{"id":47755,"date":"2017-02-13T19:55:48","date_gmt":"2017-02-13T21:55:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=47755"},"modified":"2017-03-13T22:51:16","modified_gmt":"2017-03-14T01:51:16","slug":"o-produtor-que-esta-reinventando-a-maquina-de-fazer-musica-pop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-produtor-que-esta-reinventando-a-maquina-de-fazer-musica-pop\/","title":{"rendered":"O PRODUTOR QUE EST\u00c1 REINVENTANDO A M\u00c1QUINA DE FAZER M\u00daSICA POP"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"47782\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-produtor-que-esta-reinventando-a-maquina-de-fazer-musica-pop\/frankdukes1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frankdukes1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"frankdukes1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frankdukes1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frankdukes1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-47782\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frankdukes1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/frankdukes1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Andy Cush escreve pra Spin numa velocidade e numa quantidade impressionantes. Das \u00faltimas e mais f\u00fateis not\u00edcias da m\u00fasica &#8211; estranha ou pop &#8211; at\u00e9 resenhas e artigos de verdadeiro e simples jornalismo, Cush tenta encaixar seu dom pra escrita nos tempos l\u00edquidos modernos. Texto enormes, como esse que reproduzo agora, numa tradu\u00e7\u00e3o livre n\u00e3o oficialmente autorizada, s\u00e3o primorosos, embora pouca gente leia (<a href=\"http:\/\/www.spin.com\/featured\/how-hitmaking-producer-frank-dukes-is-reinventing-the-pop-music-machine\/\" target=\"_blank\">o original t\u00e1 aqui<\/a>).<\/p>\n<p>O assunto \u00e9 atraente. Assim como aconteceu com o perfil que John Seabrook fez do sueco Max Martin, &#8220;a f\u00e1brica sueca de sucessos pop&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-fabrica-sueca-de-sucessos-pop\/\" target=\"_blank\">leia aqui<\/a>), Cush aponta mais um personagem nessa incr\u00edvel engrenagem de criar p\u00e9rolas populares em venda e divers\u00e3o. Frank Dukes, um canadense de 33 anos (\u00e9 de 1983), tem sua pr\u00f3pria t\u00e9cnica pra criar sucessos tanto quanto Marin tem &#8211; embora ainda sem a mesma fama.<\/p>\n<p>Enquanto o sueco \u00e9 um compositor de primeira linha, o canadense aprimorou a maneira de usar os <em>samples<\/em> pra que eles se tornem mais baratos e, consequentemente, mais eficientes pra essa ind\u00fastria. Cush acompanhou Dukes em casa, no seu est\u00fadio caseiro e em alguns dias de trabalho pra tra\u00e7ar um perfil distante &#8211; a ideia \u00e9 n\u00e3o desvendar o mito, apenas apresent\u00e1-lo, fortalec\u00ea-lo e cultu\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Esse longo texto mostra um profissional dedicado e objetivo no que faz. O perfil revela bem pouco da personalidade de Dukes, mas exp\u00f5e a &#8220;esperteza&#8221; de quem percebeu a mudan\u00e7a dos tempos, da ind\u00fastria e a velocidade que a produ\u00e7\u00e3o carece nos dias atuais.<\/p>\n<p>A &#8220;pop music machine&#8221; \u00e9 um organismo vivo, algo como as m\u00e1quinas de Matrix, indestrut\u00edvel e sempre se aprimorando, usando c\u00e9rebros criativos \u00e1vidos como de Martin, como o de Dukes e de outros laboriosos que est\u00e3o por a\u00ed.<\/p>\n<p>Dukes n\u00e3o \u00e9 o primeiro a &#8220;reinventar&#8221; a &#8220;pop music machine&#8221;, nem ser\u00e1 o \u00faltimo. O desafio pra esses produtores e compositores, assim como os que vieram antes e vir\u00e3o depois, \u00e9 se reinventar e tentar acompanhar os passos acelerados dos nossos tempos.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>&#8220;How Hitmaking Producer Frank Dukes Is Reinventing the Pop Music Machine&#8221;<br \/>\n<em>Texto por: Andy Cush<\/em><\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 fria de novembro de 2016, um grupo de <em>nerds<\/em> colecionadores de discos da mais alta estirpe estava ouvindo m\u00fasica e falando besteira no por\u00e3o da casa de Frank Dukes, nos sub\u00farbios de Toronto, Canad\u00e1. Se voc\u00ea for montar uma equipe dos sonhos cujas habilidades incluam os primeiros lan\u00e7amentos de um pequeno selo de <em>jazz<\/em> brasileiro e a capacidade de adivinhar qual disco cont\u00e9m determinada batida s\u00f3 olhando a capa, seria dif\u00edcil n\u00e3o pensar em grupo melhor do que o que esses cinco formam. Ali estava Jacob Dutton, mais conhecido como Jack One, um produtor que se autodenomina &#8220;album cut assassin&#8221; e trabalhou em discos do Drake, MF DOOM e De La Soul. Tamb\u00e9m estava Gene Brown, que vende discos de vinil obscuros pra <em>beatmakers<\/em> como o DJ Premier e Kanye West usarem como <em>samples<\/em> em suas obras. L\u00e1 estava Rana Chaterjee, apresentador de um <em>podcast<\/em> pra colecionadores e ex-apresentador de um apreciado e j\u00e1 cancelado programa de <em>hip hop<\/em> numa r\u00e1dio de Toronto. E havia um sujeito desajeitado, com \u00f3culos de vov\u00f4, que foi apresentado apenas como Chan Dogg &#8211; n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m da ind\u00fastria, mas um &#8220;usu\u00e1rio pesado&#8221; no c\u00edrculo de colecionadores, como foi dito mais tarde.