{"id":50154,"date":"2017-10-26T19:52:16","date_gmt":"2017-10-26T21:52:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=50154"},"modified":"2018-04-13T14:50:12","modified_gmt":"2018-04-13T17:50:12","slug":"linder-sterling-viciada-em-criar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/linder-sterling-viciada-em-criar\/","title":{"rendered":"LINDER STERLING: VICIADA EM CRIAR"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"50167\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/linder-sterling-viciada-em-criar\/linder1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/linder1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"linder1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/linder1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/linder1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-50167\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/linder1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/linder1.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Linda Sterling nasceu em 1954, em Liverpool, terra dos Beatles. Mas n\u00e3o foram os Beatles que a ligaram com a m\u00fasica.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Linda \u00e9 o retrato da desigualdade que todo brasileiro conhece bem. At\u00e9 aquele momento, nem todo brit\u00e2nico tinha acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, de qualidade ou n\u00e3o. Linda foi o primeiro membro dos Sterlings a conseguir cursar faculdade. Em 1973, ela mudou-se pra Manchester pra estudar arte.<\/p>\n<p>Ela disse certa vez: &#8220;quando fui \u00e0 escola de arte, eu era a \u00fanica pessoa da minha fam\u00edlia a conseguir estudar depois dos quatorze anos de idade. Quem chegasse nessa idade j\u00e1 tinha que estar ralando de sol a lua. Ent\u00e3o, eu tinha que provar que o esfor\u00e7o valia a pena. Mas, j\u00e1 em 1976, eu estava bem entediada em desenhar e acabei destruindo toda a minha produ\u00e7\u00e3o. Foi um ato bem <em>punk<\/em> aquilo &#8211; destruir o passado por t\u00e9dio. E assim, de repente, meu cotidiano me colocou em contato com pessoas que pensavam o mundo de modo semelhante: Jon Savage, Pete Shelley, do Buzzcocks, Howard Devoto, do Buzzcocks e Magazine etc.&#8221;.<\/p>\n<p>O <em>punk<\/em> abriu as portas pra ela. E a mente. Ela resolveu se reinventar. Mudou o nome de Linda pra Linder, sem o Sterling, &#8220;uma palavra&#8230; germ\u00e2nica, misteriosa&#8221;.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, junto com jornalista Jon Savage criou o fanzine &#8220;The Secret Public&#8221;, um dos primeiros ligados \u00e0 est\u00e9tica <em>punk<\/em> em Manchester. Savage \u00e9 o autor de &#8220;England&#8217;s Dreaming&#8221;, o livro definitivo sobre o <em>punk<\/em>, lan\u00e7ado em 1991. Ela j\u00e1 havia iniciado seus trabalhos com colagem dois anos antes, mas o zine foi o primeiro produto impresso e comercializado.<\/p>\n<p>Os dois publicaram o fanzine em janeiro de 1978, atrav\u00e9s do selo criado pelo Buzzcocks, o New Hormones. O zine foi o segundo n\u00famero do cat\u00e1logo &#8211; o primeiro foi o sete polegadas &#8220;Spiral Scratch&#8221;, do Buzzcocks, lan\u00e7ado em janeiro de 1977, com produ\u00e7\u00e3o de  Martin Hannett, antes dele se enfiar com o Joy Division; diz-se que esse foi o primeiro disco <em>punk<\/em> independente (voc\u00ea pode ouvir na \u00edntegra no v\u00eddeo abaixo).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AFJ71w_ez6Y\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Logo, Linder estava fazendo cartazes e <em>flyers<\/em> pra shows do Buzzcocks, Joy Division, Magazine e da Factory Records, de Tony Wilson.