{"id":48154,"date":"2017-03-23T01:33:10","date_gmt":"2017-03-23T04:33:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=48154"},"modified":"2017-04-04T21:33:05","modified_gmt":"2017-04-05T00:33:05","slug":"entre-fragilidades-e-incertezas-a-musica-como-reconhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entre-fragilidades-e-incertezas-a-musica-como-reconhecimento\/","title":{"rendered":"ENTRE FRAGILIDADES E INCERTEZAS &#8211; A M\u00daSICA COMO RECONHECIMENTO"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"48155\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/entre-fragilidades-e-incertezas-a-musica-como-reconhecimento\/musica-reconhecimento\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/musica-reconhecimento.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"musica-reconhecimento\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/musica-reconhecimento.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/musica-reconhecimento.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-48155\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/musica-reconhecimento.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/musica-reconhecimento.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Os elementos dispostos nos mais diversos tipos de m\u00fasica podem significar um encontro com o conhecido mas tamb\u00e9m uma abertura entre suas inumer\u00e1veis multiplicidades. Se a realidade \u00e9 demasiada concreta, o realiz\u00e1vel (o que se extrai da objetividade) \u00e9 subjetivo e ilimitado. Considere que cada m\u00fasico traga consigo seu modo territorial de ver as coisas. Ainda assim, estranhamente, numa \u00e9poca <em>cyberssistemica<\/em>, o que se repara muitas vezes \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancias que negligenciam adventos externos. &#8220;Reconhecer-se em inst\u00e2ncias desconhecidas\/inst\u00e1veis&#8221;, apesar de parecer um tro\u00e7o sem sentido e chato, \u00e9 uma maneira de ampliar possibilidades e territ\u00f3rio. O artigo a seguir \u00e9 uma tentativa de expans\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>I &#8211; Fragilidade e Incertezas<\/strong><\/p>\n<p>Dor tem muito a ver com sobreviv\u00eancia. Em um sentido mais direto, a possibilidade da dor evoca rea\u00e7\u00f5es que estimulam o combate, a rea\u00e7\u00e3o etc. O Eletrique Zamba, em &#8220;Vol. I&#8221;, afirma a dor como mat\u00e9ria-prima pra compartilhar seu &#8220;furac\u00e3o tranquilo&#8221;, ou seja, \u00e9 admitida a complexidade do que se v\u00ea pela frente mas tamb\u00e9m a tranquilidade &#8211; apesar da dor &#8211; pra prosseguir fazendo o que acredita ser certo. Os elementos sonoros tamb\u00e9m podem ser adjetivados de &#8220;furac\u00e3o tranquilo&#8221;, pois apesar da consider\u00e1vel diversidade sonora (e h\u00e1 muitos instrumentos divergentes reunidos) eles s\u00e3o guiados por uma certeza est\u00e9tica que contrasta com as letras que admitem fragilidade e incerteza.<\/p>\n<p>H\u00e1 de se reparar que a dor n\u00e3o impede o &#8220;viver&#8221; em nenhum instante de &#8220;Vol. I&#8221;. Com uma no\u00e7\u00e3o relativa da chegada da morte (ou dor, ou fim), o ser \u00e9 impulsionado ao amor entorpecente, ao ro\u00e7ar de pernas &#8211; enfim, aos transtornos e fantasias sentimentais demasiados humanos. Ao ponto em que o realiz\u00e1vel \u00e9 imprevis\u00edvel (compor, dizer, escrever) e o destino \u00e9 conhecido (morte, dor, fim), tudo deve ser enaltecido e, pelo menos, tentado.