{"id":22617,"date":"2012-02-13T17:24:39","date_gmt":"2012-02-13T19:24:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=22617"},"modified":"2013-10-25T01:34:43","modified_gmt":"2013-10-25T03:34:43","slug":"pense-ou-dance-um-salve-ao-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-salve-ao-carnaval\/","title":{"rendered":"PENSE OU DANCE: UM SALVE AO CARNAVAL"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"22740\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-salve-ao-carnaval\/carnaval1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/carnaval1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"carnaval1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/carnaval1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/carnaval1.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" title=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-22740\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/carnaval1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/carnaval1.jpg?resize=300%2C166&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o entendo algu\u00e9m n\u00e3o gostar de Carnaval. Quer dizer, at\u00e9 entendo quem n\u00e3o gosta da bagun\u00e7a, da turba ensandecida e de algumas m\u00fasicas, mas n\u00e3o entra na minha cabe\u00e7a n\u00e3o gostar de samba, ou de samba de enredo, ou, pior, das cl\u00e1ssicas marchinhas que ainda embalam quase todos os festejos de rua do Brasil.<\/p>\n<p>Quem acompanha este site desde seu nascedouro, em 2006, sabe que gosto de barulheira. Quanto mais distorcida for a guitarra, melhor.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, basta bater o final de novembro, come\u00e7o de dezembro, quando sai o disco dos sambas de enredo das escolas de samba, principalmente do Rio de Janeiro, pra eu mudar de ritmo. \u00c9 uma paix\u00e3o de longa data. Sou um colecionador ferrenho desses sambas pra avenida. Tenho quase tudo desde 1967. S\u00e3o mais de 600 m\u00fasicas que tra\u00e7am um bom registro dos costumes do pa\u00eds nessas quase cinco d\u00e9cadas: g\u00edrias, termos, temas, preconceitos, import\u00e2ncias hist\u00f3ricas elevadas ou descartadas, baboseiras&#8230; \u00c9 no tema de cada samba que a vida do povo \u00e9 contada, que a hist\u00f3ria fora dos livros de hist\u00f3ria se faz presente.<\/p>\n<p>O samba n\u00e3o se prende ao futuro, pensa no agora e, obviamente, no passado, misturando tudo, pra fazer divertir. Mas essencialmente pra emocionar.<\/p>\n<p>J\u00e1 desfilei na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed algumas vezes. Cinco, se n\u00e3o me engano. E vi, das arquibancadas, outros tantos carnavais. H\u00e1 por certo emo\u00e7\u00f5es mais fortes do que essa, mas n\u00e3o tantas. S\u00f3 os incautos e os virgens de avenida podem dizer o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 eles os cr\u00edticos do carnaval. Os detratores focam seu desprezo na m\u00fasica, que dizem ser repetitiva, varia\u00e7\u00e3o sobre o mesmo tema. \u00c9 f\u00e1cil ver que n\u00e3o se trata de uma verdade. Principalmente na quest\u00e3o dos temas.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o da Ilha no carnaval de 1979 chega a brincar com isso:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"25\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/JWjuiN9IZH8?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>&#8220;Eu queria saber agora\/O que ser\u00e1?