{"id":37089,"date":"2014-03-18T16:37:38","date_gmt":"2014-03-18T19:37:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=37089"},"modified":"2014-04-13T12:05:36","modified_gmt":"2014-04-13T15:05:36","slug":"entrevista-malcontent-falando-a-mesma-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-malcontent-falando-a-mesma-lingua\/","title":{"rendered":"ENTREVISTA: MALCONTENT &#8211; FALANDO A MESMA L\u00cdNGUA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"37105\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-malcontent-falando-a-mesma-lingua\/malcontent1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"malcontent1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-37105\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent1.jpg?resize=300%2C166&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Teve porrada e repress\u00e3o sangrenta, com a assinatura da ditadura salazarista (1933-1974), antes do estouro do rock em Portugal, no final dos 70. Algo parecido com o que aconteceu tamb\u00e9m no Brasil, quando a m\u00fasica jovem ganhou for\u00e7a nos estertores do regime militar, no in\u00edcio dos 80. Mas al\u00e9m da repress\u00e3o e do idioma, a careta pra quem escolheu o ingl\u00eas e refer\u00eancias inglesas e americanas tamb\u00e9m une os dois cen\u00e1rios. A an\u00e1lise vem de um portugu\u00eas natural do Porto, guitarra e voz do trio <strong>MALCONTENT<\/strong>, que j\u00e1 provou o sabor das cr\u00edticas que cutucam gente como ele. Que preferiu os toques dos irm\u00e3os Reid, do Jesus &#038; Mary Chain, \u00e0 arte dos conterr\u00e2neos Am\u00e1lia Rodrigues, Carlos do Carmo, Ornatos Violeta e semelhantes.<\/p>\n<p>Mas S\u00e9rgio Costa n\u00e3o \u00e9 nenhum garoto (al\u00e9m dele, a banda tem Filipe Pereira na bateria e o rec\u00e9m-empossado Jorge Oliveira no baixo). Os cabelos j\u00e1 ganham tons de prata, e ele, voz e guitarra do trio, aprendeu bem ao longo do tempo que a defesa do idioma e da cultura locais n\u00e3o se d\u00e3o exclusivamente na m\u00fasica cantada em portugu\u00eas e (no caso deles, portugueses) com cita\u00e7\u00f5es do fado e outras tradi\u00e7\u00f5es lusas. &#8220;H\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o excessiva do rock que adiciona elementos da m\u00fasica tradicional portuguesa e cantado em portugu\u00eas&#8221;, reclama, em conversa com o <strong>Floga-se<\/strong>.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e1lbum, &#8220;Love The Gun&#8221; (2009), independente, foi l\u00e1 no &#8220;Honey&#8217;s Dead&#8221;, do JAMC, um dos grandes \u00e1lbuns dos anos 90. E definiu quem \u00e9 o Malcontent: guitarras motosserra, tremolos e vozes sonolentas &#8211; em ingl\u00eas. Pr\u00f3ximo de lan\u00e7ar o segundo <em>full lengh<\/em> (um EP, &#8220;Erased&#8221;, saiu em 2012), S\u00e9rgio derruba o discurso de quem, assim como acontece no Brasil, condena portugueses cantando em outro idioma. &#8220;N\u00e3o \u00e9 pelo simples facto de cantar em ingl\u00eas que vou contribuir pra destrui\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas. A l\u00edngua valoriza-se no incremento das rela\u00e7\u00f5es culturais e at\u00e9 comerciais entre pa\u00edses que partilham o mesmo idioma&#8221;, filosofa, antes de emendar numa reclama\u00e7\u00e3o sobre a dificuldade de comprar livros de autores brasileiros em livrarias portuguesas, o que prova que n\u00e3o h\u00e1, de fato, rela\u00e7\u00e3o cultural entre os pa\u00edses. &#8220;Isso \u00e9 defender a l\u00edngua? Esta entrevista faz mais por isso do que qualquer governo ou qualquer acordo ortogr\u00e1fico sem sentido&#8221;.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"37100\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-malcontent-falando-a-mesma-lingua\/malcontent2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"malcontent2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent2.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-37100\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent2.