<\/p>\n<p>Assim como as letras de t\u00edmidas afirma\u00e7\u00f5es amparadas na no\u00e7\u00e3o plena (consciente ou semiconsciente) estremecem e soam &#8211; apesar da limita\u00e7\u00e3o da l\u00edngua &#8211; abstratas ou on\u00edricas, evidentemente a sonoridade segue por este caminho. As guitarras ficam psicod\u00e9licas, vozes duma esp\u00e9cie de tribo surgem atr\u00e1s da voz principal, a percuss\u00e3o faz o pano de fundo pra uma can\u00e7\u00e3o de amor se transformar num rito. Em Teresina, no Piau\u00ed, h\u00e1 com certeza muita coisa pra se observar.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=534403134\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/bandaeletriquezamba.bandcamp.com\/album\/vol-i\">Vol. I by Eletrique Zamba<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Consideravelmente, \u00e9 tudo simb\u00f3lico. S\u00e3o todas externaliza\u00e7\u00f5es pra preencher um ente \u00e1vido por complemento e lotado de desejos. Deixando de lado o fato que cada um carrega o seu tipo de desejo, nesta abstra\u00e7\u00e3o universal (desejar), a m\u00fasica aponta caminhos: fatores sonoros, l\u00edricos e imposi\u00e7\u00e3o de mercado. O mercado contempor\u00e2neo \u00e9 um pouco mais revestido de uma suposta democracia que, efetivamente, nunca teve (n\u00e3o se enganem, as pessoas ainda ouvem as mesmas coisas, apenas se tem o conhecimento das varia\u00e7\u00f5es dos nichos).<\/p>\n<p>O desejo por rebeli\u00e3o (evidentemente justificada, considerando que se vive no Brasil) \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de preencher uma entidade abstrata que se pode caracterizar como pessoa, consumidor, ouvinte, criador etc. Os temas do Eletrique Zamba percorrem desde a hipocrisia individual, a descri\u00e7\u00e3o da pessoa amada \u00e0 liberaliza\u00e7\u00e3o da maconha. Esta, segundo eles, desencadeia uma liberdade. Pra al\u00e9m do importante assunto sobre legaliza\u00e7\u00e3o das drogas, surge uma grava\u00e7\u00e3o (em &#8220;4I20&#8221;) que relaciona o nascimento da bossa nova \u00e0 cannabis. O Eletrique Zamba utiliza duma ferramenta hist\u00f3rico-cultural pra turbinar sua luta. \u00c9 uma esp\u00e9cie de reconhecimento, apesar do tempo ou localiza\u00e7\u00e3o territorial.<\/p>\n<p>Em &#8220;Samba Vadio&#8221;, a faceta identit\u00e1ria exp\u00f5e uma contrapartida \u00e0 &#8220;4I20&#8221;. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 do meu lado, eu n\u00e3o posso fazer muita coisa por n\u00f3s. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o que certamente elogia a pregui\u00e7a e a vadiagem.  O tal do &#8220;furac\u00e3o tranquilo&#8221; retorna em &#8220;O Dia Todo&#8221;. Na m\u00fasica, uma hipn\u00f3tica guitarra repetitiva e distorcida introduz, em conjunto com uma mulher apresentando a previs\u00e3o do tempo e som ambiente, a diverg\u00eancia poss\u00edvel de sensa\u00e7\u00f5es atravess\u00e1veis num dia.<\/p>\n<p>O desejo est\u00e1 em desacordo com a previs\u00e3o e almeja um dia diferente, que em sua complexidade relembre e traga a pessoa amada. Depois, \u00e9 admitida a possibilidade de fingir um amor. Este fingimento \u00e9 resultado da dor citada no come\u00e7o do texto. Longe dum julgamento moral, n\u00f3s fingimos, n\u00f3s fumamos, n\u00f3s dizemos coisas por dizer e ouvimos coisas por ouvir pra tentar justificar uma instabilidade. Quando compartilhada com outrem, a dor fica mais trag\u00e1vel, embora a incerteza e fragilidade n\u00e3o se dissolvam. Al\u00e9m disso, ambas s\u00e3o instrumentos que permitem um envolvimento cru com algo al\u00e9m de si.<\/p>\n<p>Recorre-se ao que quiser: \u00e0 forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a um dia chuvoso entediante, a uma mem\u00f3ria perdida a qual se tenta reconstruir atrav\u00e9s de experi\u00eancias novas que ressignifiquem tudo, at\u00e9 mesmo o esquecimento. O movimento errante \u00e9 encontrado nas poesias, nos verbos, na arte c\u00eanica, no cinismo, na ironia, na sinceridade. Pra al\u00e9m da qualidade suposta de tais multiplicidades, reside um movimento inaugural, um gesto origin\u00e1rio. A m\u00fasica aponta um movimento que jamais paralisa.