{"id":44778,"date":"2016-01-27T21:24:10","date_gmt":"2016-01-27T23:24:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=44778"},"modified":"2018-04-13T14:36:40","modified_gmt":"2018-04-13T17:36:40","slug":"a-martir-dos-downloads","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-martir-dos-downloads\/","title":{"rendered":"A M\u00c1RTIR DOS DOWNLOADS"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"44785\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-martir-dos-downloads\/jammiethomasrasset1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jammiethomasrasset1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"jammiethomasrasset1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jammiethomasrasset1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jammiethomasrasset1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-44785\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jammiethomasrasset1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jammiethomasrasset1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>No estado de Minnesota, Esteites, fica uma pequena cidade de pouco menos de quatorze mil habitantes chamada Brainerd. Tem o que quase toda cidade estadunidense desse porte tem: um bom centro de compras, lanchonetes de <em>fast food<\/em>, tranquilidade e, nesse caso, um certo apelo tur\u00edstico, por conta das corridas de arrancada, que ali acontecem o ano inteiro.<\/p>\n<p>Barinerd tamb\u00e9m foi cen\u00e1rio de algumas filmagens do cl\u00e1ssico dos irm\u00e3os Coen, &#8220;Fargo&#8221;, de 1996.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 muito o que dizer de uma cidade t\u00e3o comum quanto essa, a n\u00e3o ser que ela \u00e9 tamb\u00e9m a resid\u00eancia de Jammie Thomas-Rasset.<\/p>\n<p>A senhora Thomas-Rasset ficou conhecida como uma vil\u00e3 virtual das mais perigosas. Isso segundo a ind\u00fastria musical.<\/p>\n<p>Em 2011, ela foi considerada culpada de fraude e viola\u00e7\u00e3o dos direitos econ\u00f4micos (n\u00e3o autoriais), ap\u00f3s den\u00fancia da RIAA (Recording Industry Association Of America, a associa\u00e7\u00e3o que defende os direitos da grande ind\u00fastria da m\u00fasica nos Esteites, com tent\u00e1culos mundo afora), por ter compartilhado, em 2004, vinte e quatro can\u00e7\u00f5es no KaZaA.<\/p>\n<p>Sua puni\u00e7\u00e3o veio em n\u00fameros: oitenta mil d\u00f3lares por can\u00e7\u00e3o baixada, totalizando o valor de 1,92 milh\u00e3o de d\u00f3lares. Isso a t\u00edtulo de &#8220;perdas comerciais&#8221;. \u00c0 \u00e9poca dos <em>downloads<\/em>, uma can\u00e7\u00e3o no iTunes custava US$ 0,99. Numa conta r\u00e1pida, pra Thomas-Rasset gastar os quase dois milh\u00f5es de d\u00f3lares impostos pela Justi\u00e7a, ela precisaria ter baixado pouco mais de dois milh\u00f5es de m\u00fasicas. Em 2004, a dona-de-casa usava uma conex\u00e3o de 256kps, o que, pra causar tal preju\u00edzo alegado pela ind\u00fastria, ela levaria perto de tr\u00eas anos baixando m\u00fasica direto, vinte e quatro horas do dia, os sete dias da semana.<\/p>\n<p>Mas ela precisava &#8220;servir de exemplo&#8221;. Essa era a pol\u00edtica da ind\u00fastria \u00e0 \u00e9poca. Ao inv\u00e9s de ir atr\u00e1s dos verdadeiros piratas, aqueles que vazam os discos e compartilhavam por a\u00ed, resolveu ir atr\u00e1s de &#8220;gente comum&#8221;, que provavelmente nem tinha ideia do tipo de crime (ou at\u00e9 mesmo ser era crime) que estava cometendo.