{"id":21484,"date":"2012-01-05T15:56:49","date_gmt":"2012-01-05T17:56:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=21484"},"modified":"2013-10-25T01:34:43","modified_gmt":"2013-10-25T03:34:43","slug":"pense-ou-dance-o-dogmatismo-e-os-beatles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-o-dogmatismo-e-os-beatles\/","title":{"rendered":"PENSE OU DANCE: O DOGMATISMO E OS BEATLES"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"21493\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-o-dogmatismo-e-os-beatles\/beatles1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/beatles1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"beatles1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/beatles1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/beatles1.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-21493\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/beatles1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/beatles1.jpg?resize=300%2C166&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea j\u00e1 tenha ouvido a frase mais famosa entre os cag\u00f5es de boteco: &#8220;gosto, futebol, religi\u00e3o e pol\u00edtica n\u00e3o se discutem&#8221;. Eis um cidad\u00e3o que voc\u00ea <em>n\u00e3o<\/em> pode chamar pra beber. Porque s\u00e3o as quatro coisas mais bacanas e inflam\u00e1veis pra se discutir numa mesa de bar &#8211; ou em qualquer lugar.<\/p>\n<p>Primeiro, porque discutir \u00e9 legal. Discutir futebol (sobre f\u00e3s e idolatria, falarei numa oportunidade pr\u00f3xima), pol\u00edtica (idem), gosto e religi\u00e3o resume muito sobre o car\u00e1ter de qualquer um. Porque nossas verdades s\u00e3o quase todas baseadas em tradi\u00e7\u00f5es usualmente idiotas e dogmas obscurantistas (e dogmas s\u00e3o, de acordo com o seu dicion\u00e1rio a\u00ed, &#8220;ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscut\u00edvel, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar&#8221; &#8211; n\u00e3o s\u00f3 religiosas, mas filos\u00f3ficas, pol\u00edticas, sociais&#8230;).<\/p>\n<p>As ideias passadas de gera\u00e7\u00e3o pra gera\u00e7\u00e3o precisam ser contestadas, seja pela luz oferecida pela ci\u00eancia, seja por inconformismo.<\/p>\n<p>Pegue por exemplo o dogma da virgindade de Maria, a m\u00e3e de Jesus. Caso Jesus tenha de fato existido, h\u00e1 de se questionar o mito de como ele foi concebido. No Velho Testamento, Isa\u00edas, no cap\u00edtulo 7, vers\u00edculo 14, fala sobre &#8220;a &#8216;jovem&#8217; que dar\u00e1 \u00e0 luz um filho (&#8230;)&#8221;. Uma boa B\u00edblia trar\u00e1 como nota a confus\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;jovem&#8221;. A tradu\u00e7\u00e3o grega <em>parthenos<\/em> traz &#8220;a virgem&#8221;, do hebraico <em>alm\u00e1<\/em>, que significa &#8220;uma donzela&#8221;, uma &#8220;jovem casada&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 nada que fale sobre virgindade. \u00c9 uma tradu\u00e7\u00e3o err\u00f4nea apropriada pelos autores dos evangelhos de Lucas e Mateus (1,23), pra moldar a vida de Jesus \u00e0s profecias do Velho Testamento.<\/p>\n<p>O fato de uma mulher virgem dar \u00e0 luz (hoje, com os avan\u00e7os da ci\u00eancia, \u00e9 plenamente poss\u00edvel &#8211; e n\u00e3o se trata de milagre &#8211; mas n\u00e3o entre os homens do s\u00e9culo I, \u00e9 bom lembrar) parece miraculoso demais, de modo que nem mesmo outros autores de evangelhos parecem acreditar nisso. Na Ep\u00edstola Aos Romanos (1,3), Paulo fala sobre o filho de Deus, &#8220;nascido da estirpe de Davi segundo a carne, estabelecido Filho de Deus&#8221;. &#8220;Segundo a carne&#8221;, veja. N\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia direta \u00e0 virgindade de Maria.