{"id":43706,"date":"2015-10-16T00:59:19","date_gmt":"2015-10-16T03:59:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=43706"},"modified":"2016-12-08T22:32:38","modified_gmt":"2016-12-09T00:32:38","slug":"a-fabrica-sueca-de-sucessos-pop","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-fabrica-sueca-de-sucessos-pop\/","title":{"rendered":"A F\u00c1BRICA SUECA DE SUCESSOS POP"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"43709\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-fabrica-sueca-de-sucessos-pop\/maxmartin1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"maxmartin1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin1.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"maxmartin1\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-43709\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin1.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>John Seabrook escreve pra The New Yorker desde 1989. Escreveu tr\u00eas livros antes desse &#8220;The Song Machine&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.amazon.com.br\/The-Song-Machine-Inside-Factory\/dp\/0393241920\" target=\"_blank\">compre aqui<\/a>), que foi lan\u00e7ado em outubro de 2015 nos Esteites (no Brasil, ainda nada). O mais importante deles era &#8220;Nobrow: The Culture Of Marketing, The Marketing Of Culture&#8221;, de 2000.<\/p>\n<p>Era. Porque com &#8220;The Song Machine&#8221;, Seabrook esmiu\u00e7ou a hist\u00f3ria de um personagem interessant\u00edssimo: Karl Martin Sandberg, o sueco que atende pelo nome de Max Martin e que \u00e9 autor de v\u00e1rios n\u00fameros 1 das paradas estadunidenses de m\u00fasica, de Britney Spears a Backstret Boys, passando por Taylor Swift, Avril Levigne, Katy Perry, Kelly Clarkson etc.<\/p>\n<p>Martin nasceu em Estocolmo, a capital da Su\u00e9cia, em 26 de fevereiro de 1971 e \u00e9, biologicamente, bem mais velho que &#8220;suas&#8221; estrelas, embora n\u00e3o seja exatamente um senhor de idade.<\/p>\n<p>Seabrook conta no livro como Martin aproveitou o ambiente favor\u00e1vel da sociedade igualit\u00e1ria sueca &#8211; e da desigual nos Estados Unidos &#8211; pra prosperar no universo concorrid\u00edssimo da m\u00fasica pop. Um f\u00e3 o Kiss e de <em>glam-rock<\/em>, que tamb\u00e9m gostava de Depeche Mode e Bangles, um trabalhador fervoroso, que sabe ler e escrever partituras, que toca v\u00e1rios instrumentos, que teve uma banda vergonhosa, e que, por fim, \u00e9 um dos caras mais ricos do <em>mainstream<\/em>, sem que os f\u00e3s sequer saibam muito bem de quem se trata.<\/p>\n<p>Pra The New Yorker, Seabrook escreveu um artigo marcando a chegada do livro ao mercado. Mais uma vez, o <strong>Floga-se<\/strong> foi l\u00e1 e se apropriou do artigo, traduzindo-o sem autoriza\u00e7\u00e3o (aproveite pra ler, j\u00e1 que podem pedir pra tirarmos do ar &#8211; ou leia o original, que certamente \u00e9 mais rico em estilo). No artigo, d\u00e1 pra se ter uma ideia do personagem fascinante que Martin \u00e9.<\/p>\n<p>A gente pode n\u00e3o gostar das m\u00fasicas dele, nem de &#8220;suas&#8221; estrelas. Mas n\u00e3o se pode negar o fato de que ele e seus m\u00e9todos mudaram a forma como a m\u00fasica pop \u00e9 feita e formatada, sendo isso bom ou ruim, voc\u00ea \u00e9 que julga. Pelo o que Seabrook clama, s\u00e3o m\u00e9todos que ainda v\u00e3o perdurar por um bom tempo. Martin fez, al\u00e9m de m\u00fasica, escola. A Su\u00e9cia continuar\u00e1 no topo por um longo, vibrante e dan\u00e7ante inverno.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"43710\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-fabrica-sueca-de-sucessos-pop\/maxmartin2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin2.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"maxmartin2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin2.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin2.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"maxmartin2\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-43710\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin2.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin2.