{"id":46936,"date":"2016-11-24T19:38:19","date_gmt":"2016-11-24T21:38:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=46936"},"modified":"2021-08-26T11:46:02","modified_gmt":"2021-08-26T14:46:02","slug":"spacemen-3-e-uma-tarde-de-musica-contemporanea-com-sitar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/spacemen-3-e-uma-tarde-de-musica-contemporanea-com-sitar\/","title":{"rendered":"SPACEMEN 3 E UMA TARDE DE M\u00daSICA CONTEMPOR\u00c2NEA COM SITAR"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"46996\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/spacemen-3-e-uma-tarde-de-musica-contemporanea-com-sitar\/spacemen3-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/spacemen3-3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"spacemen3-3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/spacemen3-3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/spacemen3-3.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-46996\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/spacemen3-3.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/spacemen3-3.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Foi vendido como &#8216;uma tarde de m\u00fasica contempor\u00e2nea com sitar&#8217;, o que talvez tenha sido um tanto enganador, visto que nenhum de n\u00f3s jamais tocou seriamente um sitar, nem t\u00ednhamos um conosco. Sonic Boom trouxe seu saz, um instrumento turco que que soa agradavelmente em <em>drones<\/em> e que pode ocasionalmente produzir som em escalas orientais. Infelizmente, aquele instrumento particular tinha sido roubado por algum filho da m\u00e3e. O saz turco era na verdade uma parte intr\u00ednseca do som Spacemen 3. Pegue um e toque alguma escala ascendente de uma nota, se voc\u00ea n\u00e3o acredita em mim. Talvez tivesse ouvido o saz em alguma visita \u00e0 Turquia, quando era adolescente, e isso convenceu Sonic &#8211; ent\u00e3o ainda Peter Kember &#8211; que n\u00e3o era necess\u00e1rio ser um virtuoso pra produzir um som convincente e espiritualmente reconfortante. Menos \u00e9 mais, \u00e0s vezes, ent\u00e3o se voc\u00ea consegue soar bem usando um dedo, ent\u00e3o, por que n\u00e3o? Voc\u00ea n\u00e3o ganha pontos com embelezamentos desnecess\u00e1rios e acordes de <em>jazz<\/em> aleat\u00f3rios que s\u00f3 impressionam seus amigos&#8221;.<\/p>\n<p>O par\u00e1grafo acima \u00e9 do livro &#8220;Playing The Bass With Three Left Hands&#8221;, de Will Carruthers, que tocou com o Spacemen 3 por quase tr\u00eas anos, substituindo Pete Bain em 1988 e partindo pra famosa turn\u00ea do S3 pela Europa em 1989. Carruthers saiu do grupo em 1990, mas logo seguiu Jason Pierce no rec\u00e9m-formado Spiritualized, onde ficou at\u00e9 1992. Desde 2006, Carruthers toca com outra banda ic\u00f4nica dos subterr\u00e2neos dos sons alucinantes, The Brian Jonestwon Massacre.<\/p>\n<p>O livro foi lan\u00e7ado em setembro de 2016, pela Faber &#038; Faber, sem edi\u00e7\u00e3o nacional. Nele, com um estilo meio errante, como se estivesse contando pretensiosamente suas hist\u00f3rias pra desconhecidos em mesa de bar, Carruthers descreve passagens curiosas principalmente do Spacemen 3 e do Spiritualized, como no trecho recortado acima, falando do &#8220;Dreamweapon: An Evening Of Contemporary Sitar Music&#8221;, disco ao vivo que o Spacemen 3 lan\u00e7ou em 1990, pela Fierce Recordings, e que tinha basicamente uma m\u00fasica s\u00f3, intitulada &#8220;An Evening Of Contemporary Sitar Music&#8221;, mas que era uma viagem da banda, em <em>looping<\/em>, formada por duas can\u00e7\u00f5es, &#8220;Honey&#8221; e &#8220;Come Down Softly To My Soul&#8221;.