{"id":44199,"date":"2015-11-25T00:59:27","date_gmt":"2015-11-25T02:59:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=44199"},"modified":"2018-04-13T14:38:26","modified_gmt":"2018-04-13T17:38:26","slug":"o-rouxinol-da-revolucao-na-siria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-rouxinol-da-revolucao-na-siria\/","title":{"rendered":"O ROUXINOL DA REVOLU\u00c7\u00c3O NA S\u00cdRIA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"44214\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-rouxinol-da-revolucao-na-siria\/siria1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/siria1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"siria1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/siria1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/siria1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-44214\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/siria1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/siria1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Era final de 2010 quando manifesta\u00e7\u00f5es explodiram na Tun\u00edsia, na L\u00edbia e no Egito. Na Tun\u00edsia, onde o movimento de fato se iniciou, com uma a\u00e7\u00e3o desesperada de um jovem que ateou fogo no pr\u00f3prio corpo, o general Zine El Abidine Ben Ali, no poder desde 1987, se picou pra Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n<p>No Egito, Hosni Mubarak, tamb\u00e9m militar, que governou o pa\u00eds de 1981 at\u00e9 renunciar em 2011, tinha perfil conciliador na regi\u00e3o, mas era um ditador sanguin\u00e1rio dentro de suas fronteiras e um l\u00edder corrupto que enriqueceu enquanto o pa\u00eds seguia com altos \u00edndices de pobreza.<\/p>\n<p>Muammar al-Gaddafi foi o chefe da L\u00edbia de 1969, assumindo o governo atrav\u00e9s de um golpe de estado, at\u00e9 2011, quando foi deposto e morto. Foi o l\u00edder \u00e1rabe mais tempo no poder.<\/p>\n<p>Um a um, os ditadores e donos do poder de Arg\u00e9lia, Djibuti, Iraque, Jord\u00e2nia, Om\u00e3, Marrocos e I\u00eamen se viram diante de protestos pac\u00edficos e violentos em suas ruas. A S\u00edria tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O que juntava toda essa gente, de pessoas insatisfeitas com a falta de direitos humanos fundamentais, de liberdade e de perspectiva, era a Internet, com o fortalecimento das redes sociais.<\/p>\n<p>E a arte. E a cultura pop.<\/p>\n<p>M\u00fasica, poesia, teatro e at\u00e9 o cinema foram usados pra espalhar a mensagem e aglutinar ideias.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso t\u00edpico de &#8220;Yalla Irhal, Ya Bashar&#8221; (&#8220;Vamos l\u00e1, Bashar, vaza&#8221;), a can\u00e7\u00e3o-s\u00edmbolo dos protestos na S\u00edria, contra o ditador Bashar al-Assad, que herdou (e o verbo \u00e9 exatamente esse) o poder de seu pai, Hafez al-Assad, em 2000. Hafez assumiu o poder com um golpe de estado, em 1971. J\u00e1 s\u00e3o mais de quarenta anos com a fam\u00edlia no poder, at\u00e9 2011, quando a S\u00edria teve sua cota de Primavera \u00c1rabe.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o diz &#8220;Ei, Bashar, ei, mentiroso. Pro inferno voc\u00ea e seu discurso, a liberdade est\u00e1 batendo \u00e0 porta. Ent\u00e3o, vamos l\u00e1, Bashar, vaza&#8221;.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos ditadores dos pa\u00edses vizinhos, Bashar tem (j\u00e1 que ainda \u00e9 o presidente do pa\u00eds) a seu favor a pouca idade e a promessa de reformas pol\u00edticas, incluindo maior participa\u00e7\u00e3o popular. Mas essa promessa feita ao assumir o cargo foi por \u00e1gua abaixo assim que a elei\u00e7\u00e3o de 2007 mostrou suas reais inten\u00e7\u00f5es: candidato \u00fanico, foi eleito com 97% dos votos v\u00e1lidos.<\/p>\n<p>Era um &#8220;ditador travestido de democrata&#8221;. A situa\u00e7\u00e3o piorou quando as pessoas tomaram as ruas e foram duramente reprimidas pelo seu ex\u00e9rcito, espalhando morte, terror e mais intoler\u00e2ncia pelas ruas do pa\u00eds &#8211; tal como seu pai havia feito na d\u00e9cada de 1980, quando reprimiu um protesto nas ruas de Ham\u00e3, deixando dez mil mortos, na contagem mais otimista.