{"id":44923,"date":"2016-03-07T23:54:59","date_gmt":"2016-03-08T02:54:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=44923"},"modified":"2016-12-08T22:30:24","modified_gmt":"2016-12-09T00:30:24","slug":"os-servicos-de-streaming-vao-matar-a-arte-de-compor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/os-servicos-de-streaming-vao-matar-a-arte-de-compor\/","title":{"rendered":"OS SERVI\u00c7OS DE STREAMING V\u00c3O MATAR A ARTE DE COMPOR?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"45002\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/os-servicos-de-streaming-vao-matar-a-arte-de-compor\/artigo-composicao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/artigo-composicao.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"artigo-composicao\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/artigo-composicao.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/artigo-composicao.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-45002\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/artigo-composicao.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/artigo-composicao.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>John Seabrook voc\u00ea conhece do belo livro &#8220;The Song Machine: Inside The Hit Factory&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-fabrica-sueca-de-sucessos-pop\/\" target=\"_blank\">leia mais aqui<\/a>), sobre a &#8220;f\u00e1brica sueca de sucessos pop&#8221;.<\/p>\n<p>Ele tem, em sua tribuna na revista The New Yorker, exposto os dilemas dos novos tempos da ind\u00fastria da m\u00fasica, principalmente no que se refere \u00e0 rela\u00e7\u00e3o comercial de artistas e os meios de comercializa\u00e7\u00e3o surgidos no novo s\u00e9culo, em particular os servi\u00e7os de <em>streaming<\/em>. O assunto \u00e9 fascinante, como j\u00e1 foi poss\u00edvel perceber em v\u00e1rios artigos que o <strong>Floga-se<\/strong> publicou nos \u00faltimos anos, tentando destrinchar e entender os mecanismos dessa era.<\/p>\n<p>Seabrook adentra agora numa quest\u00e3o curiosa: como os compositores dos grandes sucessos pop, aqueles que realmente circulam nos topos das paradas mundiais e <em>fazem dinheiro de verdade<\/em>, est\u00e3o se virando nesses tempos? O dinheiro est\u00e1 sumindo, por mais que os ouvintes executem as can\u00e7\u00f5es nas suas plataformas preferidas. A lei n\u00e3o acompanhou a tecnologia (\u00e9 algo corriqueiro na hist\u00f3ria da humanidade, por certo), e agora h\u00e1 uma clara defasagem entre o que detentores de direitos autorais merecem ganhar e o que de fato est\u00e3o recebendo.<\/p>\n<p>Eis que o autor chega \u00e0 quest\u00e3o: assim esses servi\u00e7os v\u00e3o matar a arte de compor? A an\u00e1lise est\u00e1 abaixo (numa tradu\u00e7\u00e3o aproximada e livre, com o perd\u00e3o dos ilustres fluentes na l\u00edngua de Seabrook). A resposta, obviamente, depende se a a\u00e7\u00e3o da sociedade se dar\u00e1 a tempo.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><strong>Autor: John Seabrook<\/strong><br \/>\n<em>Original: publicado originalmente em 8 de fevereiro de 2016, na revista The New Yorker, &#8220;Will Streaming Music Kill Songwriting?