{"id":46192,"date":"2016-07-28T13:14:29","date_gmt":"2016-07-28T16:14:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=46192"},"modified":"2016-07-28T13:17:44","modified_gmt":"2016-07-28T16:17:44","slug":"resenha-sentidor-menoro-fantomo_rio-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-sentidor-menoro-fantomo_rio-preto\/","title":{"rendered":"RESENHA: SENTIDOR &#8211; MENORO FANTOMO_RIO PRETO"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"46194\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-sentidor-menoro-fantomo_rio-preto\/sentidor-capa-memorofantomo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,540\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"sentidor-capa-memorofantomo\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?resize=540%2C540\" width=\"540\" height=\"540\" class=\"alignnone size-full wp-image-46194\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?resize=83%2C83&amp;ssl=1 83w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/sentidor-capa-memorofantomo.jpg?resize=55%2C55&amp;ssl=1 55w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>O que aparece sob nossa perspectiva \u00e9 sequestrado por algum canto rec\u00f4ndito em nossa mente. Com o passar do tempo, nossa mem\u00f3ria altera as paisagens que vivenciamos pra distorc\u00ea-las \u00e0 maneira de deixar um cen\u00e1rio guardado dentro de n\u00f3s. Pode-se chamar isso de algo humano, uma tentativa de proteger algo que testemunhou sob a sua assinatura.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria \u00e9 algo incr\u00edvel e palp\u00e1vel. Tudo que testemunhamos um dia como mat\u00e9ria vai se transformar em nossa mem\u00f3ria. Sentidor trabalha com uma alquimia de registro &#8211; comungar mat\u00e9ria e mem\u00f3ria em m\u00fasica com valor est\u00e9tico. H\u00e1 um reconhecimento de uma fragilidade maior. O sujeito do Sentidor protagoniza uma dispers\u00e3o de si mesmo. Ele reconhece na dilui\u00e7\u00e3o de paisagens naturais seu esfacelamento tamb\u00e9m. A mat\u00e9ria \u00e9 feita pra virar p\u00f3.<\/p>\n<p>Eu acredito que o que \u00e9 mais pulsado em &#8220;Memoro Fantomo_Rio Preto&#8221; n\u00e3o \u00e9 necessariamente essa apreens\u00e3o de lugares visitados, mas sim uma transposi\u00e7\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es atravessadas em situa\u00e7\u00f5es bem espec\u00edficas &#8211; necessariamente, a soma de crian\u00e7as correndo, uma melodia, ru\u00eddos intercalados. A imprevisibilidade da sequ\u00eancia nas faixas tamb\u00e9m opera positivamente pra ideia absoluta de repeti\u00e7\u00e3o. Uma repeti\u00e7\u00e3o de correntes, de movimenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas de barulhos (at\u00e9 porque as m\u00fasicas sempre progridem).<\/p>\n<p>A marca que o \u00e1lbum duplo (&#8220;Memoro Fantomo&#8221; e &#8220;Rio Preto&#8221;) inflige ao ouvinte \u00e9 de um reconhecimento pleno do vazio. O vazio onde \u00e9 poss\u00edvel instalar pensamentos, lembran\u00e7as e a sensa\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia. \u00c9 muito comum o ditado que &#8220;a m\u00fasica \u00e9 a alma de quem a cria&#8221;, mas em &#8220;Memoro Fantomo_Rio Preto&#8221; percebemos a descentraliza\u00e7\u00e3o de um sujeito. \u00c9 como se a ideia de unidade fosse fragmentada e invadida pela exterioridade e neste processo de absor\u00e7\u00e3o fosse imposs\u00edvel reconhecer-se no espelho. \u00c9 estranho porque o que &#8220;ainda n\u00e3o \u00e9 \u00fanico&#8221; infere sensa\u00e7\u00f5es de incompletude e de desconforto. Como se olh\u00e1ssemos uma obra que nunca fica pronta, com o barulho de sua constru\u00e7\u00e3o esmurrando nossos ouvidos. \u00c9 um desempenho extremamente solit\u00e1rio em um vasto campo sem formas estabelecidas. \u00c9 uma descida vertical em que os espectros s\u00e3o vislumbrados e dissolvidos.