{"id":51579,"date":"2018-03-26T12:56:55","date_gmt":"2018-03-26T15:56:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=51579"},"modified":"2018-04-12T23:35:50","modified_gmt":"2018-04-13T02:35:50","slug":"david-byrne-aqui-uma-utopia-americana","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/david-byrne-aqui-uma-utopia-americana\/","title":{"rendered":"DAVID BYRNE: AQUI, UMA UTOPIA AMERICANA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51581\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/david-byrne-aqui-uma-utopia-americana\/davidbyrne-poa2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa2.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"davidbyrne-poa2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa2.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa2.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-51581\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa2.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa2.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Dia 22 de mar\u00e7o de 2018, David Byrne d\u00e1 uma meia-trava em Porto Alegre, antes da apresenta\u00e7\u00e3o no Lollapalooza Brasil, em S\u00e3o Paulo, dois dias depois. O show no Pepsi On Stage na capital ga\u00facha seria o quarto da caminhada sul-americana que o ex-Talking Heads realizou em 2018. Ali, Byrne encontraria e teria um di\u00e1logo bizarro com uma pessoa que ele n\u00e3o faz a menor ideia quem seja, f\u00e3 como muitos outros de seu trabalho. Quem acompanha com aten\u00e7\u00e3o os subterr\u00e2neos da m\u00fasica nacional, por\u00e9m, sabe que Matheus Borges \u00e9 o <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?s=nosso+querido\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">Nosso Querido Figueiredo<\/a> e que suas can\u00e7\u00f5es analisam o cotidiano consumista\/capitalista de uma maneira t\u00e3o sarc\u00e1stica e perspicaz quanto Byrne. Exagero? \u00c9 prov\u00e1vel que o pr\u00f3prio Borges tenha certeza que sim, mas isso diz muito mais da nossa relev\u00e2ncia como mercado produtor e exportador cultural do que sobre a cria\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o encontro do f\u00e3 Borges com o \u00eddolo mundial Byrne acendeu uma luz no <strong>Floga-se<\/strong> sobre o qu\u00e3o certeiro \u00e9 o destino pra algumas coisas. A foto que encerra este artigo, publicada no Facebook pelo pr\u00f3prio Borges, coloca lado a lado duas almas criativas g\u00eameas sem que o mundo saiba bem disso (e nem se importe), separadas por continentes, d\u00e9cadas e estrada na m\u00fasica, de modo que fez com que este site pedisse que Borges n\u00e3o s\u00f3 contasse como se deu o encontro, mas como ele enxergou o show em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Do c\u00e9rebro de um ao c\u00e9rebro de outro, eles acabam se entendendo perfeitamente.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><em>Texto: Matheus Borges<\/em><br \/>\n<em>Fotos: acervo pessoal<\/em><\/p>\n<p>O show come\u00e7a antes de David Byrne entrar em cena, antes mesmo de qualquer m\u00fasico subir ao palco. Rondam no ar expectativa e tamb\u00e9m sons da natureza. N\u00e3o estamos num p\u00e2ntano. S\u00e3o grava\u00e7\u00f5es de insetos e p\u00e1ssaros, reproduzidas pelo sistema de som da casa de espet\u00e1culos. A luz de um holofote solit\u00e1rio vem de cima como a indica\u00e7\u00e3o de um des\u00edgnio divino, destacando a presen\u00e7a de uma mesa de madeira no palco. Sobre a mesa, um volume de pl\u00e1stico cinzento. \u00c9 um modelo do c\u00e9rebro humano, do mesmo tipo de c\u00e9rebro que se encontra no interior do meu cr\u00e2nio. Talvez seja o meu c\u00e9rebro, talvez seja o c\u00e9rebro de David Byrne. Eu o imagino fazendo uma tomografia e materializando o resultado com uma impressora 3D.