<\/p>\n<p>O disco foi a gota d&#8217;\u00e1gua pra desmanchar de vez a parceria entre Kember e Pierce, que vinha desde 1981, quando a dupla se conheceu na escola em Rugby, Inglaterra.<\/p>\n<p>Em 1982, o Spacemen 3, com Pete Bain no Baixo e Tim Morris na bateria, era anunciado da seguinte forma: &#8220;n\u00f3s somos os Spacemen! A qualquer um que esteja escutando, n\u00f3s assim nos batizamos&#8221;. Pra evitar confus\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=74LKg9m-fWU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com o grupo de R&#038;B dos anos 1950<\/a>, adicionaram o n\u00famero &#8220;3&#8221; no cartaz que dizia &#8220;seus sonhos s\u00e3o tr\u00eas vezes maiores \u00e0 noite?&#8221;. Embora, fossem quatro na banda, assim ficaram, Specemen 3. O show anunciado, o primeiro da hist\u00f3ria deles, seria numa festa particular, numa casa. Foi ensurdecedor, e a pol\u00edcia acabou colocando fim em tudo. Foi uma boa estreia.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 em 1985 que o Spacemen 3 engrena mesmo, com Nicholas &#8220;Natty&#8221;\u0094 Brooker na bateria e Bain no baixo. \u00c9 aqui que a banda come\u00e7a a gravar suas primeiras demos. Nessa \u00e9poca, Kember e Pierce estavam com a hero\u00edna pipocando a todo vapor. Conta a lenda, nunca confirmada, que eles venderam os direitos de suas m\u00fasicas pra um empres\u00e1rio em troca de grana pra comprar hero\u00edna. Alimentar essas lendas tornou-se um bom neg\u00f3cio, numa \u00e9poca em que a informa\u00e7\u00e3o passava pelo filtro dos fanzines e peri\u00f3dicos de m\u00fasica. Tanto que as demos gravadas em janeiro de 1985, em Northampton, acabaram sendo lan\u00e7adas em 1994, anos ap\u00f3s o fim do grupo, na cultuada colet\u00e2nea &#8220;Taking Drugs To Make Music To Take Drugs&#8221; (tomando drogas pra fazer m\u00fasicas pra se tomar drogas).<\/p>\n<p>Foram essas demos que ca\u00edram nas m\u00e3os de David Barker, da Glass Records, que logo ofereceu um contrato de dois discos.<\/p>\n<p>&#8220;Sound Of Confusion&#8221;, o disco de estreia, lan\u00e7ado em 1986, e gravado com menos de oitocentas libras, tinha tr\u00eas coveres e quatro produ\u00e7\u00f5es originais assinadas por Kember e Pierce.<\/p>\n<p>Sobre o disco, Pierce disse: &#8220;est\u00e1vamos todos tocando na sala, at\u00e9 que algo veio atrav\u00e9s do telhado, o som que est\u00e1vamos ouvindo era como de algum outro planeta ou algo assim. E isso \u00e9 o que Spacemen 3 era. De repente, nos vimos fazendo este tipo sobrenatural de som que nos elevava a outro patamar&#8221;. Mas o que o disco mostrava mesmo era a fagulha de uma divis\u00e3o de vis\u00e3o tem\u00e1tica: Pierce buscava essa &#8220;eleva\u00e7\u00e3o&#8221; via o gospel e apre\u00e7o pelos temas da religiosidade negra estadunidense (o refr\u00e3o de &#8220;Hey Man&#8221; virou claramente &#8220;Amen&#8221;), enquanto Kember buscava a eleva\u00e7\u00e3o pelas drogas, personificadas no som sujo dos Stooges ao 13th Floor Elevators.