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent2.jpg?resize=300%2C166&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><strong>Floga-se: Fale um pouco sobre o seu primeiro contato com m\u00fasica. Voc\u00ea se lembra dos primeiros discos que ouviu, ainda na inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia, e qual sua rea\u00e7\u00e3o diante do que ouviu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Costa<\/strong>: Os anos 80 em Portugal foram momentos de grande fervor, de experimenta\u00e7\u00e3o de liberdades. O pa\u00eds havia sa\u00eddo de uma ditadura de mais de 40 anos com liberdades restringidas onde nada chegava a Portugal. Por isso, no final dos anos 70 e na d\u00e9cada de 80, muita coisa era novidade e o que chegava do exterior era encarado como algo fant\u00e1stico. A meio da d\u00e9cada de 80, quando comecei verdadeiramente a &#8220;consumir&#8221; m\u00fasica, havia dois grupos distintos: os que ouviam o pop comercial, pras massas, e os adeptos da ent\u00e3o chamada m\u00fasica alternativa. Sempre estive inclu\u00eddo no segundo grupo e o disco que mais me marcou (e continua a ser a minha grande refer\u00eancia) foi o &#8220;Psychocandy&#8221;, do Jesus &amp; Mary Chain. \u00c9 um disco \u00fanico, inigual\u00e1vel. Era sem d\u00favida a banda sonora ideal para adolescentes que pretendiam marcar a diferen\u00e7a, que n\u00e3o se reviam numa cultura imposta. Assinalo igualmente o &#8220;Honey&#8217;s Dead&#8221;, do JAMC, que \u00e9 talvez o trabalho mais elaborado dos irm\u00e3os Reid. Discos como &#8220;Unknown Pleasures&#8221;, do Joy Division; &#8220;Isn&#8217;t Anything&#8221;, do MBV &#8211; e mais tarde o &#8220;Loveless&#8221;, fundamental; &#8220;Going Blank Again&#8221;, do Ride; &#8220;Surfer Rosa&#8221;, dos Pixies; &#8220;Sister&#8221;, do Sonic Youth; &#8220;The Velvet Underground And Nico&#8221; e outros mais obscuros, como &#8220;Tanz Debil&#8221;, do Einsturzende Neubauten, foram muito importantes. N\u00e3o posso falar de todos&#8230; nunca mais sa\u00eda daqui.<\/p>\n<p><strong>F-se: O auge do rock no Brasil aconteceu durante os anos 80. Em Portugal, me parece que tamb\u00e9m aconteceu nos anos 80, talvez um pouco antes, no fim dos anos 70. Como esse boom do rock feito em Portugal te influenciou e te fez pensar em estar em uma banda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Devo confessar que a cena internacional teve muito mais influ\u00eancia nos meus gostos e na vontade de formar uma banda do que as bandas portuguesas. Agora, \u00e9 verdade que o <em>boom<\/em> do rock portugu\u00eas transformou a forma como o p\u00fablico percepciona a m\u00fasica produzida em Portugal.<\/p>\n<p><strong>F-se: Das bandas portuguesas que criaram os fundamentos pro rock feito em Portugal, quais serviram de refer\u00eancias pra voc\u00ea e pro trabalho com o Malcontent? Quais ainda s\u00e3o influ\u00eancias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Como j\u00e1 referi, foram sobretudo bandas internacionais do universo <em>noise<\/em>\/<em>shoegaze<\/em> que mais me influenciaram. Contudo gostaria de sublinhar a carreira do M\u00e3o Morta. Uma banda portuguesa com som \u00fanico, muito inspirada em Swans e que tem um culto impressionante em Portugal. Foi talvez a banda mais provocadora no pa\u00eds, quer na mensagem, quer na sonoridade. Influenciou sobretudo pela vontade de romper com o <em>status quo<\/em>. Foi sempre uma banda \u00e0 margem, que soube conquistar muito espa\u00e7o. Pode n\u00e3o ser f\u00e1cil escutar \u00e0 primeira&#8230; mas fica o convite.<\/p>\n<p><strong>F-se: Antes do Malcontent, voc\u00eas estavam em outras bandas? Se sim, como foram as experi\u00eancias anteriores?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Apenas em projetos menores, sem express\u00e3o. Mas eram tempos divertidos e que contribu\u00edram pra ganhar alguma experi\u00eancia e partir para projetos mais maduros.