{"id":51886,"date":"2018-05-04T15:25:11","date_gmt":"2018-05-04T18:25:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=51886"},"modified":"2018-05-28T19:08:52","modified_gmt":"2018-05-28T22:08:52","slug":"entrevista-grafton-tanner-assombrados-por-assombracoes-anteriores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-grafton-tanner-assombrados-por-assombracoes-anteriores\/","title":{"rendered":"ENTREVISTA: GRAFTON TANNER &#8211; ASSOMBRADOS POR ASSOMBRA\u00c7\u00d5ES ANTERIORES"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51887\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-grafton-tanner-assombrados-por-assombracoes-anteriores\/graftontanner1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/graftontanner1.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"graftontanner1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/graftontanner1.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/graftontanner1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-51887\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/graftontanner1.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/graftontanner1.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Preso no inumano e ap\u00f3s passar horas e horas no <em>notebook<\/em>, comecei a ler &#8220;Babbling Corpse: Vaporwave And The Commodification Of Ghosts&#8221; (2016), de Grafton Tanner, em que o autor expl\u00edcita a rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo, retromania e produ\u00e7\u00e3o musical e v\u00ea na <em>vaporwave<\/em> uma poss\u00edvel interrup\u00e7\u00e3o no ciclo est\u00e1tico do consumo musical. Como sempre ocorre quando um livro te atinge certeiramente, senti-me perturbado e identificado com a descri\u00e7\u00e3o de Tanner sobre a mundanidade que a m\u00eddia eletr\u00f4nica exerce em nossas vidas, deixando-nos alheios em nossos pr\u00f3prios espa\u00e7os secretos e privados.<\/p>\n<p>Entre todos os pensadores que Grafton pega emprestado pra dar corpo a sua teoria, destaca-se a voz do autor sobre um mundo em que a centralidade humana passa a ser dividida com a m\u00eddia eletr\u00f4nica e, consequentemente, deixada de lado pela acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. O escritor norte-americano acredita que a &#8220;estranheza da contemporaneidade&#8221; reside no fato de que nosso reinado privilegiado est\u00e1 sendo apagado por nossas pr\u00f3prias ferramentas auxiliadoras. A trag\u00e9dia n\u00e3o reside somente a\u00ed, mas numa fobia constante ao realismo que urgentemente precisa ser desfeita pra que se possa repensar as rela\u00e7\u00f5es intramundanas. J\u00e1 n\u00e3o me lembro de nenhuma rela\u00e7\u00e3o que eu tenha que n\u00e3o seja fortemente mediada pelos bens de consumo e \u00e9 urgente a necessidade de especular outra realidade que n\u00e3o essa aparente e superficial.<\/p>\n<p>As formas novas de fazer m\u00fasica podem auxiliar neste processo de &#8220;voltar ao humano enquanto hospedeiro do pensamento&#8221;. Uma produ\u00e7\u00e3o musical que possa atravessar o sons abafados das televis\u00f5es e n\u00e3o se sujeitar a acelera\u00e7\u00e3o da rede mundial de computadores e evidenciar uma outra realidade, descoberta dos sintomas virtuais que fraudam todo um universo. Desnudar a realidade devolvendo-lhe aspectos de estranheza que foram camuflados pelos bens de consumo parece ser uma das propostas mais intrigantes que Tanner v\u00ea na <em>vaporwave<\/em>. Agarrados ao passado comercial, nos transformamos em meros objetos alheios \u00e0s outras possibilidades, pois estamos demasiadamente mergulhados nas delirantes cores emitidas pelas m\u00eddias eletr\u00f4nicas (como em &#8220;Blade Runner&#8221;). A fal\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es significa que o &#8220;imediatismo preciso&#8221; inaugurou um espa\u00e7o n\u00e3o-humano em que simula\u00e7\u00f5es de humanidade (curtidas, <em>matches<\/em> etc.) irrompem nos espa\u00e7os de conex\u00e3o. Ainda \u00e9 mais importante que tanto um g\u00eanero musical quanto diversas outras express\u00f5es culturais atravessem esse espa\u00e7o autogerido pelas simula\u00e7\u00f5es virtuais e irrompam aspectos problem\u00e1ticos desse clima do s\u00e9culo XXI. O tema de Tanner funciona como forma de repensar essas rela\u00e7\u00f5es enquanto tamb\u00e9m descreve na <em>vaporwave<\/em> uma forma de evidencia\u00e7\u00e3o deste est\u00e1gio do capitalismo, a partir da\u00ed talvez seja poss\u00edvel construir uma resist\u00eancia.<\/p>\n<p>O nascimento da <em>vaporwave<\/em> possibilita essas reflex\u00f5es porque sua fonte origin\u00e1ria (normalmente) reside nos momentos hist\u00f3ricos em que o fundamentalismo de mercado passou a ser a regra. \u00c9 necess\u00e1rio especular outra realidade porque a express\u00e3o humana em todas as m\u00eddias est\u00e1 \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o. Um vis\u00e3o simplista sobre o g\u00eanero diz que isso \u00e9 um excesso de apego ao passado, mas enquanto se mergulha nos f\u00f3runs e nas mais diversas plataformas em que os artistas se expressam, a dubiedade da simples afirma\u00e7\u00e3o anterior se ergue pra deixar evidente que \u00e9 poss\u00edvel expressar nosso fracasso cultural ainda que n\u00e3o intencionalmente. Hoje est\u00e1 na morda referir-se \u00e0 morte das utopias do s\u00e9culo passado, porque a acelera\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es torna toda hist\u00f3ria obsoleta. Restam os bens de consumo f\u00e1ceis e acess\u00edveis e os res\u00edduos do passado n\u00e3o s\u00e3o mais a contracultura dos anos 1960 e 1970, mas a fascina\u00e7\u00e3o pelos comerciais e videogames que emergiram a partir da d\u00e9cada de 1980. Contra esse realismo virtual forjado, que descentraliza o humano e incorpora um niilismo baseado em f\u00e1ceis distra\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso especular uma outra realidade e uma forma de acess\u00e1-la sem que seja por meio de dist\u00farbios psicol\u00f3gicos ou a erradica\u00e7\u00e3o taoista em algum campo isolado do planeta.<\/p>\n<p>Tudo isso foi poss\u00edvel perceber a partir da leitura de &#8220;Babbling Corpse: Vaporwave And The Commodification Of Ghosts&#8221;. Eu fiquei curioso sobre a posi\u00e7\u00e3o de Grafton Tanner em rela\u00e7\u00e3o a alguns temas e ele foi gentil o bastante pra me responder por e-mail:<\/p>\n<p><strong>Floga-se: Ei, Grafton, uma coisa que me pergunto \u00e9 sobre o que voc\u00ea acha da &#8220;evolu\u00e7\u00e3o da <em>vaporwave<\/em>&#8220;. Parece que temos agora mais faixas baseadas no ambiente do que os primeiros discos subversivos, interagindo mais com a tradi\u00e7\u00e3o musical do que desafiando nossa no\u00e7\u00e3o de passado musical.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Grafton Tanner:<\/strong> Eu n\u00e3o me deparei com <em>ambient vaporwave<\/em> tanto quanto <em>vaportrap<\/em>, <em>future funk<\/em> etc. Eu considero estes menos como subg\u00eaneros de <em>vaporwave<\/em> e mais como apropria\u00e7\u00f5es. Colocar &#8220;vapor&#8221; antes de qualquer coisa implica um tipo espec\u00edfico de t\u00e9cnica de <em>sample<\/em> ou uma fonte de <em>sample<\/em> espec\u00edfica. Se \u00e9 ou n\u00e3o subversivo, n\u00e3o posso dizer. N\u00e3o parece assim.