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que a leitura literal de textos t\u00e3o antigos e manipulados pela vontade de imperadores ignorantes de tr\u00eas s\u00e9culos ap\u00f3s os fatos presumidamente ocorridos pode tamb\u00e9m ser aberta. Mas parece-me igualmente \u00f3bvio que um tema como o sexo sempre foi algo que o tal Deus nunca mostrou muito apre\u00e7o: sempre foi algo pecaminoso, a ponto de seu filho ter sido gerado pelo Esp\u00edrito Santo e n\u00e3o pelo marido de sua m\u00e3e, Jos\u00e9, no ato deliciosamente carnal, com gemidos, carinhos e ejacula\u00e7\u00e3o. &#8220;Pode-se dizer que a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental aguentou (<em>e segue tendo que aguentar<\/em>) dois mil\u00eanios de neuroses sexuais simplesmente porque os autores dos evangelhos de Mateus e Lucas n\u00e3o sabiam ler hebraico corretamente&#8221;, numa boa defini\u00e7\u00e3o de Sam Harris.<\/p>\n<p>Mas o dogma da virgindade n\u00e3o \u00e9 \u00fanico moldado pela Igreja pra seus prop\u00f3sitos. Forastieri escreveu em 2009 um texto bem bacana de <a href=\"http:\/\/noticias.r7.com\/blogs\/andre-forastieri\/2009\/12\/24\/a-origem-do-natal\/\" target=\"_blank\">como o mito do nascimento de Jesus e do Natal foi criado<\/a> pelo Conselho de Nicea, em 325 D.C.. Tal tradi\u00e7\u00e3o seguimos at\u00e9 hoje, sem questionar muito. Porque s\u00e3o dogmas. N\u00e3o se discutem. Uma mulher virgem pode dar \u00e0 luz um filho e sobre isso n\u00e3o se discute.<\/p>\n<p>Experimente, pois, dizer a um mu\u00e7ulmano ou a um crist\u00e3o devotos que sua mulher o est\u00e1 traindo. Experimente dizer que seu fusca velho vale, na verdade, oito milh\u00f5es de d\u00f3lares. Jure de p\u00e9s juntos. Em ambas as afirma\u00e7\u00f5es, os cidad\u00e3os comuns, por\u00e9m religiosos, crentes, &#8220;tementes&#8221; a seus deuses, ir\u00e3o questionar e pedir provas contundentes sobre e, se poss\u00edvel, rir da sua cara.<\/p>\n<p>Por outro lado, diga a eles que o livro que eles t\u00eam no criado-mudo e que levam pra passear todo domingo aos respectivos templos, foi escrito por um ser invis\u00edvel, ser esse que ir\u00e1 atir\u00e1-los ao fogo eterno, caso ousem questionar as afirma\u00e7\u00f5es absurdas ali escritas acerca do universo, da \u00e9tica e da moral, da hist\u00f3ria e da vida; e certamente nenhum dos dois cidad\u00e3os pedir\u00e1 prova alguma e ir\u00e3o acreditar cegamente em tudo, porque s\u00e3o coisas que n\u00e3o se discutem.<\/p>\n<p>O dogmatismo nos leva ao obscurantismo. Nem mesmo o dogmatismo cient\u00edfico \u00e9 v\u00e1lido. Uma das leis m\u00e1ximas da f\u00edsica, a Teoria da Relatividade, est\u00e1 sendo questionada nesse momento, porque a ci\u00eancia permite e busca e exige esse inconformismo. Quando uma descoberta \u00e9 feita ou uma teoria \u00e9 elaborada, ela \u00e9 imediatamente jogada \u00e0 curiosidade feroz dos c\u00e9rebros cient\u00edficos pra ser destru\u00edda. Se sobreviver, \u00e9 ela que dita a verdade sobre aquele determinado assunto. Ou seja, h\u00e1 discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas esque\u00e7a a religi\u00e3o por ora e pense em alguns outros dogmas. Dogmas pr\u00f3ximos de voc\u00ea. Pense, da mesma maneira, o qu\u00e3o improv\u00e1veis s\u00e3o algumas &#8220;verdades&#8221; que gera\u00e7\u00f5es passada v\u00e3o nos entupindo. Pense nos Beatles, por exemplo.