<\/p>\n<p>Depois, de lan\u00e7arem o brilhante segundo disco, &#8220;The Perfect Prescription&#8221;, em 1987, passaram a ser fortemente comparados ao Velvet Underground, inclusive por conta dos shows sempre imprevis\u00edveis. Enquanto o Jesus &#038; Mary Chain abrandava seu som pra caber em ondas radiof\u00f4nicas (como aconteceu com o &#8220;Darklands&#8221;, do mesmo ano), o Spacemen 3 tamb\u00e9m abrandava a sujeira garageira, mas com outro prop\u00f3sito &#8211; atingir outra dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>O reconhecimento da cr\u00edtica por &#8220;The Perfect Prescription&#8221; levou o Spacemen 3 a uma turn\u00ea pela Europa. Mas logo a coisa degringolou, por conta das drogas e do temperamento divergente de Kember e Pierce. Bain e Stewart &#8220;Rosco&#8221;\u0094 Roswell, o baterista que substituiu Brooker, sa\u00edram do grupo. O contrato com a Glass Records n\u00e3o foi renovado (ainda lan\u00e7aram o &#8220;Performance&#8221;, disco ao vivo, de 1988, gravado no Melkweg, Amsterd\u00e3).<\/p>\n<p>Conseguiram assinar com a Fire Records e lan\u00e7aram o significativo &#8220;Playing With Fire&#8221;, em 1988, com a tremenda &#8220;Revolution&#8221;, uma das mais barulhentas guitarras j\u00e1 gravadas.<\/p>\n<p>Foi nessa \u00e9poca, logo ap\u00f3s a grava\u00e7\u00e3o do disco, que Will Carruthers entrou na banda.<\/p>\n<p>Em 19 de agosto de 1988, aconteceu o show no Waterman&#8217;s Art Centre, em Londres, o tal da &#8220;tarde de m\u00fasica contempor\u00e2nea com sitar&#8221;. <\/p>\n<p>Carruthers, em seu livro, descreve a curiosa expectativa de quem compareceu ao evento: &#8220;deve ter sido bem poss\u00edvel pra aquela pessoa imaginar que estava ouvindo algum tipo fabuloso de m\u00fasica de sitar &#8216;contempor\u00e2nea&#8217;, especialmente se ela nunca tinha visto ou ouvido um sitar antes&#8221;. E completa: &#8220;ao inv\u00e9s disso, o que as pessoas estavam prestes a conseguir n\u00e3o se aproximava em nada daquilo que qualquer estudioso da m\u00fasica consideraria ser um sitar, seja hoje, ontem ou em algum momento no futuro. T\u00ednhamos <em>drones<\/em>, mas n\u00e3o t\u00ednhamos sitar algum. Poderia ter sido vendido, com a mesma exatid\u00e3o, como uma noite de m\u00fasica contempor\u00e2nea de sanfona ou de gaita de foles, mas talvez isso pudesse ter afastado algumas almas t\u00edmidas&#8221;.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o no Waterman&#8217;s Art Centre aconteceria antes da exibi\u00e7\u00e3o de &#8220;Asas Do Desejo&#8221;, o hoje j\u00e1 considerado cl\u00e1ssico filme de Win Wenders. Havia uma fila enorme de pessoas pra ver o filme. E quase ningu\u00e9m pra ver uma apresenta\u00e7\u00e3o de &#8220;m\u00fasica contempor\u00e2nea de sitar&#8221; de uma banda que aquele p\u00fablico certamente n\u00e3o fazia ideia de quem fosse.<\/p>\n<p>&#8220;Agora, voc\u00ea veja: n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1, t\u00ednhamos umas guitarras legais e \u00edamos tocar e ser pagos por isso, o que era basicamente o que a gente fazia naquele tempo&#8221;, diz Carruthers. &#8220;Se o pre\u00e7o era tocar um \u00fanica nota por um longo tempo, ao inv\u00e9s de acidentalmente entreter a audi\u00eancia que esperava pacientemente o come\u00e7o de &#8216;Asas Do Desejo&#8217;, al\u00e9m das quinze pessoas que foram pra nos ver, ent\u00e3o que seja. O Spacemen 3 certamente n\u00e3o era o que voc\u00ea esperava encontrar em centros de arte repeit\u00e1veis e com credibilidade, no final dos anos 80. Bandas realmente n\u00e3o tocavam em galerias, ou pelo menos n\u00e3o a gente. N\u00f3s geralmente toc\u00e1vamos em lugares caindo aos peda\u00e7os, fedendo a cigarro e suor, onde os amantes de arte obviamente n\u00e3o estaria. Toc\u00e1vamos pra b\u00eabados, basicamente. E, com frequ\u00eancia, os \u00fanicos b\u00eabados em galerias e centros de arte s\u00e3o justamente os artistas&#8221;, continua.