&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Pra muitos compositores, seu despertar comercial chega quando conseguem seu primeiro sucesso em servi\u00e7os de <em>streaming<\/em>. Pra Michelle Lewis, uma <em>singer-songwriter indie<\/em>, com dois discos-solo, &#8220;Little Leviathan&#8221; (1999) e &#8220;Letters Out Loud&#8221; (2002), e que agora escreve basicamente pra outros artistas, como Cher, Lindsay Lohan, Kelly Osbourne, Deni Hines, entre outras, esse despertar veio com &#8220;Wings&#8221;, que ela escreveu em parceria com Kay Hanley pro grupo adolescente brit\u00e2nico Little Mix.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cOQDsmEqVt8\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>As duas t\u00eam estado ocupadas num show da Disney e, por isso, de cara, Lewis n\u00e3o havia se dado conta de o quanto a m\u00fasica havia se tornado popular.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s sa\u00edmos dessa bolha&#8221;, ela disse, &#8220;e nos demos conta, &#8216;temos esse sucesso, isso ser\u00e1 demais! Quase tr\u00eas milh\u00f5es de audi\u00e7\u00f5es no Spotify!&#8217;, e ent\u00e3o meu cheque chegou, e era de dezessete d\u00f3lares e setenta e dois centavos. Foi a\u00ed que eu me espantei, &#8216;que porra \u00e9 essa?&#8217;, ent\u00e3o liguei pra Kay&#8221;.<\/p>\n<p>Lewis era uma das quatorze pessoas creditadas pela can\u00e7\u00e3o (alguma receberam mais grana que outras). A discrep\u00e2ncia entre o n\u00famero de audi\u00e7\u00f5es e o valor do cheque a surpreendeu. E os n\u00fameros em outros servi\u00e7os eram similares.<\/p>\n<p>&#8220;Come\u00e7amos a falar com nossos amigos compositores&#8221;, disse Lewis. E assim chegaram a Dina LaPolt, uma advogada do meio musical de Los Angeles, especializada em direitos autorais e quest\u00f5es afins dos compositores.<\/p>\n<p>Dina disse \u00e0s duas que a menos que a divis\u00e3o de ganhos dos servi\u00e7os de <em>streaming<\/em> fosse mudada e o sistema de licenciamento musical fosse revisado pra era digital, a profiss\u00e3o de compositor estaria a caminho da extin\u00e7\u00e3o. E que elas estavam por conta pr\u00f3pria, porque, embora todo mundo adore um compositor, os profissionais n\u00e3o t\u00eam poder de barganha, seja atrav\u00e9s de um sindicato, seja com outra institui\u00e7\u00e3o poderosa, ent\u00e3o, quando o dinheiro na ind\u00fastria seca, eles ficam em s\u00e9rios apuros.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso queixo estava no ch\u00e3o&#8221;, disse Lewis. &#8220;T\u00ednhamos que falar isso pra todo mundo&#8221;.<\/p>\n<p>E se o <em>streaming<\/em> \u00e9 o futuro da m\u00fasica, os compositores podem logo voltar de onde come\u00e7aram. Stephen Collins Foster, o primeiro compositor profissional dos Esteites e conhecido como o &#8220;pai da m\u00fasica americana&#8221;, foi tamb\u00e9m o primeiro a morrer falido. Suas can\u00e7\u00f5es, que incluem &#8220;Oh! Susanna&#8221;, &#8220;Camptown Races&#8221;, &#8220;Old Folks At Home&#8221; (tamb\u00e9m conhecida como &#8220;Swanee River&#8221;), &#8220;My Old Kentucky Home&#8221; e &#8220;Jeanie With The Light Brown Hair&#8221;, fizeram um bocado de grana pra outras pessoas &#8211; editores, vendedores, promotores de shows, donos de casas de espet\u00e1culo, e, claro, as estrelas que as interpretavam. Mas nem todo daquele dinheiro acabou nas m\u00e3os do impecunioso Foster, que morreu em 1864, na cidade de Nova Iorque, aos 37 anos, com tr\u00eas tost\u00f5es no seu bolso, e um peda\u00e7o de papel no qual ele havia escrito &#8220;queridos amigos e cora\u00e7\u00f5es delicados&#8221;. Sua can\u00e7\u00e3o mais conhecida &#8220;Beautiful Dreamer&#8221;, saiu logo ap\u00f3s a sua morte.