\/Vou perguntar\/A menininha do Gantois\/Pode ser um grande Her\u00f3i\/\u00cdndios, africanos ou magia\/Ou ser\u00e1 um tema da velha Bahia?\/J\u00e1 ouvi dizer que \u00e9 Debret\/Ou antigos carnavais\/Mas se for candombl\u00e9\/Eu pe\u00e7o ax\u00e9\/Aos meus orix\u00e1s&#8221;, versa a letra de Didi e Aroldo Melodia.<\/p>\n<p>Entretanto era s\u00f3 uma Uni\u00e3o da Ilha provocando, como fez por muitos anos (bem como a S\u00e3o Clemente).<\/p>\n<p>H\u00e1 de se considerar que a profissionaliza\u00e7\u00e3o dos desfiles (durante a d\u00e9cada de 1970 e, principalmente, com a constru\u00e7\u00e3o do samb\u00f3dromo na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, em 1984, e o consequente crescimento com as transmiss\u00f5es ao vivo pela tev\u00ea), a proibi\u00e7\u00e3o da nudez, o refinamento da metodologia de apura\u00e7\u00e3o, e o bocado de grana envolvida for\u00e7aram um engessamento da forma: andamento padronizado e sendo acelerado ano ap\u00f3s ano, alegorias cada vez mais espetaculares e hollywoodianas e alas coreografadas e sem muita liberdade, distanciando da autenticidade.<\/p>\n<p>Mesmo assim, os carnavalescos e os envolvidos das comunidades se esfor\u00e7am pra inovar e criar algo diferenciado. Musicalmente, um bom exemplo disso \u00e9 a inclus\u00e3o da batida funk que a bateria da Viradouro mostrou em 1997, ano em que foi campe\u00e3, com &#8220;Trevas! Luz! A Explos\u00e3o do Universo&#8221;:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"25\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/IpOs5MJXVgQ?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 algo com que se preocupar realmente. Qualquer m\u00fasica pop &#8211; e o samba de enredo e as marchinhas s\u00e3o mais pop do que qualquer m\u00fasica pop, no sentido literal de popular &#8211; se vale de uma estrutura b\u00e1sica, de tem\u00e1ticas conhecidas, de escapismo (mas nem sempre &#8211; e no caso do carnaval, nem sempre mesmo) e de uma for\u00e7a de distribui\u00e7\u00e3o que garanta que o m\u00e1ximo de pessoas ou\u00e7am e propaguem a ideia.<\/p>\n<p>Dizer ent\u00e3o que os sambas s\u00e3o todos iguais \u00e9 perder tempo. S\u00e3o mesmo e isso n\u00e3o \u00e9 ruim. Entretanto, como mostrou a Viradouro nesse exemplo recente, por vezes o samba se inova. Aquele que se ouvia em 1950\/1960, com as pastoras, quase um c\u00e2ntico religioso, \u00e9 anos-luz diferente do que se ouve hoje. E \u00e9 como em qualquer m\u00fasica pop, de qualquer estilo &#8211; ou algu\u00e9m ainda quer discutir se o Strokes ou o Foo Fighters trazem algo de novo, na forma ou no conte\u00fado?<\/p>\n<p>N\u00e3o me convence tamb\u00e9m o argumento da idiotiza\u00e7\u00e3o, do p\u00e3o-e-circo ao povo. Strokes e Foo Fighters (ou 99% das bandas deste site), novamente, est\u00e3o a\u00ed pra mostrar que o que vale pra um, vale pra outro. Se na era da ditadura militar, os sambas n\u00e3o ousavam na cr\u00edtica e at\u00e9 lambiam botas (Beija-Flor tirando &#8220;10&#8221; nesse quesito), h\u00e1 de se notar, por\u00e9m, que a abertura pol\u00edtica fez muito bem aos sambas de enredo, que assumiram a voz da cr\u00edtica popular, por vezes ridicularizando a hist\u00f3ria, os pol\u00edticos, os famosos e dando umas cutucadas no sistema &#8211; um retrato da descren\u00e7a do pov\u00e3o com a elite. Com a vantagem de que essas cr\u00edticas s\u00e3o transmitidas em rede nacional e n\u00e3o pra um gueto fechado.