<\/p>\n<p>O anfitri\u00e3o do encontro foi recentemente al\u00e7ado \u00e0 estrela do grupo: Frank Dukes, produtor vencedor do Grammy, que aos 33 anos de idade \u00e9 ligeiramente mais jovem que o resto da turma que estava se divertindo na sua casa. Com sucessos pra Drake (&#8220;Fake Love&#8221;, &#8220;Right Hand&#8221; e &#8220;No Tellin&#8221;), Kanye West (&#8220;Real Friends&#8221;), Travis Scott e Young Thug (&#8220;Pick Up The Phone&#8221;), Rihanna (&#8220;Needed Me&#8221;, &#8220;Sex With Me&#8221;), Kendrick Lamar (&#8220;untitled 07&#8221;) e outros, Dukes tem refinado um estilo de produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 tanto um tributo quanto uma ruptura dos m\u00e9todos baseados em <em>samples<\/em> dos seus amigos e mentores.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Q7k5slRG0Cw\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-KpVE1fBnQs\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Dukes come\u00e7ou sua carreira como produtor de <em>rap<\/em> \u00e0 moda antiga: procurando por discos antigos, isolando os melhores <em>bits<\/em>, e colando com as melhores batidas. Esse modelo tem produzindo grandes discos, mas exige o pagamento de taxas a quem possui os direitos sobre as grava\u00e7\u00f5es e composi\u00e7\u00f5es originais.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de carreira, Dukes produziu algumas faixas assim, pra artistas como 50 Cent e Lloyd Banks. Depois de completar o \u00e1rduo processo de apuramento de <em>samples<\/em> e ver seu trabalho conseguir modestos retornos, ele teve uma ideia. Ele gravaria curtos <em>loops<\/em> de suas pr\u00f3prias m\u00fasicas e usaria no lugar de <em>samples<\/em> de m\u00fasicas dos outros, pra evitar as taxas e atrasos. Ele tamb\u00e9m licenciaria grava\u00e7\u00f5es pra outros produtores, que pagariam a Frank Dukes pra us\u00e1-los em seus pr\u00f3prios trabalhos. Surgiu assim um programa, chamado de <a href=\"http:\/\/www.kingswaymusiclibrary.com\/\" target=\"_blank\">Kingsway Music Library<\/a>, que tem batidas e linhas de baixo.<\/p>\n<p>Dukes recebe cr\u00e9ditos de produ\u00e7\u00e3o em m\u00fasicas pras quais ele mesmo cria m\u00fasica original, mas n\u00e3o em faixas que simplesmente usam <em>samples<\/em> da Kingsway. Esta distin\u00e7\u00e3o pode tornar seu cat\u00e1logo dif\u00edcil de rastrear. Uma pe\u00e7a \u00fanica e jazz\u00edstica que ele criou pra Kingsway, intitulada &#8220;Vibez&#8221;, foi usada por v\u00e1rios produtores, de maneira indiscriminada, em uma lista de can\u00e7\u00f5es, como se v\u00ea abaixo (vale ouvir ao menos o in\u00edcio de cada uma das m\u00fasicas):<\/p>\n<p>A &#8220;Vibez&#8221; original:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9_Rm2TEf-9k\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;0 To 100 \/ The Catch Up&#8221;, do Drake:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/I2bBZvSPpOo\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Top Ten&#8221;, de Logic (com Big K.R.I.T.):<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B2PWmTwtYIM\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;On a Wave&#8221;, de Tinashe (com Drake):<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1-mVTMXzRnc\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Broke Her&#8221;, de Yuna:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XE9N8t7y4Dw\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Game Tapes&#8221;, de Curren$y:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tRinkUCgrdM\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Eu fui sampleado no disco de Selena Gomez, alguma can\u00e7\u00e3o qualquer em seu \u00faltimo \u00e1lbum,&#8221; disse. &#8220;Acabei de ser sampleado no \u00e1lbum do (<em>ator comediante<\/em>) Kevin Hart. \u00c9 muito estranho, coisas aleat\u00f3rias por todo lado&#8221;.