{"id":47329,"date":"2016-12-16T13:46:47","date_gmt":"2016-12-16T15:46:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=47329"},"modified":"2018-04-13T14:34:13","modified_gmt":"2018-04-13T17:34:13","slug":"elementos-narrativos-na-musica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/elementos-narrativos-na-musica-contemporanea\/","title":{"rendered":"ELEMENTOS NARRATIVOS NA M\u00daSICA CONTEMPOR\u00c2NEA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"47333\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/elementos-narrativos-na-musica-contemporanea\/elementosnarrativos1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/elementosnarrativos1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"elementosnarrativos1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/elementosnarrativos1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/elementosnarrativos1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-47333\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/elementosnarrativos1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/elementosnarrativos1.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><strong>I. Come\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um lugar em que se estabelece o &#8220;come\u00e7o absoluto&#8221; e talvez seja este lugar que Jp Cardoso sinta saudades em toda refer\u00eancia a um local de origem afetiva que encontra-se ao ouvir &#8220;Submarine Dream&#8221;. N\u00e3o um lugar em espec\u00edfico que ele tenha fisicamente frequentado ou uma aclimata\u00e7\u00e3o que ele tenha sentido, mas a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um espa\u00e7o vazio em que tudo o que ele \u00e9 originou-se. Neste movimento de tentativa de retorno \u00e9 revelada a exist\u00eancia do lugar. Se h\u00e1 um movimento, h\u00e1 uma origem.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=4058828183\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/jpcardoso.bandcamp.com\/album\/submarine-dreams\">Submarine Dreams by Jp Cardoso<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel chegar a determinada origem nost\u00e1lgica, T\u00e1ssia Reis em &#8220;Outra Esfera&#8221; credita a transcend\u00eancia (que em &#8220;Submarine Dream&#8221; estava na evoca\u00e7\u00e3o da saudade) a um rap pesado que invade o instante e implode bases fracas (embora estranhamente tradicionais, porque pouca tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 originada de um sintoma forte). O sentido literal de suas palavras \u00e9 combativo e surge significativamente desarmado; se os lindos instrumentais s\u00e3o o plano de fundo, o ataque principal est\u00e1 no verbo. Da palavra, o pensamento primordial pode mostrar alguma manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mTqisOvF3KE\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Falar \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o e \u00e9 o universo contradit\u00f3rio e excessivamente opressivo que Mc Carol mostra em &#8220;Bandida&#8221;. O que constitui tantos os <em>beats<\/em> influenciados pelo <em>trap<\/em> como, obviamente, a prefer\u00eancia pelo funk carioca &#8211; &#8220;Bandida&#8221; cria um fen\u00f4meno que s\u00f3 algu\u00e9m t\u00e3o corajosa como Mc Carol poderia liderar; as multirrepresenta\u00e7\u00f5es violentas da realidade sem, jamais, abaixar a cabe\u00e7a. Neste sentido, ela \u00e9 muito parecida com T\u00e1ssia Reis; ambas assumem um mundo brutalizado e sinalizam pra subvers\u00e3o individual que pode brotar de cada ato corajoso.