<\/p>\n<p>O aspecto mais encantador da obra de David Byrne \u00e9 o modo como retrata os ordin\u00e1rios desejos humanos. Em suas composi\u00e7\u00f5es, o poder \u00e9 degrad\u00e1vel, a beleza n\u00e3o \u00e9 solene, o dinheiro \u00e9 visto com pudor. Conclus\u00f5es como essas, no entanto, n\u00e3o partem de cinismo ou desprezo, mas de como o compositor se relaciona com os assuntos de seu interesse. Ele os observa de modo cient\u00edfico, mas os descreve com paix\u00e3o. Suas can\u00e7\u00f5es trazem situa\u00e7\u00f5es e imagens em que o elemento de mediocridade passa longe de ser caracterizado como insignificante \u2013 e j\u00e1 quero abandonar aqui esse adjetivo fatalista, comumente associado \u00e0s coisas ordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Em &#8220;Every Day Is A Miracle&#8221; \u2013 faixa de seu \u00e1lbum mais recente, &#8220;American Utopia&#8221; (lan\u00e7ado no \u00faltimo dia 9 de mar\u00e7o) \u2013, Byrne descreve a possibilidade de uma barata devorar a &#8220;Mona Lisa&#8221;. Uma imagem terr\u00edvel, se a observarmos a partir de nossa perspectiva humana, uma perspectiva atrofiada, limitada a espelhar apenas os valores fantasiosos da nossa esp\u00e9cie. A barata \u00e9 apenas um inseto, enquanto a &#8220;Mona Lisa&#8221; \u00e9 uma das maiores express\u00f5es art\u00edsticas de nossa hist\u00f3ria. Al\u00e9m disso, ela \u00e9 grande (<em>em magnitude<\/em>) e bela e tamb\u00e9m vale muito dinheiro. No entanto, o que \u00e9 uma barata e o que \u00e9 a &#8220;Mona Lisa&#8221;? Mais importante: o que \u00e9 a &#8220;Mona Lisa&#8221; aos olhos de uma barata? A resposta \u00e9 fornecida pelo pr\u00f3prio David Byrne no verso seguinte, de modo indireto: &#8220;The Pope doesn&#8217;t mean shit to a dog&#8221;.<\/p>\n<p>Pra Byrne, o ordin\u00e1rio \u00e9 um estado natural. Afinal de contas, obedece a uma ordem, um conjunto de regras estabelecido pela natureza. O extraordin\u00e1rio, no entanto, \u00e9 uma anomalia. Foge do contrato estabelecido entre fantasias humanas e necessidades naturais. \u00c9 o ac\u00famulo, o poder, a beleza, o dinheiro. A carreira de David Byrne come\u00e7ou na Talking Heads, banda formada em Nova York na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou em Nova York e se espalhou pelo mundo inteiro. N\u00e3o pelo mundo em si, mas pelas mentes e cora\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos que os acataram. Acatados por milhares de pessoas, o Talking Heads foi obrigado a suprir uma demanda de boas can\u00e7\u00f5es pra serem prensadas em discos, que s\u00e3o objetos redondos e achatados, feitos de um tipo de pl\u00e1stico chamado vinil. O pl\u00e1stico, esse sim se espalhar\u00e1 pelo mundo em si.<\/p>\n<p>A banda fez muito sucesso na d\u00e9cada de 1980, bem quando a Guerra Fria esquentava um pouco mais, antes de congelar. Um dos <em>hits<\/em> do Talking Heads foi &#8220;Once In A Lifetime&#8221; (&#8220;Remain In Light&#8221;, 1980). Ele tocar\u00e1 essa m\u00fasica no show dese 22 de mar\u00e7o \u00e0 noite. Produzida por Brian Eno, a can\u00e7\u00e3o descreve nossa expectativa infundada de que a passagem do tempo seja sin\u00f4nimo de evolu\u00e7\u00e3o e progresso. Ao longo dessa faixa, Byrne mais discursa do que canta. Tomando emprestado o ritmo da fala dos pastores evang\u00e9licos, ele descreve um &#8220;voc\u00ea&#8221; desestabilizado pela estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;And you may ask yourself, &#8216;How do I work this?'