<\/p>\n<p>Dukes e seus amigos se reuniram no por\u00e3o de sua casa, depois de uma feira que Chaterjee organizou. Gene Brown viajou da Carolina do Norte pra vender seus produtos, e ele esperava se livrar de mais alguns discos antes do longo caminho de volta pra casa. Dukes, cort\u00eas e af\u00e1vel em uma camisa de <em>rugby<\/em> da Supreme e uma boina do ex\u00e9rcito, se recusou a comprar a maioria do que estava em oferta, mas ele s\u00f3 tinha elogios pros discos de Brown. Um deles, cuja capa glamorosa bem anos 70 s\u00f3 exibia o t\u00edtulo &#8220;Waves&#8221;, tinha &#8220;a quantidade certa de breguice&#8221;, disse, num tom de voz canadense que soa quase texano pros ouvidos americanos. &#8220;Essa m\u00fasica me faz sentir como se eu devesse estar vestindo cal\u00e7as brancas&#8221;, acrescentou, evocando a opul\u00eancia do <em><a href=\"http:\/\/www.nme.com\/blogs\/nme-blogs\/10-super-smooth-yacht-rock-tracks-30054\" target=\"_blank\">yacht rock<\/a><\/em> e do R&#038;B dos anos 90.<\/p>\n<p>Da\u00ed, Brown colocou pra rodar &#8220;Miniatures&#8221;, uma colet\u00e2nea lan\u00e7ada em 1980, que reunia cinquenta e um minutos de <em>sketches<\/em> por <em>art rockers<\/em> como Robert Wyatt e XTC e foi organizada por Morgan Fisher, teclista do Mott The Hoople (<a href=\"https:\/\/www.amazon.co.uk\/Miniatures-One-Two-Various-Artists\/dp\/B0018RWDJ0\" target=\"_blank\">a colet\u00e2nea \u00e9 essa<\/a>). A sala quase explodiu em aplausos ao ouvir uma amadora vers\u00e3o de &#8220;Cum On Feel the Noize&#8221;, gravada pelo comediante brit\u00e2nico Neil Innes, com seu filho pr\u00e9-puber cantando e se esfor\u00e7ando pacas pra manter o tempo na bateria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_s22naX31TQ\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 loucura!&#8221;, algu\u00e9m gritou &#8211; talvez Chan Dog. J Dilla uma vez usou a vers\u00e3o &#8220;Noize&#8221; de &#8220;Miniatures&#8221; em uma de suas can\u00e7\u00f5es, ao completar um feito heroico de escavar em caixas e caixas de discos, e encontrar um <em>sample<\/em> digno numa pilha t\u00e3o bizarra de vinis. Dukes comprou o \u00e1lbum por quarenta d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Em seguida, Brown colocou uma m\u00fasica que <em>soava israelense<\/em> e que clareou a mem\u00f3ria de Jake One. Cerca de uma d\u00e9cada atr\u00e1s, ele tinha sampleado uma can\u00e7\u00e3o israelense pro Boom Bap Project, um relativamente pouco conhecido grupo de <em>rap<\/em> de Seattle. Os titulares dos direitos foram em busca de uma grana e Jake disse-lhes que ficassem com a porcentagem que quisessem &#8211; o \u00e1lbum do Boom Bap Project n\u00e3o tinha vendido o suficiente pra que valesse a pena brigar financeiramente. Ainda assim, ele jurou que sampleia m\u00fasica israelense desde ent\u00e3o. Ele achou que fosse poss\u00edvel samplear de uma obscura fonte internacional sem pagar, e ele estava errado. Aprendeu.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito, samplear tem sido o componente central do <em>hip hop<\/em>. Os primeiros produtores embarcaram no corte-e-cola por conta da necessidade. Era mais f\u00e1cil e mais barato comprar um MPC e alguns discos baratos do que formar um conjunto completo de instrumentos e equipamentos de grava\u00e7\u00e3o. Esta solu\u00e7\u00e3o deu ao <em>hip hop<\/em> a capacidade de transcender o tempo e o estilo, numa esp\u00e9cie de magia tecnol\u00f3gica p\u00f3s-moderna. Algum menino em 1989, com um <em>walkman<\/em> em seu bolso traseiro ouviu &#8220;Eye Know&#8221;, do De La Soul, pela primeira vez e perdeu-se em um devaneio digno de Proust: era a can\u00e7\u00e3o de <em>rap<\/em> mais alegre com um cara branco cantando o refr\u00e3o; veio do mundo adulto das casas noturnas e filmes estrangeiros, com seus sopros e acordes de guitarra tirados de Steely Dan (<em>especialmente o refr\u00e3o &#8211; &#8220;I know I love you better&#8221;<\/em>); um \u00e1lbum velho e empoeirado que ele ouvira uma ou duas vezes, atrav\u00e9s das paredes do quarto do seu irm\u00e3o mais velho e <em>nerd<\/em>, transformado em algo novo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ufZq_IQnkAI\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Discos cl\u00e1ssicos, como &#8220;3 Feet High And Rising&#8221;, do De La Soul (1989), e &#8220;Paul&#8217;s Boutique&#8221;, do Bestie Boys (1989), foram criados quase que inteirinhos a partir de <em>samples<\/em>, oferecendo aos ouvintes uma pan\u00f3plia de sons e associa\u00e7\u00f5es diferentes de qualquer coisa gravada antes deles (al\u00e9m de Steely Dan, o De La Soul sampleou Otis Redding, Sly &#038; The Family Stone, Lee Dorsey e The Mad Lads apenas em &#8220;Eye Know&#8221;). Naquela \u00e9poca, disputas sobre direitos autorais e pagamento aos artistas sampleados eram resolvidas fora do tribunal, se \u00e9 que se resolvia alguma coisa, e a aten\u00e7\u00e3o limitada prestada ao ato de samplear significou que produtores e DJs podiam criar colagens v\u00edvidas de som sem se preocupar com os custos. &#8220;Vinte e cinco anos atr\u00e1s, nos disseram que o <em>hip hop<\/em> e o <em>rap<\/em> eram uma fase, que essa m\u00fasica n\u00e3o iria durar&#8221;, disse Deborah Mannis-Gardner, perita em sampleagem, que fundou <a href=\"http:\/\/www.dmgclearances.com\/index.php\" target=\"_blank\">sua pr\u00f3pria empresa em 1996<\/a>, e que inclui clientes como J. Cole e Kendrick Lamar. &#8220;O qu\u00e3o tosco foi tal racioc\u00ednio? Um <em>sample<\/em> de James Brown n\u00f3s pod\u00edamos conseguir a partir de quinhentos d\u00f3lares. Naquele tempo, a mentalidade era completamente diferente&#8221;.