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a na \u00edntegra:<br \/>\n<iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3799046556\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/sentidor.bandcamp.com\/album\/memoro-fantomo-rio-preto\">Memoro Fantomo_Rio Preto by Sentidor<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Nesta atmosfera solit\u00e1ria, testemunhamos eventos de toda ordem que recebem acolhimento em uma unidade dificilmente explicitada. Em que a colabora\u00e7\u00e3o entre a constata\u00e7\u00e3o da movimenta\u00e7\u00e3o natural e sua consequente transpar\u00eancia causa um desconforto n\u00edtido em quem tenta encontrar beleza nesse desespero. Enquanto a linha no horizonte realmente &#8220;parece um buraco negro que suga tudo&#8221; (leia as anota\u00e7\u00f5es que vem com o disco), eu fico realmente comovido com a express\u00e3o carinhosa que Jo\u00e3o Carvalho, o Sentidor (<em><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-el-toro-fuerte-um-tempo-lindo-pra-estar-vivo\/\" target=\"_blank\">ele \u00e9 tamb\u00e9m guitarrista do El Toro Fuerte<\/a><\/em>), transmite pra essa dor. Imerge-se, ent\u00e3o, em uma express\u00e3o muito pr\u00f3xima da sinaliza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 mortal. Uma n\u00e3o compreens\u00e3o em que signos externos se deterioram e se transformam em outras coisas porque nossa compreens\u00e3o est\u00e1 abalada e abatida.<\/p>\n<p>A qualidade experimental n\u00e3o deve reduzir as atribui\u00e7\u00f5es de &#8220;Memoro Fantomo_Rio Preto&#8221;. \u00c9 sobre um exerc\u00edcio de mem\u00f3ria. \u00c9 um ato em que a transmuta\u00e7\u00e3o de impress\u00f5es em sonoridades t\u00e3o detalhadas, em uma tentativa n\u00e3o apenas de reconstruir os lugares visitados, mas todas as sensa\u00e7\u00f5es neles experimentadas. \u00c9 um movimento de lenta imers\u00e3o, em que estamos nos afogando e \u2013 apesar do inc\u00f4modo e da aproxima\u00e7\u00e3o do desespero &#8211; testemunhamos algumas apari\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas raras e encantadoras, apesar de perigosas. As dimens\u00f5es mais ultrapassadas, estranhamente, sinalizam que est\u00e3o do nosso lado. Somos acompanhados invariavelmente (assim como certos ru\u00eddos que perduram toda a m\u00fasica) por algo que n\u00e3o sabemos denominar ou atribuir formas, mas ronda nossa subjetividade e engole-nos em ansiedade: os anos que se passaram parecem surgir e evocar o nosso corpo como testemunho de um acontecimento eterno (um porvir cont\u00ednuo).<\/p>\n<p>H\u00e1 em &#8220;Memoro Fantomo_Rio Preto&#8221; um vocabul\u00e1rio extenso de exorcismos. H\u00e1 os sussurros distantes, as distor\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, os barulhos esquisitos. \u00c0 medida que isso cresce (uma mat\u00e9ria densa de obscuridades), somos direcionados \u2013 na parte II, &#8220;Rio Preto&#8221; &#8211; a um terreno muito menos convidativo, muito mais interceptado e &#8220;sombrio&#8221;.<\/p>\n<p>Usando diversos desencontros pra protagonizar um encontro maior \u2013 uma pe\u00e7a esfacelada em algo, \u00e0s vezes, bem pr\u00f3ximo do desespero (ou\u00e7a as repeti\u00e7\u00f5es atordoantes da primeira faixa do segundo disco) &#8211; em que o desconforto \u00e9 a pele do sujeito do \u00e1lbum. Ele trata o som como um objeto tortuoso que \u00e9 modulado em frequ\u00eancias controversas pra atropelar qualquer estabilidade. \u00c9 algo &#8220;f\u00edsico&#8221; que interage com o ouvinte impulsionando enormes momentos em que o pr\u00f3prio cerne que sustenta nossa estrutura parece quebrar. As invas\u00f5es da guitarra, as vozes repetidas, os tempos cortados; uma escultura viva que tenta subir \u00e0 superf\u00edcie desse terreno extremamente cat\u00e1rtico. \u00c9 extraordin\u00e1rio ver como a jun\u00e7\u00e3o de texturas t\u00e3o discrepantes rasgam a movimenta\u00e7\u00e3o dos objetos e, elas mesmas, tornam-se os fen\u00f4menos aos quais mais nos