<\/p>\n<p>Jammie \u00e9 um bom caso dessa pol\u00edtica desastrosa. Ela \u00e9 m\u00e3e de dois filhos. M\u00e3e solteira. Tem um emprego regular. N\u00e3o sabia o que era um IP, mexia num computador como qualquer pessoa comum, mandando e recebendo e-mail, acessando sites de not\u00edcias e, na era do <em>boom<\/em> do MP3, baixando m\u00fasicas eventualmente.<\/p>\n<p>Mas era um per\u00edodo em que a ind\u00fastria enxergava nos balan\u00e7os quedas atr\u00e1s de quedas das vendas. Em 2005, era o quinto ano seguido de resultados que apontavam apenas pro fundo do po\u00e7o.<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s ter derrotado o Napster, anos antes, a ind\u00fastria se via ainda mais perdida, com nascimento de outros sistemas de compartilhamento. Corta-se uma cabe\u00e7a, aparecem duzentas no lugar: KaZaA, Gnutella, Grokster, Morpheus, Soulseek, a lista \u00e9 imensa. Trocar e compartilhar arquivos digitais, de m\u00fasica inclu\u00eddos, era o grande barato e a grande descoberta social do in\u00edcio do novo s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Achou-se que era uma boa ideia ir atr\u00e1s dos consumidores &#8220;comuns&#8221; que passaram a baixar (e compartilhar) m\u00fasica gratuitamente. Em 2005, as gravadoras lan\u00e7aram processos contra 7.437 usu\u00e1rios de sites de compartilhamento, suspeitos de dispor sua biblioteca musical pra <em>download<\/em> de outros usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>A maioria desses servi\u00e7os de compartilhamento tinha uma fun\u00e7\u00e3o que liberava a biblioteca pessoal pra acesso de outros usu\u00e1rios. Voc\u00ea determinava qual pasta o servi\u00e7o podia disponibilizar e as m\u00fasicas ficavam vis\u00edveis pra outros escolherem e baixar. Era uma ferramenta &#8220;socialmente requer\u00edvel&#8221; no mundo virtual. \u00c9 dando que se recebe, uma pr\u00e1tica que vale aqui. Ou seja, n\u00e3o eram compartilhadores contumazes de m\u00fasica, apenas que a circunst\u00e2ncia tecnol\u00f3gica os faziam ser (alguns provavelmente nem sabiam desabilitar a fun\u00e7\u00e3o de compartilhamento autom\u00e1tico).<\/p>\n<p>A ideia das gravadoras era dar um susto. Mostrar que era crime o ato de baixar e compartilhar. E, claro, conseguir uma grana.<\/p>\n<p>Mas a t\u00e1tica n\u00e3o parecia muito boa. A pr\u00f3pria RIAA alertava seus associados. A grana recuperada por esses processos mal cobriria os custos legais, e o susto faria as pessoas migrarem pra sistemas mais seguros, pois an\u00f4nimos, como o BitTorrent ou o Pirate Bay.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era uma t\u00e1tica muito popular. O caso de Sarah Ward, uma aposentada de 66 anos, av\u00f3, foi contundente. Ela foi acusada de dar preju\u00edzo de milh\u00f5es de d\u00f3lares por baixar <em>rap hardcore<\/em> pelo KaZaA. O KaZaA era um programa que s\u00f3 rodava em Windows e Ward tinha um Mac em casa. Mesmo assim, com todas essas evid\u00eancias do absurdo, ela foi processada.<\/p>\n<p>O modo de opera\u00e7\u00e3o era o mesmo que aconteceu em 2005 com Jammie Thomas-Rasset. Ela conta que recebeu pelo correio uma carta imponente da Shook, Hard And Bacon, uma firma de advocacia, cujo conte\u00fado era grande enigma pra ela. Havia um telefone pra ela ligar e foi o que a m\u00e3e de fam\u00edlia fez.