<\/p>\n<p><strong>F-se: Como \u00e9 fazer <em>noise rock<\/em> em Portugal? Imagino que adotar esse tipo de som restrinja de alguma maneira a banda a uma determinada cena, e imagino tamb\u00e9m que isso n\u00e3o seja necessariamente uma preocupa\u00e7\u00e3o pra voc\u00eas. Mas voc\u00ea acredita ser poss\u00edvel chegar a outros patamares, dentro do cen\u00e1rio do rock portugu\u00eas? Acha que o pr\u00f3ximo \u00e1lbum pode ajudar em uma eventual escalada no reconhecimento por parte da cr\u00edtica e do p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: \u00c9 dif\u00edcil responder. O mercado portugu\u00eas \u00e9 pequeno e s\u00f3 um grupo muito restrito de m\u00fasicos consegue evidenciar-se no que diz respeito a vendas. Naturalmente que ambicionamos chegar a um patamar mais elevado e acredito que o novo \u00e1lbum pode ser um marco nesse sentido, mas tudo dever\u00e1 passar por um novo esfor\u00e7o promocional. Se o <em>noise rock<\/em> restringe? Talvez, mas de fato n\u00e3o nos preocupa. \u00c9 o que pretendemos fazer, can\u00e7\u00f5es recheadas de poeira s\u00f4nica. N\u00e3o abdicamos dos nossos gostos, da nossa forma de ser. Deve ser frustrante algu\u00e9m mudar pra alcan\u00e7ar o reconhecimento. S\u00e3o as pessoas que devem ir ao encontro do nosso som, se assim o desejarem, n\u00e3o somos n\u00f3s que temos de moldar o som e a est\u00e9tica \u00e0 vontade e dos gostos da maioria. Esse \u00e9 o grande erro de muitas bandas. O mesmo se aplica no sentido inverso&#8230; Passo a explicar: Somos uma banda de can\u00e7\u00f5es s\u00f4nicas e apesar de apreciar muito a nova onda de psicadelismo, seria um erro come\u00e7ar a construir temas repetitivos de dez minutos e pulverizados de <em>noise<\/em> incoerente. N\u00e3o mudamos radicalmente ao som das modas. Experimentamos novos caminhos, \u00e9 certo, mas o nosso desejo \u00e9 construir grande can\u00e7\u00f5es guarnecidas com muito ru\u00eddo.<\/p>\n<p><strong>F-se: Que bandas semelhantes ao som dos Malcontent existem em Portugal atualmente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Sinceramente, n\u00e3o vejo nenhuma semelhante.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a &#8220;Gon On&#8221; (do &#8220;Love The Gun&#8221;):<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/78E2VWURmlo\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<blockquote><p>Esta entrevista faz mais pela l\u00edngua portuguesa do que qualquer governo ou acordo ortogr\u00e1fico<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>F-se: Nos anos 90, quando muitas bandas brasileiras nasceram cantando em ingl\u00eas e reproduzindo, primeiramente, o som das bandas inglesas do <em>shoegaze<\/em> e do <em>noisepop<\/em> e, depois, das americanas do <em>grunge<\/em>, parte da cr\u00edtica questionou o fato dessas mesmas bandas deixarem de lado elementos da m\u00fasica brasileira &#8211; o <em>mangue beat<\/em> do Chico Science trouxe alguns desses elementos brasileiros ao rock. Imagino que algo semelhante deve ter acontecido em Portugal com bandas que, como voc\u00eas, olhavam mais para o Jesus &amp; Mary Chain, o MBV e outras do que pros nomes da m\u00fasica portuguesa. J\u00e1 tiveram de enfrentar esse tipo de cr\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: \u00c9 recorrente esse tipo de cr\u00edtica, sobretudo de meios mais conservadores e de certa forma estabelecidos na ind\u00fastria. Somos completamente imunes a essa cr\u00edtica. Noto contudo que h\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o excessiva do rock que adiciona elementos da m\u00fasica tradicional portuguesa e cantado em portugu\u00eas. N\u00e3o me revejo nesse som. De resto, n\u00e3o consigo compreender essa pretensa defesa da l\u00edngua portuguesa. N\u00e3o \u00e9 pelo simples fato de cantar em ingl\u00eas que vou contribuir pra destrui\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas. A l\u00edngua valoriza-se no incremento das rela\u00e7\u00f5es culturais e at\u00e9 comerciais entre pa\u00edses que partilham o mesmo idioma, o que n\u00e3o acontece entre n\u00f3s. Acredito que h\u00e1 muita m\u00fasica brasileira de qualidade que n\u00e3o chega a Portugal e vice-versa. O mesmo acontece na literatura. N\u00e3o faz sentido eu pretender adquirir obras de autores brasileiros e ter que recorrer \u00e0 Internet, contatar livrarias brasileiras e pagar custos adicionais pra receber o livro (j\u00e1 me aconteceu in\u00fameras vezes). A literatura e m\u00fasica brasileiras n\u00e3o chegam c\u00e1 e vice-versa. N\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o cultural. Isso \u00e9 defender a l\u00edngua? Esta entrevista faz mais por isso do que qualquer governo ou qualquer acordo ortogr\u00e1fico sem sentido.