{"id":42749,"date":"2015-07-21T02:26:21","date_gmt":"2015-07-21T05:26:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=42749"},"modified":"2018-04-13T14:39:24","modified_gmt":"2018-04-13T17:39:24","slug":"o-paciente-zero-da-pirataria-musical-na-internet","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-paciente-zero-da-pirataria-musical-na-internet\/","title":{"rendered":"O PACIENTE ZERO DA PIRATARIA MUSICAL NA INTERNET"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"42754\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-paciente-zero-da-pirataria-musical-na-internet\/dellglover1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dellglover1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"dellglover1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dellglover1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dellglover1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-42754\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dellglover1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dellglover1.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Como A M\u00fasica Ficou Gr\u00e1tis &#8211; O Fim De Uma Ind\u00fastria, A Virada Do S\u00e9culo E o Paciente Zero Da Pirataria&#8221;. Esse \u00e9 o t\u00edtulo do livro escrito por Stephen Witt e publicado em 2015 (no Brasil, saiu pela Intr\u00ednseca e vale muito, muito, muito ler &#8211; v\u00e1 ao <a href=\"http:\/\/www.intrinseca.com.br\/comoamusicaficougratis\/\" target=\"_blank\">site oficial na editora, que publicou na plataforma Issuu um bom peda\u00e7o do livro<\/a>).<\/p>\n<p>\u00c9 uma trama bem armada focada em tr\u00eas personagens: Karlheinz Brandenburg, um dos inventores do MP3; Doug Morris, o chef\u00e3o da Universal Music; e Dell Glover (<em>foto que abre o post<\/em>), um z\u00e9-ningu\u00e9m do interiorz\u00e3o dos Esteites, que se tornou o maior vazador de discos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Curiosamente, nenhum dos tr\u00eas tem qualquer import\u00e2ncia como m\u00fasicos e ainda assim os tr\u00eas foram essenciais pra ind\u00fastria da m\u00fasica chegar a ser o que \u00e9 hoje &#8211; o que s\u00f3 sublinha o papel secund\u00e1rio que a ind\u00fastria atribui a quem cria a arte em si.<\/p>\n<p>A ideia original era rastrear o primeiro cara que pirateou oficialmente um MP3 de m\u00fasica. N\u00e3o foi poss\u00edvel, mas as pesquisas de Witt chegaram a um submundo chamado Scene (Cena), onde os piratas, normalmente pessoas comuns, n\u00e3o ligadas \u00e0 m\u00fasica e nem mesmo superf\u00e3s de qualquer artista, faziam a festa e concentravam quase toda a produ\u00e7\u00e3o pirata da virada do s\u00e9culo (alimentando, inclusive, o ic\u00f4nico Napster e seus setenta milh\u00f5es de usu\u00e1rios).<\/p>\n<p>Witt se d\u00e1 conta de que o mundo da pirataria, t\u00e3o aclamado como uma rede democr\u00e1tica e revolucion\u00e1ria, que quebraria barreiras e destruiria corpora\u00e7\u00f5es mal\u00e9ficas, nada mais era do que um mundinho fechado, formado por moleques eg\u00f3latras e <em>nerds<\/em>, e por trabalhadores mal pagos e que s\u00f3 queriam tirar um troco a mais.<\/p>\n<p>&#8220;Eu supunha que a pirataria de m\u00fasicas era um fen\u00f4meno de colabora\u00e7\u00e3o coletiva. Ou seja, acreditava que os arquivos em MP3 baixados por mim provinham de <em>uploaders<\/em> espalhados pelo mundo e que essa rede difusa de ripadores n\u00e3o era significativamente organizada. Eu estava errado. Embora alguns arquivos fossem mesmo artefatos irrastre\u00e1veis de habitantes aleat\u00f3rios da Internet, a grande maioria dos MP3 pirateados vinha de alguns poucos grupos organizados. Por meio de an\u00e1lise forense de dados, muitas vezes era poss\u00edvel rastrear os arquivos at\u00e9 a sua fonte prim\u00e1ria&#8221;, escreveu Witt na introdu\u00e7\u00e3o do livro.<\/p>\n<p>Mas fu\u00e7ando os arquivos do governo estadunidense, ele chegou a um bocado de nomes de pessoas processadas por pirataria pelo Departamento de Justi\u00e7a. Um deles chamou sua aten\u00e7\u00e3o: Dell Glover. Foi ele que vazou a maioria dos \u00e1lbuns nos Esteites na virada do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Um nome. Um homem. Apenas um. Se voc\u00ea baixava m\u00fasicas at\u00e9 2007, \u00e9 prov\u00e1vel que s\u00f3 o tenha feito por conta dele. Witt correu pra entrevist\u00e1-lo e \u00e9 por causa de Glover que o livro existe.<\/p>\n<p>Sua hist\u00f3ria \u00e9 fascinante. Mas o livro fala de como a m\u00fasica se tornou livre, gratuita, e n\u00e3o como algu\u00e9m vazava discos. Tem a hist\u00f3ria do MP3 (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-fantasma-no-mp3-the-modernist-project\/\" target=\"_blank\">que tamb\u00e9m rendeu essa hist\u00f3ria incr\u00edvel<\/a>) e tem o lado da ind\u00fastria. \u00c9 s\u00f3 o MP3, portanto, e como ele facilitou o processo de pirataria.<\/p>\n<p>Glover n\u00e3o est\u00e1 mais no jogo, h\u00e1 muita gente envolvida nesse processo ainda, do Brasil \u00e0 Su\u00e9cia (resultando no legalmente inserido Spotify, o que resultou em outra forma de se distribuir m\u00fasica, algo diretamente ligado ao princ\u00edpio do livro). E n\u00e3o s\u00f3 com m\u00fasica: quem s\u00e3o os Glovers das s\u00e9ries de TV, dos filmes, da pornografia, dos videogames (a maior ind\u00fastria na atualidade)?<\/p>\n<p>Porque Glover \u00e9 o mais intrigante dos personagens. Muita gente v\u00ea Glover como uma esp\u00e9cie de Robbin Hood. Entretanto, ele tamb\u00e9m foi v\u00edtima de sua pr\u00f3pria sana. Ele destru\u00eda dia a dia a ind\u00fastria que o alimentava &#8211; seja oficialmente, no seu emprego, seja ilegalmente, com a pirataria f\u00edsica, que foi vendo minguar a clientela assim que a tecnologia avan\u00e7ava.<\/p>\n<p>Num longo (longo!) artigo escrito pra revista New Yorker, Witt conta basicamente a hist\u00f3ria de Dell Glover, seu dia a dia, como ele fazia pra roubar os discos e qual sua import\u00e2ncia no esquema, at\u00e9 o desfecho conhecido.<\/p>\n<p>O texto e a hist\u00f3ria s\u00e3o t\u00e3o bons, que demos aqui uma de Glover: roubamos o artigo e traduzimos sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.vice.com\/pt_br\/read\/o-homem-que-encontrou-o-cara-que-quebrou-a-industria-da-musica\" target=\"_blank\">aconselha-se muito ler tamb\u00e9m essa entrevista pra Vice<\/a>, at\u00e9 pra ver que nosso personagem j\u00e1 est\u00e1 atuando em outra frente). Mas ao contr\u00e1rio de Glover, a ideia \u00e9 instigar o leitor a comprar o livro e tentar entender como chegamos at\u00e9 esse ponto da ind\u00fastria. O personagem \u00e9 s\u00f3 a ponta de um mecanismo que ningu\u00e9m sabe exatamente como vai funcionar no futuro.<\/p>\n<p><strong>O HOMEM QUE QUEBROU A IND\u00daSTRIA MUSICAL<\/strong><br \/>\nTexto: Stephen Witt<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Floga-se<br \/>\nPublicado originalmente em 27 de abril de 2015 no site da revista New Yorker (<a href=\"http:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2015\/04\/27\/the-man-who-broke-the-music-business\" target=\"_blank\">clique aqui pra ler o original<\/a>)<\/p>\n<p>Num s\u00e1bado de 1994, Bennie Lydell Glover, um empregado tempor\u00e1rio na f\u00e1brica de CDs da PolyGram em Kings Mountain, Carolina do Norte, Esteites, foi a uma festa na cada de um companheiro de trabalho. Ele estava tentando ser efetivado e a festa era uma chance de interagir com seus chefes. Naquela noite, o anfitri\u00e3o colocou algumas m\u00fasicas pra todo mundo dan\u00e7ar. Glover, sempre presente nos clubes de Charlotte, a uma hora de dist\u00e2ncia, nunca tinha ouvido tais m\u00fasicas antes, embora ele curtisse o trabalho de muitos daqueles artistas.