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><strong>QUE TIPO DE G\u00caNIO \u00c9 MAX MARTIN?<\/strong><br \/>\n<em>Texto: John Seabrook<br \/>\nPublicado originalmente na revista The New Yorker, em 30 de setembro de 2015 (<a href=\"http:\/\/www.newyorker.com\/culture\/cultural-comment\/blank-space-what-kind-of-genius-is-max-martin\" target=\"_blank\">leia aqui o original<\/a>)<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Floga-se<\/em><\/p>\n<p>Entre os aspectos mais estranhos da hist\u00f3ria recente da m\u00fasica pop est\u00e1 no fato de que muitos dos maiores sucessos dos \u00faltimos vinte anos &#8211; do Backstreet Boys, &#8216;NSync e Britney Spears a Katy Perry, Taylor Swift e a Weeknd &#8211; foram co-escritos por um sueco de quarenta e quatro anos de idade. Seu verdadeiro nome \u00e9 Karl Martin Sandberg, mas voc\u00ea deve conhec\u00ea-lo como Max Martin. Ele \u00e9 m\u00e1gico das melodias, o mestre respons\u00e1vel por vinte e um &#8220;n\u00fameros 1&#8221; da Billboard, cinco a menos do que John Lennon, e onze atr\u00e1s de Paul McCartney, numa lista dos maiores de todos os tempos. Mas, enquanto Lennon e McCartney s\u00e3o universalmente reconhecidos como g\u00eanios, poucos fora do neg\u00f3cio da m\u00fasica j\u00e1 ouviram falar de Max Martin.<\/p>\n<p>Presumivelmente, \u00e9 porque Martin escreve todas as suas m\u00fasicas pra outras pessoas cantarem. A fama que Lennon e McCartney alcan\u00e7aram com seu trabalho nunca vai ser igual pra Martin, mas sem d\u00favida est\u00e1 tudo bem pra ele. Ele \u00e9 o Cyrano de Bergerac do cen\u00e1rio pop de hoje, o poeta escondido debaixo da varanda da can\u00e7\u00e3o popular, sussurrando as m\u00fasicas que se tornaram discos fazedores de carreiras, como &#8220;&#8230;Baby One More Time&#8221;, pra Britney Spears; &#8220;Since U Been Gone&#8221;, pra Kelly Clarkson; e &#8220;I Kissed A Girl&#8221;, pra Katy Perry. As m\u00fasicas que ele co-escreveu ou co-produziu pra Taylor Swift, que incluem seus \u00faltimos oito sucessos (tr\u00eas de &#8220;Red&#8221;, e cinco de &#8220;1989&#8221;), fizeram ela se transformar de uma popular cantora-e-compositora em uma estrela pop mundial, de encher est\u00e1dios (a turn\u00ea de &#8220;1989&#8221; recentemente passou a marca de cento e cinquenta milh\u00f5es de d\u00f3lares).<\/p>\n<p>Martin prosperou nessa de ser <em>ghostwriter<\/em>, onde o truque \u00e9 permanecer an\u00f4nimo o m\u00e1ximo poss\u00edvel, porque o p\u00fablico gosta de acreditar que os artistas pop escrevem suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es. Que o sueco consiga excepcionalmente colocar na mesa sua capacidade de <em>Jantelagen<\/em>, torna-o especialmente adequado \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o (N.E.: Jantelagen refere-se \u00e0 &#8220;Lei de Jante&#8221;, criada pelo dinamarqu\u00eas Aksel Sandemose, em seu romance &#8220;En Flygtning krydser&#8221;, de 1933. No livro, Sandemose criou uma cidade no interior da Dinamarca, Jante, onde ele mostra que \u00e9 imposs\u00edvel permanecer-se an\u00f4nimo numa \u00e1rea com poucos habitantes. H\u00e1 dez regras pra se seguir quando se quer continuar an\u00f4nimo, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lei_de_Jante\" target=\"_blank\">veja aqui, resumidas numa frase: &#8220;n\u00e3o pense que voc\u00ea \u00e9 especial ou que voc\u00ea \u00e9 melhor do que n\u00f3s&#8221;<\/a>. Os dinamarqueses levam essas regras como um modo de vida).<\/p>\n<p>Ainda assim, mesmo pra um n\u00f3rdico, \u00e9 um poderoso ato de abnega\u00e7\u00e3o renunciar ao prazer (e, sim, \u00e0 fama e adula\u00e7\u00e3o) de gravar suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es, e dar todas as suas belas m\u00fasicas pra outras pessoas cantarem e conquistarem a fama. Essa escolha \u00e9 especialmente dif\u00edcil quando voc\u00ea mesmo possui uma bela voz, como a de Martin. Como um dos seus primeiros colaboradores, o artista sueco E-Type, diz em &#8220;The Cheiron Saga&#8221;, um document\u00e1rio de 2008, de uma r\u00e1dio sueca, sobre Martin e seus ex-colegas do Cheiron Studios, em Estocolmo: &#8220;com suas pr\u00f3prias demos, Max Martin cantando, poderia ter vendido dez milh\u00f5es ou mais, mas ele n\u00e3o era um artista; ele n\u00e3o queria ser um artista&#8221;. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tuy8xTjDz5w\" target=\"_blank\">Veja um trecho do document\u00e1rio aqui<\/a>.<\/p>\n<p>E, no entanto, Martin \u00e9 conhecido por insistir que os artistas com quem trabalha cantem suas can\u00e7\u00f5es exatamente do jeito que ele canta nas demos. Em certo sentido, Britney Spears, Katy Perry, e Taylor Swift est\u00e3o todas fazendo coveres das grava\u00e7\u00f5es de Max Martin. Elas tamb\u00e9m est\u00e3o entre as poucas pessoas no mundo que realmente ouviram os originais. Incont\u00e1veis artistas amadores cantam no YouTube essas can\u00e7\u00f5es de Max Martin, mas n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico v\u00eddeo ou grava\u00e7\u00e3o de \u00e1udio \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico de Martin executando seu pr\u00f3prio material &#8211; enquanto pesquisava pro meu livro &#8220;The Machine Song&#8221;, ouvi uma demo de Max Martin, de &#8220;&#8230; Baby One More Time&#8221;, quando uma fonte que tinha a original em seu telefone tocou pra mim. O sueco soava exatamente como Spears. As demos de Martin s\u00e3o os originais perdidos da nossa era musical &#8211; o espa\u00e7o em branco no centro das duas \u00faltimas d\u00e9cadas da m\u00fasica pop.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Sandberg nasceu em Stenhamra, um sub\u00farbio de Estocolmo, em 1971. Seu pai era policial. Mais tarde, ele recordou o punhado de grava\u00e7\u00f5es que seus pais tinham em sua cole\u00e7\u00e3o: &#8220;Captain Fantastic&#8221;, de Elton John; as melhores do Queen e do Creedence Clearwater Revival; &#8220;aquele dos Beatles, onde eles olham pra baixo de uma varanda&#8221;, &#8220;As Quatro Esta\u00e7\u00f5es&#8221;, de Vivaldi; e &#8220;Eine Kleine Nachtmusik&#8221;, de Mozart. Coloque tudo isso junto e voc\u00ea tem Max Martin.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais velho de Sandberg era um f\u00e3 de <em>glam-rock<\/em>, e &#8220;ele trouxe pra casa velhos cassetes do Kiss&#8221;, lembrou, em uma entrevista de 2001 pra revista Time, que foi a primeira e \u00faltima vez que ele participou de um perfil em l\u00edngua inglesa. Ouvir essas fitas fez o jovem Karl Martin Sandberg querer ser uma estrela do rock. &#8220;Eu era <em>hard rock<\/em> naquela \u00e9poca, e n\u00e3o escutava nada, al\u00e9m do Kiss&#8221;, disse ao documentarista sueco Fredrik Eliasson, em &#8220;The Cheiron Saga&#8221;. &#8220;Quero dizer, nada al\u00e9m de Kiss. Era como se pertenc\u00eassemos a um culto: se voc\u00ea ouvisse mais alguma coisa, ent\u00e3o, em princ\u00edpio, voc\u00ea estava sendo um infiel&#8221;.<\/p>\n<p>Sandberg aprendeu m\u00fasica atrav\u00e9s de excelentes programas de educa\u00e7\u00e3o musical patrocinados pelo Estado da Su\u00e9cia, recebendo aulas particulares gratuitas de trompa &#8211; trinta por cento dos alunos suecos participam de programas p\u00fablicos extra-curriculares pra aprender m\u00fasica. &#8220;Primeiro, comecei com o gravador em nossa escola de m\u00fasica da comunidade&#8221;, lembrou. &#8220;Depois, toquei trompa e participei da orquestra da escola. Eu me lembro que comecei a tocar metais n\u00e3o tanto porque tinha uma voca\u00e7\u00e3o, mas porque pensei que era bacana&#8221;. Depois, ele se mudou pra bateria, e ent\u00e3o pro teclado. Ele credita ao sistema de educa\u00e7\u00e3o musical da Su\u00e9cia o seu sucesso, diz a Eliasson: &#8220;eu n\u00e3o estaria neste lugar hoje se n\u00e3o fosse pela escola p\u00fablica de m\u00fasica&#8221;.<\/p>\n<p>Em meados dos anos oitenta, Sandberg se tornou o l\u00edder e principal compositor de uma banda de <em>glam-metal<\/em> chamado It&#8217;s Alive, adotando o nome art\u00edstico Martin White. No v\u00eddeo pra uma can\u00e7\u00e3o do grupo, &#8220;Pretend I&#8217;m God&#8221;, Sandberg\/White interpreta Jesus e decreta uma pseudo-crucifica\u00e7\u00e3o, fazendo a seu melhor imita\u00e7\u00e3o Ozzy Osbourne. Enquanto a m\u00fasica pode ser considerado uma obra juvenil, ela ao menos explica porque o metal oitentista parece se esconder sob a superf\u00edcie de muitos dos sucessos pop de hoje.