<\/p>\n<p>O maior dogma da m\u00fasica talvez seja: n\u00e3o h\u00e1 banda como os Beatles, nem nunca haver\u00e1. A qualidade e a import\u00e2ncia do quarteto parece indiscut\u00edvel, mas quanto a sua &#8220;superioridade&#8221;, ou intangibilidade, \u00e9 melhor pensar de novo. O que faz os Beatles serem intoc\u00e1veis por cr\u00edtica, apreciadores de m\u00fasica e f\u00e3s; e a banda de sucesso atual ser intoc\u00e1vel apenas por f\u00e3s hist\u00e9ricos e inconsequentes?<\/p>\n<p>O embate parece ris\u00edvel qualquer que seja o combatente, mas nem tanto (troque &#8220;a banda de sucesso atual&#8221; por qualquer artista ou banda, de qualquer estilo, que a juventude realmente goste agora). Os Beatles nem sempre foram unanimidade. E eis uma das suas qualidades: a de subverter a l\u00f3gica dominante da \u00e9poca. A tal &#8220;banda de sucesso atual&#8221; est\u00e1 longe de ser unanimidade (nem pra galhofa, nem pra exalta\u00e7\u00e3o), mas pode vir a ser, em pouco tempo, por outros m\u00e9ritos, observados por f\u00e3s que amadurecer\u00e3o e tomar\u00e3o de assalto editorias de r\u00e1dios, revistas, sites, ag\u00eancias de publicidade, programas de televis\u00e3o, moldando esse gosto e o p\u00fablico de sua gera\u00e7\u00e3o &#8211; ou, o que \u00e9 mais prov\u00e1vel, infelizmente, remodelando e reafirmando os dogmas do passado, das gera\u00e7\u00f5es anteriores, sem questionar, porque isso, enfim, d\u00e1 um trabalho danado.<\/p>\n<p>Reafirmar um dogma tamb\u00e9m d\u00e1 trabalho e leva um bocado de tempo. Os argumentos dos evangelistas beatleman\u00edacos passeiam pelas vias do &#8220;cl\u00e1ssico&#8221;, da &#8220;influ\u00eancia&#8221;, da &#8220;originalidade&#8221;, do &#8220;tradicional&#8221;, do &#8220;impacto cultural&#8221; e por a\u00ed vai. Um meme t\u00e3o enraizado que foi promovido a dogma.<\/p>\n<p>Por partes. Cl\u00e1ssico eu descartaria. H\u00e1 quem ache o Blink-182, com 20 anos de carreira, algo cl\u00e1ssico. Influ\u00eancia sobre novas bandas \u00e9 uma linha que costura v\u00e1rias d\u00favidas: o que influenciou os Beatles, tipo o country e o blues (ou at\u00e9 mesmo Little Richard), n\u00e3o deveria vir na frente, portanto, em termos de import\u00e2ncia nesse quesito? O que se prega, na mesma via da &#8220;originalidade&#8221;, \u00e9 que os Beatles criaram tudo o que veio depois. N\u00e3o foi bem assim, \u00e9 claro, embora seja preciso colocar na conta deles a tremenda carga de ousadia, inconformismo e experimenta\u00e7\u00e3o que se exige de uma banda de tamanha import\u00e2ncia e dessa envergadura &#8211; tudo o que seus <em>f\u00e3s<\/em> precisariam ter, mas s\u00e3o limitados pela pregui\u00e7a e pela catarata cr\u00f4nica de enxergar os novos tempos.<\/p>\n<p>Os Beatles &#8220;bons&#8221;, &#8220;The Ballad Of John And Yoko&#8221;, mas j\u00e1 tirando uma com eles mesmos:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"315\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Gxx-dOHias8?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>O impacto cultural \u00e0 \u00e9poca \u00e9 inquestion\u00e1vel, mas isso passou, j\u00e1 foi, como passar\u00e1 o impacto do Justin Bieber, e hoje, como discos do Elvis, de Bob Marley, do Led Zeppelin, dos Sex Pistols e um bocado de outros, que seguem vendendo a boas pilhas, o quarteto de Liverpool pode ser considerada uma banda de estupendo f\u00f4lego comercial e nada mais. Ademais, dizer que as menininhas que se esgoelam por Luan Santana e por Justin Bieber, por exemplo, s\u00e3o reflexo cultural do mesmo tipo de histerismo da beatlemania \u00e9 ignor\u00e2ncia, pra dizer o m\u00ednimo (\u00e9 bom lembrar que antes de experimentarem alguns bocados de psicotr\u00f3picos, deixarem a barba crescer e pararem de tomar banho, os quatro Beatles eram o equivalente ao Bieber dos anos 1960, t\u00e1 certo?).