<\/p>\n<p>Depois, Glover percebeu que o anfitri\u00e3o havia roubado aquelas m\u00fasicas da f\u00e1brica. Ficou surpreso. A pol\u00edtica da f\u00e1brica dizia que todos os empregados deveriam assinar um termo &#8220;de toler\u00e2ncia zero ao roubo&#8221;. Ele sabia que os chefes da f\u00e1brica estavam preocupados com vazamentos, e ouviu dizer sobre empregados sendo presos por desvio de produtos. Mas naquela festa, at\u00e9 em frente aos supervisores, parecia \u00f3bvio que os discos haviam vazado. Ali, Glover tomou conhecimento de um com\u00e9rcio subterr\u00e2neo de discos em pr\u00e9-lan\u00e7amento. &#8220;N\u00f3s rodamos esses discos na f\u00e1brica durante a semana, e eles estavam no mercado alternativo no final de semana&#8221;, ele disse. &#8220;Foi um vazamento da f\u00e1brica&#8221;.<\/p>\n<p>A f\u00e1brica era grande, com mais de noventa mil metros quadrados de \u00e1rea. Novos discos eram lan\u00e7ados nas lojas \u00e0s ter\u00e7as-feiras, mas eles precisavam ser prensados, empacotados e embrulhados com semanas de anteced\u00eancia. Num dia corrido, a f\u00e1brica produzia um quarto de milh\u00e3o de CDs. Sua linhagem era nobre: a PolyGram era uma divis\u00e3o da gigante holandesa Philips, a co-inventora do CD.<\/p>\n<p>Um dos companheiros de trabalho de Glover era Tony Dockery, outro empregado tempor\u00e1rio. Os dois trabalhavam em pontas opostas da m\u00e1quina de embalagem, uns tr\u00eas metros de dist\u00e2ncia entre eles. Glover era um &#8220;dropper&#8221;: ele alimentava a m\u00e1quina com as caixas de discos. Dockery era um &#8220;boxer&#8221;. ele embalava os discos em caixas pra transporte. Cada um recebia dez d\u00f3lares por hora.<\/p>\n<p>Glover e Dockery logo se tornaram amigos. Moravam na mesma cidade, Shelby (<em>22 quil\u00f4metros de Kings Mountain<\/em>), e Glover come\u00e7ou a dar carona pra Dockery pro trabalho. Eles gostavam do mesmo tipo de m\u00fasica. Ganhavam o mesmo dinheiro. Mais importante, eram ambos fascinados por computadores, um interesse pouco comum pra trabalhadores da Carolina do Norte no come\u00e7o dos anos 1990 &#8211; o mais usual ali era comprar um rifle do que um computador. O pai de Glover tinha sido mec\u00e2nico, e seu av\u00f4, fazendeiro e, depois, arrumava televisores. Em 1989, quando Glover tinha quinze anos, ele foi at\u00e9 a Sears e comprou seu primeiro computador: um PC de dois mil e trezentos d\u00f3lares, com um monitor de uma cor. Pagou a prazo, com a ajuda da sua m\u00e3e. Mexendo com a m\u00e1quina, Glover desenvolveu um conhecimento em montagem de <em>hardware<\/em>, e come\u00e7ou a ganhar uma grana arrumando computadores de amigos e vizinhos.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da festa, ele estava experimentando o nascimento da cultura da Internet, usando a conex\u00e3o da America Online (<em>AOL<\/em>). Logo, Glover tamb\u00e9m comprou um gravador de CD, um dos primeiros produzidos pra consumidores caseiros. Custou algo em torno de seiscentos d\u00f3lares. Come\u00e7ou a fazer <em>mixtapes<\/em> de m\u00fasicas que ele j\u00e1 possu\u00eda, e vendia pros amigos. Mas o gravador de CD demorava quarenta minutos pra gravar uma \u00fanica c\u00f3pia, ent\u00e3o o neg\u00f3cio andava devagar.<\/p>\n<p>Glover come\u00e7ou a considerar roubar CDs da f\u00e1brica. Conhecia alguns empregados que estavam fazendo isso, e um disco em pr\u00e9-lan\u00e7amento, de um artista de ponta, copiado pra um disco virgem, podia ser valioso (de fato, executivos naquela \u00e9poca viam esse como o grande risco do neg\u00f3cio). Mas a PolyGram n\u00e3o tinha uma oferta muito boa de artistas. A companhia tinha uma boa posi\u00e7\u00e3o de domin\u00e2ncia no segmento &#8220;adulto contempor\u00e2neo&#8221;, mas o tipo de pessoa que comprava os CDs fora do mercado n\u00e3o queria Bryan Adams e Sheryl Crow. Queria Jay Z, e isso a f\u00e1brica n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Por volta de 1996, Glover, conhecido como Dell, foi efetivado na f\u00e1brica, com aumento de sal\u00e1rio, benef\u00edcios, e a possibilidade de fazer mais horas extras. Ele come\u00e7ou dobrando os turnos, voluntariamente, pra cada brecha que se abria. &#8220;N\u00e3o pod\u00edamos permitir que ele trabalhasse mais do que seis dias consecutivos, mas ele tentava&#8221;, disse Robert Buchanan, um dos seus ex-chefes.<\/p>\n<p>As horas extras possibilitavam que ele fizesse novos aquisi\u00e7\u00f5es. No outono de 1996, a Hughes Network System ofereceu o primeiro acesso \u00e0 Internet de banda larga via sat\u00e9lite. Glover e Docker assinaram o servi\u00e7o imediatamente. O servi\u00e7o oferecido tinha velocidade de 400Kb por segundo, sete vezes a velocidade da conex\u00e3o discada.<\/p>\n<p>Glover deixou a AOL pra tr\u00e1s. E ele logo percebeu que a verdadeira a\u00e7\u00e3o estava nas salas de bate-papo. A rede Internet Relay Chat (IRC) era n\u00e3o-comercial, mantida por universidades e pessoas f\u00edsicas, e sem responder por determinados padr\u00f5es de conduta. Voc\u00ea criava seu <em>username<\/em> e se juntava a um canal, indicado pelo jogo-da-velha: &#8220;#politics, #sex, #computers. Glover e Dockery se tornaram viciados em bate-papos; \u00e0s vezes, mesmo depois de passar o dia inteiro juntos, eles ficavam na mesma sala de bate-papo ap\u00f3s o trabalho. No IRC, Dockery era &#8220;St. James&#8221;, ou, \u00e0s vezes, &#8220;Jah Jah&#8221;. E Glover era &#8220;ADEG&#8221;, ou, com menos frequ\u00eancia, &#8220;Darkman&#8221;. Glover n\u00e3o tinha passaporte e mal tinha sa\u00eddo do sul dos Esteites, mas o IRC lhe dava a oportunidade de interagir com estrangeiros do mundo inteiro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, ele podia compartilhar arquivos. Online, arquivos pirateados eram conhecidos como &#8220;warez&#8221;, derivado de &#8220;software&#8221;, e eram distribu\u00eddos atrav\u00e9s de uma subcultura que datava de pelo menos 1980, e que era chamada de &#8220;Cena Warez&#8221;. A Cena era bem organizada digitalmente em pequenos grupos, o que fez com que um ou outro corresse pra ser o primeiro a colocar novos materiais nos canais IRC. Softwares eram frequentemente disponibilizados no mesmo dia em que eram oficialmente lan\u00e7ados. \u00c0s vezes, era poss\u00edvel, ao <em>hackear<\/em> os servidores das empresas, ou atrav\u00e9s de um funcion\u00e1rio, piratear um peda\u00e7o do software antes dele estar dispon\u00edvel nas lojas. Ser uma fonte de vazamento antes do lan\u00e7amento valia o pr\u00eamio m\u00e1ximo entre os piratas digitais: figurar entre a &#8220;elite&#8221;.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo meio dos anos 1990, a Cena se movia entre a pirataria de softwares e revistas, pornografia, fotos e at\u00e9 fontes de computador. Em 1996, um membro da Cena com o nome de &#8220;NetFraCk&#8221; come\u00e7ou um novo grupo, o primeiro em pirataria com MP3: CDA, que usava o rec\u00e9m-surgido modelo MP3, um formato que permitia encolher os arquivos de m\u00fasica em mais de noventa por cento. Em 10 de agosto de 1996, CDA lan\u00e7ou no IRC o primeiro arquivo &#8220;oficialmente&#8221; pirateado em MP3 da Cena: &#8220;Until It Sleeps&#8221;, do Metallica. Em semanas, havia muitos grupos rivais no IRC e milhares de can\u00e7\u00f5es pirateadas.<\/p>\n<p>V\u00eddeo oficial de &#8220;Until It Sleeps&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eRV9uPr4Dz4\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A primeira visita de Glover a um canal de troca de MP3 veio em seguida. Ele n\u00e3o sabia exatamente o que era um MP3 ou quem estava fazendo os arquivos. Ele s\u00f3 baixou um software pra tocar MP3, e pediu aos administradores do canal pra baixar arquivos. Poucos minutos depois, ele j\u00e1 tinha uma pequena biblioteca de m\u00fasicas em seu computador.<\/p>\n<p>Uma das can\u00e7\u00f5es era &#8220;California Love&#8221;, de Tupac Shakur, o <em>single<\/em> que se tornou sucesso inevit\u00e1vel, depois da morte de Tupac, algumas semanas antes, em setembro de 1996. Glover adorava Tupac, e quando o disco &#8220;All Eyez On Me&#8221; apareceu na f\u00e1brica da PolyGram, num acordo especial de distribui\u00e7\u00e3o da Interscope Records, ele chegou a embalar alguns discos. Agora, ele tocava o MP3 de &#8220;California Love&#8221;.