<\/p>\n<p><strong>F-se: Peculiar sua vis\u00e3o sobre a verdadeira valoriza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa, sobre o incremento das rela\u00e7\u00f5es culturais e comerciais, o que de fato parece n\u00e3o acontecer. E tentativas como o ano do Brasil em Portugal, no per\u00edodo 2012\/2013, parecem que n\u00e3o surtiram o efeito desejado, conforme voc\u00ea pode observar por estar a\u00ed. Assim como a vers\u00e3o do ano portugu\u00eas no Brasil n\u00e3o nos trouxe mais informa\u00e7\u00f5es sobre a cultura do pa\u00eds que nos colonizou, e a vis\u00e3o geral que se tem no Brasil sobre Portugal \u00e9 a mesma que se tem h\u00e1 d\u00e9cadas. Como voc\u00ea imagina ser poss\u00edvel estabelecer essas conex\u00f5es culturais entre os dois pa\u00edses apesar da dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica? De que modo voc\u00ea imagina que a m\u00fasica independente, com as conex\u00f5es que cria de maneira espont\u00e2nea desde a populariza\u00e7\u00e3o da Internet, pode estabelecer pontes entre os pa\u00edses? Que tipo de comportamento voc\u00ea identifica na cultura portuguesa atual que impede que essa conex\u00e3o seja como uma via de m\u00e3o dupla em funcionamento constante, a ponto de impedir, por exemplo, que voc\u00ea consiga encontrar um livro de um autor brasileiro, de mesmo idioma, em uma livraria portuguesa? (O que acontece aqui tamb\u00e9m &#8211; no Brasil, os autores portugueses encontrados nas livrarias s\u00e3o os cl\u00e1ssicos: Cam\u00f5es, Fernando Pessoa, Gil Vicente, Jos\u00e9 Saramago, e raramente a obra de algum autor contempor\u00e2neo perdido em alguma livraria especializada). E uma curiosidade: qual o livro de autor brasileiro que voc\u00ea n\u00e3o encontrou a\u00ed e teve de recorrer a uma livraria brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: V\u00e1rios livros tive de encomendar diretamente do Brasil. Desde logo algumas obras de Nelson Rodrigues, como &#8220;A Vida Como Ela \u00c9&#8221;. Independentemente da leitura pol\u00edtica que se possa fazer das suas palavras, considero Nelson Rodrigues um dos maiores g\u00e9nios da l\u00edngua portuguesa do s\u00e9culo XX. Um provocador, um g\u00e9nio. Outra obra que s\u00f3 obtive directamente de livrarias brasileiras foi &#8220;Inveja&#8221;, de Zuenir Ventura, um dos livros mais fascinantes que li nos \u00faltimos tempos. Tudo isto pra al\u00e9m de literatura espec\u00edfica sobre o per\u00edodo da ditadura militar brasileira e da luta armada. \u00c9 surpreendente o fato de muitos portugueses, que viveram em ditadura e n\u00e3o s\u00f3, desconhecerem os anos de chumbo do Brasil, esse per\u00edodo t\u00e3o dram\u00e1tico. Esse desconhecimento da realidade brasileira, e vice-versa, resulta justamente de um incompreens\u00edvel distanciamento pol\u00edtico e cultural. A aposta nas rela\u00e7\u00f5es culturais entre os dois pa\u00edses deveria ser uma prioridade pros governos brasileiro e portugu\u00eas. No entanto, as a\u00e7\u00f5es desenvolvidas n\u00e3o passam de pequenas gotas do oceano que nos separa. \u00c9 neste quadro que o contato entre pessoas com interesses comuns assume um papel de grande relevo na defesa da cultura e da pr\u00f3pria l\u00edngua. As novas tecnologias permitem ultrapassar a enorme barreira geogr\u00e1fica com a cria\u00e7\u00e3o de f\u00f3runs &#8211; de m\u00fasica independente, por exemplo, e mais uma vez sublinho a import\u00e2ncia de entrevistas como esta &#8211; potenciando a partilha de conhecimentos, da pr\u00f3pria cultura. \u00c9 poss\u00edvel criar esse movimento que j\u00e1 deveria existir. \u00c9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio ultrapassar alguns preconceitos que subsistem dos dois lados e acabar com a ideia rid\u00edcula de que o Brasil se resume a samba e futebol e que Portugal \u00e9 s\u00f3 fado.