&#8221;<br \/>\n&#8220;And you may ask yourself, &#8216;Where is that large automobile?'&#8221;<br \/>\n&#8220;And you may tell yourself, &#8216;This is not my beautiful house'&#8221;<br \/>\n&#8220;And you may tell yourself, &#8216;This is not my beautiful wife'&#8221;<\/p>\n<p>O refr\u00e3o de &#8220;Once In A Lifetime&#8221; traz imagens que convidam \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, ainda que tenha um ritmo acelerado. Deixar que os dias se passem, \u00e1gua que flui embaixo do ch\u00e3o. &#8220;Voc\u00ea&#8221; possui muitas coisas, mas essas coisas n\u00e3o s\u00e3o sua vida. &#8220;Voc\u00ea&#8221; tem uma casa e acha que essa casa \u00e9 o mundo. &#8220;Voc\u00ea&#8221; est\u00e1 enganado. A vida \u00e9 a \u00e1gua que flui embaixo do ch\u00e3o, o tempo que segue indiferente ao que chamamos de &#8220;dias&#8221;. No \u00e1lbum seguinte, &#8220;Speaking In Tongues&#8221;, lan\u00e7ado em 1983, Byrne decide colocar essa casa abaixo. Em &#8220;Burning Down The House&#8221; (que ele tamb\u00e9m tocar\u00e1 aqui), o narrador proclama:<\/p>\n<p>&#8220;I&#8217;m an ordinary guy \/ Burning down the house&#8221;<\/p>\n<p>Os anos 1980 tamb\u00e9m foram marcados por outra exporta\u00e7\u00e3o norte-americana, o neoliberalismo, suas pol\u00edticas econ\u00f4micas e meios de reprodu\u00e7\u00e3o, tais quais o consumismo. A &#8220;utopia americana&#8221; que d\u00e1 t\u00edtulo ao \u00e1lbum lan\u00e7ado em 2018 n\u00e3o \u00e9 uma utopia que toma forma nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, mas uma utopia global, fabricada a partir de valores norte-americanos. Del\u00edrios de grandeza, beleza, riqueza e poder. A vida como uma busca intermin\u00e1vel pelo progresso. A utopia, portanto, se reproduz apenas na dimens\u00e3o psicol\u00f3gica dos indiv\u00edduos que a acatam. Ou seja, todos. \u00c9 imposs\u00edvel fugir. Toma forma no mundo inteiro, mas n\u00e3o no mundo em si. O mundo continua sendo o que sempre foi, o \u00fanico lugar em que podem zanzar livremente os mesmos insetos e p\u00e1ssaros cujas vozes agora ouvimos, enquanto o c\u00e9lebre m\u00fasico norte-americano n\u00e3o sobe ao palco.<\/p>\n<p>A utopia \u00e9 americana. Como disse, formada por valores americanos. Mas a quem servir\u00e1 essa utopia e que tipo de utopia \u00e9 essa? \u00c9 uma utopia onde &#8220;eu&#8221; serei feliz &#8211; ou ser\u00e1 poss\u00edvel que haja felicidade pra todos? H\u00e1 utopias individuais e utopias coletivas, o desejo de aquirir uma casa pr\u00f3pria e o de progresso cient\u00edfico e econ\u00f4mico. H\u00e1 utopias que sustentam uma vida e utopias que sustentam na\u00e7\u00f5es. Daqui a alguns minutos, Byrne tamb\u00e9m tocar\u00e1 &#8220;I Should Watch TV&#8221;, do \u00e1lbum &#8220;Love This Giant&#8221; (2014). Na performance, o palco inteiro ficar\u00e1 no escuro, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de um quadrado de luz \u00e0 direita. David Byrne ignorar\u00e1 a plateia, atento \u00e0 tela acesa diante dele. Os onze m\u00fasicos que o acompanham ficar\u00e3o do outro lado do palco, \u00e0 esquerda. Eles o observar\u00e3o enquanto tocam. Nesse momento, Byrne ser\u00e1 um <em>performer<\/em> emulando a melancolia de um telespectador solit\u00e1rio e cat\u00f4nico. Quando o cantor se virar pra tr\u00e1s, a banda o confrontar\u00e1 como um ex\u00e9rcito, tentando empurr\u00e1-lo pro interior da TV. A voz de Byrne ecoar\u00e1 pelas paredes do lugar, cantando:<\/p>\n<p>&#8220;I used to think that I should watch TV \/ I used to think that it was good for me \/ Wanted to know what folks were thinking \/ To understand the land I live in \/ And I would lose myself \/ And it would set me free&#8221;.