<\/p>\n<p>&#8220;E s\u00f3 porque era &#8216;arte&#8217;, a gente nem ensaiou. Peter e Jason tocariam uma coisa e o resto de n\u00f3s tocaria uma \u00fanica nota. N\u00e3o havia m\u00fasicas pra gente aprender, n\u00f3s n\u00e3o precis\u00e1vamos de uma bateria ou de passagem de som. S\u00f3 t\u00ednhamos uns poucos amplificadores conosco. F\u00e1cil. Ficar doid\u00e3o, tocar alguma m\u00fasica, acelerar e, ent\u00e3o, fazer aquela hora e meia como se dirig\u00edssemos pra casa&#8221;, escreve o baixista sobre a noite que se tornaria cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;Basta tocar uma nota&#8217;, foi o conselho que Sonic Boom (Peter Kember) nos deu. &#8216;Fa\u00e7a tudo simples. Uma nota. Sem frescuras&#8217;. Por &#8216;frescura&#8217; ele queria dizer &#8216;duas ou mais notas&#8217;. Qualquer coisa al\u00e9m disso n\u00e3o tinha prop\u00f3sito. Pod\u00edamos tocar no m\u00e1ximo uma nota. Qualquer um pode fazer isso. Um macaco pode fazer isso. Mas poderia um macaco chapado fazer isso com sentimento e sem perder seu senso de identidade?&#8221;.<\/p>\n<p>Tudo parecia ao mesmo tempo enfadonho e divertido, se \u00e9 que d\u00e1 pra encontrar um equil\u00edbrio pra isso. Os organizadores chamaram a banda e l\u00e1 foram eles &#8211; Will Carruthers (baixo), Jason Pierce e Steve Evans (guitarras), Peter Kember\/Sonic Boom (guitarra) e, como creditado no disco, Pat Fish (baseado).<\/p>\n<p>&#8220;Atr\u00e1s de n\u00f3s havia uma fila de pessoas esperando o cinema abrir. Ajustamos as guitarras e ligamos nossos amplificadores. Sonic tocou o primeiro acorde. A guitarra pulsou normalmente, por conta pr\u00f3pria, ele girou o seletor no tremolo. &#8216;W w w w w w w w w w w w w w w w w w w&#8217;, soou, transformando o tempo em incerteza at\u00f4mica e m\u00edstica probabilidade. Fiz a nota mais discreta que poderia. Nada muito baixo e nada muito alto. Comecei como eu queria e fui&#8230; e fui&#8230; e fui. Soou bem. Eu estava t\u00e3o no tempo da m\u00fasica que eu mal podia ouvir a mim mesmo&#8230;&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p>Carruthers revela um divertido exerc\u00edcio que ele fez pra manter-se ativo, no ritmo, no tempo daquela experi\u00eancia insana: &#8220;vamos pegar uma palavra. Vamos escolher a palavra &#8216;morango&#8217;. Respire fundo e diga essa palavra ritmicamente at\u00e9 voc\u00ea ficar sem f\u00f4lego. Agora fa\u00e7a de novo&#8230; e de novo&#8230; e de novo, at\u00e9 que pare de fazer qualquer sentido verbal ou aud\u00edvel pra voc\u00ea. Agora, tente dizer a mesma palavra por vinte minutos&#8230; E por a\u00ed vai. \u00c9 dif\u00edcil, mas, porra, soa bem e faz sentido. O tom \u00e9 prazeroso&#8230; E agora a banda est\u00e1 tocando toda junta e quase alto o bastante pra abafar todas aquelas pessoas que n\u00e3o paravam de falar ali num canto do bar sobre o qu\u00e3o ruins n\u00f3s \u00e9ramos&#8221;.