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas projetos citados abordam algum tipo de classifica\u00e7\u00e3o: a saudade em Cardoso e a coragem tanto de Carol quanto T\u00e1ssia. Pra classifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o se estende limites rigorosos. No fluxo contempor\u00e2neo, as fronteiras musicais n\u00e3o significam muita coisa (ainda que n\u00e3o raro apresente limita\u00e7\u00f5es como elitismo etc.). Em &#8220;Drunker Daniel&#8221;, o The Hexx, com um foco completamente diferente, tem um di\u00e1logo sincero (e um pouco alcoolizado, talvez) como de Reis e Carol. S\u00e3o di\u00e1logos que apresentam uma narrativa talvez mais l\u00fadica e socialmente menos impactante, mas que ainda sim revela certa preocupa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea em contar hist\u00f3rias (todos os \u00e1lbuns citados aqui s\u00e3o prioritariamente narrativos).<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 274px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1057707820\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/thehexxmusic.bandcamp.com\/album\/drunker-daniel\">Drunker Daniel by The Hexx<\/a><\/iframe><\/p>\n<p><strong>II. Elementos de Origem<\/strong><\/p>\n<p>Hist\u00f3rias que seguem em um horizonte n\u00e3o muito f\u00e1cil de visualizar nas cinco m\u00fasicas de &#8220;Sonho De Cachorro&#8221;, de F\u00e1bio De Carvalho. O eu-l\u00edrico do EP n\u00e3o consegue mais suportar divaga\u00e7\u00f5es presas. Parece que al\u00e9m de narrar hist\u00f3rias, as divaga\u00e7\u00f5es e suposi\u00e7\u00f5es sobre os momentos vividos corroboram paralelamente em um panorama que algu\u00e9m t\u00e3o insignificante como uma pessoa (ou um cachorro) tenta abra\u00e7ar todos os sintomas que caracterizam o mundo como tal (como uma possibilidade de ser experimentado). \u00c9 como se F\u00e1bio tateasse no escuro (mesmo apresentando uma composi\u00e7\u00e3o l\u00edrica de muitas cores, em sentido literal) a procura de um momento G\u00eanesis da pr\u00f3pria vida &#8211; como se todos os atos e pensamentos tivessem import\u00e2ncia origin\u00e1ria.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 307px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1538081589\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/fabiodecarvalho.bandcamp.com\/album\/sonho-de-cachorro\">Sonho de Cachorro by F\u00e1bio de Carvalho<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Diante do split &#8220;miazzo + god pussy &#8211; untitled&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/thiago-miazzo-god-pussy-split\/\" target=\"_blank\">ou\u00e7a aqui<\/a>), pode-se falar dos ru\u00eddos como supersintomas de alguma origem criativa. Ambos os artistas t\u00eam constru\u00eddo progress\u00f5es subversivas estruturalmente e revelado na esp\u00e9cie de &#8220;antim\u00fasica&#8221; que os caracteriza um elemento que tamb\u00e9m \u00e9 anarquia de certa tradi\u00e7\u00e3o e, em sua feroz agressividade, um importante constructo de suma import\u00e2ncia no &#8220;pensar outra m\u00fasica&#8221;. Percebe-se este <em>split<\/em> como uma intromiss\u00e3o em campos est\u00e1ticos pra mostrar que est\u00e1 (quase) tudo sendo criado por complexos culturais. O <em>split<\/em> \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o do movimento de destitui\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Modos de tratar a m\u00fasica n\u00e3o faltam. O projeto &#8220;Rio Sem Nome&#8221;, de Jo\u00e3o Carvalho, surge como um ato contradit\u00f3rio em sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 um disco esquizofr\u00eanico. A representa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica dos problemas do in\u00edcio da fase adulta camufla-se em c\u00e2nticos contr\u00e1rios, melodias cortadas &#8211; h\u00e1 em todo o disco uma disfun\u00e7\u00e3o do que pode ser apresentado como ideias falsas ou convic\u00e7\u00f5es absolutas. Os pr\u00f3prios nomes das can\u00e7\u00f5es brotam como pequenas afirma\u00e7\u00f5es que s\u00e3o contestadas frequentemente no desenrolar delas. Deixar um legado, a falta de s\u00edmbolos pra afirmar a pr\u00f3pria exist\u00eancia (&#8220;Quando n\u00e3o sobrar os seus retratos&#8221;), o medo alienado de perder fisicamente provas de que existiu &#8211; &#8220;Rio Sem Nome&#8221; mira nos mais diversos s\u00edmbolos (retratos, lua etc.) pra afirmar a melanc\u00f3lica temporalidade das coisas.