<\/p>\n<p>O movimento errante pode ser encarado como um processo de loucura. A loucura detecta as representa\u00e7\u00f5es bruscas e entorpecentes de m\u00fasicas do &#8220;nicho&#8221;. O sujeito ouve o que gosta, o sujeito fala sobre o que gosta. At\u00e9 se chegar num ponto bem b\u00e1sico que eu enrolei: \u00e9 poss\u00edvel acessar diversas inst\u00e2ncias atrav\u00e9s do escape do terreno saturado da imposi\u00e7\u00e3o do &#8220;gosto&#8221; e se reconhecer em tr\u00e2nsitos, anteriormente, completamente alheios ao que tua experi\u00eancia imaginava, criava ou antecipava. A m\u00fasica, enquanto discurso m\u00faltiplo, legitima interpreta\u00e7\u00f5es mas estas s\u00f3 existem quando provocadas.<\/p>\n<p><strong>II &#8211; Identidade Musical<\/strong><\/p>\n<p>Uma tese de identidade musical &#8220;pr\u00f3pria&#8221; \u00e9 afirmada pela maioria das pessoas.<\/p>\n<p>A m\u00fasica contempor\u00e2nea \u00e9 discursivamente dominada pelo espelhamento de afinidades, a ponto que estas reproduzem microan\u00e1lises que falam mais sobre a delimita\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m do que a rela\u00e7\u00e3o entre a m\u00fasica analisada e o contexto. Pro God Pussy, a m\u00fasica poss\u00edvel, a m\u00fasica que diz &#8220;algo a mais&#8221;, deve cavar fundo no arquitetado pra explorar outros terrenos. O principal s\u00edmbolo desta &#8220;destitui\u00e7\u00e3o do estruturado&#8221; \u00e9, claro, os pr\u00f3prios discos lan\u00e7ados incessantemente pelo m\u00fasico.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 este processo de destitui\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica \u00e9 cega, uma concretude f\u00edsica vagando por um Nada. \u00c9 sintom\u00e1tico que ela seja tratada como s\u00edmbolo pleno da afirma\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m &#8211; se fala do &#8220;background&#8221; de certo movimento, como um suposto g\u00eanero nasceu, suas hist\u00f3rias e fofocas. Pra al\u00e9m da identidade, o God Pussy trata a m\u00fasica como manifesto que, embora carregando as revindica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas do criador, enfrenta o ouvinte sem a armadura simplista da imposi\u00e7\u00e3o de convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O debate levantado em &#8220;negerplastik&#8221; n\u00e3o foge desta manipula\u00e7\u00e3o barulhenta que, paradoxalmente, \u00e9 uma fonte mais acolhedora pro ouvinte que habita nas possibilidades. &#8220;negerplastik&#8221; (traduzido pro portugu\u00eas como &#8220;Escultura Negra&#8221;) \u00e9 um trabalho do escritor Carl Einstein sobre a avalia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica imposs\u00edvel da arte africana atrav\u00e9s do colonialismo europeu. O ceticismo com que a arte africana \u00e9 tratada pela cr\u00edtica europeia insulta as multiplicidades poss\u00edveis advindas de qualquer cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p>O processo do m\u00fasico em se alinhar a uma an\u00e1lise importante da escassez cr\u00edtica sobre uma movimenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica valiosa (a africana) reflete um mercado que cria seus produtos e simplesmente anula qualquer outra esfera criadora. Pois este mesmo &#8220;reconhecimento&#8221; que muitos afirmam quando citam uma penca de bandas favoritas pelas quais &#8220;se identificam&#8221; \u00e9 um retrato cruel do empobrecimento das possibilidades. A m\u00fasica se torna apenas consumo incessante. Com isso, \u00e9 apontada n\u00e3o apenas a problem\u00e1tica da arte africana como pode ser reinterpretada no ciclo vicioso que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o\/cr\u00edtica musical atual.