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/G-J0KCnbBUc\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo s\u00e9culo e meio, as perspectivas dos compositores estadunidenses melhoraram bastante, muito gra\u00e7as \u00e0 Lei de Direitos Autorais (Copyright Act) de 1909 e a subsequente interven\u00e7\u00e3o do governo. Sob o regime que emergiu na primeira metade do s\u00e9culo 20, compositores detinham o direito de &#8220;publica\u00e7\u00e3o&#8221; das suas can\u00e7\u00f5es &#8211; o direito autoral das letras e melodia, tal como ela estava no papel. A maioria dos compositores cedia parte desses direitos a editores em troca de um adiantamento e por servi\u00e7os de <em>marketing<\/em>. Se o editor conseguisse fazer a m\u00fasica ser gravada, o compositor ent\u00e3o concedia os direitos da grava\u00e7\u00e3o &#8211; geralmente a uma gravadora &#8211; no que era conhecido como &#8220;licen\u00e7a mec\u00e2nica&#8221; (&#8220;mechanical license&#8221; &#8211; a palavra &#8220;mechanical&#8221; deriva dos tempos em que os rolos tocadores-de-piano eram a <em>commodity<\/em> da nascente ind\u00fastria da m\u00fasica). Com cada c\u00f3pia da grava\u00e7\u00e3o vendida, os propriet\u00e1rios da grava\u00e7\u00e3o original\/master, como o autor do \u00e1udio \u00e9 conhecido (a gravadora, no caso), pagava um &#8220;royalty mec\u00e2nico&#8221; aos donos dos direitos da can\u00e7\u00e3o. Hoje, esse <em>royalty<\/em> \u00e9 algo em torno de nove centavos de d\u00f3lar por c\u00f3pia.<\/p>\n<p>Compositores tamb\u00e9m podem ganhar uma grana quando uma grava\u00e7\u00e3o \u00e9 executada num ambiente comercial, como um restaurante ou um cinema. Com a dissemina\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o em r\u00e1dio, nos anos 1920 e 1930, o &#8220;royalty de performance&#8221; se tornou uma parte significativa dos ganhos de um compositor. Geralmente, quando as can\u00e7\u00f5es tocam na r\u00e1dio, a esta\u00e7\u00e3o paga ao detentor dos direitos de edi\u00e7\u00e3o uma taxa fixa que representa uma porcentagem dos recebimentos publicit\u00e1rios da r\u00e1dio. Os donos da master, por sua vez, n\u00e3o ganham nada da r\u00e1dio, da mesma forma que os int\u00e9rpretes tamb\u00e9m n\u00e3o. A raz\u00e3o por tr\u00e1s desse arranjo bizarro, que afora os Esteites, existe s\u00f3 no Ir\u00e3, na Cor\u00e9ia do Norte e na China, \u00e9 que o valor promocional vindo da r\u00e1dio vale a pena pro compositor; as gravadoras e int\u00e9rpretes podem compensar ganhando com a venda de discos e de ingressos.<\/p>\n<p>Em 1941, o departamento de Justi\u00e7a estadunidense emitiu o que \u00e9 conhecido como Decreto do Consentimento (Consent Decree), que permite \u00e0s &#8220;organiza\u00e7\u00f5es de direitos&#8221; (ou &#8220;associa\u00e7\u00f5es de recolhimento&#8221;) de ordenar as taxas de licenciamento de um n\u00famero grande de compositores, coletivamente, por claras raz\u00f5es de efici\u00eancia (algo como nosso ECAD). Em troca de isen\u00e7\u00e3o do que normalmente seria tratado como uma quest\u00e3o antitruste &#8211; a iniciativa privada se unindo pra estipular pre\u00e7os &#8211; os editores musicais concordaram em deixar uma corte federal determinar a divis\u00e3o de <em>royalties<\/em>, se as partes n\u00e3o concordarem entre si. O Decreto do Consentimento tamb\u00e9m determinou o licenciamento compuls\u00f3rio, fazendo com que os compositores disponibilizassem seu cat\u00e1logo inteiro a quem quer que pagasse as licen\u00e7as. Assim, a arte de compor m\u00fasica \u00e9 a mais regulada das artes criativas. Setenta por cento do que ganha um compositor vem de divis\u00f5es determinadas pelo governo, ao inv\u00e9s do mercado livre.