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/64znOMEwvWk\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mas Sandberg tinha um terr\u00edvel segredo, que ele n\u00e3o podia compartilhar com o resto da banda. Amava m\u00fasica pop. Em casa, escutava &#8220;Just Can&#8217;t Get Enough&#8221;, do Depeche Mode, e &#8220;Eternal Flame&#8221;, das Bangles, que mais tarde ele disse \u00e0 Time era a favorita de todos os tempos. &#8220;N\u00e3o podia admitir pros meus amigos que eu gostava&#8221;, disse ele.<\/p>\n<p>Em 1994, ele conheceu seu mentor, um DJ sueco chamdo Denniz PoP e co-fundador da Cheiron Studios &#8211; seu nome verdadeiro era Dag Krister Volle; amigos o chamavam de Dagge. Denniz percebeu que os talentos de Sandberg estavam em compor, n\u00e3o em ser artista, e mostrou-lhe como usar o est\u00fadio. Denniz havia produzido os grandes sucessos do Ace of Base, &#8220;All That She Wants&#8221; e &#8220;The Sign&#8221;; um dos primeiros cr\u00e9ditos de produ\u00e7\u00e3o de Sandberg foi em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wh-07BzfgYY\" target=\"_blank\">&#8220;Beautiful Life&#8221;, sucesso final do grupo<\/a>. Nesse momento, seu mentor j\u00e1 havia lhe dado outro nome, Max Martin, um nome <em>disco<\/em> esquec\u00edvel e mon\u00f3tono, que \u00e9 quase t\u00e3o ruim quanto Denniz PoP.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio Denniz, que n\u00e3o escrevia nem tocava nada, Martin sabia teoria e nota\u00e7\u00e3o musical. &#8220;Martin foi muito bem educado; ele podia ler as notas, escrever partituras e fazer arranjos musicais&#8221;, o parceiro E-Type diz, em &#8220;The Cheiron Saga&#8221;. &#8220;Dagge dizia: &#8216;precisamos de uma nova influ\u00eancia; ent\u00e3o, Martin, fa\u00e7a algo bacana, enquanto E-Type e eu vamos comer um sushi&#8217;. Voltamos e ouvimos algo t\u00e3o lindo que ambos quase ca\u00edmos pra tr\u00e1s&#8221;.<\/p>\n<p>Martin trabalhou com a teoria; Denniz, com a emo\u00e7\u00e3o. &#8220;Dagge foi impulsionado por seus instintos&#8221;, E-Type diz no document\u00e1rio. &#8220;Se havia algo que funcionava, bem, ent\u00e3o, isso era o que ele fazia, sempre. Martin foi o m\u00fasico, e ele ficou em torno dos princ\u00edpios <em>funk<\/em>, e com essas habilidades foi capaz de dar um passo al\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo foi dado por uma <em>boy band<\/em> que era desconhecida na \u00e9poca, os Backstreet Boys. As m\u00fasicas que Martin escreveu para eles, incluindo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kHBXPoJhnHQ\" target=\"_blank\">&#8220;We&#8217;ve Got It Goin&#8217; On&#8221; (ou\u00e7a aqui)<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=aBt8fN7mJNg\" target=\"_blank\">&#8220;Show Me The Meaning Of Being Lonely&#8221; (ou\u00e7a aqui)<\/a>, e a atemporal <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4fndeDfaWCg\" target=\"_blank\">&#8220;I Want It That Way&#8221; (ou\u00e7a aqui)<\/a>, fizeram o grupo ficar mundialmente famoso. Eles tamb\u00e9m criaram um modelo pro &#8220;som Max Martin&#8221;, que combina acordes pop e texturas do ABBA, estrutura e din\u00e2micas das can\u00e7\u00f5es de Denniz PoP, grandes coros do rock de arena dos anos oitenta, e <em>grooves<\/em> do R&#038;B estadunidense do come\u00e7o dos anos noventa. No topo de tudo isso, o dom de Sandberg pra melodia, que deve tanto \u00e0 f\u00e1bula musical <em>dark<\/em> norueguesa de Edvard Grieg, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dRpzxKsSEZg\" target=\"_blank\">&#8220;In The Hall Of The Mountain King&#8221;<\/a> (tamb\u00e9m conhecida como a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=joLraa4ln_c\" target=\"_blank\">m\u00fasica-tema do desenho &#8220;Inspetor Bugiganga&#8221;<\/a>), como a qualquer influ\u00eancia contempor\u00e2nea. Como muitas das m\u00fasicas do ABBA, estas can\u00e7\u00f5es do Backstreet Boys usam grandes e pequenas cordas em combina\u00e7\u00f5es surpreendentes (indo pra um acorde menor no refr\u00e3o, digamos, quando voc\u00ea menos espera), produzindo can\u00e7\u00f5es felizes que soam tristes e