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo d\u00e9cimo sexto minuto e meio, uma voz \u00e9 ouvida: &#8220;Ladies and gentlemen, would you please take your seats for this evening&#8217;s showing of &#8216;Wings Of Desire'&#8221;. O filme ia come\u00e7ar, mas a banda n\u00e3o parou. &#8220;Era como a voz de deus&#8221;, lembra Carruthers.<\/p>\n<p>Ele descreve com precis\u00e3o o que se ouve: &#8220;as formas espectrais, os arqu\u00e9tipos mel\u00f3dicos flutuam e desaparecem, enquanto a besta m\u00edtica ocasional surge do oceano de <em>drones<\/em>, subindo e submergindo com apenas uma ondula\u00e7\u00e3o. As cores imagin\u00e1rias pulsam lisergicamente, e o lapso do tempo \u00e9 esquecido dentro dos limites do som ilimitado. Como poderia t\u00e3o pouco significar tanto? E o que aconteceu com todas aquelas perguntas est\u00fapidas e sem sentido que pareciam t\u00e3o importantes antes? Ap\u00f3s quarenta e quatro minutos e dezessete segundos deste tipo de coisa, a nossa m\u00e1quina de movimento perp\u00e9tuo come\u00e7a a sua descida de volta pro que entendemos como &#8216;a realidade&#8217;. A m\u00fasica termina e um punhado de aplausos sa\u00fada o al\u00edvio e a decep\u00e7\u00e3o do relativo sil\u00eancio&#8221;.<\/p>\n<p>A grande surpresa veio quando ele foi desligar seu amplificador: &#8220;vi que os outros m\u00fasicos haviam terminado e, sem seguida, me abaixei pra desligar me amplificador. Fiquei bastante surpreso ao descobrir que era imposs\u00edvel deslig\u00e1-lo. Era imposs\u00edvel deslig\u00e1-lo porque eu na verdade sequer o havia ligado. Foi bastante confuso e embara\u00e7oso, at\u00e9 que eu percebi que ningu\u00e9m, nem mesmo eu, que estava sentado no meu amplificador, tinha realmente notado que n\u00e3o estava ligado. Um macaco poderia ter feito o que eu tinha acabado de fazer. Um macaco inexistente poderia ter feito isso&#8221;.<\/p>\n<p>Carruthers tocou naquela apresenta\u00e7\u00e3o, mas ele n\u00e3o \u00e9 ouvido. Nem por ele mesmo. Se n\u00e3o estivesse ali, tanto fazia. &#8220;Uma grava\u00e7\u00e3o desse show continua a vender, quase trinta anos depois. At\u00e9 hoje. Eu n\u00e3o tenho certeza se era arte ou n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wonydU9NGkE\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Pra maioria das pessoas, f\u00e3s do Spacemen 3 principalmente, era. Por conta de hist\u00f3rias como essas, de shows como esse, suas apresenta\u00e7\u00f5es se tornaram t\u00e3o famosas, embora n\u00e3o necessariamente concorridas, que <em>bootlegs<\/em> pipocavam aos montes. Mas os cassetes que eram vendidos pelos clubes ingleses com essas apresenta\u00e7\u00f5es n\u00e3o acabavam no bolso de Kember ou Pierce.<\/p>\n<p>Por isso, em 1990, Kember ofereceu a Steve Gregory, co-fundador do selo Fierce Recordings, do Pa\u00eds de Gales, a grava\u00e7\u00e3o do show do Waterman&#8217;s Art Centre. Ele n\u00e3o queria deixar de ganhar seu quinh\u00e3o com a venda de seus pr\u00f3prios shows gravados. Mas n\u00e3o avisou a Pierce sobre a a\u00e7\u00e3o. Tomou a decis\u00e3o sozinho.<\/p>\n<p>A Fierce Recordings era um selo at\u00edpico, especializado em <em>bootlegs<\/em>, criado por Gregory e Steve &#8220;Haggis&#8221; Harris em 1985. O primeiro disco que eles puseram na pra\u00e7a foi uma grava\u00e7\u00e3o de &#8220;The Love And Terror Cult&#8221;, de Charles Manson &#8211; a mesma capa, as mesmas faixas, s\u00f3 com outro t\u00edtulo.