<\/p>\n<p>As coisas mudaram rapidamente. Em um acordo extrajudicial em 1991, De La Soul pagou aos membros de The Turtles US$ 1,7 milh\u00e3o pelo trecho da m\u00fasica &#8220;You Showed Me&#8221;, no interl\u00fadio de &#8220;3 Feet High And Rising&#8221;, &#8220;Transmission From Mars&#8221; (<em>\u00e9 a oitava faixa<\/em>). No mesmo ano, Biz Markie foi considerado culpado de viola\u00e7\u00e3o de direitos autorais e condenado a desembolsar US$ 250 mil em danos por usar sem autoriza\u00e7\u00e3o um trecho de &#8220;Alone Again (Naturally)&#8221;, de Gilbert O&#8217;Sullivan &#8211; nessa \u00e9poca, os artistas nem disfar\u00e7avam (n\u00e3o tinham motivos), tanto que a can\u00e7\u00e3o de Biz Markie se intitulava &#8220;Alone Again&#8221;, do seu terceiro disco, &#8220;I Need a Haircut&#8221;, de 1991; foi exatamente esse julgamento numa corte de Nova Iorque que, ao dar ganho de causa a O&#8217;Sullivan, mudou a hist\u00f3ria do <em>hip hop<\/em> dali em diante, j\u00e1 que o tribunal julgou que samplear sem autoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 infligir as leis de direitos autorais. Aqui, ainda vale uma pequena e r\u00e1pida nota sobre a efici\u00eancia da Justi\u00e7a estadunidense. O caso em quest\u00e3o foi julgado ainda em 1991, ano de lan\u00e7amento do disco de Markie. Se a Justi\u00e7a n\u00e3o age rapidamente, n\u00e3o h\u00e1 jurisprud\u00eancia pra orientar os casos correlatos e a ind\u00fastria da m\u00fasica poderia viver num limbo jur\u00eddico-financeiro at\u00e9 a solu\u00e7\u00e3o derradeira do problema. O julgamento norteou artistas, produtores e selos sobre como agir nas cria\u00e7\u00f5es futuras; ou seja, sampleou, pagou.<\/p>\n<p>A era do Oeste Selvagem da sampleagem tinha terminado. Ainda assim, pros artistas que estavam dispostos a passar pelos canais legais, a sampleagem permaneceu acess\u00edvel por um tempo. &#8220;Eu ainda fiz m\u00fasica da mesma maneira depois disso. Passei por todo o protocolo que eu sempre fa\u00e7o pra tratar meus <em>samples<\/em>, \u00e9 s\u00f3 que a minha gravadora largou m\u00e3o&#8221;, Markie disse \u00e0 Spin por telefone. &#8220;Depende de quem tem a publica\u00e7\u00e3o, e de quem tem os direitos. Um monte de gente \u00e9 legal com rela\u00e7\u00e3o a isso, e algumas pessoas n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada seguinte, \u00e0 medida que o <em>hip hop<\/em> foi crescendo cada vez mais, as gravadoras e os editores viam nos <em>samples<\/em> uma lucrativa fonte de receita e come\u00e7aram a cobrar mais dinheiro pelos direitos. Hoje, usar o mesmo trecho de James Brown que Mannis-Gardner conseguiu por quinhentas pratas no in\u00edcio dos anos 1990 seria muitas vezes mais caro. Samplear uma simples batida de bateria, por exemplo, pode exigir a concess\u00e3o de 7,5% a 10% de <em>royalties<\/em> a quem possuir os direitos da m\u00fasica original &#8211; os direitos sobre a melodia e as palavras. Uma porcentagem adicional da vendas do disco \u00e9 devida a qualquer selo que possua os direitos da grava\u00e7\u00e3o original. Um efeito colateral deste pagamento duplo &#8211; direitos sobre composi\u00e7\u00e3o e direitos sobre grava\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 o aumento do uso da &#8220;interpola\u00e7\u00e3o&#8221;, um processo meticuloso pelo qual os produtores regravam um <em>sample<\/em> com seus pr\u00f3prios instrumentos, pra soar o mais pr\u00f3ximo do original. As m\u00fasicas que usam essa t\u00e9cnica exigem que os artistas paguem pelos direitos de publica\u00e7\u00e3o (<em>sobre composi\u00e7\u00e3o, caso contr\u00e1rio seriam acusados de pl\u00e1gio<\/em>), mas n\u00e3o pelas grava\u00e7\u00f5es originais (<em>aos selos\/gravadoras que lan\u00e7aram o disco com a original<\/em>), e o custo adicional de gravar uma nova vers\u00e3o \u00e9 compensado pelo dinheiro economizado nos <em>royalties<\/em>.<\/p>\n<p>Samplear j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma maneira barata de fazer m\u00fasica, mas tamb\u00e9m foram os dias em que os produtores precisavam comprar instrumentos e contratar uma banda. <em>Softwares<\/em> como o <a href=\"https:\/\/www.ableton.com\/\" target=\"_blank\">Ableton<\/a> ou o <a href=\"https:\/\/www.image-line.com\/flstudio\/\" target=\"_blank\">FL Studio<\/a> custam apenas algumas centenas de d\u00f3lares e permitem aos produtores fazer m\u00fasica em seus <em>laptops<\/em> usando sintetizadores e baterias eletr\u00f4nicas, sem precisar tratar <em>samples<\/em>. A consequ\u00eancia \u00e9 que o som que prevaleceu no <em>rap<\/em> mudou de batidas quebradas e <em>loops<\/em> sujos pra teclados cristalinos e percuss\u00e3o digital.