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o ajuda a assegurar que os compositores evitem o destino de Stephen Foster e que sejam pagos de forma justa pelo trabalho deles. Hoje o sistema engloba talvez um milh\u00e3o de compositores estadunidenses (a estimativa \u00e9 baseada no n\u00famero de associados de duas das maiores &#8220;associa\u00e7\u00f5es de recolhimento&#8221;, ASCAP e B.M.I., e um chute sobre uma bem menor, a SESAC, que n\u00e3o informa seus n\u00fameros). O sistema oferece uma vida decente pra muitos na sua grade, e a perspectiva de extraordin\u00e1ria riqueza pra uns poucos. Na verdade, a quantidade de dinheiro que uma m\u00fasica de sucesso pode dar aos seus compositores \u00e9 impressionante. Documentos judiciais em uma recente disputa envolvendo Pharrell Williams, Robin Thicke e os propriet\u00e1rios do esp\u00f3lio de Marvin Gaye revelaram que a can\u00e7\u00e3o &#8220;Blurred Lines&#8221; rendeu quase dezessete milh\u00f5es de d\u00f3lares em dois anos, a maioria vindo de r\u00e1dios, com Thicke e Williams ganhando cada um mais de cinco milh\u00f5es de d\u00f3lares. E num longo processo movido pela fam\u00edlia de Randy California, o ex-l\u00edder da banda Spirit, cuja can\u00e7\u00e3o de 1968 &#8220;Taurus&#8221; se alega soar bastante como &#8220;Stairway To Heaven&#8221;, calculou que a m\u00fasica do Led Zeppelin, que foi lan\u00e7ada em 1971, ganhou meio bilh\u00e3o de d\u00f3lares at\u00e9 2008.<\/p>\n<p>Levando em conta que os direitos autoriais valem por setenta anos, dependendo de quando a can\u00e7\u00e3o foi lan\u00e7ada, os direitos de um par de sucessos podem sustentar uma fam\u00edlia inteira por muitas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xd8AVbwB_6E\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A not\u00e1vel popularidade mundial da m\u00fasica estadunidense \u00e9 muitas vezes atribu\u00edda, com raz\u00e3o, ao talento e diversidade de artistas e m\u00fasicos do pa\u00eds. Mas isso s\u00f3 acontece por conta de um sistema que inspira e permite que os compositores se dediquem em tempo integral ao seu of\u00edcio (das dez mais baixadas m\u00fasicas nos Esteites em 2015, de acordo com a Nielsen, apenas uma, &#8220;Trap Queen&#8221;, de Fetty Wap, foi escrita somente pelo artista). O sistema n\u00e3o recompensa apenas talentos comprovados; tamb\u00e9m promete a novatos avan\u00e7os seguros em dire\u00e7\u00e3o a ganhos futuros, dando-lhes tempo pra aprender seu of\u00edcio de forma gradual, at\u00e9 que tamb\u00e9m tenham um sucesso e possam come\u00e7ar a nutrir a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de talentos.<\/p>\n<p>Mas a ind\u00fastria da m\u00fasica come\u00e7ou a devagar e agonizantemente definhar na era digital, o local confort\u00e1vel dos compositores come\u00e7ou a se esvair. O decl\u00ednio acentuado da venda de \u00e1lbuns &#8211; resultado de uma mudan\u00e7a do tradicional modelo de distribui\u00e7\u00e3o pro modelo digital e agora pro <em>streaming<\/em> &#8211; deu um duro golpe no rendimento dos compositores, principalmente na &#8220;licen\u00e7a mec\u00e2nica&#8221; (na era dos \u00e1lbuns f\u00edsicos, at\u00e9 mesmo uma