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, vejamos: Imperatriz Leopoldinense em 1988, com seu hilariante &#8220;Conta Outra Que Essa Foi Boa&#8221;, um samba sobre as patasquadas que os governantes prometem ao povo e nunca entregam. Era ano de Assembleia Constituinte e a Imperatriz n\u00e3o engoliu o clima de &#8220;tudo-vai-mudar&#8221;:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"25\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/-krX_8vEoLM?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>&#8220;Eu voto pra n\u00e3o esquecer\/A vida tem que melhorar\/O povo na constituinte\/Vai ter mesa farta, sorrir\/E at\u00e9 cantar\/Qu\u00e1, qu\u00e1, qu\u00e1\/Voc\u00ea caiu, caiu\/\u00c9 brincadeira\/\u00c9 primeiro de abril\/Eu quero \u00e9 poder ser maraj\u00e1\/gozar a vida\/pra vida n\u00e3o vir me gozar\/Disse me disse\/Na Hist\u00f3ria do Brasil\/Fui crian\u00e7a, fui palha\u00e7o\/E ningu\u00e9m me assumiu (\u00f4 seu Cabral&#8230;)\/Cabral, \u00f4 Cabral\/O esquema \u00e9 de lograr\/De 171 com a realeza\/Me mandou uma princesa\/Que fingiu me libertar, me libertar\/\u00d4 \u00f4 \u00f4 piu\u00ed\/Piu\u00ed l\u00e1 vem o trem\/A ferrovia \u00e9 brincadeira de nen\u00ea&#8221;, com letra de Zeca Catimba, Gabi, David Corr\u00eaa e Guga.<\/p>\n<p>Quando Lula se elegeu nas elei\u00e7\u00f5es de 2002, a Beija-Flor tinha um samba entalado na garganta e que acabou campe\u00e3o em 2003. Era &#8220;O Povo Conta a Sua Hist\u00f3ria: Saco Vazio N\u00e3o Para Em P\u00e9, A M\u00e3o Que Faz a Guerra, Faz a Paz&#8221; e de engra\u00e7adinho n\u00e3o tinha nada:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"25\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/UuveCbY_xEM?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es cantadas em rede nacional e com a elite aplaudindo: &#8220;(&#8230;)E o \u00edndio muito forte resistiu\/A tortura implac\u00e1vel assistiu\/Enquanto o negro cantava saudade\/Da terra m\u00e3e de liberdade\/Na fran\u00e7a \u00e9 tomada a bastilha\/O povo mostra a indigna\u00e7\u00e3o\/Revoltado com o diabo\/Que amassou o nosso p\u00e3o\/(&#8230;)Todos lutaram contra for\u00e7a da opress\u00e3o\/(&#8230;)\/Brava gente sofrida, da baixada\/Soltando a voz no planeta carnaval\/Eu quero: liberdade, dignidade e uni\u00e3o\/Fui lata, hoje sou pirata\/Lixo e ouro da regi\u00e3o\/Chega de ganhar t\u00e3o pouco\/T\u00f4 no sufoco: vou desabafar\/Pare com essa gan\u00e2ncia, pois a toler\u00e2ncia\/Pode se acabar&#8230;&#8221;, com Neguinho da Beija-flor encerrando com um emblem\u00e1tico &#8220;a esperan\u00e7a venceu o medo&#8221;.<\/p>\n<p>A melancolia da Mangueira deu (mais uma da) sua contribui\u00e7\u00e3o em 1988, com H\u00e9lio Turco, Jurandir e Alvinho escrevendo o bel\u00edssimo samba de &#8220;Cem Anos de Liberdade, Realidade Ou Ilus\u00e3o&#8221;, sobre o racismo ou a hipocrisia de que n\u00e3o h\u00e1 racismo entre aqueles das arquibancadas, na voz do saudoso Jamel\u00e3o:<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"25\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/WySBEVaxP1M?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>&#8220;Ser\u00e1&#8230;\/Que j\u00e1 raiou a liberdade\/Ou se foi tudo ilus\u00e3o?\/Ser\u00e1&#8230;\/Que a Lei \u00c1urea t\u00e3o sonhada\/H\u00e1 tanto tempo assinada\/N\u00e3o foi o fim da escravid\u00e3o?\/Hoje dentro da realidade\/Onde est\u00e1 a liberdade\/Onde est\u00e1 que ningu\u00e9m viu?