{"id":47869,"date":"2017-02-20T17:50:57","date_gmt":"2017-02-20T20:50:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=47869"},"modified":"2017-02-20T17:50:57","modified_gmt":"2017-02-20T20:50:57","slug":"resenha-stabscotch-uncanny-valley","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-stabscotch-uncanny-valley\/","title":{"rendered":"RESENHA: STABSCOTCH &#8211; UNCANNY VALLEY"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"47870\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-stabscotch-uncanny-valley\/stabscotch-capa-uncannyvalley\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,540\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"stabscotch-capa-uncannyvalley\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?resize=540%2C540\" width=\"540\" height=\"540\" class=\"alignnone size-full wp-image-47870\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?resize=83%2C83&amp;ssl=1 83w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/stabscotch-capa-uncannyvalley.jpg?resize=55%2C55&amp;ssl=1 55w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><em>Mar\u00e7o de 1967<\/em><\/p>\n<p>The Velvet Underground, junto com a Nico, lan\u00e7a seu primeiro disco. E tudo naquele \u00e1lbum tinha uma disson\u00e2ncia est\u00e9tica: a maneira informal de tratar drogas, sexo e a sonoridade que me pareceu extremamente crua na primeira vez e com as consecutivas ouvidas transformou-se na certeza de que dava pra criar (e muito!) a partir de certa falta de polidez. Os experimentos sonoros, \u00e0s vezes intensivamente ruidosos, a atmosfera obscura duma cidade de quem anda \u00e0 margem e ao mesmo tempo extrai uma carga po\u00e9tica. &#8220;The Velvet Underground &#038; Nico&#8221; representou pra mim um ecletismo que o garoto f\u00e3 de MTV precisava. A tem\u00e1tica que flertava com o niilismo, a rebeli\u00e3o contra o &#8220;cara mais pr\u00f3ximo&#8221; e a maneira incomum que tudo isso foi gravado &#8211; num tempo em que produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o convencional ainda n\u00e3o era vista como est\u00e9tica. E mesmo que fosse, a primeira vez que eu ouvi isso foi totalmente divergente da maioria das coisas que eu havia ouvido. O clima sombrio, o humor hedonista e cargas complexas que se entrecruzam afirmando pouca coisa, apenas suspendendo o exato instante em que a disciplina urbana n\u00e3o significava nada pra aquelas pessoas.<\/p>\n<p><em>Dezembro de 1973<\/em><\/p>\n<p>Muito tempo depois do Velvet, eu fui conhecer o Magma, em espec\u00edfico o &#8220;Mekan\u00efk Destrukt\u00efw Kommand\u00f6h&#8221;, um \u00e9pico que era tipo um ritual pra umas coisas que eu n\u00e3o entendia muito bem, mas me divertia. Uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre guerra, apocalipse &#8211; embalado ao ritmo duns sons desordenados, advindos de sintetizadores que meio que malignamente orquestravam algo que, aparentemente, era muito perverso. Todas as misturas que fazem o \u00e1lbum ser adjetivado de &#8220;denso&#8221; sumarizam um ritualismo que criou suas pr\u00f3prias regras.<\/p>\n<p><em>18 de outubro de 1988<\/em><\/p>\n<p>Em alguma \u00e9poca que minha \u00fanica fonte musical era a MTV, os clipes do &#8220;Daydream Nation&#8221;, do Sonic Youth, passavam nos programas &#8220;Lado B&#8221;, essas coisas. Eu lembro como era muito marcante as melodias grudentas e de como o clima &#8220;f\u00e1cil&#8221; se perdia nas guitarras. Ainda n\u00e3o sabendo muito sobre m\u00fasica (chuto que hoje eu sei menos), n\u00e3o foi l\u00e1 muito dif\u00edcil associar com o primeiro disco do The Velvet Underground. E sempre que eu ou\u00e7o o &#8220;Daydream Nation&#8221;, eu recupero uma energia que, sei l\u00e1, ficou esquecida naquela empolga\u00e7\u00e3o juvenil. N\u00e3o \u00e9 uma nostalgia saudosa, \u00e9 mais um tipo de ansiedade. &#8220;Vamos l\u00e1, vamos montar uma banda!