<\/p>\n<p>Do outro lado da linha, os advogados queriam falar com ela sobre o KaZaA. &#8220;Eu disse, &#8216;que diabos voc\u00eas est\u00e3o falando?'&#8221;, contou ao rep\u00f3rter Nick Pinto, do City Pages, de Minneapolis, no famoso artigo &#8220;Jammie Thomas-Rasset: The Download Martyr&#8221;, de 16 de fevereiro de 2011, no qual este artigo do <strong>Floga-se<\/strong> se baseia. Os advogados s\u00f3 lhe diziam que eles sabiam muito bem que ela estava compartilhando arquivos no KaZaA &#8211; &#8220;e eu n\u00e3o fazia ideia do que o KaZaA era&#8221;.<\/p>\n<p>A negativa de Jammie parecia parte do roteiro esperado pela firma. N\u00e3o importou a alega\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia no caso. Uma empresa de investiga\u00e7\u00e3o chamada MediaSentry, contratada pela RIAA, n\u00e3o s\u00f3 sabia o que era o KaZaA, como alegava que o IP de Jammie foi usado pra compartilhar m\u00fasica, umas 1.700.<\/p>\n<p>Pra simplificar o processo &#8211; note esse detalhe &#8211; a RIAA limitou a acusa\u00e7\u00e3o a duas d\u00fazias de can\u00e7\u00f5es, uma lista ecl\u00e9tica que incluiu &#8220;Pour Some Sugar On Me&#8221;, do Def Leppard; &#8220;Don&#8217;t Stop Believin'&#8221;, do Journey; &#8220;Now And Forever&#8221;, de Richard Marx; &#8220;Run Baby Run&#8221;, da Sheryl Crow; &#8220;Basket Case&#8221;, do Green Day; e &#8220;Welcome To The Jungle&#8221;, do Guns N&#8217; Roses, o que parecia at\u00e9 um pren\u00fancio que estava por vir.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s informar a senhora Thomas-Rasset sobre a acusa\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3ximo passo seria o acordo, e ele era t\u00e3o inacredit\u00e1vel quanto a pr\u00f3pria acusa\u00e7\u00e3o: tudo poderia ser perdoado, deixado pra l\u00e1; ela s\u00f3 precisava pedir desculpas publicamente, prometer que nunca mais cometeria o mesmo erro e, claro, preencher um cheque de alguns milhares de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>&#8220;Quando ouvi a proposta, fiquei como&#8230; &#8216;o qu\u00ea?&#8217;&#8230; Soou como uma extors\u00e3o&#8221;, disse, na mesma mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Thomas-Rasset tomou uma decis\u00e3o que nenhum outro dos acusados pela RIAA tomou: se recusou a pagar. At\u00e9 porque n\u00e3o tinha tal grana. E porque n\u00e3o conhecia as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>A lei federal estadunidense permite a indeniza\u00e7\u00e3o de at\u00e9 US$ 150 mil d\u00f3lares por viola\u00e7\u00e3o, de modo que as suas 24 can\u00e7\u00f5es poderiam chegar a US$ 3,6 milh\u00f5es, caso ela fosse considerada culpada.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se intimidou. Com a ajuda de seu pai, levantou uma grana pra pagar os honor\u00e1rios de um advogado e foi pra cima. Mas claro que ela perdeu.<\/p>\n<p>Richard Gabriel, o advogado principal das gravadoras, tinha um caso bem montado, com provas de que os <em>downloads<\/em> foram realizados pelo IP da acusada. J\u00e1 o advogado dela at\u00e9 tentou criar o que se chama de &#8220;d\u00favida razo\u00e1vel&#8221;, termo segundo o qual um acusado n\u00e3o pode ser condenado. E se Thomas-Rasset estivesse usando um roteador <em>wireless<\/em> e algu\u00e9m de fora usou sua conex\u00e3o? E se algu\u00e9m <em>hackeou<\/em> sua conta? Tal linha de defesa j\u00e1 havia sido usada em outras defesas de casos semelhantes.