\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ornettecoleman1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/ornettecoleman1.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Sempre me disseram que Ornette Coleman era genitor do <em>free jazz<\/em> por n\u00e3o ter educa\u00e7\u00e3o musical formal. Mas n\u00e3o lembro de ter lido isso em algum lugar de fato. Foram, talvez, amigos do meu pai em conversas animadas por u\u00edsque barato (naquela \u00e9poca, arrumar u\u00edsque bom era bem dif\u00edcil e custoso, coisa de altas rodas apenas). Afinal, educa\u00e7\u00e3o formal \u00e9 necess\u00e1ria pra todos os fins?<\/p>\n<p>Bom, se a discuss\u00e3o n\u00e3o levar em conta que existe o talento&#8230; sim.<\/p>\n<p>Coleman de fato n\u00e3o teve educa\u00e7\u00e3o formal. Pra nada. Muito pobre, nasceu no interior do Texas, Esteites, em 9 de mar\u00e7o de 1930, e perdeu o pai muito cedo, quando Ornette tinha sete anos. Sua m\u00e3e at\u00e9 tentou educ\u00e1-lo com a firmeza que um pai parecia ser obrigado a ter. Ela era costureira e bastante disciplinadora, for\u00e7ando os estudos do garoto. Mas n\u00e3o tinha jeito. Coleman se mostrou rebelde, contestador desde cedo.<\/p>\n<p>Ele gazeteava a escola e sumia por semanas. Quando sua m\u00e3e descobria, sentava o couro no moleque. Assim foi por anos, pela adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Coleman, por outro lado, tinha certeza do que queria, desde que viu uma banda tocando em sua escola: ser m\u00fasico &#8211; sem ser dar conta, claro, do qu\u00e3o importante s\u00e3o os estudos pra quem quer levar a profiss\u00e3o a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Mas o menino que n\u00e3o tinha estudo, nem queria estudar, tinha talento. Um baita talento. Faltava um instrumento que despertasse tal virtude.<\/p>\n<p>Ele contou em v\u00e1rias entrevistas como conseguiu seu primeiro saxofone: foi engraxando sapatos por &#8220;tr\u00eas ou quatro anos&#8221;.<\/p>\n<p>Como a m\u00e3e n\u00e3o tinha grana pra aulas de sax, Coleman aprendeu sozinho o instrumento, s\u00f3 de ouvir as m\u00fasicas do r\u00e1dio.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que ele mesmo aponta seu autodidatismo como a pe\u00e7a-chave pra que pudesse, logo a frente, ser um dos expoentes do jazz experimental e livre: &#8220;eu podia tocar e soar como Charlie Parker, nota a nota, mas era s\u00f3 pelo aprendizado, porque a partir da\u00ed eu tentava descobrir pra onde podia ir&#8221;. Era exatamente a base da teoria dos amigos do meu pai.<\/p>\n<p>E resumia sua l\u00f3gica: &#8220;eu nunca soube que era preciso saber m\u00fasica pra tocar, eu achava que todo mundo s\u00f3 ia l\u00e1 e tocava; ningu\u00e9m precisa aprender a soletrar pra falar, certo? Voc\u00ea v\u00ea um garotinho tendo uma conversa com um adulto, e ele provavelmente n\u00e3o conhece as palavras que est\u00e1 dizendo, mas ele sabe como e quando us\u00e1-las, de modo que tenha l\u00f3gica o que est\u00e1 dizendo. Mas ele n\u00e3o aprendeu necessariamente a ler e escrever. M\u00fasica \u00e9 assim. Se voc\u00ea quer tocar ou escrever, ent\u00e3o voc\u00ea precisa de informa\u00e7\u00e3o, mas no fim o resultado \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 tocando m\u00fasica. Mesmo quando voc\u00ea escreve, \u00e9 algu\u00e9m que vai simplesmente tocar. Ent\u00e3o, se voc\u00ea quer tocar e esquecer todo o resto, voc\u00ea est\u00e1 tocando t\u00e3o bem quanto algu\u00e9m que gastou quatro anos descobrindo como tocar&#8221;.<\/p>\n<p>Por um tempo, Coleman tocou com uma banda de RnB nos bares da cidade, o que lhe dava uma grana (que ia toda pra m\u00e3e). Mas ele queria inserir nas m\u00fasicas algo mais moderno e foi mandado embora. Acabou indo pra Los Angeles tentar a sorte e ficou \u00e0 mis\u00e9ria, passou fome.<\/p>\n<p>Nesse trecho da hist\u00f3ria \u00e9 que a porca torce o rabo e embaralha qualquer teoria boba. Coleman arrumou um emprego como ascensorista e durante o trabalho leu muito sobre teoria musical. Ele, de certa forma, estudou. N\u00e3o de maneira formal, mas estudou sim, e bastante. Ningu\u00e9m destr\u00f3i a teoria sem conhecer a teoria.<\/p>\n<p>Enquanto isso, tentava ser ouvido.