{"id":49475,"date":"2017-08-11T00:15:33","date_gmt":"2017-08-11T03:15:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=49475"},"modified":"2018-04-13T14:49:06","modified_gmt":"2018-04-13T17:49:06","slug":"mark-e-smith-e-o-the-fall-quem-gostar-gostou","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/mark-e-smith-e-o-the-fall-quem-gostar-gostou\/","title":{"rendered":"MARK E. SMITH E O THE FALL: QUEM GOSTAR, GOSTOU"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"49477\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/mark-e-smith-e-o-the-fall-quem-gostar-gostou\/fall8\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/fall8.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"fall8\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/fall8.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/fall8.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-49477\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/fall8.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/fall8.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Pode parecer estranho nos dias de hoje, quando todo mundo faz de tudo pra ser curtido e adorado &#8211; \u00e9 o mundo dos cora\u00e7\u00f5enzinhos cor-de-rosa flutuando pela tela, ou das m\u00e3ozinhas azuis pipocando &#8211; mas existe uma banda que nem \u00e9 uma banda exatamente e faz de tudo pra n\u00e3o ser adorada e n\u00e3o manter seus integrantes nela e cujo &#8220;dono&#8221; \u00e9 um porra-louca antip\u00e1tico, arrogante e antissocial.<\/p>\n<p>O The Fall \u00e9, ainda assim, uma das grandes bandas de todos os tempos. Quer dizer, nem uma banda \u00e9 realmente: \u00e9 um conjunto-ego de Mark E. Smith, seu &#8220;dono&#8221;. \u00c9 como se ele cantasse, tocasse bateria, guitarra, baixo e demais instrumentos, produzisse, escrevesse as letras e as can\u00e7\u00f5es, criasse as capas e promovesse o grupo, e de fato ele faz tudo isso, mas n\u00e3o consegue fazer tudo ao mesmo tempo, ent\u00e3o tem que juntar uns pobres-coitados pra fazer todo o resto pra ele.<\/p>\n<p>Mark &#8211; perd\u00e3o pela intimidade &#8211; \u00e9 um sujeito que pouca gente que o conhece de forma passageira nutre amores. E olha que ele tem uma vantagem sobre quaisquer outros antip\u00e1ticos do mundo, j\u00e1 que \u00e9 um astro da m\u00fasica, com (at\u00e9 2017) trinta e dois \u00e1lbuns no curr\u00edculo e quarenta e um anos de estrada.<\/p>\n<p>Mark E. Smith morreu no dia 24 de janeiro de 2018, aos sessenta anos de idade, <a href=\"http:\/\/thefall.org\/news\/fallnews.html\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">an\u00fancio feito por pessoas pr\u00f3ximas a ele<\/a>. Deixou em sua vida algumas li\u00e7\u00f5es. A maior \u00e9 que ser um fdp n\u00e3o o impede de ser um g\u00eanio e deixar sua marca nas artes.<\/p>\n<p>Everett True, jornalista e cronista do The Guardian, certa vez escreveu: &#8220;eu nunca quis aderir ao The Fall. A reputa\u00e7\u00e3o de Mark E Smith como um manipulador not\u00e1vel e beligerante o precede. Ele \u00e9 t\u00e3o divertido quanto um canalha, mas ele tamb\u00e9m \u00e9 muito exigente, muito al\u00e9m do suport\u00e1vel. Eu sou um f\u00e3 do The Fall, n\u00e3o um f\u00e3 obsessivo&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, foram quarenta e tr\u00eas integrantes no grupo. Quarenta e tr\u00eas. O jornalista Dave Simpson publicou em 2008 o livro &#8220;The Fallen (Searching For The Missing Members Of The Fall)&#8221;, no qual faz uma varredura atr\u00e1s de todas as pessoas que passaram pela banda. Ele vasculhou o continente atr\u00e1s de nomes como Jonnie Brown, o primeiro baixista do The Fall, que nem chegou a gravar com a banda, saindo antes do lan\u00e7amento de &#8220;Bingo-Master&#8217;s Break-Out!&#8221;, o EP de estreia de 1978 (embora ele seja respons\u00e1vel pela capa). Brown estava esquecido em Roterd\u00e3, na Holanda, num pequeno apartamento isolado do mundo, como se estivesse hibernado nesse tempo todo, perguntando ao autor: &#8220;eles ainda tocam &#8216;Bingo-Master&#8217;?&#8221;.