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3941245309\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/riosemnome.bandcamp.com\/album\/rio-sem-nome\">Rio Sem Nome by Rio Sem Nome<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Blanka&#8221;, do Poltergat (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/poltergat-blanka\/\" target=\"_blank\">ou\u00e7a aqui<\/a>), surge com suas guitarras ofensivas como contesta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um elemento de destrui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se manifesta plenamente e fica sempre em um reduto &#8211; afinal as m\u00fasicas seguem certo tipo de cria\u00e7\u00e3o (rifes, versos, refr\u00e3o) e n\u00e3o poderia ser de outra maneira. Poltergat representa uma parceria entre banda e os selos Sinewave e Howlin&#8217; Records e talvez, esteticamente, seja o elo perdido entre ambas. Guitarras sobre as melodias e uma intensidade que remete muito a v\u00e1rios elementos important\u00edssimos pra constru\u00e7\u00e3o do que se convencionou chamar de rock alternativo (por mais vago que o termo soe).<\/p>\n<p>Se v\u00e1rios dos lan\u00e7amentos listados aqui carregavam uma dubiedade intr\u00ednseca em sua est\u00e9tica, talvez nenhuma dubiedade seja mais corrosiva e ofensiva que &#8220;Idea\u00e7\u00e3o Suicida&#8221;, do God Pussy. Esque\u00e7a qualquer simulacro de conservadorismo musical (e, portanto, pol\u00edtico), Idea\u00e7\u00e3o Suicida surge como uma retalia\u00e7\u00e3o que se cria e repete e recria e se amplifica sonorizando uma das coisas mais ignoradas por toda humanidade: o problema do suic\u00eddio.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 406px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3801766252\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/godpussy.bandcamp.com\/album\/idea-o-suicida\">Idea\u00e7\u00e3o Suicida by God Pussy<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio disso, Mongagu\u00e1 Praia Clube, com &#8220;Lagoa&#8221;, prop\u00f5e a ambienta\u00e7\u00e3o de um circundar. \u00c9 um estar-no-mundo sonorizado cuidadosamente que surge da instaura\u00e7\u00e3o de perceber-se embutido na exist\u00eancia. \u00c9 uma esp\u00e9cie de antitradi\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o prop\u00f5e nenhuma base de &#8220;g\u00eanero musical&#8221; e parece muito mais intui\u00e7\u00e3o criativa do que qualquer aproxima\u00e7\u00e3o apropriada de algum estilo. A m\u00fasica instala-se sem pretens\u00f5es e \u00e9 em seu curioso e paciente desenrolar que flagramos movimentos que nos remetem a tantos sentimentos. Esta intera\u00e7\u00e3o funda no ouvinte uma fus\u00e3o entre o que \u00e9 constantemente escutado e suas pr\u00f3prias mem\u00f3rias. A delicada m\u00fasica do Mongagu\u00e1 Praia Clube inscreve-se em nossas lembran\u00e7as e sonoriza momentos passados. \u00c9 muito doido.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 340px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=281843759\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/mongaguapraiaclube.bandcamp.com\/album\/lagoa\">lagoa by mongagu\u00e1 praia clube<\/a><\/iframe><\/p>\n<p><strong>III. Elementos-Chaves<\/strong><\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o que tem-se ao ouvir &#8220;Essa Noite Bateu Com Um Sonho&#8221;, do Terno Rei (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9rb11MRN4Kw\" target=\"_blank\">ou\u00e7a aqui<\/a>), \u00e9 de que n\u00e3o h\u00e1 propriamente um espa\u00e7o pra diversidade. N\u00e3o entenda &#8220;diversidade&#8221; no sentindo de algo intrinsecamente bom. O clima calmo do disco (versos de guitarra, ecos sonoros) associado \u00e0 mesma tranquilidade dos vocais influencia uma destitui\u00e7\u00e3o de alternativas pra mergulhar no elemento maior que a banda abra\u00e7a no \u00e1lbum. Poucas mudan\u00e7as de inten\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais pra estabilizar no ouvinte uma sensa\u00e7\u00e3o bem espec\u00edfica (n\u00e3o que eu me refira \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o exaustiva do <em>drone<\/em>, por exemplo. At\u00e9 porque, com tamanha habilidade e profissionalismo no instrumental, &#8220;Essa Noite Bateu Com Um Sonho&#8221; obviamente n\u00e3o dialoga com este g\u00eanero).