faixa descart\u00e1vel num disco campe\u00e3o de vendas rendia tanto ao compositor quanto os sucessos que faziam as pessoas comprarem o disco). E, como mostrou a experi\u00eancia de Lewis, as taxas de ganhos vindo de servi\u00e7os como Pandora, Spotify, YouTube, Amazon Prime e Apple Music s\u00e3o na maioria dos casos muito mais baixas do que seriam se tocassem em r\u00e1dios. Normalmente, nos acordos das gravadoras com os servi\u00e7os citados, quando uma m\u00fasica \u00e9 executada, 60% dos ganhos v\u00e3o pros donos da grava\u00e7\u00e3o sonora (a gravadora, normalmente), 30% v\u00e3o pro pr\u00f3prio servi\u00e7o, e 10% pros compositores e editores. Quando uma can\u00e7\u00e3o \u00e9 executada numa <em>webradio<\/em> &#8211; Pandora \u00e9 de longe a maior &#8211; os detentores dos direitos recebem um mil\u00e9simo de centavo por execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que a execu\u00e7\u00e3o por <em>streaming<\/em> vale t\u00e3o menos que a de r\u00e1dio? A raz\u00e3o b\u00e1sica dada \u00e9 que um <em>stream<\/em> \u00e9 geralmente uma transa\u00e7\u00e3o direta pra uma pessoa, enquanto que a r\u00e1dio alcan\u00e7a milhares ou at\u00e9 milh\u00f5es de pessoas ao mesmo tempo. Mas se milh\u00f5es de pessoas ouvem uma can\u00e7\u00e3o no YouTube, e o compositor ainda n\u00e3o recebe um pagamento decente, voc\u00ea come\u00e7a a perceber que h\u00e1 algo de errado. Al\u00e9m disso, por que o valor do direito do compositor\/editor vale t\u00e3o menos, em compara\u00e7\u00e3o ao da gravadora, no mundo do <em>streaming<\/em>? Parece que \u00e9 uma determina\u00e7\u00e3o das gravadoras, que det\u00e9m a maior parte das grava\u00e7\u00f5es do cat\u00e1logo estadunidense. Depois de ter ficado de fora, historicamente, dos ganhos dos &#8220;royalties de performance&#8221;, as gravadoras tiveram o cuidado, na era digital, de garantir seus ganhos, e em alguns casos de fazer valer seus interesses, no <em>streaming<\/em>.<\/p>\n<p>Kara DioGuardi, uma compositora de priscas eras, que virou jurada do &#8220;American Idol&#8221;, me disse recentemente, &#8220;eu vou estar numa festa e ouvirei uma can\u00e7\u00e3o de amigos, e vou perceber que est\u00e1 sendo executada por <em>streaming<\/em>. Da\u00ed vou achar &#8216;que droga&#8217;, porque sei que os compositores n\u00e3o est\u00e3o sendo pagos como merecem&#8221;. Pra compositores, h\u00e1 muitas raz\u00f5es pra odiar esses servi\u00e7os. Talvez a maior indigna\u00e7\u00e3o, sem contar o principal, que s\u00e3o os servi\u00e7os enfiando a m\u00e3o em seus bolsos, \u00e9 direcionada \u00e0s empresas que se beneficiam mais com os servi\u00e7os, como Google, Amazon, Apple. Essas companhias, que est\u00e3o entre as mais valiosas da Terra, usam a m\u00fasica pra levar tr\u00e1fego aos seus sites e manter as pessoas nos seus ecossistemas. Pra elas, o neg\u00f3cio da m\u00fasica em si nada mais \u00e9 do que um detalhe. Em 2015, por exemplo, a ind\u00fastria global da m\u00fasica gerou vinte e cinco bilh\u00f5es de d\u00f3lares, pouco mais de um d\u00e9cimo da receita da Apple no ano. O que torna a situa\u00e7\u00e3o <em>kafkanesca<\/em> \u00e9 que de acordo com os termos do Decreto de Consentimento, que foi criado em parte pra evitar que os compositores monopolizassem o mercado, eles est\u00e3o agora muitas vezes obrigados a licenciar suas m\u00fasicas pra esses gigantes monopolistas por pre\u00e7os absurdamente baixos.