<\/p>\n<p>O jeito de samplear da velha guarda est\u00e1 em decl\u00ednio, as a\u00e7\u00f5es por viola\u00e7\u00e3o de direitos autorais parecem mais comuns do que nunca, e os <em>hits pop<\/em> s\u00e3o cada vez mais formados por comit\u00eas de compositores e produtores que enviam arquivos digitais de um lado pra outro pelo mundo (<em>experimente ver os cr\u00e9ditos dos discos que mais estouram de vendas &#8211; de Kanye West e Beyonc\u00e9 a Rihanna e qualquer rapper de alta rota\u00e7\u00e3o<\/em>). Contra tudo isso, Frank Dukes, com sua biblioteca de sons caseiros, parece ser o produtor ideal pra nossa era. Se voc\u00ea n\u00e3o reconhece o nome dele, \u00e9 porque suas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o quase sempre formadas por fragmentos; a m\u00fasica de Dukes \u00e9 feita sem quase nada que venha de outro produtor, geralmente mais famoso, que recebe o faturamento superior (em &#8220;No Needed Me&#8221;, de Rhianna, por exemplo, ele trabalhou com DJ Mustard, cuja assinatura &#8220;Mustard on the beat, hoe&#8221;, \u00e9 a \u00fanica <em>tag<\/em> que adorna a faixa). O canadense \u00e9 um dos seis compositores creditados em &#8220;Attention&#8221;, uma faixa no &#8220;Starboy&#8221;, do The Weeknd (de 2016 &#8211; <em>na verdade, Dukes assina com seu verdadeiro nome a composi\u00e7\u00e3o, Adam Feeney, e como Dukes a produ\u00e7\u00e3o<\/em>). Jordan Sargent resumiu o estado de coisas na sua resenha na Spin (<a href=\"http:\/\/www.spin.com\/2016\/11\/review-the-weeknd-starboy\/\" target=\"_blank\">leia aqui<\/a>), escrevendo que &#8220;Starboy&#8221; cont\u00e9m &#8220;dois punhados das melhores can\u00e7\u00f5es pop que a grande e vibrante <em>Song Machine<\/em> tem pra oferecer em 2016.&#8221;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_uOK32e1VsM\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QPb93EJcQBw\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Com a liberdade do seus fragmentos de m\u00fasica, Dukes pode ser levando em conta como apenas uma outra engrenagem na grande &#8220;m\u00e1quina de fazer m\u00fasica pop&#8221;. Mas sua abordagem em duas frentes pra disseminar seu trabalho e seu m\u00e9todo de criar &#8220;samples&#8221; a partir do zero o diferenciam de seus pares da ind\u00fastria. O trabalho de Dukes com The Weeknd cai no lado original da produ\u00e7\u00e3o de sua obra: a m\u00fasica que ele criou no &#8220;Starboy&#8221; \u00e9 exclusiva do \u00e1lbum, e ele mostrou como sua m\u00fasica foi criada e usada. Seu material na Kingsway Music Library, por outro lado, est\u00e1 dispon\u00edvel pra qualquer pessoa fazer o que quiser, desde do mais an\u00f4nimo produtor do Soundcloud at\u00e9 Kanye ou Mike Will. Kingsway oferece pouco mais de uma d\u00fazia de cole\u00e7\u00f5es de m\u00fasica, com nomes como &#8220;Baked Goods&#8221; e &#8220;Lap Of Luxury&#8221;, compr\u00e1veis por algo entre quarenta e oitenta d\u00f3lares &#8211; pre\u00e7os de janeiro de 2017. Uma vez que os produtores baixem uma cole\u00e7\u00e3o, eles s\u00e3o livres pra usar e manipular a m\u00fasica como quiserem.<\/p>\n<p>Kingsway tamb\u00e9m cobra uma porcentagem de <em>royalties<\/em> por <em>samples<\/em> tratados, tal como uma gravadora ou compositor faria. Dukes geralmente divide a publica\u00e7\u00e3o meio-a-meio com o produtor da can\u00e7\u00e3o que sampleia sua m\u00fasica, e a Kingsway oferece gratuidade \u00e0s <em>masters<\/em> de projetos de artistas independentes, mas leva uma porcentagem naqueles lan\u00e7ados em gravadoras maiores ou selos independentes. Em geral, Dukes diz, trabalhar com a Kingsway \u00e9 significativamente mais acess\u00edvel do que samplear de \u00e1lbuns, e tamb\u00e9m causa menos aborrecimentos. &#8220;Eu conhe\u00e7o pessoas que t\u00eam sampleado m\u00fasica gospel, e ent\u00e3o elas v\u00e3o tratar o <em>sample<\/em>, e \u00e9 como&#8230; &#8216;voc\u00ea n\u00e3o pode pegar a m\u00fasica do Senhor e fazer isso'&#8221;, disse ele. Dukes n\u00e3o t\u00e1 nem a\u00ed pro que v\u00e3o fazer com seu <em>sample<\/em>.