<\/p>\n<p>As colagens eram uma forma de arte que tinha tudo a ver com o <em>punk<\/em>, segundo ela: &#8220;era o caminho mais palp\u00e1vel. Pra mim, era sobre dar sentido ao mundo. Com a colagem, voc\u00ea transforma as coisas. Eu usava fotografias de utens\u00edlios dom\u00e9sticos &#8211; aspiradores, ferros, liquidificadores etc. &#8211; e fotografias de pessoas. Com as colagens, tudo fica em aberto, literalmente. Os corpos de transexuais s\u00e3o colagens por natureza, uma mistura cir\u00fargica e biol\u00f3gica de homem e mulher. Eu acrescento imagens da natureza &#8211; cobras, aves de rapina, lagartos, fungos &#8211; e crio um furac\u00e3o hormonal&#8221;.<\/p>\n<p>Quando ela come\u00e7ou a fazer suas colagens, as lojas de fotoc\u00f3pias se recusavam a copi\u00e1-las. Havia s\u00f3 dois lugares em Manchester que faziam fotoc\u00f3pias e nenhum deles aceitava o trabalho. Ela enviava os trabalhos a Savage em Londres e l\u00e1 ele conseguia fotocopiar e, ent\u00e3o, imprimir. <\/p>\n<p>Nesse meio, ela logo se deparou com o trabalho que literalmente mudaria sua vida. John Robb, o jornalista maluc\u00e3o que entrou pra hist\u00f3ria como o autor da primeira entrevista da hist\u00f3ria do Jesus &#038; Mary Chain (<a href=\"http:\/\/louderthanwar.com\/jesus-and-mary-chain-upside-down-compilation-review-by-john-robb\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">leia aqui o delicioso caso<\/a>) decretou <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/music\/musicblog\/2007\/jul\/20\/forgottenpunkwhatsthebest\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">num artigo de 2007 pro The Guardian<\/a> que a capa do <em>single<\/em> &#8220;Orgasm Addict&#8221;, do Buzzcocks, lan\u00e7ado em 1977, era a &#8220;melhor capa de um single em todos os tempos, nem precisa de concurso&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O <em>single<\/em> de sete polegadas era o ve\u00edculo pop perfeito&#8221;, escreveu. &#8220;A era <em>punk<\/em> coincidiu com uma s\u00fabita explos\u00e3o da arte das capas. Todas as semanas, uma imagem fant\u00e1stica e selvagem acompanharia a \u00faltima missiva da linha de frente do <em>punk rock<\/em>. Embora houvesse uma enxurrada sem fim de trabalhos de colagens, o de Linder foi perfeito&#8221;.<\/p>\n<p>A capa do <em>single<\/em> chocou porque trazia uma mulher nua num fundo amarelo impactante (gra\u00e7as ao designer gr\u00e1fico Malcolm Garrett, que tamb\u00e9m assina capas do Duran Duran, Simple Minds e Peter Gabriel, entre outros). A cabe\u00e7a da mulher foi substitu\u00edda por um ferro de passar roupa. No lugar dos mamilos, duas bocas sorridentes e cheia de dentes, com um batom destacado. A pose era sensual. E o t\u00edtulo do disco, todo desconstru\u00eddo. &#8220;Era dif\u00edcil, <em>sexy<\/em>, perigoso, engra\u00e7ado e refor\u00e7ava um ponto feminista corajoso e poderoso. O fundo amarelo brilhante tornou-se ainda mais r\u00edgido&#8221;, apontou Robb.<\/p>\n<p>O que ela fez foi fundir os dois mundos, o que as revistas masculinas vendiam como sendo &#8220;de homem&#8221; &#8211; carros, mulher pelada, porn\u00f4 &#8211; e o que as revistas femininas vendiam como sendo &#8220;de mulher&#8221; &#8211; moda, beleza e utens\u00edlios dom\u00e9sticos. Linder disse &#8220;n\u00e3o&#8221; a isso. N\u00e3o existe &#8220;mundo de mulher&#8221; e &#8220;mundo de homem&#8221;. E uma m\u00fasica cujo t\u00edtulo \u00e9 &#8220;viciado em orgasmo&#8221; falava com todo mundo, era o ve\u00edculo perfeito, afinal homem ou mulher, n\u00e3o importa, todos, se pudessem e n\u00e3o fossem castrados por determinadas morais impostas, gostariam de viver s\u00f3 do intenso prazer que um orgasmo proporciona. H\u00e1 toda essa informa\u00e7\u00e3o naquela capa pra quem quiser perceber.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, Pete Shelley, que anos depois assumiu ser bissexual, n\u00e3o especificava g\u00eaneros em suas can\u00e7\u00f5es, o que acabava corroborando com a premissa de Linder.