&#8221;. Jamel\u00e3o praticamente implora, pedindo de joelhos, com o respeito de quem apanhou muito e acha que deve ao &#8220;senhor&#8221;: &#8220;Mo\u00e7o\/N\u00e3o se esque\u00e7a que o negro tamb\u00e9m construiu\/As riquezas de nosso Brasil\/Pergunte ao Criador\/Quem pintou esta aquarela\/Livre do a\u00e7oite da senzala\/Preso na mis\u00e9ria da favela&#8221;.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio Serrano, em 1996, desistiu do acelerado carnaval e da festa pura pra, com a poesia de Alu\u00edsio Machado, Lula, Beto Pernarda, Arlindo Cruz e \u00cdndio do Imp\u00e9rio, fazer a beleza de &#8220;Ver\u00e1s Que Um Filho Teu N\u00e3o Foge \u00e0 Luta&#8221;, quase um pagode e quase uma amea\u00e7a, avisando que ou vamos juntos, pobre e ricos, pretos e brancos e amarelos e vermelhos, numa boa, ou \u00e9 na porrada (repare no refr\u00e3o):<br \/>\n<object width=\"540\" height=\"25\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BhhNo_R--QY?version=3&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"false\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><\/object><\/p>\n<p>&#8220;O povo diz am\u00e9m\/\u00c9 porque tem\/Um ser de luz a iluminar\/O moderno Dom Quixote\/Com mente forte vem nos guiar\/Um filho do verde esperan\u00e7a\/N\u00e3o foge a luta, vem lutar\/Ent\u00e3o ver\u00e1s um dia\/O cidad\u00e3o e a real cidadania\/Quero ter a minha terra\/Meu pedacinho de ch\u00e3o, meu quinh\u00e3o\/Isso nunca foi segredo\/Quem \u00e9 pobre t\u00e1 com fome\/Quem \u00e9 rico t\u00e1 com medo\/Quem tem muito, quer ter mais\/Tanto faz se estragar\/Joga lixo no ch\u00e3o, tem bugica pra catar\/Senhor, despertai a consci\u00eancia\/\u00c9 preciso igualdade\/O ser humano tem que ter dignidade\/Morte em vida, triste sina\/Pra gente chega de viver a Severina\/Junte um sorriso meu, um abra\u00e7o teu\/Vamos temperar\/Uma por\u00e7\u00e3o de f\u00e9, sei que vai dar p\u00e9\/N\u00e3o vai desandar\/Amasse o que \u00e9 ruim, e a massa enfim\/Vai se libertar\/(&#8230;)&#8221;.<\/p>\n<p>Exemplos existem aos montes. D\u00e1 pra montar uma <em>playlist<\/em> s\u00f3 que esses sambas de &#8220;protesto&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso observar que os sambistas est\u00e3o alguns passos adiante dessa massa de jovens ac\u00e9falos que fazem passeata at\u00e9 pelo fim da corrup\u00e7\u00e3o (como se fazer passeata contra a corrup\u00e7\u00e3o adiantasse pra alguma coisa). Essa classe m\u00e9dia branca e jovem, que n\u00e3o sabe contra o qu\u00ea se revoltar e que adora uma festa com cerveja a oito reais (a latinha), n\u00e3o percebeu que os sambistas (e talvez os axezeiros) se infiltraram h\u00e1 muito no sistema pra gritar l\u00e1 de dentro contra o pr\u00f3prio sistema. \u00c9 a objetividade que os analistas cobram de toda ideia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas o samba, contraditoriamente, n\u00e3o t\u00e1 afim de implodir nada. Ele se alimenta desse sistema e com esse sistema pretende continuar crescendo e enchendo os bolsos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de um lado a elite &#8220;d\u00e1 quatro dias de divers\u00e3o&#8221;, se mistura com a plebe, com &#8220;as comunidades&#8221;, se diverte e tenta expiar sua culpa; e do outro, muitos compositores v\u00eaem uma maneira de vender seu trabalho, com os supostos &#8220;opressores&#8221; a lhes aplaudir e afagar com verdinhas. No meio, o pov\u00e3o segue na sua estagna\u00e7\u00e3o. Se diverte, lava a alma, solta o grito, mas se desmancha em cinzas quando a realidade da quinta-feira p\u00f3s-folia bate \u00e0 sua porta.