<\/p>\n<p>O processo de cria\u00e7\u00e3o de POLV\u00d6 em &#8220;Small Pieces Of Cruel Mirrors&#8221; surge dos resqu\u00edcios de vozes e um eco sempre presente ampliado em possibilidades pelas varia\u00e7\u00f5es da suave guitarra inicial (e muito tecnicamente tocada, que seja dito). Se no in\u00edcio deste &#8220;ensaio&#8221; falou-se muito sobre narrativas, talvez &#8220;Small Pieces Of Cruel Mirrors&#8221; seja o menos tradicionalmente narrativo (ainda que os trabalhos do God Pussy e do Miazzo s\u00e3o mais radicais em termos est\u00e9ticos), porque \u00e9 justamente sobre reminisc\u00eancias e a cria\u00e7\u00e3o do pouco que restou.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 100%; height: 120px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/track=3943985690\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/polvoe.bandcamp.com\/track\/small-pieces-of-cruel-mirrors\">Small pieces of cruel mirrors by Polv\u00f6<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Todos Hipnotizados&#8221;, da dupla ARMENIA &#038; Miazzo \u00e9 (e isso \u00e9 um achismo meu a julgar pelo nome) uma reinterpreta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica cl\u00e1ssica do &#8220;Olho Seco&#8221;. E \u00e9 algo que, em sua crueza, faz jus \u00e0 banda seminal do <em>punk rock<\/em> brasileiro. Dilacerada em resqu\u00edcios agressivos, a \u00fanica pe\u00e7a ofende efusivamente padr\u00f5es tradicionais. Miazzo j\u00e1 foi abordado neste ensaio, e na profus\u00e3o escandalosa que \u00e9 &#8220;Todos Hipnotizados&#8221; ele e ARMENIA (codinome de Leo Sabatto, veterano do <em>noise<\/em> equatoriano) cristalizam um barreira ruidosa impenetr\u00e1vel.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 100%; height: 120px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1153302\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/armenia-bizarreaudioarts.bandcamp.com\/album\/armenia-miazzo-todos-hipnotizados-cdr-2016\">ARMENIA &amp; Miazzo &#39;Todos Hipnotizados&#39;  CDr (2016) by ARMENIA &amp; Miazzo<\/a><\/iframe><\/p>\n<p><strong>IV. Revela\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Pra revelar-se o que se \u00e9, \u00e9 necess\u00e1rio um movimento intenso pra desnudar a teatralidade cotidiana. &#8220;[vers]&#8221;, de b-Aluria, \u00e9 um grito aut\u00eantico que chega com um instrumental lim\u00edtrofe pra evidenciar a radicaliza\u00e7\u00e3o desta experi\u00eancia. O ouvinte \u00e9 introduzido em uma psique que sabe bem que a \u00fanica maneira de exteriorizar sua percep\u00e7\u00e3o distorcida das coisas (as vozes, as arranhadas instrumentais) \u00e9 explorando de maneira bem agressiva o que o destinat\u00e1rio entende como m\u00fasica ou a constru\u00e7\u00e3o musical. Autobiografia \u00e9 algo passado. Pra se determinar o que \u00e9, torna-se fundamental um movimento; a tentativa de escapar do que \u00e9 criativamente nulo (em sentido ordin\u00e1rio, mesmo). Capta-se certa &#8220;dem\u00eancia&#8221; no fluir das pe\u00e7as (\u00e9 not\u00f3ria certas risadas enquanto se tecla numa m\u00e1quina de escrever). \u00c9 um revelar-se espelhado na experi\u00eancia limite do outro. Se sexualmente todos \u00f3rg\u00e3os respiram, \u00e9 no encontro radical entre dois seres na dire\u00e7\u00e3o do Fora que o pr\u00f3prio ser pode encarar alguma legitimidade.