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p2Mi995ggFU\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Linder n\u00e3o ficou s\u00f3 nas colagens. Ela vivia rodeada de m\u00fasica, sa\u00eda com Howard Devoto, l\u00edder e fundador do Buzzcocks e depois do Magazine, e teve tamb\u00e9m sua banda, a Ludus. O grupo de p\u00f3s-punk lan\u00e7ou dois \u00e1lbuns, &#8220;The Seduction&#8221; (1981) e &#8220;Danger Came Smiling&#8221; (1982), misturando <em>jazz<\/em>, <em>avant-garde<\/em>, <em>punk<\/em> e uma enorme dose de pretens\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1982, se apresentou com um vestido feito de carne, no famoso Ha\u00e7ienda, em Manchester. D\u00e9cadas depois, Lady Gaga faria o mesmo, sem dar o devido cr\u00e9dito. A banda acabou um ano depois.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m se tornou uma das melhores amigas de Morrissey. Em 1976, Linder conheceu Stephen Patrick Morrissey, um aspirante a jornalista, que foi \u00e0 passagem de som do show onde o Johnny Thunders &#038; The Heartbreakers e o The Clash abririam pro Sex Pistols. Ele se apresentou como escritor de um jornal de Nova Iorque. Ela \u00e9 cinco anos mais velha que ele e mesmo assim a conex\u00e3o foi instant\u00e2nea. &#8220;\u00c9 dif\u00edcil de definir, mas houve uma qu\u00edmica imediata entre n\u00f3s. Ele parecia \u00f3timo, com uma grande camisa branca e jeans velhos, e ele era muito engra\u00e7ado&#8221;, ela disse. Os encontros dos dois, pra conversar sobre literatura, aconteciam no l\u00fagubre Southern Cemetery em Manchester. Foi pra ela que ele escreveu &#8220;Cemetery Gates&#8221;, um dos muitos cl\u00e1ssicos dos Smiths. Ela publicou em 1992 &#8220;Morrissey Shot&#8221;, um livro de fotografias com Morrissey em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6vpE41dJlts\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Curiosamente, essa personagem t\u00e3o intrigante quase n\u00e3o \u00e9 conhecida ou aparece nas biografias e filmes da \u00e9poca. Robb destaca que &#8220;quando contaram a hist\u00f3ria de Manchester, em &#8217;24 Hour Party People&#8217;, esqueceram dela. \u00c9 como se a hist\u00f3ria tivesse sido reescrita. Se o <em>punk<\/em> se tornou a hist\u00f3ria do Clash, perdendo todas as partes estranhas e interessantes, ent\u00e3o a hist\u00f3ria de Manchester foi reduzida a uma s\u00e9rie de idiotas tomando drogas e fazendo discos. \u00c9 um crime. Linder merece seu lugar na hist\u00f3ria s\u00f3 pela capa de &#8216;Orgasm Addict'&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 um reducionismo, por certo. Ela merece por mais: \u00e9 uma artista instigante que n\u00e3o teve ou tem medo de se aventurar em qualquer express\u00e3o art\u00edstica (colagens, m\u00fasica, pintura e at\u00e9 bal\u00e9), <a href=\"http:\/\/thequietus.com\/articles\/21569-ludus-linder-sterling-interview\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">feminista atuante<\/a>, bem humorada pra contar a sua hist\u00f3ria e daquela \u00e9poca e uma criadora provocativa.<\/p>\n<p>Linder \u00e9 viciada em criar.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-smiths-as-citacoes-de-morrissey-no-cinema\/\" title=\"THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA\">THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/os-13-discos-favoritos-do-morrissey\/\" title=\"OS 13 DISCOS FAVORITOS DO MORRISSEY\">OS 13 DISCOS FAVORITOS DO MORRISSEY<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/os-fas-dos-smiths-deveriam-acessar-esse-site\/\" title=\"OS F\u00c3S DOS SMITHS DEVERIAM ACESSAR ESSE SITE\">OS F\u00c3S DOS SMITHS DEVERIAM ACESSAR ESSE SITE<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/morrissey-e-a-idade\/\" title=\"MORRISSEY E A IDADE\">MORRISSEY E A IDADE<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-tempo-passa-o-tempo-voa\/\" title=\"O TEMPO PASSA, O TEMPO VOA&#8230;\">O TEMPO PASSA, O TEMPO VOA&#8230;<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Linda Sterling nasceu em 1954, em Liverpool, terra dos Beatles. 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