<\/p>\n<p>V\u00eddeo oficial de &#8220;California Love&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5wBTdfAkqGU\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>No trabalho, Glover fabricava CDs pro consumo de massa. Em casa, ele gastava mais de dois mil d\u00f3lares em gravadores e outros hardwares pra produzi-los individualmente. Sua sobreviv\u00eancia dependia da demanda continuada pelo produto. Mas Glover teve de se perguntar: se o MP3 podia reproduzir Tupac e se Tupac podia ser distribu\u00eddo de gra\u00e7a, na Internet, pra que diabos servia um CD?<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Em 1998, a Seagram anunciou que estava comprando a PolyGram da Philips e se fundindo com a Universal. O acordo inclu\u00eda toda a rede mundial de prensagem e distribui\u00e7\u00e3o, inclusive a f\u00e1brica de Kings Mountain. Os empregados ficaram nervosos, mas a ger\u00eancia pediu que n\u00e3o se preocupassem; a f\u00e1brica n\u00e3o estava fechando, mas crescendo. A ind\u00fastria da m\u00fasica estava experimentando um per\u00edodo lucrativo sem igual, cobrando mais de quatorze d\u00f3lares por um CD que custava menos de dois d\u00f3lares pra ser feito. Os executivos da Universal achavam que esse cen\u00e1rio ia continuar. No prospecto de aquisi\u00e7\u00e3o da PolyGram, eles n\u00e3o mencionaram o MP3 entre as amea\u00e7as ao neg\u00f3cio. Entendiam  demais do neg\u00f3cio&#8230;<\/p>\n<p>As linhas de produ\u00e7\u00e3o foram aumentadas pra produzir meio milh\u00e3o de CDs ao dia. Havia mais mudan\u00e7as, mais horas extras, e mais m\u00fasica. A Universal, parece, havia conquistado o mercado de rap. Jay Z, Eminem, Dr. Dre, Cash Money &#8211; Glover embalou ele mesmo os discos deles.<\/p>\n<p>Seis meses depois da fus\u00e3o, Shawn Fanning, um estudante de dezoito anos, da Universidade Notheastern, inaugurou sua pr\u00f3pria plataforma de compartilhamento de arquivos, o Napster. Fanning gastou sua adolesc\u00eancia nos mesmos subterr\u00e2neos do IRC que Glover e Dockery, e ficou impressionado com a inefici\u00eancia dos m\u00e9todos de distribui\u00e7\u00e3o. O Napster tomou o lugar do IRC com um servidor central de &#8220;peer-to-peer&#8221; que permitia \u00e0s pessoas trocar arquivos diretamente. Em um ano, o servi\u00e7o tinha dez milh\u00f5es de usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Antes do Napster, um disco vazado causava danos apenas locais. Agora, era uma cat\u00e1strofe. A Universal lan\u00e7ava \u00e1lbuns com uma promo\u00e7\u00e3o pesada e caras campanhas de marketing: v\u00eddeos, r\u00e1dios, televis\u00e3o, e apresenta\u00e7\u00f5es em programas de entrevistas na TV (os <em>late-nights<\/em>). A disponibilidade da m\u00fasica no pr\u00e9-lan\u00e7amento na Internet interferia no processo, desperdi\u00e7ando meses de trabalho em publicidade e fazendo os artistas se sentirem tra\u00eddos.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo antes do lan\u00e7amento do Napster, a f\u00e1brica come\u00e7ou a implantar um regime anti-furto. Steve Van Buren, que gerenciou a seguran\u00e7a da f\u00e1brica, pressionou por melhores sistemas ainda antes da fus\u00e3o com a Universal, e ele instituiu um sistema de revista rand\u00f4mica.<\/p>\n<p>Van Buren conseguiu que alguns contrabandistas fossem pegos e desligados. A ger\u00eancia da f\u00e1brica tinha ouvido falar de um t\u00e9cnico que tinha tocado m\u00fasicas em festas antes do lan\u00e7amento delas, e Van Buren pediu que ele passasse pelo detector de mentiras. Ele n\u00e3o passou no teste e foi demitido. Mesmo assim, Glover ainda tinha contatos confi\u00e1veis na f\u00e1brica pra vazar discos. Um deles conseguiu sair com trezentos discos e os vendeu a cinco d\u00f3lares cada. Mas esse era um com\u00e9rcio exclusivo, e poucos funcion\u00e1rios tinham conhecimento dele.<\/p>\n<p>Nesse tempo, Glover havia constru\u00eddo uma torre de sete gravadores de CD, que ficava ao lado do seu computador. Ele podia produzir trinta c\u00f3pias por hora, o que fez o processo ficar mais lucrativo, ent\u00e3o ele percorria outras redes &#8220;warez&#8221; pra vender mais material: jogos Playstation, softwares, arquivos MP3 &#8211; qualquer coisa podia ser queimada num disco e vendida por alguns d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Ele focou especialmente em filmes, por cinco d\u00f3lares cada. Uma nova tecnologia de compress\u00e3o podia diminuir um filme pra caber num \u00fanico CD. A qualidade de v\u00eddeo era ruim, mas o neg\u00f3cio cresceu r\u00e1pido, e logo ele tava comprando CDs a granel. Ele comprou uma impressora de etiquetas, e uma impressora a cores pra fazer maquetes de p\u00f4steres de cinema. Preencheu uma pasta preta de nylon com imagens dos p\u00f4steres e usou como cat\u00e1logo de vendas. Meteu tudo no seu porta-malas e vendia os filmes direto do seu carro.<\/p>\n<p>Glover ainda considerava muito arriscado vencer CDs vazados da f\u00e1brica. No entanto, ele gostava de se manter em dia com a m\u00fasica, e os contrabandistas o tinham como um cliente. Ele era um empregado fixo sem nenhum antecedente e um interesse em tecnologia, mas fora da f\u00e1brica sua reputa\u00e7\u00e3o era enorme. Ele tinha uma moto de corrida japonesa, tinha v\u00e1rias pistolas e sua tatuagem era da Morte.<\/p>\n<p>Seu colega Dockery, ao contr\u00e1rio, era muito careta pros contrabandistas, mas come\u00e7ou na pirataria tamb\u00e9m e passou a atazanar Glover pra supri-lo com os CDs vazados. Al\u00e9m disso, Dockery achava arquivos online que Glover n\u00e3o conseguia: filmes que ainda estavam nos cinemas e jogos de PlayStation que s\u00f3 iriam ser lan\u00e7ados em alguns meses.<\/p>\n<p>Por um tempo, Glover trocou seus CDs vazados pelos softwares e filmes de Dockery. Mas logo ele ficou cansado de ser o correio de Dockery e perguntou o motivo dos discos serem t\u00e3o valiosos pra ele. Dockery o convidou pra ir a sua casa, e mostrou que no \u00faltimo ano, ficou oferecendo os discos vazados de Glover pra uma rede ainda mais obscura no IRC, conseguindo ser aceito no grupo mais respeitado, o Rabid Neurosis, ou RNS.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de piratear can\u00e7\u00f5es, o RNS estava pirateando discos inteiros, trazendo a mentalidade de softwares pirateados pra m\u00fasica. O objetivo era se antecipar \u00e0 data oficial de lan\u00e7amento, o que significava uma campanha de infiltra\u00e7\u00e3o contra as grandes gravadoras.<\/p>\n<p>O l\u00edder do RNS atendia pelo nome de &#8220;Kali&#8221;. Ele era mestre em vigil\u00e2ncia e infiltra\u00e7\u00e3o. Parece que gastava horas toda semana pesquisando e conhecendo as aquisi\u00e7\u00f5es e acordos de prensagem que determinaram onde e quando um CD podia ser fabricado. Com essa informa\u00e7\u00e3o, ele construiu uma rede que, nos oito anos seguintes, permitiu se infiltrar na rede de fornecedores de cada grande gravadora. &#8220;Esse material era a vida dele, porque ele sabia sobre todas as datas de lan\u00e7amentos&#8221;, disse Glover.<\/p>\n<p>Dockery &#8211; conhecido por &#8220;Kali&#8221; como &#8220;St. James&#8221; &#8211; foi a primeira grande chance. De acordo com documentos do processo, Dockery encontrou diversos membros do RNS numa sala de bate-papo, incluindo &#8220;Kali&#8221;. Ali, ele sabia quais os pr\u00e9-lan\u00e7amentos eram os desejos do grupo. Ele logo se juntou ao RNS e se tornou uma de suas melhores fontes. Mas, quando sua fam\u00edlia come\u00e7ou a interferir, ele prop\u00f4s a Glover que tomasse seu lugar.<\/p>\n<p>Glover hesitou.<\/p>\n<p>Entendeu que &#8220;Kali&#8221; era apenas um canal pra servidores secretos mais parrudos que formavam a espinha dorsal da Cena. Os servidores ultra-r\u00e1pidos continham os melhores arquivos pirateados. Os servidores da Cena ficavam bem escondidos, e o acesso era permitido apenas pra endere\u00e7os pr\u00e9-aprovados. A Cena controlava todo seu invent\u00e1rio de maneira mais r\u00edgida do que a pr\u00f3pria Universal.