<\/p>\n<p><strong>F-se: Na biografia de voc\u00eas, que consta no site, voc\u00eas dizem que o \u00e1lbum de estreia, &#8220;Love The Gun&#8221;, conseguiu execu\u00e7\u00e3o em r\u00e1dios de Portugal. Me parece que h\u00e1 espa\u00e7o pra esse tipo de som, menos comercial e firmado no barulho das guitarras, nas r\u00e1dios portuguesas, ao contr\u00e1rio do que acontece no Brasil. Qual o retorno que tiveram a partir da execu\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum em r\u00e1dios e qual m\u00fasica mais tocou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Claro que h\u00e1 espa\u00e7o. H\u00e1 muitos apaixonados pelo <em>noise<\/em> em Portugal e isso n\u00e3o se projeta necessariamente nos <em>tops<\/em>. No in\u00edcio, ainda antes do lan\u00e7amento do \u00e1lbum, o <em>single<\/em> promocional &#8220;Aggressive&#8221; foi o mais rodado. Com o lan\u00e7amento do &#8220;Love The Gun&#8221;, come\u00e7aram a rodar sobretudo os temas &#8220;Happy Fall&#8221; e &#8220;Your Love Is An Empty Place&#8221;. Apesar do ru\u00eddo incessante, s\u00e3o can\u00e7\u00f5es que n\u00e3o deixam de ter uma ess\u00eancia pop. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, julgo que s\u00e3o grandes can\u00e7\u00f5es, logo n\u00e3o me surpreende terem sido as mais rodadas. Com o EP &#8220;Erased&#8221;, &#8220;One More Second&#8221; foi a m\u00fasica em destaque.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a &#8220;Your Love Is An Empty Place&#8221; (do &#8220;Love The Gun&#8221;):<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/GfRZU2-Kj1g\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Ou\u00e7a &#8220;One More Second&#8221;(do EP &#8220;Erased&#8221;):<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/8A_GbcjxJwg\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>F-se: No mesmo texto, voc\u00eas dizem que o disco chegou \u00e0s r\u00e1dios sem qualquer tipo de apoio promocional. Qual o caminho feito por voc\u00eas pra que o disco chegasse a ter execu\u00e7\u00e3o em r\u00e1dios?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Foi um trabalho muito persistente, mas que acabou por dar resultado. Eu pr\u00f3prio enviei \u00e1lbuns e cartas (sim, \u00e0 maneira antiga) diretamente para in\u00fameros locutores de r\u00e1dio. O resultado superou as expectativas. O disco come\u00e7ou a rodar em r\u00e1dios locais e nacionais e come\u00e7\u00e1mos a receber convites pra entrevistas. Todo esse esfor\u00e7o abriu-nos portas \u00e0 atua\u00e7\u00e3o num dos principais festivais do pa\u00eds, o SuperBock Super Rock, um festival talvez equivalente ao Planeta Terra a\u00ed no Brasil. Julgo que a aceita\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios evidencia a qualidade do nosso som, o que \u00e9 gratificante, mas pra tudo isso \u00e9 necess\u00e1rio muito trabalho. S\u00f3 no dicion\u00e1rio o sucesso chega antes do trabalho.<\/p>\n<p><strong>F-se: Festivais como o Super Bock e o Paredes de Coura, j\u00e1 tradicionais no meio pop portugu\u00eas, costumam convocar bandas independentes pra ocupar alguns hor\u00e1rios na programa\u00e7\u00e3o. Qual costuma ser a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico? \u00c9 poss\u00edvel identificar uma maioria mais interessada nos <em>headliners<\/em> e portanto a resposta acaba sendo fria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Pelo contr\u00e1rio, a resposta \u00e9 impressionante. H\u00e1 casos de bandas mais independentes que explodem em Portugal depois de atuarem nesses festivais. Da\u00ed nos surpreender o fato de esse gosto n\u00e3o se projetar de forma ainda mais vincada nos m\u00eddia. O caso mais recente ocorreu com a Savages no Primavera Sound de Porto. Atuaram num dos palcos de menor dimens\u00e3o, o p\u00fablico entrou em del\u00edrio com um concerto fulminante e agora \u00e9 mais um fen\u00f4meno no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>F-se: Olhando \u00e0 dist\u00e2ncia, tem-se a impress\u00e3o de que a cultura do rock \u00e9 muito mais viva na Europa do que no Brasil. Bandas daqui com potencial pra crescer se veem estacionadas num nicho extremamente subterr\u00e2neo, tocando sempre pra um mesmo p\u00fablico. Isso tamb\u00e9m acontece em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Tamb\u00e9m acontece tocarmos sempre pra um mesmo p\u00fablico, mas aqui, pra al\u00e9m de ser um pa\u00eds pequeno, h\u00e1 por vezes muita resist\u00eancia em pagar pra ver um concerto de uma banda menos conhecida. \u00c9 uma falta de curiosidade incompreens\u00edvel em Portugal&#8230; Um certo comodismo que se calhar est\u00e1 muito ligado aos tempos que vivemos. Mais depressa nos tentam conhecer na Internet do que dar tr\u00eas passos pra ver um concerto. Pena a\u00ed no Brasil as bandas n\u00e3o conseguirem maior proje\u00e7\u00e3o. \u00c9 sintom\u00e1tico o fato de uma das bandas brasileiras mais conhecidas por c\u00e1, Tamborines, estar em Londres.