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 241px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1783828673\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/godpussy.bandcamp.com\/album\/negerplastik\">negerplastik by God Pussy<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Assumindo a ironia de que o God Pussy tamb\u00e9m \u00e9 &#8220;m\u00fasica de nicho&#8221;, h\u00e1 de se notar no trabalho do m\u00fasico uma esp\u00e9cie de n\u00e3o autoridade que justamente permite uma radicaliza\u00e7\u00e3o extrema. Pra &#8220;encarar&#8221; esta m\u00fasica o ouvinte tem de ir despido de necessidades tais como &#8220;se identificar&#8221; porque \u00e9 justamente no movimento desconhecido que se reconhece a autoridade da exist\u00eancia alheia. Como Einstein afirma, pensar arte \u00e9 diferente de criar arte. H\u00e1 a necessidade de se despir dos seus preconceitos. Praticar o desconhecido requer mais trabalho e \u00e9 mais cansativo, mas certamente andar noutro terreno carrega mais possibilidades. O inst\u00e1vel h\u00e1 de se expandir:<\/p>\n<p>1. O Testemolde em &#8220;Pausa&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/testemolde-pausa-ep\/\" target=\"_blank\">veja mais aqui<\/a>), em primeira inst\u00e2ncia, parece permanecer ref\u00e9m duma f\u00f3rmula percept\u00edvel em outros lan\u00e7amentos. Mas, logo pelo meio da primeira faixa, a ofensiva \u00e9 estabelecida e, embora eles n\u00e3o trafeguem necessariamente por algo imprevis\u00edvel, o desenrolar (baixo arrastado, guitarras sujas e mel\u00f3dicas) n\u00e3o permite naturalidade (enquanto reprodu\u00e7\u00e3o do \u00f3bvio) e a complexidade das duas can\u00e7\u00f5es do EP entram no cl\u00edmax l\u00e1 pelos dois minutos da segunda faixa. Eu sinto uma aproxima\u00e7\u00e3o intensa em t\u00e3o poucos minutos do EP &#8211; \u00e9 como se ao mostrar a indecis\u00e3o sobre como prosseguir o embate criativo da banda interagisse com o ouvinte. Mais um vez: reconhecimento. N\u00e3o saber o que surgir &#8211; mais do que &#8220;surpreender&#8221; o ouvinte &#8211; implica na aceita\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do desconhecido. Eu tento seguir, por exemplo, a bateria em &#8220;ASR13&#8243; &#8211; Diego Dias\/Marcos Thanus\/Michel Munhoz &#8211; Live at Jazz no Hope 8&#8221; mas guitarra, clarinete e saxofone interrompem qualquer continuidade poss\u00edvel pra estabelecer outra continuidade &#8211; uma de tens\u00e3o, que alterna em cortes bruscos.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=831943621\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/alsand-rec.bandcamp.com\/album\/asr13-diego-dias-marcos-thanus-michel-munhoz-live-at-jazz-no-hope-8\">ASR13 &#8211; Diego Dias\/Marcos Thanus\/Michel Munhoz &#8211; Live at Jazz no Hope 8 by Al Sand REC<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>2. Agora, n\u00e3o d\u00e1 pra desconsiderar a sedu\u00e7\u00e3o que a m\u00fasica identit\u00e1ria causa. Eu diria, de forma bem \u00f3bvia, que ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a ouvir nada. O ouvinte, no entanto, anula a difus\u00e3o e isso bloqueia a infer\u00eancia e fortalece uma possibilidade dentre tantas. Se a m\u00fasica contempor\u00e2nea continua no impasse da centraliza\u00e7\u00e3o de consumo, fica evidente que h\u00e1 uma sala duma mans\u00e3o bem lotada enquanto todas as outras est\u00e3o apagadas e desocupadas. Qualquer que seja o canto que a pessoa est\u00e1 localizada nesta sala, ela est\u00e1 vendo muito pouco e presenciando basicamente nada.