<\/p>\n<p>Mas a prova estava no nome do usu\u00e1rio do KaZaA, Tereastarr. O advogado das gravadoras provou que o endere\u00e7o de e-mail dela sempre foi Tereastarr, ela usava tal codinome em compras online, incluindo em grandes varejistas. Ela usava tamb\u00e9m pra jogar videogame online. Ela usava esse nome pra tudo.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ele n\u00e3o tinha como provar que algu\u00e9m, mesmo ela disponibilizando tais 24 m\u00fasicas em compartilhamento no KaZaA, tenha baixado uma \u00fanica m\u00fasica sequer. Isso porque a arquitetura do programa, quando o usu\u00e1rio n\u00e3o desabilita a fun\u00e7\u00e3o de compartilhamento, faz com que qualquer coisa naquela pasta virasse alvo de compartilhamento. Se l\u00e1 tivessem fotos dos batizados das crian\u00e7as, elas tamb\u00e9m estariam dispon\u00edveis pra <em>download<\/em> aos outros usu\u00e1rios. Como saber quem baixou o qu\u00ea dela?<\/p>\n<p>Pra ind\u00fastria, tal argumento era in\u00fatil: se deixou dispon\u00edvel pra <em>download<\/em> de outros, mesmo que ningu\u00e9m tenha baixado os arquivos, j\u00e1 se configurava crime. Foi esse o entendimento do juiz e foi assim que o j\u00fari acabou sendo instru\u00eddo.<\/p>\n<p>Enquanto o j\u00fari deliberava, Thomas-Rasset e seu advogado foram almo\u00e7ar algo. Depois de quatro horas, o telefone do advogado tocou. O j\u00fari havia chegado a uma decis\u00e3o. &#8220;A princ\u00edpio, achamos que era um bom sinal que o j\u00fari n\u00e3o tenha precisado de muita delibera\u00e7\u00e3o&#8221;, disse ela.<\/p>\n<p>Mas ao voltar pro tribunal, o otimismo se transformou em choque quando o j\u00fari leu o veredito: culpada. Sem um precedente ou conhecimento de caso, os jurados estavam livre pra determinar a pena monet\u00e1ria por cada uma das 24 can\u00e7\u00f5es, tendo que definir um valor entre US$ 750,00 e US$ 150.000,00. Sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o, determinaram o valor de US$ 9.250,00 por m\u00fasica, totalizando US$ 220.00,00. Era uma quantia \u00ednfima perto do m\u00e1ximo que poderia chegar (US$ 3,6 milh\u00f5es), mas ainda era uma baita soma.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda do tribunal, tal e qual um filme de Hollywood, com o advogado vencedor dando entrevistas triunfantes, com li\u00e7\u00f5es de moral, e rep\u00f3rteres batendo no vidro fechado do seu carro, ela ficou imaginando como pagar esse valor, como se safar dessa.<\/p>\n<p>&#8220;Eu pensava: &#8216;vou perder minha casa, vou perder meu carro, vou vender tudo, eles ainda v\u00e3o pegar meu sal\u00e1rio todo, v\u00e3o tirar tudo de mim. Como vou sustentar meus filhos&#8217;?&#8221;, disse. &#8220;Eu estava arrasada. N\u00e3o podia parar de chorar. Senti que toda minha vida tinha ido pro buraco&#8221;.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da ind\u00fastria era um prato cheio pra imprensa: peite a ind\u00fastria e voc\u00ea pode se ver pendurado num gancho, devendo um quarto de milh\u00e3o de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>O mais importante \u00e9 que o caso abriu um importante precedente legal que poderia fazer casos futuros serem mais f\u00e1ceis de ganhar: de agora em diante, a ind\u00fastria n\u00e3o precisava mais provar que algu\u00e9m baixava m\u00fasicas que outros compartilhavam. Bastava compartilhar. Bastava ter no computador e permitir que outros tivessem acesso.