can\u00e7\u00f5es tristes que fazem voc\u00ea  feliz &#8211; can\u00e7\u00f5es que servem uma grande variedade de estados de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Talvez a maior vantagem que Sandberg e seus colegas suecos tiveram foi a relativa liberdade de encarar, fora das bases raciais, as distin\u00e7\u00f5es de longa data entre o R&#038;B estadunidense e o pop. Rhythm &#038; blues, um termo cunhado pelo co-fundador da Atlantic Records, Jerry Wexler, quando ele era escritor da Billboard, nos anos cinquenta, substituiu a categoria francamente racista de &#8220;race records&#8221;, mas a distin\u00e7\u00e3o baseada em ra\u00e7a subjacente manteve-se: R&#038;B era a m\u00fasica por e pras pessoas negras, considerando que os artistas brancos eram &#8220;pop&#8221;, mesmo que a m\u00fasica deles devesse enormemente ao R&#038;B. Um compositor estadunidense branco que compusesse can\u00e7\u00f5es R&#038;B n\u00e3o era prov\u00e1vel que fosse muito longe na cena <em>pop-music<\/em> dos EUA, mas um escritor sueco, livre do legado racista da dicotomia R&#038;B-pop, poderia criar m\u00fasica que combinasse com ambos, e isso foi exatamente o que Martin fez. O h\u00edbrido resultante, pode-se argumentar, tornou-se o som dominante no Top Quarenta das r\u00e1dios de hoje. A readequa\u00e7\u00e3o recente da marca pop da SiriusXM (<em>empresa estadunidense de radiodifus\u00e3o via sat\u00e9lite<\/em>), o seu canal Venus, que agora toca &#8220;rhythmic pop&#8221; (R&#038;P?), \u00e9 apenas uma medida dessa transforma\u00e7\u00e3o liderada pelo sueco.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Os Backstreet Boys estavam na Jive Records, gravadora fundada pelo recluso sul-africano Clive Calder, que \u00e9, e no futuro pr\u00f3ximo vai ser, o homem mais rico que a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica j\u00e1 produziu &#8211; ele conseguiu da Jive e da Zomba, sua editora, algo perto de tr\u00eas bilh\u00f5es de d\u00f3lares, em 2002. Assim, quando, em 1997, a Jive assinou com uma jovem chamada Britney Spears e estava \u00e0 procura de can\u00e7\u00f5es pop dan\u00e7\u00e1veis, ele naturalmente pensou em Max Martin.<\/p>\n<p>Como se viu, Martin fez uma can\u00e7\u00e3o pra Spears. Ele a tinha composto com Rami Yacoub, um <em>beatmaker<\/em> sueco-marroquino que era parte da equipe do Cheiron. A can\u00e7\u00e3o, inicialmente chamada de &#8220;Hit Me Baby (One More Time),&#8221; tinha sido escrito pro TLC, o trio feminino de R&#038;B. Quando Martin enviou ao TLC uma demo, que contou com o sueco fazendo ele mesmo os vocais, o trio rejeitou. Anos mais tarde, T-Boz, a l\u00edder do grupo, lembrou da decis\u00e3o em uma entrevista pra MTV: &#8220;eu estava tipo, eu gosto da m\u00fasica, mas ser\u00e1 que \u00e9 um sucesso? Ser\u00e1 que \u00e9 TLC? Eu ia dizer, &#8216;Hit me, baby, one more time&#8217;? De jeito nenhum!&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Max, naquele momento de sua carreira, achava que estava escrevendo um R&#038;B&#8221;, disse-me Steve Lunt, o diretor de elenco da Jive, homem que foi designado pro projeto Spears. &#8220;Bom, na realidade, ele estava escrevendo uma m\u00fasica pop sueca. Foi ABBA com um <em>groove<\/em>, basicamente&#8221;. H\u00e1 um baixo <em>funkeado<\/em> na can\u00e7\u00e3o que soa urbano, e na demo Martin faz aquele lance <em>cowboy<\/em>, &#8220;owww&#8221;, que ficou famoso com Cameo e amado por Denniz PoP. &#8220;Mas todos esses acordes s\u00e3o t\u00e3o europeus, como isso poderia ser uma can\u00e7\u00e3o R&#038;B estadunidense?&#8221;, continuou Lunt. &#8220;Nenhum artista negro iria cant\u00e1-la&#8221;. Ele acrescentou: &#8220;Mas isso era o g\u00eanio de Max Martin. Sem estar plenamente consciente disso, ele forjou um som brilhante todo seu, e dentro de algumas semanas, cada produtor estadunidense estava desesperadamente lutando para imit\u00e1-lo&#8221;.