prendemos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma difus\u00e3o n\u00e3o clara, distorcida e esfacelada. H\u00e1 o esmagamento de melodias cont\u00ednuas pra ampliar uma voz interna mais poderosa e tamb\u00e9m mais perdida e n\u00e3o digression\u00e1vel. \u00c9 a voz da dissolu\u00e7\u00e3o. H\u00e1 pontes realmente dif\u00edceis no \u00e1lbum (a passagem da primeira parte pra segunda \u00e9 um tro\u00e7o no estomago) que, com o terror e sua passagem, nos levam pra cantos mais acolhedores. Eu tenho certeza que o mote \u00e9 a mem\u00f3ria (provavelmente de dias n\u00e3o t\u00e3o bons) e tudo que ela catalisa, impulsiona, reverte e conflita. \u00c9 a mem\u00f3ria que faz nosso passado surgir como um desafio a ser superado. \u00c9 ela que interv\u00e9m pra lembrar que algum movimento parecido j\u00e1 machucou.<\/p>\n<p>O Sentidor exibe um evento musical pra sinalizar esse rito de passagem pelos terrenos mais incertos e cat\u00e1rticos (o terreno dentro de n\u00f3s mesmos). Timbres e tons distintos se unem pra &#8220;forjar&#8221; uma sensa\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio ato de se preencher esses espa\u00e7os vazios j\u00e1 \u00e9 maravilhoso. H\u00e1 movimenta\u00e7\u00e3o sob o que est\u00e1 est\u00e1tico, sobre o que est\u00e1 aparentemente inerte. E estamos sob este ponto de vista: de quem observa os contornos distantes e, apesar da dist\u00e2ncia, insiste em atribu\u00ed-los valor.<\/p>\n<p>S\u00e3o sons declarados num espa\u00e7o em que a acumula\u00e7\u00e3o deles resulta em desdobramentos de percep\u00e7\u00e3o, de uma verdadeira experi\u00eancia. Em que a forma narrativa \u2013 apesar de totalmente fragmentada e alheia no que tange \u00e0 linearidade, \u00e9 mais um resgate de afetos e de lugares atravessados &#8211; difunde reflexos de uma mudan\u00e7a constante (e pode captar sons instigantes nessa varia\u00e7\u00e3o). Ainda assim em meio a toda catarse que \u00e9 este disco duplo, h\u00e1 muitos &#8220;barulhos bonitos&#8221; (desculpe-me pelo termo). Se talvez este tipo de m\u00fasica possa lhe soar muito abstrata em termos de conceito, acompanhe as anota\u00e7\u00f5es e realmente sinta a mem\u00f3ria resgatando, atravessando e reinventando experi\u00eancias. Os sons sint\u00e9ticos, os ecos de vozes, o classicismo &#8211; todas s\u00e3o ferramentas moduladas pelo que se pretende recuperar, pelo que est\u00e1 \u00e0 beira da m\u00e3o e ainda assim escorre entre os dedos.<\/p>\n<p>Ainda bem que existe a m\u00fasica e os espa\u00e7os vazios que projetos como esse se instalam com todo o desconforto poss\u00edvel pra nos lembrar ainda que h\u00e1 muita coisa a ser feita.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>01. Os Momentos Plenos Da Minha Vida S\u00e3o Verdes<br \/>\n02. Mem\u00f3ria Um<br \/>\n03. C\u00e9lula_1<br \/>\n04. Dezembro<br \/>\n05. Guara Pari<br \/>\n06. Mem\u00f3ria Dois<br \/>\n07. Inverno<br \/>\n08. Nascer Do Sol, Janeiro<br \/>\n09. Rio Preto I<br \/>\n10. Rio Preto II<br \/>\n11. Rio Preto III<br \/>\n12. Rio Preto IV<br \/>\n13. Rio Preto V<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>NOTA: 7,5<br \/>\nLan\u00e7amento: 13 de julho de 2016<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 70 minutos e 30 segundos<br \/>\nSelo: Gera\u00e7\u00e3o Perdida<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Carvalho<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-shit-and-shine-new-confusion-e-persher-man-with-the-magic-soap\/\" title=\"RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;\">RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-skullcrusher-quiet-the-room\/\" title=\"RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM\">RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-feliz-fm-nome-morto-j-p-caron-a-juventude-do-rio-de-janeiro-respira-por-aparelhos-ruidosos\/\" title=\"RESENHA: FELIZ FM, NOME MORTO &#038; &#038; J.-P. 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