<\/p>\n<p>Mas o caso de Thomas-Rasset n\u00e3o entrou pela hist\u00f3ria por conta dessa derrota. A senhora da pequena Brainerd foi a primeira a n\u00e3o desistir e a primeira a lutar contra a ind\u00fastria. Quase todo mundo que recebeu a mesma carta amea\u00e7adora dos advogados da RIAA naquela \u00e9poca entrou num acordo com a ind\u00fastria ao inv\u00e9s de ir ao tribunal.<\/p>\n<p>Thomas-Rasset estava certa de que n\u00e3o havia feito nada de errado e se recusou a se render. Era algo inesperado na t\u00e1tica adotada pela ind\u00fastria. Uma briga nos tribunais poderia, enfim, custar mais do que os meros US$ 23,76 (com cada can\u00e7\u00e3o custando US$ 0,99 no iTunes) de &#8220;preju\u00edzo&#8221; que os compartilhamentos de Thomas-Rasset poderiam causar (caso ningu\u00e9m baixasse os arquivos, e mesmo se algu\u00e9m baixasse essa era uma linha de acusa\u00e7\u00e3o que a ind\u00fastria sabia que n\u00e3o podia seguir). Poderia custar bem mais.<\/p>\n<p>Em setembro de 2008, pouco mais de um ano depois do veredito, o juiz do caso, Michael James Davis, mudou de ideia sobre o argumento principal da acusa\u00e7\u00e3o, de &#8220;deixar dispon\u00edvel&#8221; pra <em>download<\/em>, e que ele mesmo usou pra instruir o j\u00fari. Se as companhias quisessem um tost\u00e3o de Thomas-Rasset, teriam que process\u00e1-la de novo.<\/p>\n<p>Enquanto isso, com deflagra\u00e7\u00f5es de pris\u00f5es dos verdadeiros piratas mundo afora e a m\u00e1 propaganda que o caso tivera na opini\u00e3o p\u00fablica, a RIAA j\u00e1 se questionava se processar os f\u00e3s de m\u00fasica era uma boa estrat\u00e9gia a se seguir. E a essa altura do campeonato, a RIAA j\u00e1 havia enviado cartas amea\u00e7adoras pra mais de trinta mil pessoas. Algumas delas pra garotinhas de doze anos. Outras pra pessoas que j\u00e1 estavam at\u00e9 mortas. Era um desastre total no quesito rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2008, RIAA decidiu n\u00e3o mais processar usu\u00e1rios individuais.<\/p>\n<p>Mas o caso de Thomas-Rasset estava em aberto. Em maio de 2009, a RIAA encontrou Thomas-Rasset pra uma audi\u00eancia preliminar. Mas nenhum dos dois lados estava disposto a recuar. O caso iria a julgamento novamente.<\/p>\n<p>O advogado dela se retirou do caso porque Thomas-Raset n\u00e3o poderia pagar suas custas, que j\u00e1 chegavam a US$ 130 mil. Pra ele, se tornou &#8220;insustent\u00e1vel&#8221; continuar.<\/p>\n<p>Entraram no caso dois advogados iniciantes e ultra-conservadores do Texas, Joe Sibley e Kiwi Camera (um garoto-prod\u00edgio que se tornou o mais jovem a se formar em Harvard, aos 19 anos). Eles ofereceram seus servi\u00e7os gratuitamente.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1vamos s\u00f3 come\u00e7ando, ent\u00e3o \u00e9 justo dizer que a publicidade desse caso poderia ser uma paga melhor do que ela podia nos dar em dinheiro&#8221;, disse Sibley.<\/p>\n<p>Eles mal puderam se preparar pro caso. Tiveram que se arriscar. E se n\u00e3o podiam usar como argumento o fato de que algu\u00e9m invadiu a rede de Thomas-Rasset, iriam argumentar que algu\u00e9m pr\u00f3ximo dela \u00e9 que baixou as can\u00e7\u00f5es e n\u00e3o ela.