{"id":54897,"date":"2019-10-02T22:15:27","date_gmt":"2019-10-03T01:15:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=54897"},"modified":"2019-10-02T22:15:27","modified_gmt":"2019-10-03T01:15:27","slug":"resenha-rakta-falha-comum","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-rakta-falha-comum\/","title":{"rendered":"RESENHA: RAKTA &#8211; FALHA COMUM"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"54898\" data-permalink=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-rakta-falha-comum\/rakta-capa-falhacomum\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?fit=540%2C540\" data-orig-size=\"540,540\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"rakta-capa-falhacomum\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?fit=540%2C540\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?resize=540%2C540\" alt=\"rakta-falha-comum\" width=\"540\" height=\"540\" class=\"alignnone size-full wp-image-54898\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?resize=150%2C150 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?resize=300%2C300 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?resize=83%2C83 83w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/rakta-capa-falhacomum.jpg?resize=55%2C55 55w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>O momento que eu lembro \u00e9 quando a disson\u00e2ncia passou a ser a regra e um mundo de possibilidades convergiu no \u00fanico instante. Mais ou menos como Stephen em &#8220;Ulisses&#8221; sentindo todos os fragmentos de uma narrativa que n\u00e3o era narrativa desintegrando-se no momento que se apresenta como extens\u00e3o l\u00f3gica de um mundo perverso, um mundo castigado pelo descaso dos deuses e dos seres humanos, restando ao artista recolher seus infinitos cacos e transmutar este caos em uma forma que se manifesta por sua obra.<\/p>\n<p>Sim, o momento que eu lembro \u00e9 quando esse uno indivis\u00edvel &#8211; que dizem ser deus, ou o universo, ou o cosmo &#8211; foi quebrado por todos os fragmentos, por frequ\u00eancias repetitivas cujos intervalos eram rasgados por sintetizadores hipnotizantes, por cantos ocultistas e xam\u00e2nicos, uma magia projetada num mundo frio e isolado, em que receber e produzir s\u00e3o a mesma coisa, uma mesma troca constante que oscila ante o vazio da morte quando todos os significados s\u00e3o extintos e voltam \u00e0 sua forma original: um eco de destrui\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o que \u00e9 o toque criativo e transmuta toda a mat\u00e9ria em nada pra que possa, novamente, reverter-se a uma lacuna criativa, uma antec\u00e2mara dos acontecimentos onde a saudade dos cachorros latindo, do sol seco e dos transeuntes cansados reinstala o universo subjetivo.<\/p>\n<p>O momento que eu lembro n\u00e3o \u00e9 um passado isolado, mas uma convers\u00e3o daquela experi\u00eancia em uma sensa\u00e7\u00e3o que se difunde no presente. Ocorrendo no tempo atual, o passado surge como um espa\u00e7o compartilhado, como apenas um c\u00f4modo diferente do qual se est\u00e1. Como a m\u00fasica da Rakta \u00e9 uma espiral que converge simultaneamente pra espa\u00e7os anteriormente habitados &#8211; fazendo deles uma morada tempor\u00e1ria, em que reclus\u00e3o e presen\u00e7a se fundem numa linha inconstante -, minhas mem\u00f3rias surgem como pot\u00eancias ativas pra criar um universo que transp\u00f5e o objetivo; com emo\u00e7\u00f5es, afetos e aus\u00eancias.<\/p>\n<p>A m\u00fasica da Rakta \u00e9 uma esp\u00e9cie de autoconsumo batizada numa complexa rela\u00e7\u00e3o interior e como esta emana no mundo. Ela \u00e9 uma devo\u00e7\u00e3o do tempo presente n\u00e3o como resultado de algum produto, mas uma busca de enraizamento no instante que imediatamente escapa. Essa tentativa de captura, de busca por uma afirma\u00e7\u00e3o no &#8220;mundo que est\u00e1 prestes a acabar&#8230; entrando em colapso&#8221;, que vai orientar entradas sonoras cada vez mais radicais e inseguras. Porque, como escreveu Cec\u00edlia Meireles, &#8220;tudo o que abarco \/ se faz presente&#8221;, a banda Rakta perpetua seus entrecruzamentos com uma m\u00fasica lotada de repeti\u00e7\u00f5es que se variam \u00e0 medida que se projetam.