<\/p>\n<p>Se Glover topasse subir seus CDs contrabandeados da f\u00e1brica pra &#8220;Kali&#8221;, ele teria acesso a esses servidores secretos e jamais teria que pagar por m\u00eddia de novo, filmes, m\u00fasica etc. Ele poderia ouvir o novo disco do Outkast semanas antes que qualquer um pudesse. Ele poderia jogar Madden NFL no seu PlayStation um m\u00eas antes de estar dispon\u00edvel nas lojas. E ele poderia ver os mesmos filmes que permitiram a Dockery ser reconhecido como um bom contrabandista.<\/p>\n<p>Dockery arranjou uma sess\u00e3o de bate-papo entre Glover e &#8220;Kali&#8221;, e os dois trocaram n\u00fameros de celular. Nas primeira liga\u00e7\u00e3o, Glover basicamente s\u00f3 escutou. &#8220;Kali&#8221; falou empolgado, bradando termos <em>geeks<\/em>, de um jeito californiano e com g\u00edrias roubadas do <em>rap<\/em> da costa oeste. Ele adorava computadores, assim como <em>hip-hop<\/em>, e conhecia todas as rixas entre artistas de diferentes selos. Sabia tamb\u00e9m que na sequ\u00eancia dos assassinatos de Tupac e Notorius B.I.G., aquelas rixas iam se acalmar. Def Jam, Cash Money e Interscope, todos tinham assinado acordos de distribui\u00e7\u00e3o com a Universal. A pesquisa de &#8220;Kali&#8221; continuava levando-o \u00e0 f\u00e1brica de Kings Mountain.<\/p>\n<p>Ele e Glover discutiram os detalhes de sua parceria. &#8220;Kali&#8221; rastrearia as datas de lan\u00e7amento dos discos e diria a Glover qual material mais interessava. Glover contrabandearia os discos da f\u00e1brica. Ele ent\u00e3o riparia os CDs vazados pra MP3 e, usando os canais codificados, enviaria pro computador pessoal de &#8220;Kali&#8221;. &#8220;Kali&#8221; arrumaria os MP3 de acordo com os padr\u00f5es t\u00e9cnicos da Cena e jogaria tudo nos sites secretos.<\/p>\n<p>O acordo soou bacana pra Glover, mas pra atender \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es de &#8220;Kali&#8221; ele tinha que conseguir \u00e1lbuns novos da f\u00e1brica com mais frequ\u00eancia, tr\u00eas ou quatro vezes por semana. Seria dif\u00edcil. Al\u00e9m da revista rand\u00f4mica, uma cerca foi erguida ao redor da f\u00e1brica. Sa\u00eddas de emerg\u00eancia ganharam alarmes. <em>Laptops<\/em> eram proibidos na f\u00e1brica, assim como est\u00e9reos, tocadores port\u00e1teis, qualquer coisa que pudesse aceitar e ler um CD.<\/p>\n<p>De vem em quando, aparecia um lan\u00e7amento famoso &#8211; &#8220;The Eminem Show&#8221;, ele lembra, ou &#8220;Country Grammar&#8221;, do Nelly. Chegava numa limusine de vidros filmados, vindo do est\u00fadio de produ\u00e7\u00e3o numa maleta, carregada por algu\u00e9m que jamais tirava os olhos da master. Quando um desses discos eram prensados, Van Buren mandava que revistassem todos os funcion\u00e1rios da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>As m\u00e1quinas de prensagem eram controladas digitalmente e geravam um c\u00f3digo de barras pra cada disco. A administra\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica gerava um relat\u00f3rio, rastreando cada CD impresso e qual tinha de fato sido enviado, e qualquer discrep\u00e2ncia tinha que ser notificada. A f\u00e1brica agora podia rodar mais de meio milh\u00e3o de c\u00f3pias de um disco popular num s\u00f3 dia, mas o invent\u00e1rio podia ser rastreado no n\u00edvel uma \u00fanica c\u00f3pia.<\/p>\n<p>Empregados como Glover, que trabalhavam na linha de embalagem, tinham sorte quando se tratava de contrabandear CDs. Mais a frente da linha de produ\u00e7\u00e3o, os discos ganhariam c\u00f3digo de barras e estariam no invent\u00e1rio; antes, eles n\u00e3o tinham acesso ao produto final. A essa altura, a linha de empacotamento se tornara bastante complexa. A grande vantagem de um CD sobre o MP3 era a satisfa\u00e7\u00e3o de ter um produto f\u00edsico em m\u00e3os. A Universal de fato vendia essa embalagem. A arte do disco se tornara um ornamento. Os discos eram dourados ou fluorescentes, as caixas eram em azul ou roxo opaco, e a capa eram livretos em papel de alta qualidade. D\u00fazias, \u00e0s vezes centenas, de discos extras eram impressos em cada prensagem, pra serem usados como substitutos em caso de dano durante a embalagem.<\/p>\n<p>No final de cada turno, os empregados colocavam esse excesso de discos em caixas de sucata. Essa sucata mais tarde era levada ao moedor de pl\u00e1stico, onde os discos eram destru\u00eddos. Por anos, Glover teve centenas de discos perfeitamente bons naquelas lixeiras, e ele sabia que o moedor n\u00e3o tinha mem\u00f3ria ou gerava qualquer tipo de registro. Se fossem vinte e quatro discos pra moagem e apenas vinte e tr\u00eas passassem por ali, ningu\u00e9m haveria de saber.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no caminho entre a esteira ao moedor, um empregado poderia tirar sua luva cir\u00fargica enquanto pegava um disco. Ele poderia esconder o disco na luva. Todo o resto seria destru\u00eddo. Ao final de seu turno, ele voltaria ali, pegaria aquela luva com o disco e pronto.<\/p>\n<p>Ainda restavam os seguran\u00e7as. Mas, claro, tamb\u00e9m havia op\u00e7\u00f5es. Uma delas envolvia fivelas de cinto. Elas eram o acess\u00f3rio da moda na pequena cidade da Carolina do Norte. Muitas pessoas na f\u00e1brica usavam &#8211; grandes medalh\u00f5es ovais. As fivelas sempre apareciam no rastreador, mas os guardas jamais iam pedir pra algu\u00e9m tir\u00e1-las. Os discos eram colocados atr\u00e1s dessas fivelas.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>A partir de 2001, Glover era o maior vazador de m\u00fasica. Ele alega que nunca contrabandeou os CDs ele mesmo. Ao inv\u00e9s disso, ele tinha em m\u00e3os uma rede de funcion\u00e1rios mal remunerados e tempor\u00e1rios. Oferecia dinheiro ou filmes em troca de discos vazados da f\u00e1brica. Em pouco tempo, Glover conseguiu ser promovido, o que permitiu com que ele agendasse os turnos na linha de embalagem. Se um lan\u00e7amento premiado chegasse \u00e0 f\u00e1brica, ele podia garantir que um homem de sua confian\u00e7a estaria l\u00e1.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o de qualidade levou a um aumento de trabalho na f\u00e1brica da Universal. Semanas antes de qualquer um, Glover j\u00e1 tinha os \u00e1lbuns mais quentes do ano. Ele ripava os discos em seu PC com um software que &#8220;Kali&#8221; havia mandado, e devolvia os arquivos. Por telefone, eles agendavam o calend\u00e1rio dos vazamentos.<\/p>\n<p>Glover deixava a distribui\u00e7\u00e3o pra &#8220;Kali&#8221;. Ao contr\u00e1rio de muitos membros da Cena, ele n\u00e3o participou de discuss\u00f5es t\u00e9cnicas acerca da taxa de <em>bits<\/em> ser vari\u00e1vel ou constante. Ele ouvia os discos, mas frequentemente se enchia depois de uma ou duas audi\u00e7\u00f5es. Quando isso acontecia, ele guardava o disco num arm\u00e1rio e deixava l\u00e1.<\/p>\n<p>Em 2002, seu arsenal tinha mais de quinhentos discos, incluindo quase todo grande lan\u00e7amento que passou pela f\u00e1brica de Kings Mountain. Glover vazou &#8220;500 Degreez&#8221;, de Lil Wayne e &#8220;The Blueprint&#8221;, de Jay Z. Ele vazou &#8220;Rated R&#8221;, do Queens Of The Stone Age e &#8220;Away From The Sun&#8221;, do 3 Doors Down. Ele vazou Bj\u00f6rk. Vazou Ashanti. Vazou Ja Rule. Vazou Nelly. Vazou &#8220;Take Off Your Pants And Jacket&#8221;, do Blink-182.<\/p>\n<p>Glover n\u00e3o tinha acesso a grandes vendedoras como Celine Dion e Cher. Mas seus \u00e1lbuns eram os mais procurados pela grupo demogr\u00e1fico que importava: a gera\u00e7\u00e3o Eminem.