<\/p>\n<p>3. H\u00e1 a Hist\u00f3ria Musical e se o estudo acerca desta aponta apenas extremismos tais como m\u00fasica de massa ou m\u00fasica erudita, um turbilh\u00e3o de coisas passa desapercebido. At\u00e9 a\u00ed tudo bem, h\u00e1 uma produ\u00e7\u00e3o incessante de livros e artigos que abordam toda a larga produ\u00e7\u00e3o entre estes dois polos e at\u00e9 mesmo al\u00e9m destes. No entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas neste tipo de estudo que a m\u00fasica precisa ser apresentada. H\u00e1 de se fazer um projeto imposs\u00edvel, o pr\u00f3prio-ouvinte, uma varia\u00e7\u00e3o entre estes extremos e ele mesmo descobrir a iman\u00eancia de est\u00e9ticas anteriormente inimagin\u00e1veis.<\/p>\n<p>A base de se locomover no poss\u00edvel \u00e9 uma ideia muito particular. A m\u00fasica mesmo n\u00e3o precisa duma cr\u00edtica especializada sendo que sua assimila\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais flu\u00edda se o ouvinte simplesmente for nela. Isso afirmado, pretende-se por este diagnosticar as multiplicidades que a m\u00fasica consegue me levar e, esperan\u00e7osamente, apresentar pro leitor estas multiplicidades percorrendo um pouco da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea nacional.<\/p>\n<p><strong>III &#8211; Assimila\u00e7\u00e3o da Realidade<\/strong><\/p>\n<p>O perigo \u00e9 ficar estagnado. O perigo \u00e9 passar o resto dos meus dias com uma dor de cabe\u00e7a depois de tanto ver televis\u00e3o, aquela t\u00edmida dor de cabe\u00e7a depois de ficar basicamente horas e dias no mesmo transe passivo. Eu encaro o ceticismo desta possibilidade como uma esp\u00e9cie de amea\u00e7a. Talvez tudo escrito at\u00e9 aqui seja mesmo uma crise dos vinte e poucos anos, mas se for encarado deste modo, o ponto da intera\u00e7\u00e3o musical ainda permanece fort\u00edssimo. Sua representa\u00e7\u00e3o, suas mais variadas formas arremessadas no mundo aguardando um contato &#8211; pra al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o excessiva, h\u00e1 de revelar o diferente. O Outro. Confiar na pot\u00eancia do desconhecido. Uma Verdade potencialmente oculta. E \u00e9 a partir do discurso da busca de todo este estranhamento que estas palavras s\u00e3o devotadas.<\/p>\n<p>Empiricamente, os m\u00fasicos sempre suspeitam de que o cr\u00edtico n\u00e3o tem ideia do que fala e isso, naturalmente, desorienta o ouvinte. Concordando ou n\u00e3o com os m\u00fasicos, a varia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica se mostra fragilizada ao estabelecer resenhas\/ensaios\/artigos pautados na adjetiva\u00e7\u00e3o. Adjetivar (tal instrumento est\u00e1 bem afinado, tal m\u00fasica fala mal sobre aquilo) \u00e9 o reconhecimento &#8211; na maioria das vezes n\u00e3o intencional &#8211; de que uma rela\u00e7\u00e3o de dist\u00e2ncia foi estabelecida com o objeto e apenas dialogamos sobre este de um ponto long\u00ednquo. Em suma, n\u00e3o h\u00e1 intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada \u00e9 mais representativo da dissolu\u00e7\u00e3o desta dist\u00e2ncia do que o <em>split<\/em> &#8220;Macronympha \/ Natural Nihilismo&#8221; em que a abordagem brusca barulhenta inicial impede um rela\u00e7\u00e3o pautada no distanciamento. Aqui est\u00e1 um dos trabalhos mais radicais neste ano. Al\u00e9m disso, ele recoloca a abordagem do horror-inicial (fome, frio e esquecimento) ao lugar do inc\u00f4modo e densidade incontest\u00e1veis. Todo debate acerca do tema n\u00e3o pode perder o elemento-espanto. No entanto, ao avan\u00e7ar do <em>split<\/em>, a viol\u00eancia \u00e9 horizontalizada. De modo que talvez fique mais assimil\u00e1vel mas tamb\u00e9m &#8211; cada vez mais &#8211; figura em todo horizonte. O Macronympha e o Natural Nihilismo constroem um cen\u00e1rio-morto. Pra eles, a finaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o ressoa em paz &#8211; mas um desencantamento expandido com a assimila\u00e7\u00e3o da realidade ao redor.