&#8221;. &#8220;Daydream Nation&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 cru, urbano e carrega em seus barulhos uma rebeli\u00e3o contra algo incerto. No entanto, ele consegue ser mais &#8220;abstrato&#8221; que as outras bandas &#8220;guitarreiras&#8221; que eu viria a ouvir depois e talvez a\u00ed resida seu maior experimento. O estilo das letras &#8220;descoladas&#8221; variam de imers\u00f5es sociais paranoicas pra assuntos extremamente \u00edntimos. Dissonante, bravo e r\u00edtmico &#8211; quando eu realmente &#8220;saquei&#8221; qual era do &#8220;Daydream Nation&#8221; eu j\u00e1 estava hipnotizado pela coisa toda.<\/p>\n<p><em>27 de mar\u00e7o de 1991<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 perceber que a introspec\u00e7\u00e3o do Sonic Youth n\u00e3o era impactante o suficiente pra me levar a terrenos &#8220;solit\u00e1rios&#8221;. Eu quero dizer, a ansiedade que &#8220;Daydream Nation&#8221; carrega \u00e9 energ\u00e9tica a seu modo. O que o Slint fez no &#8220;Spiderland&#8221; foi uma parada completamente diferente. Os versos esquisitos das guitarras emanando suspense e melancolia em uma atmosfera fria e complexa. A hipnose de &#8220;Spiderland&#8221; foi outra, duma noite bem s\u00e9ria, sem espa\u00e7o pra humor.<\/p>\n<p><em>23 de junho de 1998<\/em><\/p>\n<p>Um amigo disse: &#8220;isso \u00e9 tipo <em>metal<\/em> atonal&#8221;. Eu n\u00e3o fazia ideia de onde vinha aquela defini\u00e7\u00e3o e at\u00e9 hoje n\u00e3o sei bem, mas &#8220;Obscura&#8221;, do Gorguts, mudou a porra toda. A t\u00e9cnica ca\u00f3tica, complexa, dissonante, com tempos totalmente imprevis\u00edveis; &#8220;Obscura&#8221; veio, pra mim, como o passo naturalmente man\u00edaco seguindo a linha do tempo de todos os discos citados (eu n\u00e3o lembro quando eu ouvi cada, a \u00fanica certeza \u00e9 que &#8220;Obscura&#8221; veio depois). &#8220;D\u00e1 pra inventar suas regras na escurid\u00e3o&#8221; \u00e9 uma coisa que me vem \u00e0 mente quando ou\u00e7o isso. \u00c9 pesado, \u00e9 agressivo e aborda uma tem\u00e1tica vasta numa atmosfera filos\u00f3fica.<\/p>\n<p><em>17 de novembro de 2006<\/em><\/p>\n<p>Confesso que embora todos os anteriores sejam belos \u00e0s suas maneiras, absolutamente nenhum chegou perto do deslumbre que eu senti quando eu ouvi &#8220;Labirinto D&#8217;acqua&#8221;, do Y\u016bgen. Eu quero dizer, num \u00e1lbum instrumental este disco pareceria ser a esp\u00e9cie de conclus\u00e3o l\u00f3gica (l\u00f3gica apenas dentro da minha cabe\u00e7a, verdade seja dita) de sensa\u00e7\u00e3o cristalina (embora eu n\u00e3o saiba precisar o porqu\u00ea) que todos estes \u00e1lbuns me passaram. Eu tive a absoluta certeza de que nada ultrapassaria o que este disco causou (e ainda causa) em mim.<\/p>\n<p><em>At\u00e9 pouco tempo.<\/em><\/p>\n<p>A abertura de &#8220;Uncanny Valley&#8221; \u00e9 devastadora e abrasiva com um baixo desacelerado (?), em uma esp\u00e9cie de ataque alucinat\u00f3rio do vocalista. Ele est\u00e1 nos contando uma hist\u00f3ria, aparentemente. Ele meio que t\u00e1 se explicando. Ele t\u00e1 explicando porque o c\u00e9u \u00e9 fechado. Ele t\u00e1 l\u00e1, com todas estas perguntas meio malucas, mas h\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o imprecisa de que h\u00e1 um lar, e ele est\u00e1 l\u00e1, no tal do lar. Todo o clima da m\u00fasica muda pra um ritual meio alien\u00edgena (tipo uma galera dan\u00e7ando no meio do mato) e as guitarras exibem sua for\u00e7a de verdade &#8211; no fundo, uma voz feminina muito agressiva, disputando espa\u00e7o com as guitarras enquanto a banda inteira entra numa frita\u00e7\u00e3o esquisita. Visceral demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas o vocal \u00e9 indiscern\u00edvel ou os instrumentos (em certos momentos), mas, aparentemente, a apela\u00e7\u00e3o l\u00edrica \u00e9 pra um desentendimento num di\u00e1logo entre v\u00e1rias pessoas b\u00eabadas que n\u00e3o conseguem encontrar suas carteiras. Mas eu n\u00e3o quero apontar que \u00e9 simula\u00e7\u00e3o ou apenas s\u00e1tiras: o desentendimento em &#8221; Uncanny Valley&#8221; \u00e9 encarado como propulsor (tem\u00e1tico e sonoro) que deixa tudo que rola no disco extremamente confuso. A capa diz muito: s\u00e3o elementos recolhidos duma realidade objetiva e distorcidos no pr\u00f3prio universo criativo da banda.<\/p>\n<p>O desejo venceu os sonhos e talvez &#8220;Uncanny Valley&#8221; seja uma afirma\u00e7\u00e3o de como desejar \u00e9 algo ca\u00f3tico e hist\u00e9rico, que arru\u00edna o ser em ansiedade e nervosismo. Ent\u00e3o, o sujeito quer tudo na hora e tudo que parte da sua mente e cruza sua vis\u00e3o tem uma hist\u00f3ria completamente infundada e absolutamente qualquer um que passar pela sua frente parece uma figura asquerosa digna de rancor. As letras seguem praticamente um fluxo de consci\u00eancia acelerado, fragmentado em divaga\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, cruas e urbanas.<\/p>\n<p>Em &#8220;Tanic&#8221;, \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel encontrar um refr\u00e3o, coisa rara no \u00e1lbum. As can\u00e7\u00f5es seguem &#8220;mini&#8221; atos que se baseiam na estrutura l\u00edrica pra incorporar ou se desfazer de elementos sonoros. Apesar de todo este &#8220;asco&#8221; arremessado ao ouvinte, algumas partes s\u00e3o realmente grudentas e cravam na cabe\u00e7a. Pra depois serem esfaceladas em disson\u00e2ncias em constantes desencontros e mudan\u00e7as significativas no andamento da can\u00e7\u00e3o. Isso faz cada m\u00fasica ser uma esp\u00e9cie de im\u00e3 que atrai elementos corrosivos (pra sua pr\u00f3pria estrutura) e se fechar conceitualmente em seus pr\u00f3prios dilemas.<\/p>\n<p>Uma persegui\u00e7\u00e3o noturna alucinada numa cidade calma. Perseguindo o nada. Fugindo de suas pr\u00f3prias neuroses. Com certeza &#8220;se libertar da pr\u00f3pria neurose&#8221; \u00e9 uma das metas destes caras. Mas fica relativamente dif\u00edcil quando est\u00e3o em uma constru\u00e7\u00e3o instrumental &#8220;mais ou menos&#8221; estruturada e eles desviam pra ampliar em dire\u00e7\u00f5es divergentes tudo o que estava agrupado. \u00c9 nessa sucess\u00e3o intrinsecamente ca\u00f3tica que qualquer coletividade \u00e9 destilada em lances vulgares individuais. Aparentemente, \u00e9 dif\u00edcil pra eles fugirem da pr\u00f3pria megalomania criativa.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, tamb\u00e9m, fugir da sombra desgastante que parece perseguir o ser. Impedindo pensamentos mais &#8220;leves&#8221; na claustrofobia psicol\u00f3gica de ver as m\u00ednimas possibilidades se fechando. \u00c9 um paradoxo, pois o ouvinte \u00e9 alertado sobre a viol\u00eancia da luz. O Stabscotch sente-se em casa apenas na escurid\u00e3o. Na primeira faixa, &#8220;Open Sesemji&#8221;, isso \u00e9 anunciado. O que vem depois pode ser encarado pela tortura do processo de media\u00e7\u00e3o entre o sujeito torturado e o mundo (entidade que exerce a tortura).