<\/p>\n<p>O t\u00edpico participante da Cena era homem e viciado em computador, entre quinze e trinta anos. &#8220;Kali&#8221; &#8211; cujos artistas favoritos eram Ludacris, Jay Z e Dr. Dre &#8211; era o exemplo perfeito. Pra Glover, o ponto alto de 2002 foi maio, quando ele vazou &#8220;The Eminem Show&#8221; vinte e quatro dias antes do lan\u00e7amento oficial. O vazamento foi direto dos sites da Cena pras redes <em>peer-to-peer<\/em> em horas e, embora o disco tenha se tornado o grande sucesso de vendas do ano, Eminem foi for\u00e7ado a mudar a data de lan\u00e7amento.<\/p>\n<p>Todos os lan\u00e7amentos da Cena eram acompanhados por um arquivo &#8220;NFO&#8221; (de &#8220;info&#8221;), um texto ASCII que servia como assinatura do grupo. Arquivos NFO eram uma maneira da Cena se gabar, destacar associados importantes e anunciar potenciais recrutas. Algo assim:<\/p>\n<p>TEAM RNS PRESENTS<br \/>\nARTIST: Eminem<br \/>\nTITLE: The Eminem Show<br \/>\nLABEL: Aftermath<br \/>\nRIPPER: Team RNS<br \/>\n192 kbps-Rap<br \/>\n1hr 17min total-111.6 mb<br \/>\nRELEASE DATE: 2002-06-04<br \/>\nRIP DATE: 2002-05-10<\/p>\n<p>A linha mais importante era a data em que o disco foi ripado, que enfatizava a antecipa\u00e7\u00e3o do vazamento. &#8220;Kali&#8221; escreveu muitas notas de lan\u00e7amento ele mesmo, num tom sarc\u00e1stico, muitas vezes provocando grupos rivais. &#8220;The Eminem Show&#8221; terminava com a pergunta: &#8220;quem mais voc\u00ea acha que conseguiria esse?&#8221;.<\/p>\n<p>V\u00eddeo oficial de &#8220;Sing For The Moment&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/D4hAVemuQXY\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Quem era &#8220;Kali&#8221;? Glover n\u00e3o tinha certeza, mas conforme o relacionamento deles evolu\u00eda, ele foi pegando algumas pistas. O c\u00f3digo de \u00e1rea de &#8220;Kali&#8221; era 818, da regi\u00e3o de Los Angeles. A voz ao fundo que Glover \u00e0s vezes ouvia no telefone soava como se fosse a m\u00e3e dele. Tamb\u00e9m havia uma folha de maconha no emblema oficial do RNS: Glover achava que podia dizer quando &#8220;Kali&#8221; estava doid\u00e3o. O mais impressionante era a arrog\u00e2ncia <em>hip-hop<\/em> exagerada que afetava &#8220;Kali&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Kali&#8221; s\u00f3 se referia a Glover como &#8220;D&#8221;. Ningu\u00e9m mais o chamava assim.<\/p>\n<p>Glover suspeitava que, pelo jeito for\u00e7ado de falar, como uma for\u00e7ada g\u00edria malandra, que &#8220;Kali&#8221; n\u00e3o era negro, embora tamb\u00e9m n\u00e3o parecesse ser branco.<\/p>\n<p>Glover n\u00e3o tinha permiss\u00e3o pra interagir com outros membros do grupo, nem mesmo com aquele que era chamado de &#8220;coordenador de ripagem&#8221;. Esse era &#8220;RST&#8221;, cujo nome era Simon Tai. De uma segunda gera\u00e7\u00e3o de imigrantes chineses, Tai chegou \u00e0 Calif\u00f3rnia, antes de aportar na Universidade da Pensilv\u00e2nia, em 1997. Como um calouro com conex\u00e3o \u00e0 Internet, ele sempre foi relevante no RNS. Depois de ficar no grupo de bate-papo por um ano, acabou sendo convidado a participar do RNS.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m se candidatou a uma vaga de DJ na r\u00e1dio da escola. Por dois anos, &#8220;Kali&#8221; cultivou o interesse de Tai no <em>rap<\/em> e convenceu-o a fazer contatos com o pessoal de marketing de v\u00e1rios selos. Em 2000, Tai, j\u00e1 um veterano na universidade, foi promovido a diretor da esta\u00e7\u00e3o e ganhou a o acesso a discos promocionais. Todo dia, ele checava os e-mails da esta\u00e7\u00e3o, e quando algo bom aparecia, ele corria pro dormit\u00f3rio dele e subia o disco. Bater um rival na Cena, \u00e0s vezes, era uma quest\u00e3o de segundos.<\/p>\n<p>Tai conseguiu dois grandes vazamentos naquele ano, &#8220;Back For The First Time&#8221;, de Ludacris; e &#8220;Stankoni&#8221;, do Outkast. Com suas credenciais da Cena estabelecidas, pelos pr\u00f3ximos dois anos, Tai gerenciou os vazamentos da RNS. Junto com &#8220;Kali&#8221;, ele monitorou as agendas de distribui\u00e7\u00e3o das gravadoras e direcionou seus esfor\u00e7os pra ficar de olho em certos \u00e1lbuns.<\/p>\n<p>Pra achar os discos, o RNS tinha contatos internacionais de v\u00e1rios n\u00edveis, que se logavam anonimamente. De acordo com o testemunho no tribunal e entrevistas com membros da Cena, havia DJs de r\u00e1dio: &#8220;Bidi&#8221;, no sul; &#8220;DJ Rhino&#8221;, no meio-oeste. Havia jornalistas brit\u00e2nicos. Havia &#8220;DaLive1&#8221;, um aficionado em <em>house-music<\/em> que morava em Nova Iorque, e usava seus contatos dentro da Viacom como fonte de vazamentos, na Black Entertainment Television e na MTV. Havia dois irm\u00e3os italianos, que dividiam o nome &#8220;Incuboy&#8221;, que diziam ser s\u00f3cios de uma empresa de marketing promocional pro meio musical e tinham acesso a lan\u00e7amentos da Sony e da Bertelsmann. No Jap\u00e3o, os discos \u00e0s vezes eram lan\u00e7ados uma ou duas semanas antes dos Esteites, frequentemente com faixas extras, e Tai convocava &#8220;kwe21&#8221; e &#8220;x23&#8221; como fontes ali. E, finalmente, havia os ripadores legais, como &#8220;Aflex&#8221; e &#8220;Ziggy&#8221;, que gastando o pr\u00f3prio dinheiro compravam m\u00fasica legalmente no dia em que os discos apareciam nas lojas.<\/p>\n<p>O \u00fanico agente que Tai n\u00e3o tratava era Glover &#8211; &#8220;Kali&#8221; manteve sua exist\u00eancia em segredo, at\u00e9 mesmo dos outros membros do grupo. Glover se ressentia do isolamento, mas ser a fonte privada de &#8220;Kali&#8221; valia a pena. Em qualquer momento da sua exist\u00eancia, o n\u00famero de filiados \u00e0 Cena n\u00e3o passou de algumas centenas de pessoas. &#8220;Kali&#8221; estava pr\u00f3ximo ao topo. Um pirata t\u00edpico da Cena, subornando funcion\u00e1rios de lojas e quebrando softwares, podia ter acesso a tr\u00eas ou quatro servidores. Em 2002, Glover tinha acesso a duas d\u00fazias.<\/p>\n<p>Seus contatos fizeram dele um incompar\u00e1vel contrabandista de filmes. Ele construiu outra torre pra substituir a primeira, com gravadores de DVDs ao inv\u00e9s de CDs. Acompanhava o r\u00e1pido avan\u00e7o da tecnologia. Ele aumentou a velocidade de conex\u00e3o de sua Internet de sat\u00e9lite pra cabo. Baixou os mais populares filmes do servidores seguros da Cena ent\u00e3o queimava uma d\u00fazia de c\u00f3pias pra cada. Expandindo sua base de clientes pra al\u00e9m de seus colegas de trabalho, come\u00e7ou a ser reconhecido nas redondezas como &#8220;the movie man&#8221;. Por cinco d\u00f3lares, ele vendia o DVD de &#8220;O Homem-Aranha&#8221; semana antes de estar dispon\u00edvel na Blockbuster, \u00e0s vezes enquanto ainda estava passando nos cinemas.<\/p>\n<p>Glover come\u00e7ou vendendo entre duzentos e trezentos DVDs por semana, frequentemente fazendo mais de mil d\u00f3lares em dinheiro. Comprou um segundo PC e outra torre de gravadores pra atender a demanda. Sabia que era ilegal, mas achava que n\u00e3o levantava suspeitas. Todas as transa\u00e7\u00f5es eram cara a cara, nada era registrado, e ele nunca depositava os ganhos no banco. Ele n\u00e3o vendia m\u00fasica, DVDs n\u00e3o eram feitos na f\u00e1brica da Universal, e ele estava certo de que seus clientes nunca haviam ouvido falar da Cena.<\/p>\n<p>A Cena construiu uma distin\u00e7\u00e3o entre a cultura de compartilhamento online de arquivos e contrabando visando o lucro. Os servidores eram vistos como algo permiss\u00edvel no mercado. Us\u00e1-los pra contrabando, ao contr\u00e1rio, era visto como uma viola\u00e7\u00e3o grave dos princ\u00edpios \u00e9ticos. Pior, sabia-se que atrairia a aten\u00e7\u00e3o da lei. &#8220;Kali&#8221; deixou claro que qualquer um com suspeita de vender material dos servidores seria expulso do grupo. Assim, pros membros mais participativos no RNS era algo em que se perdia dinheiro. Eles gastavam centenas de d\u00f3lares ao ano em CDs, e milhares em servidores e equipamento, n\u00e3o tinham esperan\u00e7a de retorno.<\/p>\n<p>Glover era uma exce\u00e7\u00e3o: ele sabia que n\u00e3o seria expulso assim do nada. Com os artista de <em>rap<\/em> da Universal em alta, &#8220;Kali&#8221; precisava de Glover.