<\/p>\n<p>Tem o lado musical: h\u00e1 um tronco geneal\u00f3gico que liga o quarteto a pelo menos metade das bandas legais da atualidade, mas o mesmo cr\u00e9dito se pode dar ao Rolling Stones, ao Velvet Undergound, aos Stooges, aos Ramones, a Robert Johnson, ao Nirvana e ao Radiohead (por que n\u00e3o?) etc. etc. etc&#8230; N\u00e3o h\u00e1, pois, essa exclusividade aos Beatles. Ali\u00e1s, musicalmente, s\u00e3o question\u00e1veis v\u00e1rias cria\u00e7\u00f5es do grupo, muitas delas simples besteiras descart\u00e1veis juvenis, como &#8220;Ob-La-Di, Ob-La-Da&#8221;, &#8220;Fallin&#8217; In Love Again&#8221;, &#8220;She Loves You&#8221;, &#8220;Can&#8217;t Buy Me Love&#8221;, &#8220;Yellow Submarine&#8221; (&#8220;descart\u00e1veis&#8221; que o dogmatismo tratou de fazer perdurar) etc.<\/p>\n<p>S\u00e9rio que artisticamente falando isso \u00e9 bom?<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"315\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/LedUjMuTR7Q?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>E o que dizer da infantilidade dessa letra? &#8220;Say you don&#8217;t need no diamond rings\/And I&#8217;ll be satisfied\/Tell me that you want those kind of things\/that money just can&#8217;t buy\/I don&#8217;t care too much for money\/Money can&#8217;t buy me love&#8221;.<\/p>\n<p>Ou dessa: &#8220;When I see you every day\/I say, mmm-mmm, hello, little girl\/When you&#8217;re passing on your way\/I say, mmm-mmm, hello, little girl\/When I see you passing by\/I cry, mmm-mmm, hello, little girl\/When I try to catch your eye\/I cry, mmm-mmm, hello, little girl&#8221;.<\/p>\n<p>Que tal essa outra p\u00e9rola? &#8220;Here comes the sun\/Here comes the sun\/And I say\/It&#8217;s all right&#8221;.<\/p>\n<p>Experimente colocar essas letras na boca da Britney Spears ou da dupla sertaneja mais descolada do momento. Os Beatles podem.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o que a letra importe muito na m\u00fasica pop. N\u00e3o importa, longe disso. A letra e o vocal podem ser um &#8220;outro instrumento&#8221; pra embalar. E m\u00fasica pop \u00e9 esquec\u00edvel. Ningu\u00e9m exige poesia profunda e grandes questionamentos filos\u00f3ficos em m\u00fasica adolescente. S\u00f3 que a dogmatiza\u00e7\u00e3o da banda se d\u00e1 dos mais velhos aos mais jovens &#8211; e tudo o que os Beatles fazem, incluindo letras como essas, \u00e9 tratado como supra-sumo da arte de fazer rock (um termo velho por si s\u00f3), exemplo a ser seguido.<\/p>\n<p>E chegamos \u00e0 &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221; e a\u00ed \u00e9 que a porca torce o rabo, como diria sua av\u00f3 fanzoca dos Beatles. Pai ensinou filho, que ensinou seu neto, que os Beatles s\u00e3o legais. Pronto. N\u00e3o \u00e9 preciso saber mais nada. Se bobear, nem ouvir. Quantas pessoas que voc\u00ea conhece que <em>realmente<\/em> conhecem os Beatles com profundidade? \u00c9 que o lance virou um dogma, um conte\u00fado de b\u00edblia da m\u00fasica, a ponto at\u00e9 mesmo de infectar os trabalhos solos de seus integrantes, que s\u00e3o tidos como t\u00e3o geniais quanto. N\u00e3o s\u00e3o. Solteiros, oferecem ainda mais produ\u00e7\u00f5es intrag\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas dizer que os Beatles enchem a paci\u00eancia como qualquer outra banda \u00e9 como dizer que Deus n\u00e3o existe em qualquer meio social, inclusive n\u00e3o-religioso (e nesse sentido, a brincadeira midi\u00e1tica de Lennon se tornou prof\u00e9tica, como atesta <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/informatica\/ult124u627269.shtml\" target=\"_blank\">levantamento feito em setembro de 2009<\/a> e cujos dados se mant\u00e9m mais ou menos iguais ainda hoje, o que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, levando-se em conta o fanatismo religioso cada vez mais feroz no atual s\u00e9culo; porque falar que n\u00e3o gosta de Beatles, ou que os Beatles s\u00e3o um p\u00e9-no-saco, causa mais furor que se dizer ateu).