<\/p>\n<p>Ele conta que nessa busca acabou se tornando t\u00e3o desagrad\u00e1vel e chato quanto Smith (<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2006\/jan\/05\/popandrock\" target=\"_blank\">leia aqui o artigo que deu impulso \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do livro<\/a>). Virou uma obsess\u00e3o. &#8220;E o The Fall se presta \u00e0 obsess\u00e3o. Na cole\u00e7\u00e3o de John Peel, o The Fall tinha uma sess\u00e3o s\u00f3 pra eles. Peel os chamava de &#8220;The Mighty Fall&#8221; (Poderosos The Fall), &#8216;a banda pela qual todas as outras ser\u00e3o julgadas&#8217;. Mais de vinte e cinco anos depois de surgir, seu p\u00fablico ainda inclui f\u00e3s que simplesmente n\u00e3o seguem outras bandas. Entre seus f\u00e3s est\u00e3o desde Calvin Klein at\u00e9 Philip K. Dick (que s\u00f3 pegou o in\u00edcio, j\u00e1 que morreu em 1982). Os m\u00fasicos e os cr\u00edticos de m\u00fasica tamb\u00e9m se derretem: David Bowie, Bo Diddley, Thom Yorke e Alex Kapranos afirmaram ser f\u00e3s&#8221;.<\/p>\n<p>Tantas trocas de integrantes renderam uma boa defini\u00e7\u00e3o pro The Fall: &#8220;uma banda dominada por uma permanente revolu\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Mark E. Smith nasceu em 5 de mar\u00e7o de 1957, em Salford, Inglaterra, fam\u00edlia padr\u00e3o suburbana e tinha apenas 19 anos quando montou o The Fall, depois de ver (claro) o Sex Pistols em a\u00e7\u00e3o, em Manchester. T\u00e3o intrincada quanto seu temperamento, a trajet\u00f3ria do grupo segue os altos e baixos criativos e perform\u00e1ticos de Smith, conhecido por exigir no m\u00ednimo o imposs\u00edvel dos seus companheiros de banda. Quem entra no The Fall, sabe que n\u00e3o h\u00e1 a menor garantia de estabilidade. E nem sempre \u00e9 por conta da demiss\u00e3o pura e simples. A banda, n\u00e3o raramente, implode em plena turn\u00ea ou at\u00e9 mesmo no palco, com brigas, socos, tapas e voadoras, ou at\u00e9 mesmo integrantes s\u00e3o abandonados em algum lugar s\u00f3 pra deleite humor\u00edstico de Mark.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos de &#8220;criar um clima&#8221; de Smith inclu\u00edam xingamentos, empurr\u00f5es no palco, cuspidas, ofensas a familiares e at\u00e9 armas. Era dif\u00edcil de aguentar.<\/p>\n<p>Nem mesmo a mais famosa integrante, a estadunidense Laura Elisse Salenger, a Brix, que foi casada informalmente com Smith, conseguiu decifrar quem ele era. Em seu livro de mem\u00f3rias, &#8220;The Rise, The Fall And The Rise&#8221;, publicado em 2016, ela conta como foi seu primeiro contato com o namorado, assim que chegou na Inglaterra, em 1983, com 20 anos: &#8220;os pr\u00e9dios pareciam que tinham sofrido terr\u00edveis atrocidades, o c\u00e9u era t\u00f3xico e as pessoas, sem alegria. Suas roupas eram sem vida. Aquele era o lugar onde o homem por quem eu havia me apaixonado morava. Ele mostrava os lugares que achava importante &#8211; &#8216;olha, a cervejaria tal; olha o pres\u00eddio tal!&#8217;. Entrando no sagu\u00e3o do pr\u00e9dio, me deparei com a sujeira nas paredes e um forte odor de urina. No seu apartamento min\u00fasculo, havia gatos por todos os lados e calcinhas sujas de suas ex-namoradas&#8221;. <\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se importou com as calcinhas, porque &#8220;em primeiro lugar, fiquei t\u00e3o animada por estar na Inglaterra&#8230; Eu era jovem e apaixonada e eu estava nessa banda legal que me transformou na primeira vez que os ouvi. Parecia que estava voando num tapete m\u00e1gico&#8221;. Ela conheceu Smith num show da banda em Chicago. Ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o, correram pra um motel barato ali perto. Foi paix\u00e3o \u00e0 primeira vista.<\/p>\n<p>Hoje, ela \u00e9 casada com Philip Start, um bem-sucedido empreendedor do ramo de moda na Inglaterra, e toca na Brix &#038; The Extricated. J\u00e1 foi, junto com o baterista Karl Burns, a integrante mais longeva do grupo, o que n\u00e3o quer dizer muita coisa. Hoje, h\u00e1 integrantes com mais de dez anos de servi\u00e7os prestados, como Keiron Melling (bateria), Simon Wolstencroft (bateria), Dave Spurr (baixo), Elena Poulou (teclas, j\u00e1 fora do grupo e mais recente ex-esposa de Smith) e Peter Greenway (guitarra), curiosamente todos da atual forma\u00e7\u00e3o do grupo, a mais est\u00e1vel da hist\u00f3ria, junta desde 2007, unida pra grava\u00e7\u00e3o do vig\u00e9simo quinto disco, &#8220;Reformation Post TLC&#8221;.