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o do Macronympha e do Natural Nihilismo aborda este horror, mas tamb\u00e9m exige um corpo ativo. Eles garantem a dificuldade da intera\u00e7\u00e3o, mas nunca negam esta possibilidade.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 274px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=62281070\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/armenia-bizarreaudioarts.bandcamp.com\/album\/macronympha-natural-nihilismo-split-cdr-2017\">Macronympha \/ Natural Nihilismo split CDr (2017) by Natural Nihilismo<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Por mais paradoxal que isso seja, o ser \u00e9 retirado da contempla\u00e7\u00e3o dum horizonte que se expande em horror pra interagir com o movimento expansivo &#8211; a microfonia extremamente inc\u00f4moda da primeira faixa n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7os, ao passo que a terceira parte desta mesma faixa deixa no ouvinte uma rea\u00e7\u00e3o poss\u00edvel (n\u00e3o \u00e9 preciso mais abaixar o volume, d\u00e1 pra ir aumentando aos poucos etc). A raz\u00e3o pra aproxima\u00e7\u00e3o lenta baseia-se no radicalismo origin\u00e1rio, \u00e9 claro, mas tamb\u00e9m no m\u00e9todo de abordagem utilizado pelos m\u00fasicos.<\/p>\n<p>Macronympha e o Natural Nihilismo exemplificam o movimento de abordagem (mais especificamente nas tr\u00eas pe\u00e7as do Natural Nihilismo) e da destitui\u00e7\u00e3o completa de qualquer distanciamento (a soma integrada da \u00faltima pe\u00e7a, pelo Macronympha). A m\u00fasica, pra eles, tem um fundo bem racional que aparentemente se desintegra na aproxima\u00e7\u00e3o do fim. Eles n\u00e3o hesitam e criam o momento deles. Eles tomam tudo. Eles podem n\u00e3o ter letras, mas falam dum espa\u00e7o bem espec\u00edfico.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea conferiu estes \u00faltimos citados, \u00e9 percept\u00edvel uma amplia\u00e7\u00e3o m\u00faltipla, ao ponto que tais audi\u00e7\u00f5es engajadas auxiliem na movimenta\u00e7\u00e3o dum novo ouvinte.<\/p>\n<p>A parceria Bella e (Thomas) Rohrer, em &#8220;In\\On&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/bella-thomas-rohrer-inon\/\" target=\"_blank\">leia aqui em detalhes<\/a>) cita o fil\u00f3sofo neoplat\u00f4nico Plotino e nos remete a uma alma humana e tamb\u00e9m aos polos (&#8220;em cima&#8221;, &#8220;embaixo&#8221;) situados tangencialmente a ela. Mas se est\u00e1vamos tratando sobre a multiplicidade, o que se ouve no disco \u00e9 uma movimenta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao uno (ou alma).<\/p>\n<p>Os m\u00fasicos nos evidenciam fragmentos de seus processos criativos na confian\u00e7a de que n\u00e3o permaneceremos passivos. E se estamos ativos, em algum ponto eles percebem o movimento do outro (por exemplo, a rea\u00e7\u00e3o f\u00edsica numa performance sonora). Em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 um ciclo oculto de circular nas multiplicidades pra atingir, em raros momentos, a unidade; a alma de que falam Bella\/Rohrer.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos encontramos, portanto, em diferen\u00e7as conceituais demasiadas abstratas mas reagindo fisicamente (aumentando o volume, abaixando em fun\u00e7\u00e3o de inc\u00f4modo, encontrando uma evolu\u00e7\u00e3o imaginada, encontrando um cl\u00edmax impens\u00e1vel).