<\/p>\n<p>O refr\u00e3o da m\u00fasica, ent\u00e3o, \u00e9 direta e objetiva: ningu\u00e9m acreditava mais naquele rapaz com pinta de bom mo\u00e7o que a princ\u00edpio foi apoiado pelo Ocidente &#8211; leia Europa e Estados Unidos &#8211; e que logo se revelou filho de quem era.<\/p>\n<p>Nos protestos de 2011, a m\u00fasica ganhou as ruas. De repente, todo mundo que pedia a sa\u00edda de Bashar al-Assad entoava essa can\u00e7\u00e3o. E logo o governo queria calar aqueles versos, achando que isso seria poss\u00edvel. Mas s\u00f3 piorou a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diz-se que can\u00e7\u00e3o foi escrita por Ibrahim Qashoush. Ningu\u00e9m sabia quem ele era, at\u00e9 que seu corpo apareceu boiando, com a garganta cortada, no rio Orontes, o maior da S\u00edria, no dia 4 de julho de 2011 (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=uBzk8WZZxzg&#038;bpctr=1448414508\" target=\"_blank\">h\u00e1 um v\u00eddeo terr\u00edvel com essa imagem &#8211; veja por sua conta e risco<\/a>). Cortar a garganta e as cordas vocais era um recado e tanto contra a liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 que ningu\u00e9m sabe exatamente quem escreveu a can\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 teorias e mais teorias sobre a autoria e a morte de Qashoush.<\/p>\n<p>Os apoiadores de Bashar al-Assad dizem que o autor \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o da m\u00eddia ocidental, bem como sua morte. Ele era um ningu\u00e9m, n\u00e3o se conhecia o rosto dele (at\u00e9 o revoltante v\u00eddeo lincado acima), e jamais se havia ouvido falar dele. N\u00e3o h\u00e1 fotos ou v\u00eddeos dele cantando.<\/p>\n<p>Nessa teoria, fundamentada com v\u00eddeos que tamb\u00e9m podem ser falsos, as for\u00e7as de seguran\u00e7a s\u00edrias dizem ter prendido um &#8220;terrorista&#8221; chamado Fadi Zreik, que confessou que Qashoush havia sido capturado e morto pelos &#8220;rebeldes&#8221; por pensarem que ele era um informante do governo; e que a pessoa que realmente comp\u00f4s a m\u00fasica estava filmando o corpo dele dilacerado.<\/p>\n<p>A guerra de informa\u00e7\u00f5es gera uma s\u00e9rie de mal entendidos. As redes sociais s\u00e3o terreno f\u00e9rtil pra boatos e certamente muitas mortes s\u00e3o provocadas a partir de falsas acusa\u00e7\u00f5es, mentiras e jogo de cena.<\/p>\n<p>N\u00e3o parece ser especificamente o caso de Qashoush, embora sua morte tenha servido pra fazer da m\u00fasica um poder ainda mais forte. Alguns passaram a cham\u00e1-lo de &#8220;o rouxinol da revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. A gargante cortada serviu bem ao discurso explosivo de ambos os lados (se bem que n\u00e3o s\u00e3o apenas dois lados).<\/p>\n<p>Outra teoria diz que h\u00e1 mais dois homens com o mesmo nome, que um era realmente informante do governo e que o outro ainda estava vivo ao final de 2011. O homem que morreu com a garganta cortada nada mais era do que um cantor de segunda categoria de casamentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem insista, por\u00e9m, que a can\u00e7\u00e3o foi mesmo escrita por um rapaz \u00e0 \u00e9poca com vinte e tr\u00eas anos, chamado Abdel-Rahman, ou Rahmani, um estudante que tamb\u00e9m \u00e9 eletricista. Desse, h\u00e1 fotos. Ele est\u00e1 vivo e foi \u00e0 \u00e9poca aclamado por opositores de al-Assad em v\u00eddeos e nas redes sociais.<\/p>\n<p>Mais do que isso: foi entrevistado por um jornalista que escreveu sua hist\u00f3ria pro New York Times. Segundo o artigo de 21 de julho de 2011, no auge dos protestos, as ruas de Ham\u00e3 eram tomadas por mais e mais gente, dia ap\u00f3s dia, e as turbas entoavam palavras de ordem como &#8220;paz, paz, crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos&#8221;, &#8220;n\u00e3o haver\u00e1 medo depois de hoje&#8221;, &#8220;Deus, S\u00edria, liberdade e nada mais&#8221;, com discursos de oradores que n\u00e3o iam muito al\u00e9m disso. As pessoas levavam \u00e0s ruas carros com sons potentes e tentavam ampliar tais palavras de ordem. Foi a\u00ed que Rahmani escreveu sua primeira can\u00e7\u00e3o, chamada &#8220;S\u00edria Quer Liberdade&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Yalla Irhal, Ya Bashar&#8221; veio na sequ\u00eancia. Ele e seu irm\u00e3o discutiram sobre manter os versos mais &#8220;pesados&#8221; e ofensivos, como &#8220;pro inferno voc\u00ea&#8221; ou &#8220;voc\u00ea e seus apoiadores s\u00e3o bund\u00f5es&#8221;, mas foram duas das mais aplaudidas entre os rebeldes.