<\/p>\n<p>Apesar das encrencas e perrengues em torno de Smith, \u00e9 quase um consenso entre os ex-integrantes que trabalhar no The Fall foi uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel. Tanto que nenhum deles teve hist\u00f3ria alguma fora da banda. Simplesmente voltaram ao anonimato. A maioria dos m\u00fasicos que ele contrata s\u00e3o quase-amadores e nada virtuosos, e parte do fasc\u00ednio disso tudo \u00e9 que essas pessoas s\u00e3o moldadas por Smith pra conseguir delas o melhor que elas podem tirar. Ele mesmo \u00e9 um zero \u00e0 esquerda como m\u00fasico e como \u00edcone pop: \u00e9 feio, arrogante, n\u00e3o sabe cantar (por isso &#8220;declama&#8221; suas letras), n\u00e3o toca instrumento algum, tem desconhecimento total de teoria musical e seu carisma \u00e9 duvidoso. Mas todos que se envolvem com Smith conseguem oferecer seu melhor, mesmo que esse melhor seja arrancado por m\u00e9todos nada virtuosos. Entretanto, \u00e9 s\u00f3 sair do The Fall que voltam a ser ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Everett True conclui dizendo que pra ele, a obsess\u00e3o em torno da banda, de gostar ou de estar nela, &#8220;\u00e9 algo perfeitamente natural pra um ser humano que quer apresentar a si um grau de extraordin\u00e1rio em sua vida. Esse ser humano observa com inveja as conhecidas habilidades manipuladoras de Mark E. Smith e deseja que ele possa ser o mesmo. Ele observa com ci\u00fame as lutas, o uso de \u00e1lcool e drogas e deseja que ele possa se transferir pra ali sem esfor\u00e7o. \u00c0s vezes, sim. Essa \u00e9 a natureza do desejo&#8221;.<\/p>\n<p>Pode ser. Porque \u00e9 ineg\u00e1vel que o The Fall, em suas in\u00fameras fases, de can\u00e7\u00f5es mais ou menos acess\u00edveis, mais ou menos agressivas, mais ou menos inspiradas, consegue atrair almas de todos os espectros, dos endinheirados aos pouco aventurados, jovens (poucos hoje em dia, infelizmente) aos mais velhos. The Fall \u00e9 uma banda pra se agregar um pouco de status, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, mas n\u00e3o \u00e9 uma promessa vazia.<\/p>\n<p>Hoje, aparentemente, Smith se acalmou. J\u00e1 s\u00e3o sessenta anos de vida e as noitadas solit\u00e1rias em <em>pubs<\/em> n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o frequentes. Smith n\u00e3o \u00e9 mais visto com frequ\u00eancia, os shows s\u00e3o raros, mas n\u00e3o por falta de propostas (em 2017, at\u00e9 agosto, foram apenas sete apresenta\u00e7\u00f5es). Essa aus\u00eancia fortalece as estruturas do mito, embora o grupo tenha lan\u00e7ado cinco \u00e1lbuns s\u00f3 nessa d\u00e9cada, muito mais do que muita banda badalada por a\u00ed &#8211; a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que Smith seja um correlato do eremita Stanley Kubrick na reta final de sua vida.<\/p>\n<p>&#8220;Eu me sinto como um cara estranho, mas eu n\u00e3o perco o sono sobre isso&#8221;, disse certa vez. &#8220;Acho que os jovens de hoje s\u00e3o legais. S\u00e3o santos comparados com minha gera\u00e7\u00e3o. Minha gera\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de psicopatas. Sinto um tanto de pena desses jovens de hoje&#8221;, completa.<\/p>\n<p>&#8220;New Facts Emerge&#8221;, o disco de n\u00famero trinta e dois (trinta e um, dependendo da conta, <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-fall-new-facts-emerge\/\" target=\"_blank\">leia aqui e ou\u00e7a na \u00edntegra<\/a>), \u00e9 meio que uma declara\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica sobre os dias de hoje &#8211; as not\u00edcias r\u00e1pidas e bomb\u00e1sticas que todo mundo esquece em segundos &#8211; e sobre a pr\u00f3pria banda, que agora n\u00e3o tem mais barracos pra estampar em manchetes, nem trocas constantes de integrantes, nem nada al\u00e9m da pr\u00f3pria m\u00fasica.<\/p>\n<p>O The Fall deu a volta completa: nasceu chutando canelas, cuspindo no sistema, vomitando insatisfa\u00e7\u00e3o, fez sucesso, caiu no subterr\u00e2neo, brigou, fez feio, fez bonito, foi e voltou, envelheceu e faz a mesma m\u00fasica crua, de garagem, p\u00f3s-punk e suja que o consagrou, que o marcou pra hist\u00f3ria. Mas n\u00e3o procura ser amado. Quem gostar, gostou. Nada de ca\u00e7ar cora\u00e7\u00f5ezinhos rosas e m\u00e3ozinhas azuis.<\/p>\n<p>Ainda exista atitude por aqui.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Ou\u00e7a na \u00edntegra os \u00faltimos dois discos:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JdPHDsNcYHA\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fpohuZP5eC4?list=PLBskgDro7YsmRie6GLWnpV7VONuy5xw9v\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-otherwise-o-roteiro-de-mark-e-smith-que-nao-virou-filme\/\" title=\"THE OTHERWISE &#8211; O ROTEIRO DE MARK E. SMITH QUE N\u00c3O VIROU FILME\">THE OTHERWISE &#8211; O ROTEIRO DE MARK E. 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