<\/p>\n<p>Quando TLC rejeitou a can\u00e7\u00e3o, Martin ofereceu a Robyn, o artista sueco, mas n\u00e3o rolou tamb\u00e9m. Ap\u00f3s a reuni\u00e3o Spears em Nova York, ele voltou a Estocolmo, trabalhou na m\u00fasica um pouco mais, pra mold\u00e1-la pra Spears, fez uma c\u00f3pia, e enviou por correio pra Jive &#8211; embora sua carreira como int\u00e9rprete estivesse acabada, Martin ainda parecia Martin White, o l\u00edder <em>glam-metal<\/em>, e sua apar\u00eancia inicialmente espantou Spears, que disse: &#8220;pensei que ele era do M\u00f6tley Cr\u00fce ou algo assim&#8221;. Todo o ganchos na can\u00e7\u00e3o foram trabalhados at\u00e9 seu estado final, mas a maioria dos versos estavam inacabados, muitas vezes simples sons de vogais. N\u00e3o havia <em>bridge<\/em> ainda, porque, como Lunt apontou, &#8220;Max dizia: &#8216;se voc\u00ea n\u00e3o gostar da m\u00fasica no momento, foda-se&#8217; &#8211; em seu jeito sueco educado, \u00e9 claro&#8221;. Quando a demo chegou \u00e0 Jive, todos pensaram, &#8220;puta merda, isso \u00e9 perfeito&#8221;, de acordo com Lunt.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C-u5WLJ9Yk4\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Hit Me Baby (One More Time)&#8221; \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o sobre obsess\u00e3o, e leva dois segundos pra te pegar, n\u00e3o uma, mas duas vezes, primeiro com o triplo balan\u00e7o &#8220;Da nah nah&#8221; e, em seguida, com aquele rosnado sedutor que Spears emite, no primeiro verso (seguindo o rastro vocal de Martin): &#8220;Oh, baby, bay-bee&#8221;. Ent\u00e3o a batida <em>funky<\/em> de Cheiron entra, com tambores que soam como granadas de percuss\u00e3o. Em seguida, vem linhas de guitarra <em>wah-wah<\/em> de Tomas Lindberg, que sinalizam pra um <em>disco hater<\/em> que ele pode relaxar: \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de rock, apesar de tudo.<\/p>\n<p>E, ainda, o gancho vocal, irresist\u00edvel como era, soou estranho. Voc\u00ea n\u00e3o estava certo de que era ok cant\u00e1-la em voz alta. Era dif\u00edcil imaginar que qualquer pessoa pra quem o ingl\u00eas \u00e9 a primeira l\u00edngua iria escrever a frase &#8220;Hit me, baby&#8221;, sem pretender ser uma alus\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica ou ao sadomas\u00f4. Isso era algo impensado pras mentes gentis suecas, que s\u00f3 estavam tentando usar linguagem instant\u00e2nea, de f\u00e1cil compreens\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o. A Jive, preocupada que os estadunidenses pudessem entender mal, mudou o t\u00edtulo pra &#8220;&#8230;Baby One More Time&#8221;.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o foi a primeira de Martin a chegar ao n\u00famero 1 da Billboard. &#8220;Eu realmente n\u00e3o acho que sacamos o que t\u00ednhamos feito&#8221;, diz ele em &#8220;The Cheiron Saga&#8221;. &#8220;Na verdade, eu me lembro daquele momento espec\u00edfico; de sentar no est\u00fadio quando me ligaram pra me dizerem que minha m\u00fasica tinha chegado ao n\u00famero 1 nos EUA e foi incr\u00edvel, mas eu tamb\u00e9m me lembro que tinha tanta coisa pra fazer naquele momento, ent\u00e3o, eu realmente n\u00e3o saquei o significado disso&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Embora Martin possa ser <em>sui generis<\/em>, ele n\u00e3o \u00e9 de forma alguma o \u00fanico disc\u00edpulo de Denniz PoP a chegar ao topo das paradas. Outros, incluindo Andreas Carlsson, J\u00f6rgen Elofsson e Per Magnusson, tamb\u00e9m t\u00eam longo hist\u00f3rico de acessos; eles t\u00eam sido especialmente bem sucedidos com <em>boy bands<\/em> brit\u00e2nicas. De acordo com Marie Ledin, o diretor-gerente do Polar Music Prize, o Nobel musical da Su\u00e9cia, compositores e produtores suecos foram parcialmente respons\u00e1veis por um quarto de toda a Billboard Top Ten Hits em 2014, um feito surpreendente pra um pa\u00eds de menos de dez milh\u00f5es de pessoas. Claramente, h\u00e1 mais trabalho aqui do que genialidade individual. Al\u00e9m de sistema de educa\u00e7\u00e3o musical do pa\u00eds, quais qualidades e caracter\u00edsticas fazem os suecos t\u00e3o bons em produzir can\u00e7\u00f5es pop?