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais raz\u00f5es. Alguns servi\u00e7os s\u00e3o piores que outros. O servi\u00e7o gratuito do Spotify, que \u00e9 financiado por publicidade, tem sido fonte de muita reclama\u00e7\u00e3o, assim como o YouTube. As receitas totais do Spotify da sua plataforma gratuita na primeira metade de 2015 foi um reles cento e sessenta e cinco milh\u00f5es de d\u00f3lares, sessenta milh\u00f5es a menos que os ganhos da ind\u00fastria com as vendas de \u00e1lbuns de vinil e EPs no mesmo per\u00edodo. As receitas provenientes da parte paga do site s\u00e3o normalmente bem melhores que as vindas dos planos gratuitos, suportados pela publicidade, mas mesmo assim h\u00e1 problemas com os pagamentos de direitos. Parece que enquanto a empresa estava obstinada a conseguir as licen\u00e7as pros direitos autorais das gravadoras, n\u00e3o est\u00e1 tanto assim na obten\u00e7\u00e3o de todas as licen\u00e7as necess\u00e1rias sobre os direitos dos editores, em parte porque os metadados necess\u00e1rios pra identificar os donos dos direitos se perderam em muitos arquivos de can\u00e7\u00f5es. O Spotify tem depositado cerca de dezessete milh\u00f5es de d\u00f3lares em &#8220;royalties&#8221; numa conta separada at\u00e9 que esses donos dos direitos possam ser identificados (editores dizem que o n\u00famero deveria ser de vinte e cinco milh\u00f5es), e est\u00e1 construindo um banco de dados que ir\u00e1 tornar mais f\u00e1cil identific\u00e1-los.<\/p>\n<p>No final de 2015, David Lowery, l\u00edder do Cracker e do Camper Van Beethoven e um persistente provocador da ind\u00fastria, entrou com uma a\u00e7\u00e3o de classe contra o Spotify, cobrando a empresa por infringir as &#8220;licen\u00e7as mec\u00e2nicas&#8221; de uma s\u00e9rie de suas can\u00e7\u00f5es e de outros, pedindo at\u00e9 cento e cinquenta milh\u00f5es de d\u00f3lares em repara\u00e7\u00e3o. Lowery est\u00e1 argumentando que o Spotify n\u00e3o est\u00e1 se esfor\u00e7ando pra obter as &#8220;licen\u00e7as mec\u00e2nicas&#8221; de muitos dos compositores de sua base, incluindo as dele; o caso pode depender, entre outras quest\u00f5es, se a empresa apropriadamente cumpriu com os requerimentos t\u00e9cnicos de casos em que ela n\u00e3o sabia quem eram os donos dos direitos (um segundo processo foi aberto pela compositora Melissa Ferrick em janeiro).<\/p>\n<p>Certamente os nomes que faltam n\u00e3o diminu\u00edram a busca do co-fundador do Spotify Daniel Ek pelas licen\u00e7as de toda a m\u00fasica do mundo. No entanto, n\u00e3o est\u00e1 totalmente claro se o Spotify realmente precisa de uma &#8220;licen\u00e7a mec\u00e2nica&#8221; pra executar m\u00fasica. Um <em>stream<\/em> n\u00e3o \u00e9 exatamente uma c\u00f3pia da mesma forma que um <em>download<\/em> \u00e9 &#8211; em muitos aspectos, \u00e9 mais como uma &#8220;performance&#8221;. A Lei de Direitos Autorais de 1976 \u00e9 datado demais pra oferecer uma orienta\u00e7\u00e3o legal \u00fatil.