<\/p>\n<p><strong>F-se: De que formas os g\u00eaneros subversivos da m\u00fasica podem nos despertar do pesadelo capitalista? Como escritores sobre m\u00fasica, como identificamos esses g\u00eaneros na produ\u00e7\u00e3o musical excessiva hoje em dia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Qualquer coisa &#8220;nova&#8221; pode ser um choque. Se a m\u00fasica \u00e9 descaradamente nost\u00e1lgica, fico imediatamente suspeito. Isso n\u00e3o significa que toda a nostalgia \u00e9 politicamente retr\u00f3grada. Certamente, podemos ser nost\u00e1lgicos pela contracultura dos anos sessenta ou por v\u00e1rios movimentos sociais do passado, desde que entendamos que a resposta n\u00e3o est\u00e1 em retornar completamente ao passado. Mas esses momentos hist\u00f3ricos n\u00e3o est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o. Em vez disso, a cultura ocidental \u00e9 nost\u00e1lgica nos anos oitenta e noventa &#8211; per\u00edodos durante os quais surgiram as primeiras tens\u00f5es do fundamentalismo de mercado. Como escritores sobre m\u00fasica, devemos procurar o novo e sinalizar essa &#8220;armadilha&#8221; da retromania quando a ouvirmos.<\/p>\n<p><strong>F-se: H\u00e1 uma passagem em seu livro que voc\u00ea cita Marshall McLuhan de que a m\u00eddia assombrada como a televis\u00e3o e o r\u00e1dio s\u00e3o &#8220;capazes de gerar seus pr\u00f3prios mundos espirituais aut\u00f4nomos&#8221;. Mais precisamente, como essa rela\u00e7\u00e3o de m\u00eddia conosco pode criar os fantasmas modernos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> No s\u00e9culo XXI, somos assombrados por fantasmas dos fantasmas que se manifestaram a partir da tecnologia pr\u00e9-digital nas d\u00e9cadas anteriores. Somos assombrados por assombra\u00e7\u00f5es anteriores. A m\u00eddia contempor\u00e2nea est\u00e1 repleta de mortos-vivos: reinicializa\u00e7\u00f5es, <em>remakes<\/em>, sequ\u00eancias, <em>prequels<\/em>, retrospectivas e <em>easter eggs<\/em>.<\/p>\n<p><strong>F-se: Pra Derrida, existem apenas restos, vest\u00edgios de tra\u00e7os. Como algu\u00e9m que escreve sobre m\u00fasica, posso sentir essas palavras profundamente. Em que formas o g\u00eanero <em>vaporwave<\/em> pode escapar de seguir os vest\u00edgios do seu pr\u00f3prio material de busca e dar aos ouvintes uma alternativa \u00e0 m\u00fasica <em>mainstream <\/em>atual?<\/strong><\/p>\n<p><em>GT:<\/em> <em>Vaporwave<\/em> \u00e9 inteiramente sobre vest\u00edgios. E \u00e9 uma boa interrup\u00e7\u00e3o da retromania. \u00c9 meio que uma l\u00f3gica <em>hacker<\/em>, que desconstr\u00f3i enquanto se move dentro dos sistemas.<\/p>\n<p><strong>F-se: Como um algu\u00e9m que escreve sobre m\u00fasica e, mais importante, um ouvinte de m\u00fasica, o &#8220;aborrecimento&#8221; soa como um aspecto importante pra voc\u00ea ao verificar novos \u00e1lbuns?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Eu n\u00e3o diria que estou aborrecido quando escuto m\u00fasica nova. Eu n\u00e3o encontro novas m\u00fasicas <em>mainstream<\/em> que eu gosto muito. Neste ponto, tenho a tend\u00eancia de filtrar m\u00fasicas que considero frustrantes politicamente ou esteticamente.<\/p>\n<p><strong>F-se: Como pensador cultural e pol\u00edtico, como soa pra voc\u00ea esse sintoma da contemporaneidade: a humanidade se apagando das express\u00f5es culturais atuais? \u00c9 um sintoma, uma express\u00e3o art\u00edstica? Ou um grito desesperado por ajuda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Os seres humanos ainda est\u00e3o muito no centro da contemporaneidade. As tend\u00eancias da filosofia, como o OOO, o p\u00f3s-humanismo e o materialismo especulativo, buscam descentralizar o humano, porque essas ideias circulam muito bem na sociedade p\u00f3s-fordista (na qual os algoritmos geralmente t\u00eam mais articula\u00e7\u00e3o do que pessoas). Mas ainda h\u00e1 pessoas por tr\u00e1s desses algoritmos e express\u00f5es culturais.