<\/p>\n<p>A televis\u00e3o sempre foi um objeto de interesse nas composi\u00e7\u00f5es de David Byrne, bem como os carros e as casas e os telefones. Basta ouvir qualquer m\u00fasica do Talking Heads \u2013 e n\u00e3o d\u00e1 pra esquecer que o nome da banda vem do enquadramento padr\u00e3o, acima dos ombros, utilizado em <em>talk shows<\/em> e telejornais. S\u00e3o objetos de consumo e s\u00edmbolos do consumismo necess\u00e1rio \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do ideal de progresso neoliberal. A televis\u00e3o, ainda que uma ferramenta de difus\u00e3o dessas ideias, serve de portal metaf\u00edsico a vidas estranhas. Se ver televis\u00e3o \u00e9 se alienar do mundo, negar-se a ver televis\u00e3o \u00e9 se alienar ainda mais. O libertar-se de si do qual ele fala \u00e9, na verdade, alienar-se do conceito de &#8220;eu&#8221; e se ampliar pra realidade coletiva dos outros.<\/p>\n<p>O que existe entre o &#8220;eu&#8221; e os outros \u00e9 tamb\u00e9m o que alimenta a m\u00fasica pop dan\u00e7ante. H\u00e1, \u00e9 claro, o escapismo proporcionado por esse tipo de m\u00fasica, que \u00e9 de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o. Mas, por baixo da superf\u00edcie, \u00e9 poss\u00edvel enxergar um ato pol\u00edtico, o de fazer com que um ouvinte afirme sua individualidade atrav\u00e9s de movimentos corporais, ao mesmo tempo que se integra ao coletivo de corpos dan\u00e7antes ao seu redor. O &#8220;eu&#8221; predominante nas composi\u00e7\u00f5es de Byrne \u00e9 um &#8220;eu&#8221; material, que s\u00f3 existe quando certificada sua presen\u00e7a no mundo f\u00edsico. Os personagens de suas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o pessoas perdidas num mundo vazio, recheado de met\u00e1foras. Eles mesmos s\u00e3o met\u00e1foras de coisas que n\u00e3o entendem e s\u00f3 conseguem afirmar que existem quando atentam \u00e0 fisicalidade de suas formas. &#8220;Take a look at these hands&#8221;, cantar\u00e1 ele em &#8220;Born Under Pressure&#8221; (&#8220;Remain In Light&#8221;, 1980). &#8220;Look where my hand was&#8221;, em &#8220;Once In A Lifetime&#8221;. De &#8220;This Is That&#8221; (2018): &#8220;When the melody ends \/  And the rhythm kicks in \/ It knows where I&#8217;m at \/ And it knows where I&#8217;ve been&#8221;.<\/p>\n<p>De modo similar, esse procedimento tamb\u00e9m aparece em &#8220;I Dance Like This&#8221; (2018), que traz personagens invis\u00edveis, desempregados, cheios de d\u00edvidas, sem um lugar onde morar. O refr\u00e3o alterna entre as primeiras pessoas do singular e do plural, afirmando primeiro que &#8220;eu dan\u00e7o assim&#8221; e depois, que &#8220;n\u00f3s dan\u00e7amos assim&#8221;. O universo musical de Byrne, que mistura <em>new wave<\/em>, bai\u00e3o, samba, disco, <em>rap<\/em> etc., encontra sua vida na tens\u00e3o entre uma coisa e outra. O indiv\u00edduo e seu \u00fanico corpo, o coletivo e suas muitas diferen\u00e7as. Sua amalgama\u00e7\u00e3o de ritmos regionais (erroneamente chamada de &#8220;world music&#8221;) \u00e9 uma ant\u00edtese da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal da utopia americana. Em vez de impor uma ideologia <em>one size fits all<\/em>, o palco de Byrne \u00e9 uma democracia <em>all sizes fit in<\/em>, onde s\u00e3o tocados berimbaus e sintetizadores, agog\u00f4s e guitarras el\u00e9tricas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51580\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/david-byrne-aqui-uma-utopia-americana\/davidbyrne-poa1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"davidbyrne-poa1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-51580\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa1.