<\/p>\n<p>Mas, com muita frequ\u00eancia, a m\u00fasica que se projeta \u00e9 n\u00e3o uma aboli\u00e7\u00e3o entre formas distintas de vivenciar o tempo, mas um prolongamento que se insinua \u00e0 medida que as reagem contra elas mesmas, criando uma esp\u00e9cie de autossabotagem da linearidade na m\u00fasica que se instala, pra indicar uma espiral cuja trajet\u00f3ria e marco inicial \u00e9 tamb\u00e9m seu horizonte mais long\u00ednquo.<\/p>\n<p>Ainda assim, se todo instante se apresenta como presente, cabe \u00e0 articula\u00e7\u00e3o &#8211; entre ruptura e linearidade &#8211; a constru\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a fr\u00e1gil o suficiente pra ser percebida sensorialmente, como um cosmos de locomo\u00e7\u00f5es que instaura um tempo de audi\u00e7\u00e3o que \u00e9, tamb\u00e9m, um espa\u00e7o. \u00c9 nessa dissolu\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia que est\u00e1 o principal triunfo da m\u00fasica, fazendo com que sons abstratos dissolvam o ouvinte na suspens\u00e3o imediata da descren\u00e7a.<\/p>\n<p>M\u00fasica \u00e9 um presente, uma forma de instaurar um tempo como presen\u00e7a que se cria num horizonte cronologicamente dissolvido. Ceder si mesmo a uma constru\u00e7\u00e3o conjunta de sentidos, em que o conceito de &#8220;si mesmo&#8221; possa ser ultrapassado pra um compartilhamento. Criar m\u00fasica \u00e9 tamb\u00e9m moldar a mem\u00f3ria que s\u00e3o os sons sens\u00edveis e restabelecer sensa\u00e7\u00f5es a partir de harmonias. E se sentimentos s\u00e3o complicados, n\u00e3o seriam registros \u00f3bvios que fielmente os trariam \u00e0 tona. Arremessar esses sons em uma massa compacta \u00e9 abrir m\u00e3o da subjetividade, representa\u00e7\u00e3o e performance puras pra acenar uma constru\u00e7\u00e3o conjunta de significados, nascendo espelhos que n\u00e3o s\u00e3o retratos fidedignos de coisa alguma, mas sim um movimento de transe cont\u00ednuo que pode erradicar o ouvinte da passividade e do afeto anteriormente constru\u00eddos em prol dum reconhecimento do espa\u00e7o esquecido.<\/p>\n<p>Ouvir a Rakta se distanciar de uma constru\u00e7\u00e3o convencional \u00e9 estar no fluxo do presente que se descortina e se desdobra em diversas reentr\u00e2ncias com acessos de tudo o que se est\u00e1 vivendo no momento; \u00e9 capturar o presente enquanto constantemente ele evade em outras mem\u00f3rias, lembran\u00e7as, constru\u00e7\u00f5es e reconstru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Correspond\u00eancia \/ do para\u00edso \/ da nossa aus\u00eancia \/ desconhecida &#8230;&#8221;, como escreve Cec\u00edlia Meireles. &#8220;&#8230;Choramos esse mist\u00e9rio, \/ esse esquema sobre-humano, \/ a for\u00e7a, o jogo, o acidente da indiz\u00edvel conjun\u00e7\u00e3o \/ que ordena vidas e mundos \/ em p\u00f3los inexor\u00e1veis de ru\u00edna e de exalta\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Pra ouvir o disco, <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/rakta-falha-comum\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><strong>NOTA: 8,0<\/strong><br \/>\nLan\u00e7amento: 1\u00ba de abril de 2019<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 35 minutos e 36 segundos<br \/>\nSelo: Nada Nada Discos, Dama da Noite Discos, La Vida Es Un Mus e Iron Lung Records<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Fernando Sanches e Rakta<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/rakta-iii\/\" title=\"RAKTA &#8211; III\">RAKTA &#8211; III<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-shit-and-shine-new-confusion-e-persher-man-with-the-magic-soap\/\" title=\"RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;\">RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-skullcrusher-quiet-the-room\/\" title=\"RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM\">RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-feliz-fm-nome-morto-j-p-caron-a-juventude-do-rio-de-janeiro-respira-por-aparelhos-ruidosos\/\" title=\"RESENHA: FELIZ FM, NOME MORTO &#038; &#038; J.-P. 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