<\/p>\n<p>Foi pela insist\u00eancia e pelo talento que mostrava em diversas <em>jams<\/em>, que conseguiu sua primeira grava\u00e7\u00e3o como l\u00edder de uma banda, o cl\u00e1ssico &#8220;Something Else!!!&#8221;, de 1958.<\/p>\n<p>Um cr\u00edtico do New York Times falou sobre o impacto que Coleman deu ao jazz: &#8220;antes dele, as pessoas solavam em cima da melodia; se a melodia tivesse &#8216;x&#8217; compassos, a improvisa\u00e7\u00e3o duraria &#8216;x&#8217; compassos e se encaixaria ali, da\u00ed Ornette veio nos dizer que n\u00e3o precis\u00e1vamos fazer daquela forma, n\u00f3s pod\u00edamos fazer de outro jeito, de forma livre; e ele praticamente mostrou uma nova forma de liberdade, libertou os m\u00fasicos do labirinto da harmonia&#8221;.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico do Chicago Tribune, Howard Reich, disse: &#8220;com a poss\u00edvel exce\u00e7\u00e3o de Miles Davis, Coleman fez mais do que qualquer outra personalidade do jazz no s\u00e9culo passado pra mudar o curso da m\u00fasica. Seu conceito de &#8216;harmolodics&#8217; \u2013 que renunciou aos conceitos tradicionais de estrutura musical ocidental \u2013 abriu novas perspectivas pro jazz&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Harmolodics&#8221; \u00e9 sua teoria que consiste basicamente &#8220;na forma cient\u00edfica do som baseada na express\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o humana&#8221;. Por isso ele acreditava que pessoas que nunca se viram antes s\u00e3o capazes de tocar m\u00fasica de imediato, sem ensaio, s\u00f3 na base da express\u00e3o, do improviso, da emo\u00e7\u00e3o. Sua experi\u00eancia com dois quartetos tocando simultaneamente foi chamada de &#8220;free jazz&#8221;.<\/p>\n<p>A grande virada de Coleman se deu quando John Lewis, l\u00edder do Modern Jazz Quartet, ouviu e se impressionou com sua m\u00fasica &#8220;ca\u00f3tica&#8221;. Lewis recomendou pra uma s\u00e9rie de concertos na Lenox Schoolk Of Jazz, em Massachusetts, em 1959, e dali pra Nova Iorque, onde tudo acontece e onde ele tocou com o baixista Charlie Hadem, o trompetista Don Cherry e o baterista Billy Higgs uma longa e retumbante temporada. Os olhos e ouvidos se voltaram pra aqueles &#8220;loucos&#8221;, que rasgavam teorias musicais livremente.<\/p>\n<p>&#8220;Coleman parecia ignorar as melodias convencionais, com harmonias dissonantes, gritos e grunidos&#8221;, diz o artigo sobre seu nome na &#8220;Encyclopedia&#8221;. &#8220;A se\u00e7\u00e3o r\u00edtmica de Coleman n\u00e3o oferece uma batida convencional, mas opera com tanta liberdade quanto o resto da banda. Assim, Coleman retoma a m\u00fasica afro-americana de raiz, redefinindo o jazz como um esquema musical onde indiv\u00edduos t\u00eam suas pr\u00f3prias vozes no todo. Pra alguns ouvidos, o resultado soava um caos atonal, mas muitos cr\u00edticos perceberam que n\u00e3o importa o qu\u00e3o avan\u00e7ado o idioma musical avan\u00e7ado que Coleman usava, sua m\u00fasica sempre evocava aquele blues de cabar\u00e9 que ele tocava no in\u00edcio da carreira&#8221;. Era g\u00eanio, mas era visto como fraude por ouvidos pregui\u00e7osos.<\/p>\n<p>Mas as experimenta\u00e7\u00f5es de Coleman n\u00e3o tinham mais freio na import\u00e2ncia que adquiriram no meio musical. Ele gravou e lan\u00e7ou e colaborou em dezenas de discos, em mais variadas formas de express\u00e3o derivadas do jazz.<\/p>\n<p>Morreu nesse dia 11 de junho de 2015, de parada card\u00edaca.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o musical formal hoje exige aprender com ele, nos livros, nas partituras, nos sons. O improviso e a emo\u00e7\u00e3o s\u00e3o significativos, essenciais. Essa \u00e9 a maior li\u00e7\u00e3o. Fim da aula.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Lbt9DDolcag\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HjVURhB4bsE\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/dez-discos-de-jazz-na-integra\/\" title=\"DEZ DISCOS DE JAZZ NA \u00cdNTEGRA\">DEZ DISCOS DE JAZZ NA \u00cdNTEGRA<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre me disseram que Ornette Coleman era genitor do free jazz por n\u00e3o ter educa\u00e7\u00e3o musical formal. 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