<\/p>\n<p>De um modo geral, h\u00e1 um elemento mel\u00f3dico fluindo em can\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas suecas e hinos (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bJ4rpH4wLMQ\" target=\"_blank\">o hino nacional, &#8220;Du Gamla, Du Fria&#8221;, soa um pouco como uma can\u00e7\u00e3o pop<\/a>) que se enraizou na sensibilidade de muitos por l\u00e1. Mais especificamente, o relativo conhecimento em inform\u00e1tica da popula\u00e7\u00e3o, combinado com excelente infra-estrutura de banda larga do pa\u00eds, permitiu aos suecos se sobressa\u00edrem em fazer m\u00fasica em computadores, e colaborando com outros compositores pela Internet, que tornou-se o m\u00e9todo padr\u00e3o de escrever m\u00fasica pop hoje. Some a isso a xenofilia sueca &#8211; seu amor por outras culturas, em especial as anglo-americanas. Na Su\u00e9cia, a TV estadunidense n\u00e3o \u00e9 traduzida pra l\u00edngua local, como \u00e9 na Fran\u00e7a e na It\u00e1lia, por exemplo, e a m\u00fasica que voc\u00ea ouve no r\u00e1dio \u00e9 mais prov\u00e1vel que seja cantada em ingl\u00eas do que em sueco. Mais de noventa por cento dos suecos falam ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo que saber ingl\u00eas \u00e9 claramente uma vantagem pra compositores e produtores que buscam sucesso nos EUA e no Reino Unido, a falta de maneio com os pontos mais delicados da l\u00edngua \u00e9 igualmente importante. Escritores suecos n\u00e3o s\u00e3o craques em met\u00e1fora, ou duplo sentido e afins, quando escrevem em ingl\u00eas. Eles est\u00e3o mais inclinados em fazer caber as s\u00edlabas com os sons &#8211; um m\u00e9todo de trabalho que Martin chama de &#8220;matem\u00e1tica mel\u00f3dica&#8221; &#8211; e n\u00e3o se preocupam muito sobre se as linhas resultantes fazem sentido &#8211;  os versos em &#8220;I Want It That Way&#8221;, por exemplo, contradizem completamente o significado das linhas de refr\u00e3o. F\u00e3s de Cole Porter podem ver esse desenvolvimento em mais ou menos no mesmo esp\u00edrito que os f\u00e3s de &#8220;Downton Abbey&#8221; podem ver &#8220;Keeping Up With The Kardashians&#8221; &#8211; com horror &#8211; mas pode-se argumentar que esta mesma liberdade de ter que fazer sentido poeticamente permitiu aos suecos subir a tais alturas mel\u00f3dicas.<\/p>\n<p>Finalmente, enquanto a Su\u00e9cia tem uma forte cultura de composi\u00e7\u00e3o, carece de uma igualmente forte cultura de artistas, de \u00eddolos. Klas \u00c5hlund, um compositor e produtor sueco de sucesso em seus quarenta anos, que tamb\u00e9m \u00e9 um artista (no grupo de rock Teddybears), me disse: &#8220;os suecos s\u00e3o muito musicais, e eles gostam de escrever can\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 um pa\u00eds grande, e tem muito poucas pessoas nele. Ent\u00e3o voc\u00ea tinha esses fazendeiros que eram bons em escrever can\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m pra cant\u00e1-las. Compor era apenas uma coisa que voc\u00ea faz quando est\u00e1 olhando vacas, uma esp\u00e9cie de medita\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o se concentrou tanto em sua capacidade como <em>performer<\/em> como voc\u00ea fez com a estrutura das can\u00e7\u00f5es. O que n\u00e3o \u00e9 realmente o caso em os EUA, onde o seu charme e sua voz e os seus poderes como <em>performer<\/em> surgem imediatamente&#8221;.<\/p>\n<p>Uma na\u00e7\u00e3o de compositores dotados de dons mel\u00f3dicos, meticulosos sobre o of\u00edcio, mas relutantes em performar suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma mina de ouro potencial pra uma na\u00e7\u00e3o de estrelas <em>wannabe pop<\/em> que n\u00e3o escreve seu pr\u00f3prio material, e que \u00e9 frequentemente o caso dos EUA. Unindo os dois pa\u00edses, musicalmente falando, Martin e seus colegas mudaram o jeito de fazer m\u00fasica pop.