{"id":52294,"date":"2018-06-29T13:06:05","date_gmt":"2018-06-29T16:06:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=52294"},"modified":"2018-07-27T15:31:51","modified_gmt":"2018-07-27T18:31:51","slug":"acidas-meu-paraiso-na-terra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-meu-paraiso-na-terra\/","title":{"rendered":"\u00c1CIDAS: MEU PARA\u00cdSO NA TERRA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"52295\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-meu-paraiso-na-terra\/acidas14\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/acidas14.jpg?fit=540%2C300\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"acidas14\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/acidas14.jpg?fit=540%2C300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/acidas14.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-52295\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/acidas14.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/acidas14.jpg?resize=300%2C167 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Eu devia ter uns vinte anos e me amarrava andar pelas ruas ouvindo um disco escolhido a dedo. Era uma \u00e9poca curiosa. T\u00ednhamos duas op\u00e7\u00f5es de &#8220;carregar&#8221; m\u00fasica conosco: fitas-cassete, em pleno decl\u00ednio, e <em>CD players<\/em>, que eram pr\u00e1ticos demais, s\u00f3 que tinham o inconveniente de balan\u00e7ar um bocado se a gente caminhasse r\u00e1pido ou corresse. Eu preferia as cassetes.<\/p>\n<p>Meu <em>walkman<\/em> parecia que j\u00e1 tinha sa\u00eddo de f\u00e1brica surrado de t\u00e3o surrado que era, mas de imediato ganhou o t\u00edtulo de meu insepar\u00e1vel companheiro. Quando eu queria ficar sozinho, era com ele que ficava. Bastava escolher um disco e pronto. E uma das minhas grandes divers\u00f5es na \u00e9poca era gravar meus LPs e CDs em cassete pra poder andar com eles. Tinha todos nas m\u00eddias originais e em cassete. Cheguei a ter mais de duas mil fitas-cassete empilhadas num canto da casa, o que era uma vis\u00e3o um tanto bruta do meu \u00f3cio.<\/p>\n<p>Mesmo com esse montante eu elegia um \u00fanico disco toda vez que sa\u00eda e ele seria meu companheiro por todo aquele dia. Faculdade, trabalho, \u00f4nibus, caminhada, sempre com a mesma obra. Era preciso escolher com cautela. Uma escolha ruim podia arruinar o dia, fazer eu passar horas em sil\u00eancio sem ouvir nada, j\u00e1 que eu simplesmente n\u00e3o queria ouvir aquele disco. Era uma tarefa cruel escolher.<\/p>\n<p>Em 1994, essa tarefa se mostrou cir\u00fargica. Estava no s\u00edtio de uma tia no interior de Minas Gerais. \u00c9 um lugar bem afastado da cidade e bom pra caminhar e ficar sem fazer rigorosamente nada, a n\u00e3o ser, claro, ouvir uns discos no <em>walkman<\/em>. H\u00e1 umas montanhas por ali, com trilhas abertas por aventureiros, mas n\u00e3o demarcadas, de modo que \u00e9 bem f\u00e1cil se perder. Mas voc\u00ea sabe como \u00e9 o ser humano, bicho que se acha imune a erros e que as merdas s\u00f3 acontecem ao outros.<\/p>\n<p>Naquele dia, escolhi o &#8220;Little Creatures&#8221;, do Talking Heads, e fui caminhar numa das trilhas. Era uma trilha um tanto sinistra porque tinha partes bem \u00edngremes, passava por dois c\u00f3rregos e tinha partes que era mata pura. Como quase ningu\u00e9m se arrisca por ali, \u00e9 por ali que eu queria ir. \u00c0s vezes, o distanciamento de quaisquer outras pessoas \u00e9 o cen\u00e1rio mais pr\u00f3ximo que a gente por ter o para\u00edso na Terra. Era isso que eu queria. E o disco escolhido me pareceu perfeito, embora eu n\u00e3o saiba exatamente o motivo da escolha.<\/p>\n<p>Andei, subi, afastei galhos, chutei pedras, tropecei, enquanto David Byrne indicava a &#8220;estrada pra lugar nenhum&#8221;. Uma trilha pra trilha. A ideia era uma caminhada breve, de duas horas no m\u00e1ximo, repete o disco duas vezes se muito. S\u00f3 que nada acontece como a gente planeja &#8211; ou, no caso, quando simplesmente n\u00e3o planeja nada.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, me dei oficialmente como perdido. N\u00e3o sabia qual caminho seguir pra voltar. Sabe-se l\u00e1 como consegui a proeza e j\u00e1 caminhava h\u00e1 umas quatro horas sem saber se ia pra algum lugar. E David Byrne cantando as &#8220;criaturas do amor&#8221;, eu entre p\u00e1ssaros e insetos do cair da tarde. N\u00e3o fosse Byrne e sua turma, talvez meu desespero tivesse sido elevado o suficiente pra eu me atirar de algum penhasco. Mas eu estava me sentido como aquele sujeito da ilha deserta: &#8220;qual disco voc\u00ea levaria pra uma ilha deserta?&#8221;. Pois eu, involuntariamente, sem saber que estava indo pra uma, escolhi um do Talking Heads.<\/p>\n<p>Mais de vinte anos depois (nem preciso dizer que voltei s\u00e3o e salvo ao s\u00edtio, ap\u00f3s umas horas de desencontros e desacertos com os caminhos), me deparo mais uma vez com esse infeliz desafio. Em tempos em que ningu\u00e9m mais ouve um disco inteiro, quanto mais um disco s\u00f3 durante o dia, me impus o desafio de escolher qual disco afinal, lan\u00e7ado em 2018, merecia ficar perdido comigo. De todos aqueles que baixei e ouvi displicentemente, muitos poderiam ser eleitos, mas \u00e9 bem prov\u00e1vel que eu escolheria com grande satisfa\u00e7\u00e3o o novo das Breeders, &#8220;All Nerve&#8221;.