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>O Napster original durou apenas dois anos, mas no seu auge o servi\u00e7o diz ter tido mais de setenta milh\u00f5es de contas registradas, com usu\u00e1rios compartilhando mais de dois bilh\u00f5es de arquivos de MP3 ao m\u00eas. A pirataria musical se tornou pros dois primeiros milhares de usu\u00e1rios o que a experi\u00eancia com as drogas teria sido no final dos anos 1960: uma gera\u00e7\u00e3o com amplo desrespeito \u00e0s normas sociais e \u00e0s leis, com pouca preocupa\u00e7\u00e3o pras consequ\u00eancias. No final de 1999, a Recording Industry Association Of America (RIAA), a associa\u00e7\u00e3o de classe das gravadoras, processou o Napster, alegando que a empresa facilitava a viola\u00e7\u00e3o de direitos autorais em escala sem precedentes. Napster perdeu o processo, apelou, e perdeu de novo. Em julho de 2001, diante de uma ordem judicial, o Napster fechou as portas.<\/p>\n<p>Aquela vit\u00f3ria legal pouco teve efeito. Os antigos usu\u00e1rios do Napster viam o compartilhamento de arquivos pela Internet como uma prerrogativa ineg\u00e1vel, e em vez de voltar pras lojas de discos, eles foram pros bra\u00e7os dos similares do Napster, como o Kazaa e o Limewire. Em 2003, a ind\u00fastria se viu diante de sua maior queda no mercado, em mais de quinze por cento. As perdas continuaram pela pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>RIAA tentou reafirmar sua primazia nos direitos autorais. Mas a\u00e7\u00f5es civis contra servi\u00e7os <em>peer-to-peer<\/em> levaram anos atrav\u00e9s das v\u00e1rias cortes de apela\u00e7\u00e3o, e a pol\u00edtica da RIAA de processar individualmente os compartilhadores se mostrou um desastre. Pra algumas gravadoras, o congresso estadunidense parecia inclinado a ajudar. Harvey Geller, representando a Universal, passou anos tentando persuadir os legisladores por uma lei mais r\u00edgida de direitos autorais. &#8220;Os congressistas tendem a agradar seus eleitores&#8221;, disse Geller, &#8220;e havia mais eleitores roubando m\u00fasica do que vendendo&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 o vazamento foi visto de forma diferente. Ningu\u00e9m estava defendendo o contrabandista. Os vazadores aderiram a um r\u00edgido c\u00f3digo de sil\u00eancio. Os grupos da Cena foram a fonte de quase todos os novos lan\u00e7amentos dispon\u00edveis nas redes <em>peer-to-peer<\/em>, mas a maioria dos compartilhadores e usu\u00e1rios nem suspeitavam da sua exist\u00eancia. Tal briga legal seria imposs\u00edvel: ao contr\u00e1rio do Kazaa, o RNS n\u00e3o tinha endere\u00e7o comercial pra onde uma intima\u00e7\u00e3o pudesse ser enviada. Somente processos criminais poderiam funcionar.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Em janeiro de 2003, Glover vazou a estreia oficial de 50 Cent, &#8220;Get Rich Or Die Tryin'&#8221;, pra &#8220;Kali&#8221;. Se tornou o \u00e1lbum mais vendido nos Esteites naquele ano. Ele vazou tamb\u00e9m os discos de Jay Z, G Unit, Mary J. Blige, Big Tymers e Ludacris, e continuou no ano seguinte com o disco de estreia de Kanye West, &#8220;The College Dropout&#8221;. Depois de um susto, no qual Glover ficou preocupado que um lan\u00e7amento pudesse ser ligado a ele, o momento dos vazamentos se tornou mais e mais o foco da quest\u00e3o. Os vazamentos de Glover come\u00e7aram a bater na Internet duas semanas antes dos CDs chegarem \u00e0s lojas, nem t\u00e3o cedo que pudessem ser rastreados pela f\u00e1brica, nem t\u00e3o tarde a ponto do RNS ser ultrapassado por outros piratas.<\/p>\n<p>Em abril de 2004, o FBI e uma for\u00e7a-tarefa internacional identificaram uma centena de piratas. A unidade anti-pirataria da RIAA contava com investigadores que se infiltravam em salas de bate-papo da Cena e aprendiam sua linguagem. Eles tentaram entrar na Cena e rastrear o material vazado e sua dissemina\u00e7\u00e3o na Internet. Sua procura mostrou a eles um grupo incrivelmente poderoso, o RNS, e eles compartilharam seus achados com o FBI.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2004, um artigo na Rolling Stone, escrito por Bill Werde, apresentou o RNS ao p\u00fablico em geral. O t\u00edtulo da mat\u00e9ria era &#8220;CD Leaks Plague Record Biz&#8221; (&#8220;Vazamentos de CDs Assolam a Ind\u00fastria Fonogr\u00e1fica&#8221;). &#8220;Em um per\u00edodo de quatro dias, um grupo vazou CDs do U2, do Eminem e do Destiny Child&#8221;, era o que avisava o subt\u00edtulo da mat\u00e9ria. Segundo o livro &#8220;Como A M\u00fasica Ficou Gr\u00e1tis&#8221;, Witt diz que a equipe do <em>rapper<\/em> Eminen acreditava que o disco havia sido vazado ao ir pras distribuidoras, que levam os \u00e1lbuns das f\u00e1bricas de prensagem pra cadeias como o Wal-Mart. Mas a fonte estava errada. O CD vazado n\u00e3o viera da distribuidora, mas da pr\u00f3pria f\u00e1brica de prensagem. Viera de Dell Glover&#8221;.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois da mat\u00e9ria, Glover vazou &#8220;How To Dismantle An Atomic Bomb&#8221;, do U2.<\/p>\n<p>Com a maior aten\u00e7\u00e3o, &#8220;Kali&#8221; decidiu retirar dos arquivos NFO do grupo qualquer possibilidade de identifica\u00e7\u00e3o; a partir de agora, os arquivos s\u00f3 informavam a data que o disco havia sido ripado e a data que estava previsto pra chegar \u00e0s lojas.<\/p>\n<p>&#8220;Kali&#8221; achou melhor que o canal do RNS no IRC fosse mudado dos servidores p\u00fablicos do IRC pra um computador no Hava\u00ed. Ele instruiu membros a se comunicarem apenas atrav\u00e9s desse canal, que era encriptado, banindo bate-papos comuns, como da AOL. E reafirmou a proibi\u00e7\u00e3o contra pirataria f\u00edsica. Mas Glover recusou seguir as regras da Cena. Ele continuava acumulando CDs no seu arm\u00e1rio. N\u00e3o estava mais interessado em m\u00fasica, ou em ganhar pontos com algum grupo da Internet. S\u00f3 o que importavam eram os servidores. Quanto mais ele pudesse participar, mais filmes ele podia baixar e mais DVDs ele podia vender.<\/p>\n<p>Numa boa semana, Glover poderia vender trezentos discos, e fazer mil e quinhentos d\u00f3lares em grana. E come\u00e7ou a diversificar. No in\u00edcio de cada semana, deixava quatrocentos discos em cada um dos tr\u00eas barbeiros que ele confiava em Shelby. No final da semana, ele voltava e coletava sua parte, de seiscentos d\u00f3lares, por loja, totalizando mil e oitocentos d\u00f3lares. Seu melhor vendedor fazia mais grana vendendo filmes do que cortando cabelo. Ao ver os lucros de Glover subindo, outros contrabandistas seguiram pra seu territ\u00f3rio. Mas Glover era imbat\u00edvel, gra\u00e7as ao acesso que ele tinha aos filmes e novidades.<\/p>\n<p>Muitos dos melhores clientes de Glover trabalhavam na f\u00e1brica, e pra aqueles que ele confiava mais, separava os melhores neg\u00f3cios. Ao inv\u00e9s de pagar cinco d\u00f3lares por filme, o cliente podia pagar uma assinatura mensal de vinte d\u00f3lares e ter o filme que ele quisesse &#8211; ningu\u00e9m precisava dos discos mesmo&#8230; Glover tinha criado seu pr\u00f3prio servidor, e uma vez que voc\u00ea tivesse assinado o servi\u00e7o, podia baixar o que quisesse. Havia DVDs, as \u00faltimas c\u00f3pias de jogos, m\u00fasica, software, e mais. Na \u00e9poca, v\u00eddeo <em>on demand<\/em> era uma tecnologia do futuro, mas, se voc\u00ea conhecesse Glover, essa tecnologia j\u00e1 havia chegado. Ele estava administrando um Netflix pessoal de dentro da sua pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>Glover come\u00e7ou a fazer compras extravagantes. Ele comprou consoles de videogame e presentes pra seus amigos e familiares. Comprou uma moto <em>off-road<\/em>. Comprou um carro usado e colocou far\u00f3is de xenon e um aparelho de som caro.