<\/p>\n<p>&#8220;O que eu cantei, todo mundo sentia do fundo do cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o achava palavras pra expressar&#8221;, ele disse ao jornalista. &#8220;A gente foi criado com medo at\u00e9 mesmo de falar de pol\u00edtica&#8221;. Perguntado se ele tinha medo de terminar como Qashoush, ele respondeu com uma outra pergunta: &#8220;medo do qu\u00ea?&#8221;.<\/p>\n<p>Nas ruas, por\u00e9m, rola o medo. Ningu\u00e9m mais resolveu assumir a autoria da m\u00fasica, apesar de tantas teorias sobre quem a escreveu. Pode ser ningu\u00e9m, pode ser qualquer um. Pode ser Qashoush, pode ser Rahmani. Mas Rahmani n\u00e3o parece ter medo. Tanto que fala a um jornal estadunidense e repete os versos no qual cita outro algoz do povo s\u00edrio.<\/p>\n<p>Maher al-Assad, irm\u00e3o de Bashar, \u00e9 o chefe do ex\u00e9rcito oficial, um primata opressor, que n\u00e3o tem d\u00f3 de atirar em quem quer que seja que ele ache ser contra o governo de sua fam\u00edlia. Ele \u00e9 citado na seguinte passagem: &#8220;Maher, voc\u00ea \u00e9 um covarde, \u00e9 um agente dos EUA, os s\u00edrios n\u00e3o v\u00e3o ser humilhados&#8221;.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o em si \u00e9 de uma simplicidade atroz, baseada na sonoridade folcl\u00f3rica local, com um refr\u00e3o pegajoso e libertador. E, como se v\u00ea, as estrofes s\u00e3o pobres, sem rima, que s\u00f3 servem a um prop\u00f3sito. Quem quer que a tenha escrito n\u00e3o estava preocupado em obter reconhecimento ou aprecia\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p>A m\u00fasica como protesto e forma de express\u00e3o na S\u00edria tem muitos bons exemplos (de <em>indie<\/em> a <em>metal<\/em>, passando por cl\u00e1ssico e hip hop), que vale um artigo a parte, com algumas amostras. Prometo um desse pra breve.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 que &#8220;Yalla Irhal, Ya Bashar&#8221; ganhou uma propor\u00e7\u00e3o maior. Tem uma aura de mist\u00e9rio em torno dela &#8211; muito por conta da dimens\u00e3o entre os protestos de 2011 e 2012 e da morte de seu presumido autor.<\/p>\n<p>E, de 2011 a 2015, muita coisa se deformou. Teve o surgimento do Estado Isl\u00e2mico, que j\u00e1 controla 60% do pa\u00eds, levando ainda mais terror que o pr\u00f3prio Bashar al-Assad, de modo que a R\u00fassia passou a apoiar o ex\u00e9rcito oficial s\u00edrio contra os criminosos religiosos do EI, e os Estados Unidos n\u00e3o sabem o que fazem (pra entender o que t\u00e1 rolando l\u00e1, <a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/mundo\/noticia\/o-que-e-o-estado-islamico-1690458\" target=\"_blank\">recomendo enormemente a leitura desse gigante artigo de Graeme Wood<\/a> ou do livro &#8220;A Origem Do Estado Isl\u00e2mico&#8221;, de Patrick Cockburn, j\u00e1 lan\u00e7ado em portugu\u00eas).<\/p>\n<p>A Turquia, sob o comando de um maluco, o presidente Recep Tayyip Erdo\u011fan, resolveu atacar os russos. O jogo mudou, piorou, complicou. No meio disso tudo, o povo s\u00edrio se protege como pode, a maioria fugindo pela fronteira turca e vagando pela Europa como gado sem dono e sem valor. Essa pobre gente virou esc\u00f3ria, se ficar os bichos pegam (e escravizam ou matam), se correr os bichos comem vivos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 m\u00fasica que d\u00ea jeito quando a geopol\u00edtica desastrosa e seca por dinheiro e poder massacra o bom senso. Bashar al-Assad pode at\u00e9 vazar, beleza, mas e da\u00ed?<\/p>\n<p>Podem dar for\u00e7a e esperan\u00e7a. Podem unir e servir como desabafo. Mas erros hist\u00f3ricos, gan\u00e2ncia, intoler\u00e2ncia e descaso n\u00e3o se resolvem com alguns versos e um refr\u00e3o pegajoso. Infelizmente.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a a m\u00fasica, com legenda em ingl\u00eas:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xCS8SsFOBAI\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li>Nada relacionado<\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era final de 2010 quando manifesta\u00e7\u00f5es explodiram na Tun\u00edsia, na L\u00edbia e no Egito. 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