<\/p>\n<p>\u00c9 assim no samba, no ax\u00e9, no rock, no funk, no grunge, no punk. Um vende (o artista), outro compra (n\u00f3s). \u00c9 um neg\u00f3cio, enfim.<\/p>\n<p>S\u00f3 que \u00e9 um neg\u00f3cio que diverte. Por isso, volto ao primeiro par\u00e1grafo. Entendo quem n\u00e3o gosta da m\u00fasica &#8211; o argumento do subjetivo \u00e9 irrefut\u00e1vel; s\u00f3 n\u00e3o vale \u00e9 o argumento de que \u00e9 tudo igual, de que \u00e9 idiotizante, j\u00e1 vimos que n\u00e3o \u00e9. E entendo quem n\u00e3o gosta da bagun\u00e7a. Mas \u00e9 preciso enaltecer a for\u00e7a do Carnaval como express\u00e3o popular leg\u00edtima, de tradi\u00e7\u00e3o cultural. de liberdade de express\u00e3o e de isonomia de classes, ra\u00e7as e prefer\u00eancias sexuais &#8211; o carnaval de rua na maioria das cidades do interior, ou de Recife, de Olinda, Ouro Preto, Diamantina, Laguna, S\u00e3o Lu\u00eds do Paraitinga, \u00e9 sim democr\u00e1tico, pra qualquer pessoa.<\/p>\n<p>Mais do que isso, \u00e9 preciso enaltecer o Carnaval como festa an\u00e1rquica, uma vers\u00e3o alternativa da sociedade, onde os reacion\u00e1rios e os libert\u00e1rios acabam falando e se entendendo na mesma l\u00edngua da folia, do vale-tudo consensual, onde a m\u00e1scara do moralismo d\u00e1 lugar \u00e0 da colombina ou do arlequim e o olho proibitivo e demon\u00edaco das cren\u00e7as deixam de fazer sentido.<\/p>\n<p>Dizer que n\u00e3o gosta de Carnaval porque \u00e9 popular e idiotizante parece t\u00e3o bobinho quanto n\u00e3o gostar de uma banda porque ela faz sucesso, toca em trilha de novela, toca na MTV ou ganha um Grammy. Ou pior. A despeito de uma banda assim, cuja for\u00e7a social \u00e9 irrelevante, o samba, o Carnaval, a folia traduzem um Brasil leg\u00edtimo e eficiente aos olhos do mundo, em termos de organiza\u00e7\u00e3o e de um objetivo em comum. \u00c9 a nossa marca registrada, querendo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 modernos que torcem o nariz, porque&#8230; Bem, \u00e9 <em>moderno<\/em> e <em>cool<\/em> torcer o nariz pra uma ideia popularizada. Eu, por\u00e9m, n\u00e3o vejo problema algum em um povo ser reconhecido como criador, organizador e entusiasta da melhor, maior e mais organizada festa popular do mundo. Por isso, esse salve ao Carnaval num site de guitarras distorcidas.<\/p>\n<p>Na Quarta-Feira de Cinzas, tudo vai voltar ao normal. Ent\u00e3o, aproveite.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o entendo algu\u00e9m n\u00e3o gostar de Carnaval. Quer dizer, at\u00e9 entendo quem n\u00e3o gosta da bagun\u00e7a, da turba ensandecida e de algumas m\u00fasicas, mas n\u00e3o [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22740,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1144,1130],"tags":[199,2194],"class_list":["post-22617","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especiais","category-pense-ou-dance","tag-carnaval","tag-pense-ou-dance"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/carnaval1.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-5SN","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22617"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22617\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}