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 340px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=132773949\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/b-aluria.bandcamp.com\/album\/vers\">[vers] by b-Aluria<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>O que \u00e9 um tempo espec\u00edfico? Mais precisamente, o que s\u00e3o dez anos pra uma banda, Herod? O que isso quer dizer? O que o ouvinte pode tirar disso enquanto experi\u00eancia, enquanto explora\u00e7\u00e3o de um tempo determinado em &#8220;The Best Of 2006-2016&#8221;? (<a href=\"http:\/\/sinewave.com.br\/2016\/11\/herod-the-best-of-2006-2016-the-rest-of-2006-2016-2016\/\" target=\"_blank\">baixe gratuitamente aqui<\/a>) Talvez o que sirva pra banda como uma comemora\u00e7\u00e3o, \u00e9 que na passagem dessas onze faixas que percebe-se o efeito do tempo em uma banda mas n\u00e3o precisamente o efeito do tempo que a banda durou. Isso porque o tempo \u00e9 indeterminado. Uma santidade inviol\u00e1vel. A correspond\u00eancia dos dez anos n\u00e3o \u00e9 revelada ao ouvinte. Ao inv\u00e9s disso, a influ\u00eancia n\u00edtida dum tempo que \u00e9 alheio \u00e0s apreens\u00f5es. A banda responde como sua maturidade musical, o ouvinte responde com a impress\u00e3o n\u00edtida de uma rota perseguida. Se em &#8220;[vers]&#8221;, a biografia \u00e9 escrita pela radicaliza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, o caminho menos experimental da Herod assinala outra forma de se autobiografar, emprestando tempo \u00e0s composi\u00e7\u00f5es. Se na pr\u00f3pria apresenta\u00e7\u00e3o do disco a banda n\u00e3o sabe precisar exatamente o &#8220;l\u00e1&#8221; em que quer chegar, fica ao ouvinte uma sensa\u00e7\u00e3o n\u00edtida de transforma\u00e7\u00e3o musical. A concretude do nome do \u00e1lbum auxilia pra entender o fator-mor desta transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Q C&#8221;, de Quasicrystal, se mostra com uma inacessibilidade inicial. \u00c9 uma sonoridade cibern\u00e9tica e tamb\u00e9m exaustiva. Talvez \u00e9 o disco destes todos mencionados em que eu menos consiga dar um testemunho. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o constantemente transformativa. Que se distancia do f\u00e1cil espet\u00e1culo pra especular a ultracontemporaneidade n\u00e3o apenas em sentido est\u00e9tico-sonoro, mas oferecendo outra esp\u00e9cie de biografia aqu\u00e9m da nossa \u00e9poca, uma aceita\u00e7\u00e3o enorme de que tudo est\u00e1 acontecendo enquanto acontece.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 373px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3702587656\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/seminalrecords.bandcamp.com\/album\/q-c\">Q C by Quasicrystal<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Pops&#8221;, do Emicaeli, surge recolhendo cenas cont\u00ednuas e esparsas atrav\u00e9s de um instrumental &#8220;na-sua-cara&#8221;, debochando merecidamente de certas concentra\u00e7\u00f5es culturais ao qual nosso mundo dito &#8220;alternativo&#8221; insiste em se reduzir. \u00c9 s\u00f3 pegar como com tantas disponibilidades as listas de fim de ano ainda s\u00e3o estranhamente homog\u00eaneas e criadas, com certeza, por certo identitarismo cibern\u00e9tico. &#8220;Pops&#8221; mira no pr\u00f3prio significado destitu\u00eddo. A realidade invade bruscamente os momentos de paz e mesmo nos instantes mais tranquilos h\u00e1 sempre algo cerceando o sujeito. &#8220;Emicaeli&#8221; bebe diretamente em Nova Iorque dos anos 80 e v\u00ea a nulidade contempor\u00e2nea (o Nada em bom sentido) como alvo, talvez, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 406px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2735664978\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/emicaeli.bandcamp.com\/album\/pops\">Pops by Emicaeli<\/a><\/iframe><\/p>\n<p><strong>V. Pra onde estamos indo?