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Uma sombra passeia no fundo do palco. Acho que a apresenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 prestes a come\u00e7ar. David Byrne surge do escuro vestindo terno cinza e senta na mesa iluminada pelo holofote. A multid\u00e3o explode em aplausos, os p\u00e1ssaros e insetos voam pra longe num <em>fade in<\/em> gradual. Come\u00e7am a soar os primeiros acordes de &#8220;Here&#8221;, a gentil faixa de encerramento de &#8220;American Utopia&#8221;. Byrne pega o c\u00e9rebro de pl\u00e1stico na mesa, come\u00e7a a passear pelo palco: &#8220;Here is a region of abundant details&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que canta, o dedo indicador em riste se aproxima de um ou outro ponto do c\u00e9rebro falso. N\u00e3o tenho conhecimento de anatomia humana, ainda mais de um \u00f3rg\u00e3o t\u00e3o complexo quanto o c\u00e9rebro. Sua voz, no entanto, \u00e9 grave e graciosa ao enunciar os versos elegantes. Faz com que eu acredite no que ele diz, que aquele ponto do c\u00e9rebro \u00e9 uma regi\u00e3o de abundantes detalhes, ou que continua viva depois que tudo \u00e9 removido.<\/p>\n<p>Ontem \u00e0 tarde, eu o encontrei em frente ao hotel em que est\u00e1 hospedado. Eu estava acompanhado de minha namorada e de um amigo nosso. David Byrne apareceu a alguns metros de n\u00f3s, parado em frente \u00e0 porta do hotel. Eu o abordei pra tirar uma foto, uma evid\u00eancia que estivemos fisicamente em sua presen\u00e7a. Byrne foi muito simp\u00e1tico. Na fotografia tremida e de baixa qualidade, abre um sorriso maior que a soma dos tr\u00eas outros sorrisos em quadro. Admito que fiquei nervoso ao conversar com ele, como fico nervoso ao conversar com qualquer pessoa que admiro. S\u00e3o conversas breves. Apenas algumas palavras e, no entanto, eu sei muito dessa pessoa e ela n\u00e3o sabe nada de mim. Considerando minha forma\u00e7\u00e3o profissional e art\u00edstica, eu deveria entender como funciona a rela\u00e7\u00e3o entre o artista e seu p\u00fablico. \u00c9 absurdo que eu me sinta desse jeito. Na verdade, eu entendo como se d\u00e1 essa rela\u00e7\u00e3o. O que s\u00f3 torna a situa\u00e7\u00e3o mais absurda, o nervosismo mais intenso.<\/p>\n<p>&#8220;Where are you from?&#8221;, perguntou David Byrne. &#8220;I&#8217;m from here&#8221;, respondi. &#8220;Where are you from?&#8221;: a pergunta inusitada o pegou de surpresa, bem como a mim. Por que, afinal de contas, eu respondi desse jeito? Com tanta coisa pra dizer. Logo isso? &#8220;I&#8217;m from New York&#8221;, ele respondeu.<\/p>\n<p>Depois, despediu-se de n\u00f3s, entrou no carro e foi jantar num restaurante de comida tailandesa, bastante popular entre os famosos que visitam a cidade. Agora ele est\u00e1 aqui, em cima do palco, segurando um c\u00e9rebro de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51582\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/david-byrne-aqui-uma-utopia-americana\/davidbyrne-poa3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa3.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"davidbyrne-poa3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa3.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa3.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-51582\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa3.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/davidbyrne-poa3.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/titas-no-allianz-parque-como-foi\/\" title=\"TIT\u00c3S NO ALLIANZ PARQUE &#8211; 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