<\/p>\n<p>Ele atribui sua disposi\u00e7\u00e3o de deixar a m\u00fasica limpa, em parte, pela frustra\u00e7\u00e3o que sentia quando n\u00e3o conseguia tratar <em>samples<\/em> pra suas pr\u00f3prias m\u00fasicas. Ajuda tamb\u00e9m o fato de que as ideias musicais que ele empacota na cole\u00e7\u00e3o da Kingsway s\u00e3o geralmente aquelas pras quais n\u00e3o encontrou um uso em seu pr\u00f3prio trabalho da produ\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu realmente n\u00e3o gero material especificamente pra Kingsway Music Library&#8221;, disse ele. &#8220;\u00c9 apenas um produto da maneira como trabalho. Crio tanto que \u00e9 imposs\u00edvel terminar cada uma dessas ideias. Se eu tiver ideias que s\u00e3o realmente preciosas pra mim, que eu estou trabalhando e se transformando em m\u00fasicas, eu vou acabar produzindo essas m\u00fasicas. Uma vez que eu publiquei na Kingsway, vejo como n\u00e3o sendo diferente de algu\u00e9m pegar um \u00e1lbum e samplear&#8221;. \u00c0s vezes, essa abordagem <em>laissez-faire<\/em> produz boas grava\u00e7\u00f5es de produtores que ouvem algo naquele trecho que Dukes n\u00e3o se ligou, como em &#8220;0 To 100 \/ The Catch Up&#8221;, de Drake, ou &#8220;Diamonds Dancing&#8221;, de Future e Drake, outra m\u00fasica baseada em uma pe\u00e7a da Kingsway. \u00c0s vezes, como dito, isso significa que a m\u00fasica de Dukes pode parar num \u00e1lbum do comediante Kevin Hart.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PdsJd9hqJp4\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Pode-se esperar que a colabora\u00e7\u00e3o em uma escala t\u00e3o ampla seria ma\u00e7ante, mas a est\u00e9tica de Dukes \u00e9 f\u00e1cil de ouvir. Ele foi inspirado pelo brilho e pelo anseio de Phil Spector e pelo companheiro de improviso de Toronto Noah &#8220;40&#8221; Shebib. Dukes gosta de experimentar. Os ritmos l\u00e2nguidos de &#8220;Pick Up The Phone&#8221;, disse ele, foram inspirados por &#8220;toneladas de samba e m\u00fasica brasileira &#8211; realmente refrescante&#8221;.<\/p>\n<p>Os simulacros de <em>sample<\/em> de Dukes est\u00e3o repletos de nostalgia de um lugar e uma era n\u00e3o-espec\u00edficos na hist\u00f3ria do pop, onde algum conjunto h\u00e1 muito esquecido est\u00e1 tocando <em>funk<\/em> suave no som de uma cobertura de solteiro e Ray J e Frank Sinatra est\u00e3o no bar atr\u00e1s de seus coquet\u00e9is. Dukes criou seu estilo parcialmente em resposta \u00e0s prefer\u00eancias do mercado, mas assim como os nova-iorquinos com <em>samplers<\/em> inventaram o som do <em>hip hop<\/em> dos anos 90, ele conseguiu algo original com sua aposta.<\/p>\n<p>O verdadeiro nome de Dukes \u00e9 Adam King Feeney, nascido em 12 de setembro de 1983, em Toronto; seu apelido veio de Frank Dux, o personagem de Jean-Claude Van Damme em &#8220;Bloodsport&#8221; (<em>no Brasil, &#8220;O Grande Drag\u00e3o Branco&#8221;, de 1988<\/em>) e nome do mestre de artes marciais da vida real que inspirou o filme (<em>e que na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o treinou Van Damme por tr\u00eas meses pra entrar em forma pro papel<\/em>). Embora gaste cerca de uma semana por m\u00eas viajando pra est\u00fadios long\u00ednquos pro trabalhar, ele mant\u00e9m horas normais quando est\u00e1 em Toronto, passando tempo com sua esposa e dois filhos pequenos. Ele \u00e9 amig\u00e1vel e modesto, brincando que pegou muito do que sabe sobre composi\u00e7\u00e3o e sobre compartilhar um est\u00fadio com o quarteto de <em>jazz<\/em> BADBADNOTGOOD.<\/p>\n<p>A resid\u00eancia da fam\u00edlia Feeney fica num sub\u00farbio, com parques e campos de golfe. Pra chegar l\u00e1, voc\u00ea dirige por uma estrada arterial de quatro pistas, passando por uma pr\u00e9-escola. No por\u00e3o, h\u00e1 teclados vintage empilhados e pr\u00eamios ASCAP por suas contribui\u00e7\u00f5es em &#8220;0 To 100 \/ The Catch-Up&#8221; e &#8220;Planes&#8221;, de Jeremih. Em vez de uma mesa de caf\u00e9, h\u00e1 um conjunto de trem de crian\u00e7a. \u00c9 o tipo de casa onde voc\u00ea \u00e9 convidado a tirar os sapatos ao entrar, e quando lhe oferecem uma bebida, n\u00e3o \u00e9 licor, cerveja ou mesmo caf\u00e9, mas uma caneca de cer\u00e2mica com \u00e1gua filtrada.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/--5u48IaR4M\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Apesar da natureza noturna de sua m\u00fasica, Dukes come\u00e7ou uma sess\u00e3o de grava\u00e7\u00e3o no m\u00eas passado bem antes do p\u00f4r-do-sol. Ele estava em seu est\u00fadio caseiro, com Kaan Gunesberk, um compositor e multi-instrumentista com uma voz male\u00e1vel e estilosa. &#8220;Quando voc\u00ea est\u00e1 produzindo, voc\u00ea est\u00e1 realmente apenas tomando uma s\u00e9rie de decis\u00f5es&#8221;, disse Dukes. Essas decis\u00f5es podem ser t\u00e3o simples como onde colocar o microfone num bumbo ou, como no trabalho de Phil Spector, elas podem ser t\u00e3o envolvidas como escolher manualmente os membros de uma &#8220;orquestra de rock&#8217;n&#8217;roll&#8221;. O correto som do bumbo pode fazer uma grava\u00e7\u00e3o meramente boa transcender &#8211; <a href=\"http:\/\/www.fleetwoodmac-uk.com\/stillgoinginsane_old\/articles\/197700.html\" target=\"_blank\">pergunte a Spector sobre isso<\/a> (<em>link sugerido no texto original<\/em>) -, mas o t\u00e9dio de todas essas decis\u00f5es tamb\u00e9m pode sufocar a criatividade. O objetivo da sess\u00e3o com Gunesberk era gravar um fluxo musical sem travas ou amarras, capturando seus instintos sonoros sem vernizes pra gerar tanto material quanto poss\u00edvel em um per\u00edodo de tempo limitado. S\u00f3 depois Dukes ia ver o que fazer com esse material.