<\/p>\n<p>No depoimento dela diante do j\u00fari levantou-se a possibilidade de um ex-namorado ter cometido o &#8220;crime&#8221; ou at\u00e9 mesmo um dos filhos dela, que tinham 10 e 8 anos \u00e0 \u00e9poca. Todos conheciam sua senha e usu\u00e1rio. Havia muita coisa ali na conta do KaZaA que ela mesmo nem curtia. Aquele lance <em>metal<\/em> e <em>industrial<\/em>, como Ministry, Morbid Angel, Covenant, era mais ou menos o tipo de m\u00fasica que o ex-namorado dela curtia.<\/p>\n<p>Mas ficou a sensa\u00e7\u00e3o de que Thomas-Rasset estava fazendo qualquer coisa pra se safar. At\u00e9 mesmo mentir. No julgamento anterior, ela nunca havia mencionado tal ex-namorado. E a RIAA tamb\u00e9m provou que logo ap\u00f3s ela ser notificada, Thomas-Rasset simplesmente trocou seu HD na Best Buy e mentiu dizendo que aquele era o \u00fanico no seu computador \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Mais uma vez, ela se deu mal e o j\u00fari foi mais implac\u00e1vel no veredito. Agora, cada uma das 24 can\u00e7\u00f5es custaria US$ 80 mil, totalizando US$ 1,92 milh\u00e3o de d\u00f3lares, mais de nove vezes o valor do primeiro veredito.<\/p>\n<p>Mas agora a ind\u00fastria n\u00e3o comemorou, nem deu longas entrevistas com li\u00e7\u00e3o de moral. Por outra, deixou bem claro que queria resolver o caso sem sair como vil\u00e3. Pra Thomas-Rasset, o que estava ruim agora beirava o absurdo, o pesadelo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o podia acreditar. No come\u00e7o eu ficava bem deprimida. Mas depois era at\u00e9 engra\u00e7ado. Como eles fariam pra conseguir tanto dinheiro de mim? Eu jamais vou ter tanto dinheiro a minha vida inteira&#8221;.<\/p>\n<p>O juiz Davis concordou que o j\u00fari extrapolou. Em janeiro de 2010, ele exerceu seu poder de ajustar o montante. Chamando o valor de &#8220;monstruoso e chocante&#8221;, ele estabeleceu a multa de US$ 54 mil. E deu uma semana pra RIAA decidir se poderia viver bem com tal quantia.<\/p>\n<p>A RIAA parecia ainda mais flex\u00edvel e tentou um novo acordo com Thomas-Rasset, e por um valor ainda menor: US$ 25 mil.<\/p>\n<p>Mas, creia, ela n\u00e3o topou. E tinha um bom motivo pra isso.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o quero fazer um acordo com essas gravadoras. O que elas est\u00e3o fazendo com esses processos \u00e9 errado. Eu falei com meu pai a respeito e ele me aconselhou a lutar pelo o que eu acho que \u00e9 correto&#8221;, justificou-se.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, l\u00e1 vai ela contra a RIAA num terceiro julgamento. Mas dessa vez a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se ela cometeu o crime alegado, apenas qual ser\u00e1 o valor da indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em novembro de 2010, o novo julgamento come\u00e7ou. A dupla de advogados argumentou que os tipos de indeniza\u00e7\u00e3o que a ind\u00fastria estava procurando eram draconianos, especialmente se considerar-se que as can\u00e7\u00f5es em quest\u00e3o poderiam ser compradas por meros US$ 24,00. A inten\u00e7\u00e3o de punir com altas quantias deveria ser imposta a quem viola os direitos autorais e faz dinheiro com isso.