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Em 2005, o RNS vazou quatro dos cinco discos mais vendidos dos Esteites. O n\u00famero 1 e n\u00famero 2 foram ocupados por &#8220;The Emancipation Of Mimi&#8221;, da Mariah Carey; e &#8220;The Massacre&#8221;, do 50 Cent. Glover vazou os dois. Os vazamentos do RNS rapidamente chegaram \u00e0s redes de compartilhamento p\u00fablicas, e, em quarenta e oito horas do aparecimentos nos servidores da Cena, c\u00f3pias dos CDs pirateados podiam ser achados em iPods do mundo inteiro.<\/p>\n<p>Ao final de 2006, Glover havia vazado perto de dois mil CDs. Ele n\u00e3o tinha mais medo de ser pego. Universal havia vendido suas empresas de manufatura de CDs, o que permitiu \u00e0 companhia observar o deterioramento da m\u00eddia f\u00edsica de uma dist\u00e2ncia segura. Embora ainda com contrato pra prensar m\u00fasica pra Universal, o novo dono tratou a f\u00e1brica como algo sem futuro e parou de fazer manuten\u00e7\u00f5es. Os m\u00fasicos contratados da Universal reclamaram do vazamento de discos, mas a cadeia da gravadora estava insegura como sempre fora.<\/p>\n<p>Embora o RNS ainda fosse bem sucedido, muitos dos seus membros estava se desligando das atividades. Quando o grupo come\u00e7ou, em 1996, a maioria dos participantes era adolescente. Agora, beirava os trinta, e o glamour estava esvaecendo. Eles sa\u00edram de seus empregos em esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio universit\u00e1rias e encontraram terreno mais lucrativo no jornalismo musical, perdendo seus acessos a discos com antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouvir centenas de novos lan\u00e7amentos todos os anos pode levar a um certo tipo de cinismo. Todos os m\u00fasicos usavam Auto-Tune pra corrigir suas vozes; os compositores j\u00e1 copiavam seu \u00faltimo sucesso; os mesmos produtores trabalhavam nas mesmas faixas. Glover n\u00e3o se conectava com o <em>rap<\/em> da forma que costumava. Tony Dockery tinha renascido e s\u00f3 ouvia gospel. Simon Tai continuava pelo canal de bate-papo, mas ele n\u00e3o vazava mais discos havia anos. At\u00e9 mesmo &#8220;Kali&#8221; parecia entediado.<\/p>\n<p>Glover pensou em se retirar da Cena. Ele come\u00e7ou a vazar discos com vinte e poucos anos. Tinha agora trinta e dois. Tinha usado o mesmo corte de cabelo por dois anos, e vestido a mesma camiseta e jeans, mas sua ideia sobre si mesmo havia mudado. Ele n\u00e3o lembrava porque tinha atra\u00e7\u00e3o por motos, ou porque achava necess\u00e1rio ter uma arma. E achava a tatuagem da Morte um tanto est\u00fapida.<\/p>\n<p>Seus lucros com DVD come\u00e7aram a cair. Vazamentos da Cena estavam agora no dom\u00ednio p\u00fablico poucos segundos depois de chegar aos servidores, e at\u00e9 aqueles que n\u00e3o se davam t\u00e3o bem com tecnologia descobriam como baixar os filmes. Num par de anos, a renda do contrabandista Glover caiu pra algumas centenas de d\u00f3lares por semana.<\/p>\n<p>Glover falou sobre o que achava pra &#8220;Kali&#8221;. &#8220;Estamos fazendo essa merda por muito tempo&#8221;, disse ao telefone. &#8220;Nunca fomos pegos. Talvez seja hora de parar&#8221;. Surpreendentemente, &#8220;Kali&#8221; concordou. Embora a seguran\u00e7a da f\u00e1brica fosse cada vez menor, os riscos pros vazadores era grande. Entre a for\u00e7a-tarefa estrangeira, o FBI e a RIAA, havia um monte de equipe de investigadores trabalhando pra peg\u00e1-los. &#8220;Kali&#8221; j\u00e1 havia visto a for\u00e7a da lei funcionando. Alguns dos alvos das dilig\u00eancias de 2004 eram seus amigos, e ele foi visit\u00e1-los na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em janeiro de 2007, um dos servidores do RNS misteriosamente sumiu. O servidor, hospedado na Hungria, come\u00e7ou a recusar todas as conex\u00f5es, e a companhia que era dona n\u00e3o respondia. &#8220;Kali&#8221; mandou fechar o grupo. O \u00faltimo vazamento do RNS, lan\u00e7ado em 19 de janeiro de 2007, foi &#8220;Infinity On High&#8221;, do Fall Out Boy, pego de dentro da f\u00e1brica de Glover. Logo depois, o canal RNS foi fechado pra sempre.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Em poucos meses, Glover mais uma vez vazou CDs da f\u00e1brica, pra um cara que ele conheceu como &#8220;RickOne&#8221;, l\u00edder de um grupo da Cena chamado OSC. Embora n\u00e3o fosse mais rent\u00e1vel pra Glover, seu desejo por m\u00eddias gratuitas n\u00e3o diminuiu. &#8220;Saber que eu poderia jogar Madden dois meses antes de chegar \u00e0s lojas era pra mim o Para\u00edso&#8221;, disse me.<\/p>\n<p>&#8220;Kali&#8221; n\u00e3o estava disposto a desistir, tamb\u00e9m. Depois de fechar o RNS, ele continuou a vazar \u00e1lbuns, o que espantou at\u00e9 mesmo os veteranos da Cena. No ver\u00e3o de 2007, ele contatou Glover e lhe disse que havia dois vazamentos mais a fazer: novos discos do 50 Cent e Kanye West, ambos com a mesma data de lan\u00e7amento. Os <em>rappers<\/em> estavam competindo pra ver qual vendia mais, e a rixa havia sido capa da Rolling Stone. 50 Cent disse que se perdesse, se aposentaria.<\/p>\n<p>Mas, como &#8220;Kali&#8221; provavelmente sabia melhor que todo mundo, ambos os artistas eram distribu\u00eddos e promovidos pela Universal. O que parecia ser um briga do <em>hip-hop<\/em> das antigas era publicidade pra incrementar as vendas, e &#8220;Kali&#8221; estava determinado em se envolver nisso. RNS havia vazado todos os lan\u00e7amentos e vazar &#8220;Curtis&#8221;, do 50 Cent, e &#8220;Graduation&#8221;, do Kanye West, era uma quest\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento oficial estava marcado pra 11 de setembro de 2007, mas os discos foram primeiramente prensados na f\u00e1brica em agosto. Glover conseguiu-os na sua rede de contrabandistas e ouviu os dois. Glover curtiu ambos os discos, mas ele estava numa posi\u00e7\u00e3o pouco usual: ele tinha o poder de influenciar nessa briga. Se ele vazasse &#8220;Graduation&#8221; e segurasse &#8220;Curtis&#8221;, Kayne poderia vender menos discos. Mas se eles vazasse &#8220;Custis&#8221; e segurasse &#8220;Graduation&#8221;&#8230; bem, ele faria 50 Cent se aposentar.<\/p>\n<p>Glover decidiu que lan\u00e7aria um disco por &#8220;Kali&#8221; e outro por &#8220;RickOne&#8221;. Ofereceu ao segundo o disco de Kanye West. Em 30 de agosto de 2007, &#8220;Graduation&#8221; apareceu nos servidores da Cena, com OSC levando cr\u00e9dito pelo vazamento. Horas depois, um angustiado &#8220;Kali&#8221; liga pra Glover querendo saber o que tinha acontecido. Glover responde que n\u00e3o tinha visto o disco na f\u00e1brica ainda, mas que &#8220;Curtis&#8221; havia chegado. Em 4 de setembro de 2007, &#8220;Kali&#8221; lan\u00e7a &#8220;Curtis&#8221; na Cena.<\/p>\n<p>A Universal oficialmente lan\u00e7ou os discos em 11 de setembro. Apesar dos vazamentos, ambos venderam bem. &#8220;Curtis&#8221; vendeu mais de setecentas mil de c\u00f3pias na primeira semana, e &#8220;Graduation&#8221; perto de um milh\u00e3o. Kanye venceu, mesmo Glover tendo vazado seu disco antes. Ele havia acabado de fazer um experimento sobre os efeitos do vazamento nas vendas de m\u00fasica, um experimento que sugeria que, pelo menos nesse caso, um disco que foi vazado antes realmente se saiu melhor. Mas Glover estava feliz com o resultado. &#8220;Graduation&#8221; cresceu com ele. Ele gostou do disco de Kanye West, e achava que a vit\u00f3ria foi merecida. E 50 Cent n\u00e3o se aposentou afinal.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>No dia seguinte, Glover foi pro trabalho \u00e0s sete da noite, pra fazer um turno duplo, virando a noite. Terminou \u00e0s sete da manh\u00e3. Enquanto se preparava pra sair, um colega puxou-o de lado: &#8220;tem algu\u00e9m olhando sua caminhonete&#8221;.<\/p>\n<p>Glover, ent\u00e3o, \u00e0 luz da manh\u00e3, viu tr\u00eas homens no estacionamento. Assim que se aproximou do ve\u00edculo, tirou as chaves do bolso. Os homens olharam pra ele mas n\u00e3o se mexeram. Ele destravou a porta e s\u00f3 ent\u00e3o os homens apontaram suas armas e falaram pra ele colocar as m\u00e3os na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Os homens eram do da pol\u00edcia local. Avisaram que o FBI estava revistando a casa dele naquele momento.