<\/p>\n<p>Dukes colocou um disco de rock progressivo que tinha comprado de Gene Brown, movendo a agulha aparentemente ao acaso, at\u00e9 que um solo de sintetizador o pegou de jeito. Fren\u00e9tica no ritmo e jorrando entusiasmo falso do tecladista que a tocou h\u00e1 d\u00e9cadas, a m\u00fasica n\u00e3o tinha nada do encanto frio do trabalho de Dukes. &#8220;Essa melodia, mas com vocal, poderia ser muito legal&#8221;, ele disse, cantando sozinho num falsete tr\u00eamulo at\u00e9 Gunesberk se juntar. &#8220;Voc\u00ea quer foder com isso?&#8221;.<\/p>\n<p>Gunesberk aproximou-se do microfone e come\u00e7ou a cantar, adicionando floreios mel\u00f3dicos que n\u00e3o estavam presentes no original. Dukes tocava acordes em seu teclado, uns fraseados obscuros de <em>jazz<\/em>, sem preocupa\u00e7\u00e3o com as harmonias que a banda de <em>rock prog <\/em>estava usando. Ele instruiu Gunesberk a combinar os acordes com sua voz, adicionando camadas de harmonia. Eles trabalharam com vertiginosa efic\u00e1cia e calma invej\u00e1vel, fugindo a toda velocidade daquela fonte brega.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea sabe quando, num disco de Jodeci, as pessoas est\u00e3o sempre tocando alguma linha louca e completa de sintetizador?&#8221;, perguntou Duques, e logo cantou uma imita\u00e7\u00e3o de alguns sons mais atraentes de teclado. Gunesberk pegou um pequeno brinquedo Casio que provavelmente tinha sido comprado em uma liquida\u00e7\u00e3o de quintal, ignorando os v\u00e1rios sintetizadores caros e poderosos do est\u00fadio. Enquanto Gunesberk tocava, Dukes inclinou-se pra frente, sorriu e deu um rumo no que eles deveriam fazer. Mesmo as brincadeiras de est\u00fadio de Dukes t\u00eam um aspecto p\u00f3s-moderno.<\/p>\n<p>Gunesberk terminou de tocar, e Dukes preencheu com efeitos de \u00e1udio, subindo a voz de Gunesberk uma oitava e enchendo-a com um <em>reverb<\/em> luxuriante. De repente, soou como uma produ\u00e7\u00e3o de Frank Dukes. Os efeitos deram \u00e0 voz de Gunesberk uma qualidade et\u00e9rea e os novos acordes transmitiram a melodia com lenta majestade. Em menos de uma hora, o que come\u00e7ou com um esquec\u00edvel solo de sintetizador sem precedentes tornou-se algo cristalino. As batidas ainda n\u00e3o estavam no lugar, e provavelmente seriam adicionadas por outro produtor, um dos colaboradores de Dukes ou por seus clientes do Kingsway, dependendo do que ele decidir: se usa a ideia ou se a coloca na biblioteca. Ainda assim, era f\u00e1cil imaginar a vers\u00e3o final.<\/p>\n<p>Ele delineou outra ideia. Inspirado pelos jogos musicais do iPad de seu filho de tr\u00eas anos, Dukes queria gravar dezenas de <em>loops<\/em> instrumentais curtos, todos na mesma nota e tempo, mas sem rela\u00e7\u00e3o alguma. Em teoria, esses <em>loops<\/em> poderiam ser colocados em qualquer arranjo e ainda ter sentido r\u00edtmico e harm\u00f4nico, produzindo um fluxo quase infinito de combina\u00e7\u00f5es que poderiam ser encaixadas em can\u00e7\u00f5es. &#8220;Quando meu filho entra no est\u00fadio e pergunta o que estou fazendo, eu sempre digo a ele, &#8216;estou trabalhando'&#8221;, disse ele dando uma risada. &#8220;Agora, quando ele est\u00e1 jogando estes jogos no iPad, ele est\u00e1 tipo, &#8216;eu estou trabalhando, pai'&#8221;.<\/p>\n<p>Dukes e Gunesberk come\u00e7aram a gravar <em>loops<\/em>, usando teclados, percuss\u00e3o de brinquedo, uma garrafa de vinho, uma cadeira reclin\u00e1vel &#8211; qualquer coisa e qualquer pessoa ao alcance deles. Gunesberk, cuja voz adorna produ\u00e7\u00f5es de Duke como &#8220;Right Hand&#8221;, de Drake, e &#8220;Deja Vu&#8221;, de Post Malone, fez improvisos imitando Sade, Ray J, Janet Jackson e Thom Yorke, cantando quaisquer sons ao inv\u00e9s de palavras.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Dukes virou-se pra mim: &#8220;voc\u00ea sabe um pouco de teoria musical, certo?&#8221;. Um pouco surpreso, aproximei-me do teclado e toquei a primeira coisa que me veio \u00e0 mente, algo pesado e sinistro, com uma linha de baixo descendente, em sol menor. Dukes seguiu, com algumas dire\u00e7\u00f5es amig\u00e1veis mas firmes. Ele gostou da primeira parte, mas o final precisava melhorar. Vacilei um pouco, ent\u00e3o Gunesberk entrou e gravou uma vers\u00e3o mais bem acabada da minha ideia, incorporando ajustes de Dukes. &#8220;Eu gosto de ter ele por perto, porque ele pode terminar minhas frases musicais&#8221;, disse Dukes.