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>O legado de Martin deve ser medido n\u00e3o s\u00f3 pelo n\u00famero de sucessos que ele e seus colegas suecos criaram, mas tamb\u00e9m pelos m\u00e9todos de composi\u00e7\u00e3o que incutiram em todo o mundo &#8211; muitas can\u00e7\u00f5es K-pop s\u00e3o o resultado de colabora\u00e7\u00f5es entre equipes de composi\u00e7\u00e3o coreanas e suecas. Um importante papel da vis\u00e3o de Denniz PoP pra Qu\u00edron era que compor devia ser um esfor\u00e7o colaborativo; ningu\u00e9m deveria ser propriet\u00e1rio do trabalho, e Martin passou estes princ\u00edpios pra duas gera\u00e7\u00f5es de compositores. Compositores assumem diferentes pap\u00e9is no trabalho de fazer a m\u00fasica; coros podem ser tirados de uma can\u00e7\u00e3o e experimentados em outra; uma <em>bridge<\/em> pode ser trocada, ou um gancho. Can\u00e7\u00f5es s\u00e3o escritas mais como programas de televis\u00e3o, por equipes de escritores que voluntariamente compartilham o cr\u00e9dito. Num document\u00e1rio de TV sueco chamado &#8220;The Nineties&#8221;, E-Type descreve as condi\u00e7\u00f5es de trabalho no est\u00fadio de Denniz PoP. &#8220;Eu tenho essa sensa\u00e7\u00e3o de ser como o est\u00fadio de um grande pintor na It\u00e1lia, l\u00e1 dos s\u00e9culos XV, XVI. Um assistente faz as m\u00e3os, outro faz os p\u00e9s, e um outro faz outra coisa, e, ent\u00e3o, Michelangelo entra e diz: &#8216;isso \u00e9 realmente grande; basta dar liga. Agora t\u00e1 bom; vamos colocar num quadro dourado, e sair com ele. Pr\u00f3ximo!'&#8221;. A descri\u00e7\u00e3o pode aplicar-se igualmente bem ao est\u00fadio caseiro de Martin, em Los Angeles (Frank Sinatra viveu uma vez l\u00e1, e ele sublocou a casa da piscina pra Marilyn Monroe), onde ele \u00e9 agora o chef\u00e3o.<\/p>\n<p>Lennon e McCartney escreveram quase todos seus sucessos em parceria, e enquanto eles tiveram ajuda de outras pessoas em suas carreiras solo, o n\u00edvel de colabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o era nada como a antiga parceria. Martin, por outro lado, tem buscado constantemente novos colaboradores, quando o calor de uma parceria anterior come\u00e7a a esfriar, e essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o seu toque m\u00e1gico tem durado mais tempo at\u00e9 do que o de Sir Paul. Estes protegidos &#8211; Dr. Luke \u00e9 o mais conhecido, mas n\u00e3o significa ser o \u00fanico &#8211; muitas vezes passam a ser os principais <em>hitmakers<\/em>, e adquirem e treinam seus pr\u00f3prios protegidos, que se tornam <em>hitmakers<\/em>, tamb\u00e9m, espalhando os m\u00e9todos suecos mais e mais pro <em>mainstream<\/em>. Martin \u00e9 o Obi Wan deles.<\/p>\n<p>E ainda, por todo o seu sucesso e influ\u00eancia, h\u00e1 algo que falta na obra de Martin, quando comparado com a dos Beatles. N\u00e3o \u00e9 a qualidade das can\u00e7\u00f5es &#8211; a hist\u00f3ria ir\u00e1 julgar se elas t\u00eam o que \u00e9 preciso pra durar. \u00c9 a aus\u00eancia de um quadro pol\u00edtico e cultural mais amplo no qual colocar as m\u00fasicas. A hist\u00f3ria dos Beatles, de &#8220;I Wanna Hold Your Hand&#8221; a &#8220;Let It Be&#8221;, \u00e9 uma hist\u00f3ria dos anos sessenta &#8211; pol\u00edtica, guerra, protesto, drogas, amor livre, e como os compositores responderam a essas for\u00e7as. Os sucessos s\u00e3o incorporados dentro de \u00e1lbuns que oferecem ricas e complexas declara\u00e7\u00f5es musicais, e dicas sobre o desenvolvimento e as mudan\u00e7as pessoais dos artistas. Que hist\u00f3ria a seq\u00fc\u00eancia de n\u00fameros 1 de Martin ir\u00e1 contar, de &#8220;&#8230; Baby One More Time&#8221; a &#8220;Can&#8217;t Feel My Face&#8221;, seu mais recente? Que mudan\u00e7as ir\u00e3o causar? As can\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas sobre a mesma coisa, mais ou menos, o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li>Nada relacionado<\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>John Seabrook escreve pra The New Yorker desde 1989. Escreveu tr\u00eas livros antes desse &#8220;The Song Machine&#8221; (compre aqui), que foi lan\u00e7ado em outubro de [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":43709,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363,1144],"tags":[2074],"class_list":["post-43706","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-especiais","tag-max-martin"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maxmartin1.jpg?fit=540%2C300","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-bmW","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43706\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43709"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}