<\/p>\n<p><strong>F-se: H\u00e1 um termo Lovecraftiano no seu livro que eu amo; quando voc\u00ea falou sobre &#8220;Far Side&#8221;, de James Ferraro, usou &#8220;horror c\u00f3smico&#8221;. Especificamente sobre este \u00e1lbum, e eu mesmo acho as obras de Ferraro perturbadoras, como isso faz voc\u00ea se sentir assim?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> O horror c\u00f3smico, pra mim, \u00e9 um horror do exterior. O que quer que exista no caos fora do limite do pens\u00e1vel \u00e9 sublime e horripilante. Os pensadores t\u00eam tentado chegar ao exterior ou dissolver os limites entre o exterior e o que est\u00e1 dentro (ou seja, o sujeito humano, a realidade, o conhecimento e qualquer outro termo ontol\u00f3gico ou epistemol\u00f3gico ocidental que voc\u00ea queira). O trabalho de Ferraro soa como a entrada do exterior &#8211; a intrus\u00e3o de tecnologia e m\u00eddia no mundo da vida humana. Como <em>vaporwave<\/em>, assemelha-se \u00e0 m\u00fasica feita por m\u00e1quinas (ou fantasmas) ou em elogios a m\u00e1quinas (ou fantasmas). Mas tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtico de tal invas\u00e3o maqu\u00ednica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pd-uSm8ittU\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>F-se: De maneira mais pessoal, como a Internet afetou a maneira como voc\u00ea consome e busca m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Pra mim, a Internet mudou tudo. Antes de comprar meu primeiro <em>laptop<\/em> em 2009, comprei CDs e os escutei no meu <em>Walkman<\/em>. Quando adolescente, eu reclinava na minha cama e ouvia um \u00e1lbum inteiro do come\u00e7o ao fim. Eu cresci em uma casa sem um computador at\u00e9 que eu fizesse dezessete anos, e ent\u00e3o meus pais compraram um. Depois disso, eu fiz muito <em>streaming<\/em> de muita m\u00fasica no Limewire, que era uma r\u00e9plica do Napster. Mas tudo mudou quando comprei um <em>laptop<\/em> e meu primeiro <em>smartphone<\/em>. Eu ainda fa\u00e7o quest\u00e3o de comprar CDs apesar disso. Eu gosto da qualidade do som mais do que um MP3.<\/p>\n<p><strong>F-se Como os microg\u00eaneros (como a <em>vaporwave<\/em>) ainda podem ter poder pol\u00edtico quando tudo o que vemos ao redor s\u00e3o bens de consumo etc.?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Embora as realidades das corpora\u00e7\u00f5es e da m\u00eddia muitas vezes pare\u00e7am apagar o Real, o Real &#8211; com seu poder pol\u00edtico &#8211; ainda existe. E mesmo em uma sociedade consumista, as possibilidades pol\u00edticas continuam a existir. O Real sempre se rompe em fissuras. Receio que, uma vez que come\u00e7amos a pensar que n\u00e3o existe realidade fora do consumismo, n\u00e3o vamos mais lutar por metas emancipat\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>F-se: Tenho notado, pelo menos na cr\u00edtica musical brasileira, que a chamada &#8220;experi\u00eancia sensorial&#8221; est\u00e1 perdendo muito espa\u00e7o pro que eu gosto de chamar de &#8220;tag music&#8221;. Uma breve explica\u00e7\u00e3o: as resenhas de m\u00fasica gostam de ter um tipo not\u00f3rio, t\u00e9cnico e espec\u00edfico de escrita: \u00e9 mais f\u00e1cil abordar &#8220;tags&#8221; e g\u00eaneros espec\u00edficos do passado do que descrever a maneira como a m\u00fasica se relaciona com as experi\u00eancias. Eu n\u00e3o sei se voc\u00ea pensa o mesmo, mas como voc\u00ea se sente sobre a cr\u00edtica musical