<\/p>\n<p>O advogado da RIAA contra-argumentou dizendo que Thomas-Rasset deveria assumir responsabilidade pelos seus atos e que as indeniza\u00e7\u00f5es visavam proteger o neg\u00f3cio da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Jammie perdeu mais uma vez. Agora, cada m\u00fasica passou a custar US$ 62.500,00, totalizando US$ 1,5 milh\u00e3o. &#8220;Antes mesmo de anunciarem o veredito, e j\u00e1 levei minha m\u00e3o \u00e0 boca. N\u00e3o importa o montante da indeniza\u00e7\u00e3o, eu sabia que iria rir&#8221;, disse.<\/p>\n<p>O juiz Davis mais uma vez reduziu o montante pra US$ 54 mil, em julho de 2011. Em setembro de 2012, a Corte de Apela\u00e7\u00e3o restituiu o primeiro veredito, de US$ 220 mil (<a href=\"http:\/\/media.ca8.uscourts.gov\/opndir\/12\/09\/112820P.pdf\" target=\"_blank\">leia aqui<\/a>). Thomas-Rasset n\u00e3o desistiu. Apelou pra Suprema Corte, em 2013, mas seu recurso foi recusado (<a href=\"http:\/\/www.supremecourt.gov\/Search.aspx?FileName=\/docketfiles\/12-715.htm\" target=\"_blank\">veja aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Ela perdeu julgamento ap\u00f3s julgamento e levou tudo a um cen\u00e1rio curioso. Mesmo perdendo e devendo milhares de d\u00f3lares que nunca vai conseguir pagar, Jammie sabe que no fim ela venceu. \u00c9 por conta da sua insist\u00eancia e do qu\u00e3o mal o caso ficou pra ind\u00fastria, que a RIAA desistiu de processar usu\u00e1rios comuns. Fora isso, o processo pra pr\u00f3pria RIAA custou muito mais do que o primeiro veredito, que acabou sendo acatado pela Corte de Apela\u00e7\u00e3o. Nem financeiramente o caso valeu pra RIAA, nem como exemplo pra outros usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo se eu nunca vencer em nenhuma inst\u00e2ncia, eu terei parado a extors\u00e3o deles em cima de av\u00f3s e garotinhas de 12 anos. Eles iam continuar fazendo isso at\u00e9 algu\u00e9m revidar. Eu revidei&#8221;, diz com orgulho.<\/p>\n<p>A insist\u00eancia dela e de gente como o co-fundador do Pirate Bay, que criou a incr\u00edvel m\u00e1quina de c\u00f3pias infinitas, capaz de destruir o argumento no qual se baseia qualquer valor de qualquer indeniza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-maquina-de-infinitas-copias-e-o-argumento-falho-da-industria\/\" target=\"_blank\">leia mais aqui<\/a>), \u00e9 que faz a batalha atingir p\u00e9 de igualdade. De um lado a for\u00e7a econ\u00f4mica, lobista, pol\u00edtica e midi\u00e1tica, do outro a for\u00e7a da l\u00f3gica de que contra o tempo e a tecnologia n\u00e3o se luta. Quem tentar, est\u00e1 se recusando a ver o presente e o futuro, est\u00e1 ficando pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Por conta disso, sendo &#8220;culpada&#8221; ou n\u00e3o, \u00e9 que Jammie Thomas-Rasset mereceu o t\u00edtulo de a &#8220;m\u00e1rtir do <em>download<\/em>&#8220;. Ela perdeu pra todo mundo &#8211; usu\u00e1rios, ind\u00fastria e tecnologia &#8211; pudesse seguir em frente.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-fim-do-mp3\/\" title=\"O FIM DO MP3\">O FIM DO MP3<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-maquina-de-infinitas-copias-e-o-argumento-falho-da-industria\/\" title=\"A M\u00c1QUINA DE INFINITAS C\u00d3PIAS E O ARGUMENTO FALHO DA IND\u00daSTRIA\">A M\u00c1QUINA DE INFINITAS C\u00d3PIAS E O ARGUMENTO FALHO DA IND\u00daSTRIA<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No estado de Minnesota, Esteites, fica uma pequena cidade de pouco menos de quatorze mil habitantes chamada Brainerd. 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