<\/p>\n<p>Tirei o time de campo, pra deixar a dupla trabalhar. Juntos, criaram algo que soou como uma colabora\u00e7\u00e3o perdida entre Destiny&#8217;s Child e o Tangerine Dream. &#8220;Isso pode acabar em um disco de Drake&#8221;, disse Dukes, enquanto eu reunia minhas coisas. &#8211; &#8220;Ou pode acabar como nada&#8221;.<\/p>\n<p>Na noite seguinte, Dukes saiu da rotina pra assistir a uma sess\u00e3o de grava\u00e7\u00e3o com Safe, um <em>rapper<\/em> de Toronto de 20 anos de idade, em cujo \u00e1lbum de estreia Dukes \u00e9 produtor-executivo. Safe deve seu sucesso em parte a Drake, que o levou a um acordo com a Epic Records. Safe estava trabalhando em um est\u00fadio escasso, no sub\u00farbio de Etobicoke (<em>um dos seis distritos de Toronto<\/em>), cercado por companheiros da Halal Gang, uma turma na maior parte formada por somalis locais. Eles contavam piadas sobre garotas e o novo filme de Harry Potter, comendo pizza e bebendo Pepsi que ocasionalmente era calibrada com conhaque. Dukes veio armado com duas batidas que evidentemente come\u00e7aram como <em>jam sessions<\/em>, como o da noite anterior; cada uma apresentava um trecho do canto alto e afetuoso de Gunesberk. Ele tocou a primeira. Parecia uma vers\u00e3o mais dif\u00edcil e menos leve do trabalho de Dukes em &#8220;Pick Up The Phone&#8221;. Os jovens acenaram com a cabe\u00e7a furiosamente. &#8220;Era insano&#8221;, Safe disse, teclando ideias em seu telefone.<\/p>\n<p>Dukes assumiu um papel de mentor na Halal Gang, e at\u00e9 por volta das duas e meia da manh\u00e3 ele ofereceu orienta\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica e l\u00edrica pras aquelas m\u00fasicas em andamento. Ele cantou algumas linhas de <em>rap<\/em> pra Safe, que incorporou um pouco de g\u00edria de Toronto. Safe entrou na cabine e come\u00e7ou a brincar com a ideia: &#8220;Heavy with the wrist motion, working all week \/ Young nigga, feel like an OG!&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kqRhIuxkMkI\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Dukes e o resto da turma assistiram a Safe da sala de controle, seguindo o <em>rapper<\/em>. Embora Safe estivesse na sala ao lado, voc\u00ea n\u00e3o podia ouvir sua voz natural, apenas a vers\u00e3o que tinha sido captada pelo microfone, transmitida como eletricidade atrav\u00e9s de um cabo embutido nas paredes, convertido em um fluxo digital de uns e zeros, recebido por um computador com o Pro Tools, analisado e processado pelo Autotune, e convertido de volta em eletricidade &#8211; o som sobrenatural que estava explodindo dos alto-falantes do est\u00fadio junto com a batida, perfeito compasso com os movimentos da boca de Safe. A cena, com suas camadas de media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica invis\u00edvel, seria incr\u00edvel se n\u00e3o fosse t\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Enquanto eu assistia e escutava, pensei no pintor Chuck Close, que cria retratos em detalhes estranhos, foto-realistas, baseados em imagens capturadas com uma c\u00e2mera especializada. O retrofotografia come\u00e7ou como uma alternativa barata e acess\u00edvel \u00e0 pintura, assim como samplear come\u00e7ou como uma alternativa pra gravar m\u00fasica original. Ao pintar fotografias e gravar <em>samples<\/em> originais, Close e Dukes criam fac-s\u00edmiles de fac-s\u00edmiles. Suas obras s\u00e3o t\u00e3o abstra\u00eddas de uma ideia original que elas se tornam originais novamente. Assim como aquelas batidas hipn\u00f3ticas que Kool Herc e Grandmaster Flash criaram com duas <em>pickups<\/em> e um <em>mixer<\/em> nas suadas pistas de dan\u00e7a do Bronx na d\u00e9cada de 1970, ambos, Close e Dukes, trabalham em um <em>loop<\/em> eterno.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-as-palavras-importam\/\" title=\"PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM\">PENSE OU DANCE: AS PALAVRAS IMPORTAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-nossa-historia-em-um-espetaculo\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO\">PENSE OU DANCE: A NOSSA HIST\u00d3RIA EM UM ESPET\u00c1CULO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-a-conta-esta-na-quantidade-de-usuarios\/\" title=\"PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS\">PENSE OU DANCE: A CONTA EST\u00c1 NA QUANTIDADE DE USU\u00c1RIOS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-nao-e-so-futebol\/\" title=\"PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL\">PENSE OU DANCE: N\u00c3O \u00c9 S\u00d3 FUTEBOL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/pense-ou-dance-um-texto-que-vai-caducar\/\" title=\"PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR\">PENSE OU DANCE: UM TEXTO QUE VAI CADUCAR<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andy Cush escreve pra Spin numa velocidade e numa quantidade impressionantes. 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