contempor\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Pra mim, a boa musica evidencia a m\u00fasica derivativa quando a ouve. James Parker e Nicholas Croggon escreveram sobre isso pro Tiny Mix Tapes. De vez em quando, eu leio uma \u00f3tima cr\u00edtica musical, mas na maioria das vezes elas s\u00e3o retrospectivas ou reedi\u00e7\u00f5es. Muita escrita sobre m\u00fasica \u00e9 relacionada a marca\u00e7\u00e3o e <em>hyperlink<\/em>. Estou sempre interessado em jornalismo musical que n\u00e3o comece a partir de uma perspectiva pr\u00e9-decidida, que n\u00e3o apenas se apaixona por um artista simplesmente porque esse artista \u00e9 aclamado, e que se abst\u00e9m de lan\u00e7ar r\u00f3tulos de g\u00eanero em um \u00e1lbum porque esses g\u00eaneros t\u00eam algum tipo de cach\u00ea cultural.<\/p>\n<p><strong>F-se Em seu livro, quando voc\u00ea falou sobre o New Dreams Ltd e o Internet Club, voc\u00ea usou o termo &#8220;n\u00e3o-lugar&#8221;. O que \u00e9 esse &#8220;n\u00e3o-lugar&#8221;? Est\u00e1 al\u00e9m do capitalismo ou \u00e9 um v\u00e1cuo que podemos encontrar quando estamos andando pelo <em>shopping<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> N\u00e3o-lugares foram primeiro teorizados, no meu conhecimento, por Marc Aug\u00e9. Ele os considera espa\u00e7os an\u00f4nimos onde o capital flui &#8211; aeroportos, <em>shoppings<\/em>, salas de espera, cadeias de lojas etc. Eles dissolvem no\u00e7\u00f5es de localiza\u00e7\u00e3o e ajudam na cria\u00e7\u00e3o de uma monocultura.<\/p>\n<p><strong>F-se: O quanto voc\u00ea acha da <em>vaporwave<\/em> como uma cr\u00edtica consciente ao capitalismo tardio ou s\u00e3o apenas alguns adolescentes atrav\u00e9s de memes e <em>trolls<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Independentemente da inten\u00e7\u00e3o, podemos l\u00ea-la como uma cr\u00edtica ao capitalismo de consumo, bem como cr\u00edticas de temporalidade, g\u00eanero e afeto. Mesmo que seja <em>troll<\/em>, ainda estou interessado em estud\u00e1-la. N\u00f3s temos dito essas mesmas coisas sobre Warhol por meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p><strong>F-se: Eu n\u00e3o assisti, mas o novo filme de (<em>Steven<\/em>) Spielberg (<em>&#8220;Jogador N\u00ba 1&#8221;<\/em>), pelo menos no Brasil, est\u00e1 sendo anunciado como uma regress\u00e3o \u00e0 nostalgia. \u00c9 exatamente o tipo de fantasma mercantilizado que voc\u00ea nos alertou em seu livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Absolutamente. O filme de Spielberg n\u00e3o \u00e9 apenas uma armadilha retr\u00f3grada pura, mas tamb\u00e9m um plugue sem vergonha pro mito cansado do sublime digital, que \u00e9 a cren\u00e7a de que a tecnologia digital descentraliza o poder e tem a capacidade de introduzir algum tipo de utopia. No meu pr\u00f3ximo livro, no qual estou trabalhando agora, dedico uma se\u00e7\u00e3o inteira pra criticar esse filme.<\/p>\n<p><strong>F-se: Como f\u00e3 de m\u00fasica, tenho gostado muito dos trabalhos da Dream Catalog. Quais s\u00e3o os outros selos chamando sua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> N\u00e3o me atualizo muito na <em>vaporwave<\/em> porque n\u00e3o a considero t\u00e3o atraente quanto algumas das obras anteriores. Oneohtrix Point Never sempre me surpreende, mesmo que ele n\u00e3o seja estritamente um produtor de <em>vaporwave<\/em> (ele, intencionalmente ou n\u00e3o, ajudou em sua inven\u00e7\u00e3o). Eu ou\u00e7o muita m\u00fasica al\u00e9m de <em>vaporwave<\/em> tamb\u00e9m. O novo \u00e1lbum do Iceage (<em>&#8220;Beyondless&#8221;, 2018<\/em>) \u00e9 \u00f3timo, assim como o lan\u00e7amento de Torres no ano passado, &#8220;Three Futures&#8221;.