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo o que a m\u00fasica tem dito \u00e9 uma coisa que o ouvinte sabia de alguma maneira. Faltava um guia pra levar o ouvinte a este ponto. &#8220;O que a fatalidade maneja, com pot\u00eancia o verbo envolve&#8221;, frase de apresenta\u00e7\u00e3o inclu\u00edda no Bandcamp do Insignificanto, mais precisamente no lan\u00e7amento &#8220;Eva Mitocondrial&#8221;. Mas o que \u00e9 fatalidade? Como evidenciar o fatalismo na m\u00fasica? Por isso \u00e9 necess\u00e1rio a composi\u00e7\u00e3o de um elemento negativo. O ouvinte deve sentir um impulso origin\u00e1rio, algo paralelamente antes\/al\u00e9m da manifesta\u00e7\u00e3o do g\u00eanero enquanto delimita\u00e7\u00e3o sonora. Me parece que os caminhos mais radicais, como os artistas do selo Seminal Records est\u00e3o conceitualmente (ainda que n\u00e3o intencionalmente) construindo. \u00c9 algo muito feroz na dissemina\u00e7\u00e3o da m\u00fasica enquanto experi\u00eancia.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 274px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2913308816\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/seminalrecords.bandcamp.com\/album\/eva-mitocondrial\">Eva Mitocondrial by Insignificanto<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer-se em bases rasas. Na err\u00e2ncia n\u00e3o se apenas constr\u00f3i um novo espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m se determina a ocupa\u00e7\u00e3o de uma \u00e9poca. &#8220;Carrossel da Orgia: Vomit\u00f3rio Vaginal x God Pussy x Possu\u00eddo Pela Girafa&#8221; (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=G300_4RpyFQ\" target=\"_blank\">ou\u00e7a aqui<\/a>) ocupa histrionicamente um campo desajeitado, em que o subjetivo \u00e9 aniquilado pelo mero e inescrupuloso escracho. N\u00e3o se trata de ser &#8220;original&#8221; ou apenas a apropria\u00e7\u00e3o de elementos externos pra uma retalia\u00e7\u00e3o ruidosa; se h\u00e1 um objeto a ser ofendido, este mesmo objeto (a m\u00fasica) \u00e9 que vai causar uma rela\u00e7\u00e3o que pode lembrar o ouvinte de visitar cantos esquecidos.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/thiago-miazzo-god-pussy-split\/\" title=\"THIAGO MIAZZO &#038; GOD PUSSY &#8211; SPLIT\">THIAGO MIAZZO &#038; GOD PUSSY &#8211; SPLIT<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/god-pussy-analise-do-principio-informativo\/\" title=\"GOD PUSSY &#8211; AN\u00c1LISE DO PRINC\u00cdPIO INFORMATIVO\">GOD PUSSY &#8211; AN\u00c1LISE DO PRINC\u00cdPIO INFORMATIVO<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-god-pussy-brasil-ep\/\" title=\"RESENHA: GOD PUSSY &#8211; BRA$IL (EP)\">RESENHA: GOD PUSSY &#8211; BRA$IL (EP)<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-b-aluria-caos-com-nome\/\" title=\"RESENHA: B-ALURIA &#8211; CAOS COM NOME\">RESENHA: B-ALURIA &#8211; CAOS COM NOME<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/god-pussy-reacao-carnificina\/\" title=\"GOD PUSSY &#8211; REA\u00c7\u00c3O CARNIFICINA\">GOD PUSSY &#8211; REA\u00c7\u00c3O CARNIFICINA<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I. Come\u00e7o H\u00e1 um lugar em que se estabelece o &#8220;come\u00e7o absoluto&#8221; e talvez seja este lugar que Jp Cardoso sinta saudades em toda refer\u00eancia [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":47333,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363],"tags":[2373,2375,2367,2073,2372,2374,2369,2365,1954,2366,2370,2371,2368,1760],"class_list":["post-47329","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-b-aluria","tag-emicaeli","tag-fabio-de-carvalho","tag-god-pussy","tag-herod","tag-insignificanto","tag-jp-cardoso","tag-mongagua-praia-clube","tag-poltergat","tag-rio-sem-nome","tag-tassia-reis","tag-terno-rei","tag-the-hexx","tag-thiago-miazzo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/elementosnarrativos1.jpg?fit=540%2C300","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-cjn","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47329"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47329\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47333"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47329"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47329"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}