<\/p>\n<p>A Fierce n\u00e3o pensou duas vezes em lan\u00e7ar &#8220;Dreamweapon: An Evening Of Contemporary Sitar Music&#8221;, em 1990, como <em>bootleg<\/em> oficial, um disco de carreira do Spacemen 3. Era, convenhamos, um \u00f3timo neg\u00f3cio: uma exclusividade entregue por um membro da pr\u00f3pria banda, sem ter que assinar contrato, sem burocracia&#8230; S\u00f3 lan\u00e7ar e passar no caixa pra retirar a grana.<\/p>\n<p>(<em>Vale ler tamb\u00e9m o livro de Erik Morse, &#8220;Spacemen 3 &#038; The Birth Of Spiritualized&#8221; &#8211; <a href=\"http:\/\/www.livrariacultura.com.br\/p\/spacemen-3-and-the-birth-of-spiritualized-30512775\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">de 2005, sem edi\u00e7\u00e3o brasileira<\/a> &#8211; que conta mais detalhes sobre &#8220;Dreamweapon: An Evening Of Contemporary Sitar Music&#8221; especificamente sobre a express\u00e3o &#8220;dreamweapon&#8221;<\/em>)<\/p>\n<p>P\u00ecerce e Kember j\u00e1 vinham se desentendendo e &#8220;Playing With Fire&#8221; acabou dando pistas. A divis\u00e3o entre eles fica clara nos cr\u00e9ditos de composi\u00e7\u00e3o, que pela primeira vez mostram o duo reconhecendo suas pr\u00f3prias m\u00fasicas e n\u00e3o mais em dupla. O disco deixa clara a diferen\u00e7a entre os dois: Pierce comp\u00f5e can\u00e7\u00f5es focadas mais em <em>spiritual<\/em> e <em>gospel<\/em>, enquanto Kember usa repeti\u00e7\u00f5es, <em>loopings<\/em> e <em>drones<\/em>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a turn\u00ea pela Europa, a Fire Records tinha mais um disco pra lan\u00e7ar, e mais uma vez a divis\u00e3o entre ambos ficou evidente. Eles trabalharam em separado, sem se encontrar, pra fazer &#8220;Recurring&#8221;, o derradeiro disco, lan\u00e7ado em 1990 &#8211; e &#8220;Recurring&#8221; nem \u00e9 exatamente um disco do Spacemen 3, j\u00e1 que um lado \u00e9 do Sonic Boom e outro \u00e9 do Jason Pierce-quase-Spiritualized. Um anos antes, pela Silvertone Records, Sonic Boom lan\u00e7ou seu primeiro <em>single<\/em>, &#8220;Angel&#8221;, e estava prestes a colocar no mercado seu \u00f3timo disco de estreia, &#8220;Spectrum&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-sonic-boom-spectrum-1990\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conhe\u00e7a aqui<\/a>), que ironicamente tinha a participa\u00e7\u00e3o de Pierce, num dos \u00faltimos trabalhos deles juntos.<\/p>\n<p>Antes de &#8220;Recurring&#8221; ficar pronto, Pierce recrutou Jon Mattock (bateria), Mark Refoy (guitarra), ambos da \u00faltima fase do Spacemen 3, e Carruthers, pra tocar com o Spiritualized que ele acabara de montar. Segundo Pierce, ele chamou os tr\u00eas m\u00fasicos porque era basicamente os \u00fanicos que ele conhecia. O <em>single<\/em> &#8220;Anyway That You Want Me&#8221;, um <em>cover<\/em> dos Troggs, saiu em junho de 1990. Kember conta que ficou surpreso com a &#8220;rasteira&#8221; de Pierce.