<\/p>\n<p>No jardim da frente, meia d\u00fazia de agentes do FBI, com coletes \u00e0 prova de bala, circulavam. A porta da casa havia sido aberta \u00e0 for\u00e7a, e agentes estavam carregando milhares de d\u00f3lares em tecnologia comprada ao longo dos anos. Ele encontrou um agente especial chamado Peter Vu esperando por ele l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>Vu, um veterano da ag\u00eancia, da divis\u00e3o de crimes digitais, levou anos procurando a fonte dos vazamentos que estavam afetando a ind\u00fastria da m\u00fasica. Seus esfor\u00e7os finalmente o levaram a essa casa normal, numa pequena cidade da Carolina do Norte. Ele se apresentou, e come\u00e7ou a pressionar Glover por informa\u00e7\u00e3o. Vu estava particularmente interessado em &#8220;Kali&#8221;, e Glover passou os detalhes dispersos que tinha acumulado ao longo dos anos. Mas Vu queria o nome real de &#8220;Kali&#8221;, e, embora Glover tivesse falado com ele por telefone centenas de vezes, ele n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>No dia seguinte, &#8220;Kali&#8221; ligou pra Glover. Estava agitado e nervoso. &#8220;Sou eu&#8221;, disse &#8220;Kali&#8221;. &#8220;Olha, acho que os federais est\u00e3o atr\u00e1s da gente&#8221;. <\/p>\n<p>Vu antecipou a possibilidade de tal chamada e instruiu Glover a agir como se nada tivesse acontecido. Glover teve sua chance. Ele poderia ficar mudo e deixar a investiga\u00e7\u00e3o seguir at\u00e9 &#8220;Kali&#8221;. Ou poderia avis\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8220;Chegou tarde&#8221;, disse Glover. &#8220;Eles me acharam ontem. Desligue&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ok, entendi&#8221;, disse &#8220;Kali&#8221;. E ent\u00e3o disse, &#8220;agrade\u00e7o por isso&#8221;, e desligou.<\/p>\n<p>Nos meses seguintes, o FBI fez muitas dilig\u00eancias, pegando &#8220;RickOne&#8221;, do OSC, e muitos membros do RNS. Tamb\u00e9m acharam um homem que acreditavam ser &#8220;Kali&#8221;, o homem que custou \u00e0 ind\u00fastria da m\u00fasica dezenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares e transformou o RNS no mais sofisticado sistema de pirataria da hist\u00f3ria: Adil R. Cassim, um jovem de vinte e nova anos, tecn\u00f3logo da informa\u00e7\u00e3o, que fumava maconha, ouvia <em>rap<\/em>, e vivia numa casa nos sub\u00farbios de Los Angeles com sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Em 9 de setembro de 2009, Glover chegou ao tribunal em Alexandria, Virginia, e foi indiciado por uma conspira\u00e7\u00e3o pra cometer delitos graves contra direitos autorais. Em seu indiciamento, Glover viu Adil Cassim pela primeira vez. Cassim estava com cabelos curtos e barba feita. Era pequeno, com uma consider\u00e1vel pan\u00e7a, e estava vestindo um terno preto.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois, Glover se declarou culpado da acusa\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o foi dif\u00edcil, mas Glover achava que suas chances de ser inocentado eram pequenas. Em troca de clem\u00eancia, ele topou testemunhar contra Cassim. O FBI precisava de ajuda; a ag\u00eancia tinha minunciosamente revistado a casa de Cassim, e um time forense inspecionou seu <em>laptop<\/em> e n\u00e3o encontrou m\u00fasica alguma. Cassim n\u00e3o admitia ser membro do RNS, embora duas pe\u00e7as de evid\u00eancia f\u00edsica sugeriam uma conex\u00e3o com o grupo. Uma delas era um disco gravado, contendo uma c\u00f3pia do curr\u00edculo de Cassim, no qual, na aba &#8220;Propriedades&#8221; do Microsoft Word, havia o nome do autor do documento, Kali. A outra era o celular de Cassim, que continha o n\u00famero de Glover. O nome nos contatos estava listado apenas como &#8220;D&#8221;.<\/p>\n<p>O julgamento de Cassim come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2010, e durou cinco dias. Glover testemunhou, como o fizeram outros membros confessos do RNS, al\u00e9m de alguns agentes do FBI e t\u00e9cnicos em computa\u00e7\u00e3o. Nos dez anos anteriores, o governo federal dos Esteites processou centenas de participantes da Cena, e ganhou quase todos os casos. Mas em 19 de mar\u00e7o de 2010, depois de um curto per\u00edodo de delibera\u00e7\u00e3o, o j\u00fari declarou Cassim inocente (<a href=\"http:\/\/arstechnica.com\/tech-policy\/2010\/03\/accused-prerelease-p2p-mastermind-acquitted-by-federal-jury\/\" target=\"_blank\">veja aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Depois do julgamento, Glover passou a se arrepender de sua decis\u00e3o de testemunhar e alegar culpa. Ele percebeu que talvez com uma defesa melhor ele pudesse tamb\u00e9m ser inocentado. Ele nunca teve certeza exata do estrago que os vazamentos causaram aos m\u00fasicos, e chegou a considerar como algo menor que um crime.<\/p>\n<p>&#8220;Veja o 50 Cent&#8221;, ele disse, &#8220;ele continua vivendo na casa de Mike Tyson. Ningu\u00e9m no mundo pode feri-lo&#8221;. E continua: &#8220;\u00e9 uma perda, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de publicidade&#8221;.<\/p>\n<p>No fim, Glover ficou tr\u00eas meses na pris\u00e3o. Tony Dockery tamb\u00e9m se declarou culpado e passou tr\u00eas meses na pris\u00e3o. Simon Tai nunca chegou a ser acusado de nada.<\/p>\n<p>Nas suas senten\u00e7as, os advogados dos Departamento de Justi\u00e7a escreveram: &#8220;RNS foi o mais infame e difundido grupo de pirataria da hist\u00f3ria, na Internet&#8221;. Em onze anos, RNS vazou mais de vinte mil discos. Durante boa parte desse tempo, o grupo teve em Glover seu melhor trunfo &#8211; mal havia uma pessoa com menos de trinta anos que n\u00e3o pudesse ligar sua cole\u00e7\u00e3o de m\u00fasica a ele.<\/p>\n<p>No dia em que a casa de Glover foi invadida, os agentes do FBI confiscaram seus computadores, suas torres de duplica\u00e7\u00e3o, seus discos r\u00edgidos e seu PlayStation. Eles levaram algumas imagens de discos que ele coletou durante anos, mas deixaram pra tr\u00e1s o arm\u00e1rio cheio de CDs &#8211; como evid\u00eancia, eles eram in\u00fateis.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-idade-dos-discos-de-estreia-ou-o-quanto-estamos-ficando-velhos\/\" title=\"A IDADE DOS DISCOS DE ESTREIA OU O QUANTO ESTAMOS FICANDO VELHOS\">A IDADE DOS DISCOS DE ESTREIA OU O QUANTO ESTAMOS FICANDO VELHOS<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/video-u2-the-miracle-of-joey-ramone\/\" title=\"V\u00cdDEO: U2 &#8211; THE MIRACLE (OF JOEY RAMONE)\">V\u00cdDEO: U2 &#8211; THE MIRACLE (OF JOEY RAMONE)<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/u2-e-as-cancoes-do-incomodo\/\" title=\"U2 E AS CAN\u00c7\u00d5ES DO INC\u00d4MODO\">U2 E AS CAN\u00c7\u00d5ES DO INC\u00d4MODO<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/u2-songs-of-innocence\/\" title=\"U2 &#8211; SONGS OF INNOCENCE\">U2 &#8211; SONGS OF INNOCENCE<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/video-u2-invisible\/\" title=\"V\u00cdDEO: U2 &#8211; INVISIBLE\">V\u00cdDEO: U2 &#8211; INVISIBLE<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Como A M\u00fasica Ficou Gr\u00e1tis &#8211; O Fim De Uma Ind\u00fastria, A Virada Do S\u00e9culo E o Paciente Zero Da Pirataria&#8221;. Esse \u00e9 o t\u00edtulo [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":42754,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363],"tags":[757,4],"class_list":["post-42749","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-eminem","tag-u2"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dellglover1.jpg?fit=540%2C300","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-b7v","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42749\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42754"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}