<\/p>\n<p><strong>F-se: O fato de estar na Europa deve ajud\u00e1-los a estabelecer excurs\u00f5es por outros pa\u00edses. J\u00e1 conseguiram rodar por alguns pa\u00edses do continente? Recebem convites pra tocar fora de Portugal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Fora de Portugal s\u00f3 atuamos em Londres e em Madri. J\u00e1 tivemos outros convites, mas a falta de tempo ou de meios log\u00edsticos s\u00e3o fatores impeditivos. \u00c9 algo que, espero, possamos trabalhar mais a partir de agora, pois acredito que a nossa m\u00fasica poder\u00e1 ter muito potencial no exterior. Temos alguns f\u00e3s incr\u00edveis no estrangeiro.<\/p>\n<p><strong>F-se: Como foi abrir para o A Place To Bury Strangers no fim do ano passado? Voc\u00eas receberam o convite do APTBS?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: O convite foi endere\u00e7ado pelo promotor do concerto que considerou Malcontent a \u00fanica banda do universo portugu\u00eas que faria sentido atuar com os APTBS. Foi curioso abrir pra uma banda da qual somos f\u00e3s. Uma experi\u00eancia muito positiva num concerto onde os f\u00e3s de APTBS que n\u00e3o nos conheciam aderiram de imediato ao nosso som. Foi muito positiva a rea\u00e7\u00e3o no concerto e garantiu-nos uma maior exposi\u00e7\u00e3o. Nos dias seguintes recebemos muitas mensagens de pessoas que ficaram a conhecer-nos e queriam saber mais sobre n\u00f3s. No concerto foi muito interessante o contato com os APTBS. Percebemos a din\u00e2mica deles, s\u00e3o muito profissionais, excelentes m\u00fasicos. Est\u00e3o num patamar elevad\u00edssimo. Transportam o som pra universos que mais ningu\u00e9m consegue atingir. Ficamos a saber a raz\u00e3o pela qual s\u00e3o uma das mais excitantes bandas da atualidade.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"37104\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-malcontent-falando-a-mesma-lingua\/malcontent3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"malcontent3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent3.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-37104\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent3.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/malcontent3.jpg?resize=300%2C166&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><strong>F-se: Que tipo de retorno receberam dos integrantes do APTBS sobre o som de voc\u00eas? Alguma possibilidade de realizarem a abertura de um concerto deles nos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Infelizmente n\u00e3o se proporcionou esse tipo de interc\u00e2mbio. Os APTBS estavam acompanhados apenas de uma <em>road manager<\/em>. Uma sujeita implicativa que tamb\u00e9m n\u00e3o angariava grandes simpatias dos pr\u00f3prios APTBS. Como n\u00e3o estavam acompanhados do pessoal da editora ou do <em>management<\/em>, n\u00e3o foi poss\u00edvel estabelecer esse tipo de contato pra concertos nos EUA. Ainda assim, o simples fato de termos tocado com eles j\u00e1 garantiu alguma exposi\u00e7\u00e3o e no futuro isso pode valer convites pra atua\u00e7\u00f5es.<br \/>\nQuanto ao contato direto com os APTBS, houve mais di\u00e1logo com o Oliver (<em>Ackermann, vocalista e guitarrista<\/em>) que \u00e9 muito simp\u00e1tico e afirmou ter gostado do nosso som. Ele ficou muito surpreendido por eu ter um pedal constru\u00eddo por ele, o &#8220;Total Sonic Annihialation&#8221;, que adquiri h\u00e1 alguns anos. Um pedal destruidor que ele apelida de &#8220;crazy one&#8221;. Foi muito bom o conv\u00edvio e foi impressionante v\u00ea-lo a reconstruir guitarras, pois ele parte em todos os concertos e volta a utiliz\u00e1-las.