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YleJPoKBqrw\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mas Pierce ainda estava com &#8220;Dreamweapon: An Evening Of Contemporary Sitar Music&#8221; engasgado na garganta. Tanto ele quanto Kember conheciam Gregory, da Fierce Recordings, e por conta disso e pra alfinetar Kember, Pierce soltou oficialmente pra Gregory a grava\u00e7\u00e3o de uma apresenta\u00e7\u00e3o no The Mean Fiddler, de Nova Iorque, em 1987 (muita gente acredita que a grava\u00e7\u00e3o foi feita na Universidade de Londres, em outubro de 1987). O resultado \u00e9 &#8220;Revolution Or Heroin&#8221;, um explosivo disco ao vivo, com o Spacemen 3 em sua melhor forma, aumentando o volume ao m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>&#8220;Revolution Or Heroin&#8221; \u00e9 conhecido por muitos f\u00e3s do Spacemen 3 como &#8220;o disco da vingan\u00e7a de Pierce&#8221;. Foi tamb\u00e9m o derradeiro disco lan\u00e7ado pela Fierce Recordings, que colocou o material no mercado em 1995, quando o Spiritualized j\u00e1 havia inclusive lan\u00e7ado dois \u00e1lbuns. \u00c9 tido por alguns cr\u00edticos como &#8220;bem melhor e mais poderoso&#8221; do que o ao vivo oficial &#8220;Performance&#8221;, de 1988.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-_qA0nelfNc\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A &#8220;tarde de m\u00fasica contempor\u00e2nea com sitar&#8221;, sem a sitar, foi o que pode ser detectado como o come\u00e7o do fim do Spacemen 3. Foi um dia e tanto, gravado pra posteridade, o dia em que a arte foi marcada com uma nota s\u00f3 &#8211; mas que desencadeou o fim de uma das bandas mais legais da hist\u00f3ria.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-adaptacao-de-flores-silvestres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES\">\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/purling-hiss-e-kurt-vile-fazem-cover-do-spacemen-3-hey-man\/\" title=\"PURLING HISS E KURT VILE FAZEM COVER DO SPACEMEN 3 &#8211; HEY MAN\">PURLING HISS E KURT VILE FAZEM COVER DO SPACEMEN 3 &#8211; HEY MAN<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/10-cancoes-sobre-suicidio\/\" title=\"10 CAN\u00c7\u00d5ES SOBRE SUIC\u00cdDIO\">10 CAN\u00c7\u00d5ES SOBRE SUIC\u00cdDIO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/dez-musicas-hipnoticas\/\" title=\"DEZ M\u00daSICAS HIPN\u00d3TICAS\">DEZ M\u00daSICAS HIPN\u00d3TICAS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/noise-waves-13-spacemen-3-playing-with-fire\/\" title=\"NOISE WAVES #13: SPACEMEN 3 &#8211; PLAYING WITH FIRE\">NOISE WAVES #13: SPACEMEN 3 &#8211; PLAYING WITH FIRE<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Foi vendido como &#8216;uma tarde de m\u00fasica contempor\u00e2nea com sitar&#8217;, o que talvez tenha sido um tanto enganador, visto que nenhum de n\u00f3s jamais tocou [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":46996,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363],"tags":[323],"class_list":["post-46936","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-spacemen-3"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/spacemen3-3.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-cd2","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46936","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46936"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46936\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57626,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46936\/revisions\/57626"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46996"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}