<\/p>\n<p>A &#8220;nova extin\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 o guia interno do Stabscotch e pode-se creditar este guia catastr\u00f3fico ao mundo torturante, mundo que alucina o ser. A resposta natural pra isso \u00e9 a paranoia, o histerismo. Por mais estranho que possa parecer \u00e9 no ritualismo externo (apari\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas) que a banda encontra uma possibilidade de manifesta\u00e7\u00e3o saindo da pris\u00e3o humanit\u00e1ria. Humanit\u00e1ria em sentido de expectativas mesmo: ser um bom cidad\u00e3o, estabelecer metas, comer no hor\u00e1rio certo etc. Saber lidar com essas obriga\u00e7\u00f5es formais \u00e9 imposs\u00edvel pra esses caras.<\/p>\n<p>No processo alucinat\u00f3rio ao decorrer do disco, as figuras que simbolizam o rompimento com o aprisionamento v\u00e3o se tornando esteticamente extremas: gargantas sangrando, criaturas semim\u00edsticas celebrando a viol\u00eancia. O &#8220;rito&#8221; atinge seu primeiro \u00e1pice na faixa &#8220;The Fungal Brooden Rainforest&#8221;. A letra desta m\u00fasica \u00e9 sugestiva: &#8220;Ooo0\u01530Oo\u0152o0oOoo0\u01530Oo\u0152o0oOoo0\u01530Oo\u0152o0oOoo0\u01530O&#8221;. Parte-se pra um simbolismo esot\u00e9rico e ritual\u00edstico em que flautas encenam intera\u00e7\u00e3o que \u00e9 mais mel\u00f3dica e explicitamente envolvente do tudo acontecido at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o inicial se assume num gesto alternativo de celebra\u00e7\u00e3o. Celebra-se a fuga da luz, da pris\u00e3o social e \u00e9 no meio duma floresta bizarra que tal comemora\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel &#8211; em meio a dan\u00e7as n\u00e3o tradicionais e rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o idealizada\/romantizada com a natureza. A perpetua\u00e7\u00e3o da autossabotagem das letras continua na m\u00fasica &#8220;Cerulean Mirror&#8221;. O que n\u00e3o \u00e9 nem p\u00e1reo pro ultrassilogismo apresentado em &#8220;Black Effigy Speaks&#8221;. Nesta, de alguma maneira oculta, \u00e9 admitida que as palavras est\u00e3o perdidas em n\u00edveis significativos. A\u00ed que reside a autojustificativa da banda: por todos s\u00edmbolos tradicionais estarem resignados a uma hierarquia sem\u00e2ntica que o rompimento com o estabelecido \u00e9 a \u00fanica maneira de erradicar a pr\u00f3pria paranoia.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s deste processo maluco de libera\u00e7\u00e3o, as melodias mais bonitas e cativantes surgem. A ambienta\u00e7\u00e3o confusa ainda ronda o ser, mas \u00e9 nesta repeti\u00e7\u00e3o for\u00e7ada &#8211; distor\u00e7\u00f5es, grunhidos inintelig\u00edveis &#8211; que o caminho (pro que quer que seja) \u00e9 criado. A representa\u00e7\u00e3o obscura dos prazeres desconhecidos se desdobra verdadeiramente: quando o oculto deixa de ser velado, que o acesso a um &#8220;si mesmo&#8221; esquecido \u00e9 concebido. &#8220;Uncanny Valley&#8221; \u00e9 um m\u00e9todo criado por tentativa e erro que objetiva abdicar a luz que cega atrav\u00e9s da extrapola\u00e7\u00e3o de limites dogmatizados.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=468208036\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/visualdisturbances.bandcamp.com\/album\/uncanny-valley\">Uncanny Valley by Stabscotch<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>O risco \u00e9 admitido quando se transforma escravo destes prazeres obscuros. No entanto, isso n\u00e3o \u00e9 abordado como algo conden\u00e1vel. Muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 motivo de orgulho pra uma afirma\u00e7\u00e3o ap\u00f3s um caminho muito \u00e1rduo. Pois estas obscuridades obscenas foram conquistadas. Elas se transformaram no pr\u00f3prio legado. Elas s\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, a proje\u00e7\u00e3o do ser que escapou &#8211; atrav\u00e9s dum barulhento processo paranoico &#8211; da luz dominante. Pode tudo nesta resenha parecer muito alucinat\u00f3rio mas porque o disco \u00e9 essencialmente uma espiral de del\u00edrios criados pra combater a pr\u00f3pria paranoia.