<\/p>\n<p><strong>F-se: Como foi assistir a um concerto do Bambara? Em alguns momentos, eles parecem superar o APTBS em barulho e viol\u00eancia, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: S\u00e3o mais violentos, sem d\u00favida. D\u00e3o um concerto muito en\u00e9rgico. Ningu\u00e9m consegue estar parado. S\u00e3o rapazes fant\u00e1sticos, apesar de algo reservados.<\/p>\n<p><strong>F-se: Fale um pouco sobre as grava\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo \u00e1lbum. Voc\u00eas foram ao est\u00fadio com todas as m\u00fasicas j\u00e1 prontas? Preferiram compor tudo no est\u00fadio? Qual a diferen\u00e7a da grava\u00e7\u00e3o deste disco pro primeiro? E quanto \u00e0s composi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 muitas diferen\u00e7as entre o que est\u00e3o a gravar agora e o que j\u00e1 lan\u00e7aram no primeiro disco e nos EPs?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Seguimos pra est\u00fadio apenas com a estrutura base das m\u00fasicas. Algumas estavam mesmo incompletas. Os arranjos sonoros surgiram todos em est\u00fadio e com o avan\u00e7o das grava\u00e7\u00f5es foi poss\u00edvel come\u00e7ar explorar sonoridades e criar atmosferas intensas. Julgo que o trabalho final vai ficar muito bom. Conseguimos criar uma sonoridade muito densa, com v\u00e1rias camadas de guitarras sobrepostas, mas desta vez o <em>noise<\/em> n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o descomprometido. Est\u00e1 mais estruturado, eventualmente mais criativo. Julgo que conseguimos melhorar o som da bateria. Tudo isto com o apoio do \u00c1lvaro Ramos, o t\u00e9cnico de som que nos ajudou a produzir o disco. Em algumas m\u00fasicas a composi\u00e7\u00e3o diverge um pouco dos discos anteriores. \u00c9 um trabalho diferente, mas na ess\u00eancia, \u00e9 um \u00e1lbum de can\u00e7\u00f5es. Veremos no futuro a aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>F-se: A experi\u00eancia com o <a href=\"http:\/\/ppl.com.pt\/pt\/prj\/malcontent\" target=\"_blank\">financiamento coletivo pro \u00e1lbum<\/a> foi positiva at\u00e9 o momento? A expectativa de voc\u00eas \u00e9 conseguir financiamento total pro disco? Que li\u00e7\u00f5es tiraram da experi\u00eancia? Pensam em repeti-la no futuro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Muito positiva. Conseguimos ultrapassar o montante solicitado e o prazo ainda n\u00e3o terminou (<em>a entrevista foi feita uma semana antes de encerrado o prazo<\/em>). O valor pedido n\u00e3o \u00e9 suficiente pra financiar o disco na totalidade mas \u00e9 uma ajuda muito significativa. Surpreendeu-nos o interesse, pois n\u00e3o podemos esquecer que Portugal \u00e9 um pa\u00eds em crise, sob resgate financeiro onde as pessoas vivem diariamente com cortes no seu rendimento. O simples fato de conseguirmos exceder as expectativas \u00e9 motivo de grande orgulho, pois \u00e9 sin\u00f4nimo do interesse que muitos t\u00eam relativamente ao novo \u00e1lbum. \u00c9 mais um sinal que o <em>noise rock<\/em> tem sa\u00edda&#8230;. Basta apostar. Desde sempre dissemos que este disco seria nosso e dos f\u00e3s, e assim ser\u00e1. Ainda n\u00e3o pensamos se um dia poderemos repetir a estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>A banda em a\u00e7\u00e3o ao vivo, mostrando a m\u00fasica nova, &#8220;Riot Sound Effect&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/tUOPJ0O4bhw\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>F-se: H\u00e1 uma discuss\u00e3o no Brasil quanto \u00e0 viabilidade da cena independente, ou pelo menos de artistas independentes se tornarem autossustent\u00e1veis. Isso \u00e9 uma possibilidade em Portugal? Diante da crise que a Europa enfrenta desde 2008, \u00e9 poss\u00edvel se estabelecer como uma banda independente sem precisar de recusos de um emprego formal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: \u00c9 imposs\u00edvel, ou pelo menos muito raro, viver apenas da m\u00fasica. Muito menos sem o suporte de uma estrutura consolidada, de uma m\u00e1quina promocional. Neste momento Portugal est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, em crise, e um dos primeiros setores a sofrer \u00e9 o da cultura.