<\/p>\n<p>Nada nos Beatles, nem sua qualidade musical, nem sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica, s\u00e3o indiscut\u00edveis, embora eu mesmo goste de Beatles e coloque a banda entre minhas 500 preferidas &#8211; l\u00e1 na rabeira, \u00e0 frente do Foo Fighters, mas acredito que voc\u00ea h\u00e1 de concordar que essa \u00e9 uma coloca\u00e7\u00e3o louv\u00e1vel (pros Beatles). Voc\u00ea pode questionar o mito da virgindade, o mito de um Poseidon dominador dos mares, o mito da homossexualidade gen\u00e9tica e outros mitos t\u00e3o idiotas quanto, alguns com diferentes graus dogm\u00e1ticos (se \u00e9 poss\u00edvel usar essa constru\u00e7\u00e3o) &#8211; e, al\u00e9m, voc\u00ea <em>deve<\/em> question\u00e1-los. Ent\u00e3o questione. Ou\u00e7a com aten\u00e7\u00e3o. Essa balela de que os Beatles s\u00e3o intoc\u00e1veis \u00e9 o mito dos mitos da m\u00fasica pop. E todo mito entronado deve ser destru\u00eddo, ou pelo menos dever ser tentado.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea conseguir passar algumas vezes por toda a discografia do quarteto sem um dano cerebral, ou uma dor de cabe\u00e7a que seja (culpa da naftalina e do p\u00f3), d\u00ea-me a resposta sincera depois. Aponte ali algumas besteiras e pronto, bastou pra perceber que a banda n\u00e3o \u00e9 indiscut\u00edvel. Ela \u00e9 das grandes (no meu caso, das 500 grandes), mas n\u00e3o \u00e9 indiscut\u00edvel. \u00c9 um meme, um dogma nesse caso, que merece reavalia\u00e7\u00e3o &#8211; ou, como alguns corajosos dizem, destro\u00e7ado.<\/p>\n<p>Nenhum padre, pai, irm\u00e3o, c\u00f4njuge ou livro de hist\u00f3ria pode dizer no que voc\u00ea deve acreditar. Ou que banda gostar. Ou do que gostar. Por outra, poder, pode. Se voc\u00ea vai engolir sem questionar s\u00e3o outros quinhentos, depende de voc\u00ea. Nesse papo-furado dos Beatles eu nunca ca\u00ed.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Por que os Beatles est\u00e3o entre as 500 bandas mais bacanas pra mim? Porque ningu\u00e9m que faz essa m\u00fasica pode ser ruim de fato:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"315\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/6a3NcwfOBzQ?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>Mas eu ainda prefiro essa vers\u00e3o, com o Violeta de Outono:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"315\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ar9b01r6pQQ?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea j\u00e1 tenha ouvido a frase mais famosa entre os cag\u00f5es de boteco: &#8220;gosto, futebol, religi\u00e3o e pol\u00edtica n\u00e3o se discutem&#8221;. Eis [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21493,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1144,1130],"tags":[53,2194],"class_list":["post-21484","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especiais","category-pense-ou-dance","tag-beatles","tag-pense-ou-dance"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/beatles1.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-5Aw","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21484"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21484\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}