<\/p>\n<p>Explico. Eu andava frustrad\u00edssimo com Kim Deal. Os discos anteriores (&#8220;Title TK&#8221;, de 2002, e &#8220;Mountain Battles&#8221;, de 2008) me deram uma pregui\u00e7a danada. Eu me enforcaria numa ilha deserta se s\u00f3 esses discos estivessem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que recusaria qualquer tipo de socorro se eu tivesse o &#8220;Pod&#8221; ou o &#8220;Last Splash&#8221; comigo, morreria feliz. &#8220;All Nerve&#8221; fica mais pr\u00f3ximo da for\u00e7a desses e n\u00e3o teria nenhum arrependimento de meus \u00faltimos dias se darem com ele, sozinho de uma forma que suas notas nunca me deixariam de fato sozinho.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei em que ponto Deal e sua irm\u00e3 se recompuseram, mas &#8220;Nervous Mary&#8221; e &#8220;Wait In The Car&#8221; est\u00e3o entre as melhores e mais en\u00e9rgicas m\u00fasicas que as duas fizeram. &#8220;Walking With A Killer&#8221; tem uma do\u00e7ura ir\u00f4nica e melanc\u00f3lica que fazem a solid\u00e3o ter um outro significado. N\u00e3o sei se s\u00e3o as guitarras cruas, que ora se derretem, ou a voz ainda infantil das irm\u00e3s. N\u00e3o sei se \u00e9 a velocidade e objetividade com que as m\u00fasicas atingem o c\u00e9rebro, como alguma droga potente que faz o usu\u00e1rio ficar alheio aos problemas e \u00e0 realidade. N\u00e3o sei se \u00e9 a bateria dispersa de &#8220;Howl At The Summit&#8221;, nem sei se \u00e9 a vers\u00e3o de &#8220;Archangel&#8217;s Thunderbird&#8221;, do Amon D\u00fc\u00fcl II (<a href=\"https:\/\/youtu.be\/XzSi1qPxBIQ\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">ou\u00e7a aqui a original<\/a>). H\u00e1 algo em &#8220;All Nerve&#8221; que faz a gente se encontrar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/quqU4onSjh8\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>E vou arriscar aqui uma for\u00e7a\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de breve lugar-comum: eu talvez me encontrei com a minha pr\u00f3pria juventude. &#8220;All Nerve&#8221; \u00e9 como se as Breeders jamais tivessem acabado e voltado e acabado e voltado, e se enfiado nas mais obscuras aventuras de auto-destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se &#8220;Pod&#8221; estivesse nascendo, logo depois de &#8220;Safari&#8221;, nesse momento, enquanto eu reencontro meus caminhos. \u00c9 um disco pra voc\u00ea ficar com ele perdido, porque cada audi\u00e7\u00e3o indica novas descobertas: h\u00e1 uma m\u00fasica que voc\u00ea n\u00e3o gostou de cara e passa a gostar logo depois (ol\u00e1, &#8220;Blues At The Acropolis&#8221;).<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como a banda consegue ficar l\u00e1 parada no tempo e parecer t\u00e3o mais vigorosa e moderna e atual que um punhado de bandinhas modernosas que emulam o Pixies, o Pavement, o Sonic Youth e as pr\u00f3prias Breeders, parecendo velhos senhores nost\u00e1lgicos de olho num passado que n\u00e3o faz quest\u00e3o de voltar. \u00c9 realmente engra\u00e7ado como depois de tanto tempo h\u00e1 vigor saindo de guitarras at\u00e9 bem pouco desligadas sem parecer um mero auto-revivalismo, enquanto seus filhotes seguem procurando um caminho pra sair do labirinto da falta de criatividade onde se enfiaram.<\/p>\n<p>&#8220;All Nerve&#8221; pode n\u00e3o ser o \u00fanico disco de 2018 que eu levaria pra uma ilha deserta <em>hoje<\/em>. Veja, eu nem gravo mais fitas (ah, a falta de tempo!), num tocador de MP3 cabem tantos mais discos, o que faz a proposta se perder por completo. Ent\u00e3o, eu gravaria e eu parecia o \u00fanico nost\u00e1lgico aqui. Perdido, mas reencontrado num per\u00edodo da vida mais f\u00e1cil, onde os trope\u00e7os e topadas nas pedras indicam que estou no caminho certo pro meu para\u00edso na Terra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5i76b0OrdIQ\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-sem-passado-e-sem-futuro\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO\">\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-quatro-discos-quatro-vozes-so-mulheres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES\">\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-voo-sem-sentido-asas-pra-se-apoiar\/\" title=\"\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR\">\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-adaptacao-de-flores-silvestres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES\">\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-uma-voz-e-tudo\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO\">\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu devia ter uns vinte anos e me amarrava andar pelas ruas ouvindo um disco escolhido a dedo. 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