<\/p>\n<p><strong>F-se: Outra discuss\u00e3o que circula entre os <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-ruidomm-noise-patrocinado\/\" target=\"_blank\">artistas independentes no Brasil \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos<\/a>, destinados pelo governo a manifesta\u00e7\u00f5es culturais, pra subsidiar, na m\u00fasica, a produ\u00e7\u00e3o de discos, DVDs ou festivais (o dinheiro \u00e9 destinado via editais: por meio deles, empresas oferecem apoio financeiro pra artistas e projetos culturais que v\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o de um \u00e1lbum, ou a produ\u00e7\u00e3o de um livro, at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de festivais ou filmes, em troca de benef\u00edcios fiscais). O problema \u00e9 que, muitas vezes, parte desses recursos s\u00e3o encaminhados a artistas j\u00e1 estabelecidos. Acontece algo parecido em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: Em Portugal j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 dinheiro p\u00fablico pra nada. Os \u00fanicos movimentos partem da iniciativa privada, \u00e9 neste momento a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o. Dou o exemplo da cidade do Porto que em plena crise e \u00e0 custa da iniciativa privada conseguiu reinventar-se e tornar-se um dos pontos mais atrativos da Europa. Falta agora transportar esta energia pra cultura. Come\u00e7am a surgir os primeiros sinais e acredito que o futuro pr\u00f3ximo ser\u00e1 muito positivo. Seria interessante criar um movimento id\u00eantico ao que se verifica neste momento em Austin, Texas, ou como o que surgiu em Manchester nos ano 80. Vamos acreditar.<\/p>\n<p><strong>F-se: Assim que o disco estiver pronto, qual a expectativa dos Malcontent pra 2014? Voc\u00ea acredita que, agora que o vinil voltou a ser destaque entre os consumidores que de fato amam m\u00fasica e gostam de ter em m\u00e3os algo f\u00edsico das bandas que curtem, o LP pode levar voc\u00eas a alcan\u00e7ar um outro p\u00fablico, ainda n\u00e3o abordado pela banda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SC<\/strong>: A mem\u00f3ria \u00e9 o melhor neg\u00f3cio e acredito que a aposta no vinil \u00e9 tamb\u00e9m acertada nesse sentido. H\u00e1 muitos mel\u00f4manos, colecionadores que preferem o vinil e rejeitam o CD, que j\u00e1 n\u00e3o vende. N\u00e3o sei se ter\u00e1 muita sa\u00edda nas lojas, o futuro o dir\u00e1. Acredito que vamos conseguir vender vinis em concertos, n\u00e3o s\u00f3 pelo formato mas tamb\u00e9m pelo nosso som.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-ulcerate-um-territorio-mais-profundo\/\" title=\"ENTREVISTA: ULCERATE &#8211; UM TERRIT\u00d3RIO MAIS PROFUNDO\">ENTREVISTA: ULCERATE &#8211; UM TERRIT\u00d3RIO MAIS PROFUNDO<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-jordaan-mason-desejo-estranho-de-documentar-a-vida\/\" title=\"ENTREVISTA: JORDAAN MASON &#8211; DESEJO ESTRANHO DE DOCUMENTAR A VIDA\">ENTREVISTA: JORDAAN MASON &#8211; DESEJO ESTRANHO DE DOCUMENTAR A VIDA<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-will-oldham-dos-pes-de-um-vulcao-para-o-mundo\/\" title=\"ENTREVISTA: WILL OLDHAM &#8211; DOS P\u00c9S DE UM VULC\u00c3O PARA O MUNDO\">ENTREVISTA: WILL OLDHAM &#8211; DOS P\u00c9S DE UM VULC\u00c3O PARA O MUNDO<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-kyle-field-mais-vulneravel-do-que-jovem\/\" title=\"ENTREVISTA: KYLE FIELD &#8211; MAIS VULNER\u00c1VEL DO QUE JOVEM\">ENTREVISTA: KYLE FIELD &#8211; MAIS VULNER\u00c1VEL DO QUE JOVEM<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entrevista-mineral-uma-comunidade-ao-longo-do-tempo\/\" title=\"ENTREVISTA: MINERAL &#8211; UMA COMUNIDADE AO LONGO DO TEMPO\">ENTREVISTA: MINERAL &#8211; UMA COMUNIDADE AO LONGO DO TEMPO<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teve porrada e repress\u00e3o sangrenta, com a assinatura da ditadura salazarista (1933-1974), antes do estouro do rock em Portugal, no final dos 70. 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