<\/p>\n<p>Note que todos os elementos de celebra\u00e7\u00e3o &#8220;convencionais&#8221; fazem parte do acess\u00f3rio do Stabscotch. Mas eles s\u00e3o reestruturados. Melhor: desestruturados em fun\u00e7\u00e3o da emerg\u00eancia que se coagula no n\u00facleo esparso da banda. A urg\u00eancia pulsa mais que a necessidade. Os sons ao redor, os m\u00ednimos c\u00e2nticos, os versos hipnotizantes das guitarras em &#8220;The Spires&#8221; subpostos por vocais m\u00ednimos indiscern\u00edveis &#8211; s\u00e3o formas de prolongar o espanto, s\u00e3o formas de dar vida \u00e0 paranoia internalizada. Este processo intermitente de materializa\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica erradica o elemento &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221; e o elemento &#8220;cultural&#8221;.<\/p>\n<p>Eu insisto que este disco tem uma semelhan\u00e7a com os anteriormente citados nos seguintes pontos: a paranoia urbana do The Velvet Underground \u00e9 catalisada, lan\u00e7ando o indiv\u00edduo pra fora do conv\u00edvio social. Estabelecendo novas possibilidades a partir da perda errante e do abandono de uma imposi\u00e7\u00e3o. Toda a dimens\u00e3o simb\u00f3lica do \u00e1lbum (isso fica mais expl\u00edcito no Bandcamp da banda) aponta pra instrumentos recursados na estrutura\u00e7\u00e3o desta fuga.<\/p>\n<p>&#8220;Looking Inside A Fire Pit&#8221;, a \u00faltima can\u00e7\u00e3o, isola o ac\u00famulo de signos pra uma media\u00e7\u00e3o honesta entre fogo, indiv\u00edduo e escurid\u00e3o. O fogo consome o corpo no rito final. O mundo pass\u00edvel de ader\u00eancia novamente. A paranoia e a ansiedade foram, temporariamente, deixadas pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>01. Open Sesemji<br \/>\n02. Hide Me<br \/>\n03. Hands Undressed<br \/>\n04. Nick Of Time<br \/>\n05. Tanic<br \/>\n06. Along Alligator Drunes<br \/>\n07. Radio Spiricom<br \/>\n08. TDY\u041a\u0418L\u0410-TH\u0423R\u0423 WARA<br \/>\n09. Creature Control<br \/>\n10. The Fungal Brooden Rainforest<br \/>\n11. Cold Bullet<br \/>\n12. Cerulean Mirror<br \/>\n13. Black Effigy Speaks<br \/>\n14. Unknown Pleasures<br \/>\n15. The Spires<br \/>\n16. I Master<br \/>\n17. Liberation \/\/ Dimensional Snot<br \/>\n18. Looking Inside A Fire Pit<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><strong>NOTA: 8,5<\/strong><br \/>\nLan\u00e7amento: 13 de janeiro de 2017<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 104 minutos e 02 segundos<br \/>\nSelo: Visual Disturbance<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: James Vavrek e Tyler Blensdorf<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-shit-and-shine-new-confusion-e-persher-man-with-the-magic-soap\/\" title=\"RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;\">RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-skullcrusher-quiet-the-room\/\" title=\"RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM\">RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-feliz-fm-nome-morto-j-p-caron-a-juventude-do-rio-de-janeiro-respira-por-aparelhos-ruidosos\/\" title=\"RESENHA: FELIZ FM, NOME MORTO &#038; &#038; J.-P. 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