<\/p>\n<p><strong>F-se: H\u00e1 uma passagem vibrante em seu livro quando voc\u00ea usou palavras de Adam Harper pra descrever a m\u00fasica aceleracionista. Quais s\u00e3o alguns \u00e1lbuns que voc\u00ea acha que podem se encaixar nessa categoria? E por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Neste est\u00e1gio, a m\u00fasica pop contempor\u00e2nea \u00e9 aceleracionista. Suas batidas, produ\u00e7\u00e3o e letras denotam uma esp\u00e9cie de transcend\u00eancia atrav\u00e9s da velocidade e do consumo. Artistas como Taylor Swift, Ed Sheeran, Drake e a maioria dos m\u00fasicos de <em>country<\/em> s\u00e3o financiados por grandes quantidades de capital pra vender grandes quantidades de produtos, sendo a m\u00fasica um deles. Eles se encaixam perfeitamente dentro de uma sociedade agro-capitalista.<\/p>\n<p><strong>F-se: \u00c9 a \u00faltima pergunta. Obrigado por isso. Como os escritos de Mark Fisher podem se envolver, simultaneamente, com o capitalismo e a cr\u00edtica musical?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GT:<\/strong> Mark sabia como criticar com precis\u00e3o tanto a ind\u00fastria da m\u00fasica quanto o capitalismo em geral. Ele considerou muita m\u00fasica contempor\u00e2nea como regressiva. Pra ele, qualquer coisa verdadeiramente nova seria subversiva pro capitalismo, mas o capitalismo n\u00e3o gosta de ser subvertido. Ent\u00e3o acabamos em uma esp\u00e9cie de estase onde nada radical est\u00e1 invadindo o <em>mainstream<\/em>. Em vez disso, tudo fortalece os pilares do capital. Ele continua a ser uma das vozes mais importantes do nosso tempo e sinto muita falta dele.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-ulcerate-um-territorio-mais-profundo\/\" title=\"ENTREVISTA: ULCERATE &#8211; UM TERRIT\u00d3RIO MAIS PROFUNDO\">ENTREVISTA: ULCERATE &#8211; UM TERRIT\u00d3RIO MAIS PROFUNDO<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-jordaan-mason-desejo-estranho-de-documentar-a-vida\/\" title=\"ENTREVISTA: JORDAAN MASON &#8211; DESEJO ESTRANHO DE DOCUMENTAR A VIDA\">ENTREVISTA: JORDAAN MASON &#8211; DESEJO ESTRANHO DE DOCUMENTAR A VIDA<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-will-oldham-dos-pes-de-um-vulcao-para-o-mundo\/\" title=\"ENTREVISTA: WILL OLDHAM &#8211; DOS P\u00c9S DE UM VULC\u00c3O PARA O MUNDO\">ENTREVISTA: WILL OLDHAM &#8211; DOS P\u00c9S DE UM VULC\u00c3O PARA O MUNDO<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-kyle-field-mais-vulneravel-do-que-jovem\/\" title=\"ENTREVISTA: KYLE FIELD &#8211; MAIS VULNER\u00c1VEL DO QUE JOVEM\">ENTREVISTA: KYLE FIELD &#8211; MAIS VULNER\u00c1VEL DO QUE JOVEM<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-mineral-uma-comunidade-ao-longo-do-tempo\/\" title=\"ENTREVISTA: MINERAL &#8211; UMA COMUNIDADE AO LONGO DO TEMPO\">ENTREVISTA: MINERAL &#8211; UMA COMUNIDADE AO LONGO DO TEMPO<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Preso no inumano e ap\u00f3s passar horas e horas no notebook, comecei a ler &#8220;Babbling Corpse: Vaporwave And The Commodification Of Ghosts&#8221; (2016), de Grafton [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":51887,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[888],"tags":[1146],"class_list":["post-51886","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-entrevista-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/graftontanner1.jpg?fit=540%2C300","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-duS","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51886"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51886\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51887"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}