<\/p>\n<p>Em meio a toda raiva e incerteza, ano passado a advogada de direitos autorais LaPolt reuniu Lewis, Hanley, e algumas centenas de outros compositores, e os incentivou a fundar uma organiza\u00e7\u00e3o de defesa e instru\u00e7\u00e3o, Songwriters Of North America (SONA), que busca reformas contundentes no sistema de licenciamento, pra se encaixar melhor na era digital. J\u00e1 h\u00e1 algumas poucas iniciativas legislativas em andamento, a n\u00edvel nacional, como a Songwriter Equity Act, um projeto de lei cuja ideia \u00e9 alterar duas se\u00e7\u00f5es da Lei de Direitos Autorais de 1976, pra aumentar a parcela que os compositores ganhariam dos servi\u00e7os de <em>streaming<\/em>. Outro esfor\u00e7o, o Fair Pay, Fair Play Act &#8211; que exigiria das r\u00e1dio come\u00e7ar a pagar <em>royalties<\/em> aos detentores de direitos de grava\u00e7\u00e3o de \u00e1udio (normalmente as gravadoras), bem como aos compositores, ao lado de algumas reformas pra se encaixar \u00e0 ind\u00fastria da m\u00fasica digital &#8211; foi apresentado na C\u00e2mara em 2015.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de LaPolt, a melhor esperan\u00e7a de uma real mudan\u00e7a \u00e9 revisar a Lei de Direitos Autorais de 1976. Os compositores nunca realmente se organizaram antes, mas eles aprenderam. &#8220;\u00c9 porque estamos indo bem. Enquanto a grana chegava era, tipo, &#8216;isso n\u00e3o tem nada a ver comigo&#8217;. Mas de dois anos pra c\u00e1, as pessoas est\u00e3o dizendo &#8216;ei, quem mexeu no meu queijo?'&#8221;, diz Lewis. Mesmo agora, ela acrescenta, alguns compositores est\u00e3o relutantes em reclamar, porque &#8220;a psicologia \u00e9 &#8216;n\u00e3o posso acreditar que eles est\u00e3o me pagando pra fazer isso tudo, \u00e9 melhor n\u00e3o mexer no vespeiro, sen\u00e3o v\u00e3o descobrir que sou uma farsa&#8221;.<\/p>\n<p>Savan Kotecha, cuja &#8220;Love Me Like You Do&#8221; foi recentemente indicada a um Grammy, me disse que os compositores est\u00e3o cada vez mais conscientes. &#8220;Afeta como voc\u00ea planeja o futuro e se vai investir num novo talento, porque no mundo do <em>streaming<\/em> voc\u00ea n\u00e3o vai necessariamente ver qualquer retorno do seu investimento. Por ora, a r\u00e1dio t\u00e1 segurando a onda. Mas r\u00e1dios podem desaparecer, porque todo mundo tem celulares agora. E uma vez que o <em>streaming<\/em> chegue definitivamente aos carros, a\u00ed j\u00e1 era&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AJtDXIazrMo\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>De fato, os ouvintes continuam a aderir ao <em>streaming<\/em>. O setor aumentou 93% em 2015, com trezentos e dezessete milh\u00f5es de can\u00e7\u00f5es transmitidas, ao todo. Somando-se o YouTube e outros servi\u00e7os n\u00e3o pagos, o total chega a trilh\u00f5es. Enquanto isso, as vendas de \u00e1lbuns, o esteio de longa data do neg\u00f3cio, continua seu decl\u00ednio, apesar do sucesso recorde de &#8220;25&#8221; da Adele, que representou 3% de todo o mercado de discos dos EUA em 2015, de acordo com a Billboard. Pra um compositor, tomar uma posi\u00e7\u00e3o contra o <em>streaming<\/em> pode parecer tomar uma posi\u00e7\u00e3o contra seu pr\u00f3prio futuro.<\/p>\n<p>Os int\u00e9rpretes est\u00e3o encarando muitos desses mesmos desafios, mas eles, ao menos, t\u00eam a op\u00e7\u00e3o de sair em turn\u00ea e ganhar uma boa grana. S\u00e3o famosos, s\u00e3o astros. Sem os <em>royalties<\/em>, por\u00e9m, os compositores ter\u00e3o apenas &#8220;queridos amigos e cora\u00e7\u00f5es delicados&#8221; pra apoi\u00e1-los. Isso n\u00e3o funcionou muito bem pra Stephen Foster.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>John Seabrook voc\u00ea conhece do belo livro &#8220;The Song Machine: Inside The Hit Factory&#8221; (leia mais aqui), sobre a &#8220;f\u00e1brica sueca de sucessos pop&#8221;. 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