<\/p>\n<p>Desta maneira, o procedimento de descobrir, de permitir ramifica\u00e7\u00f5es, se mostra produtivo de uma maneira que anula uma pretensa cr\u00edtica e supostas demandas de mercado &#8211; o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o objeto musical e a intera\u00e7\u00e3o do ouvinte. Se a m\u00fasica \u00e9 movimento, a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1tica de refer\u00eancias conceituais ou gen\u00e9ricas n\u00e3o apenas reproduzem um discurso arcaico como tamb\u00e9m s\u00e3o um retrato consider\u00e1vel de certa estagna\u00e7\u00e3o presente. As novas produ\u00e7\u00f5es de demandas jamais poderiam estimular todo o processo interativo evidenciado at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 essencial relembrar de como se chegou aqui: atrav\u00e9s dum disco cuja mat\u00e9ria-prima \u00e9 a dor, permitiu-se um olhar ao redor da m\u00fasica contempor\u00e2nea nacional enquanto pot\u00eancia m\u00faltipla; este movimento intenso esbarrou em intera\u00e7\u00f5es movedi\u00e7as, duradouras, surpreendentes e encantadoras. N\u00e3o, n\u00e3o se espera de outrem semelhantes rea\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 estimulante encontrar o que supostamente n\u00e3o existia fora duma demarca\u00e7\u00e3o delimitada por sabe-se l\u00e1 quais cr\u00edticos e sabe-se l\u00e1 qual processo de massifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Consequentemente, \u00e9 preciso notar que n\u00e3o h\u00e1 a ideia de &#8220;deixar de lado&#8221; produ\u00e7\u00f5es hiperpopulares ou algo parecido, mas simplesmente aceitou-se ouvir os \u00e1lbuns aqui mencionados em fun\u00e7\u00e3o da abrang\u00eancia potencial. Somente a intera\u00e7\u00e3o (que mira numa sinceridade) pode desbravar estes rec\u00f4nditos abarrotados de ru\u00eddos est\u00e1ticos e sons indiscern\u00edveis. Este movimento tem de ser cr\u00f4nico e n\u00e3o limitado (por exemplo, apenas passar por cima do disco uma \u00fanica vez).<\/p>\n<p>Nossa meta \u00e9 evidenciar a exposi\u00e7\u00e3o do ouvinte a certos fragmentos musicais e como estes recolocam cartas na mesa, seguindo um padr\u00e3o espec\u00edfico de consumo nunca em jogo. Este objetivo \u00e9 muito menos ganancioso do que parece: os discos est\u00e3o a\u00ed, vagando pra uma simples apreens\u00e3o.<\/p>\n<p>A tese de que este tipo de m\u00fasica \u00e9 apenas barulho tamb\u00e9m encontra esbo\u00e7os de contraposi\u00e7\u00f5es aqui (\u00f3bvio que qualquer categoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 outro tipo de delimita\u00e7\u00e3o). Discursos (m\u00fasica) se estratificam em um mesmo processo volumoso; afinal, tudo citado aqui \u00e9, inegavelmente, m\u00fasica. A demonstra\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o destes espa\u00e7os \u00e9 um processo bem b\u00e1sico &#8211; \u00e9 simplesmente s\u00f3 ouvir os discos que eles provocam o pensamento, as rea\u00e7\u00f5es etc.<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 caminhos, n\u00e3o h\u00e1 teorias (apesar de ser ineg\u00e1vel a contribui\u00e7\u00e3o de uma penca de estudos) que assimilem melhor um espa\u00e7o origin\u00e1rio do que uma audi\u00e7\u00e3o sincera. Naturalmente, estes fragmentos de interpreta\u00e7\u00f5es de discos tamb\u00e9m podem auxiliar \u00e0 medida que fornecem alguma rigidez, s\u00e3o apenas uma possibilidade r\u00edgida (o leque interpretativo \u00e9 ampliado e n\u00e3o reduzido). Estes pontos foram ocasionalmente discutidos (a amplia\u00e7\u00e3o de possibilidades) e o ouvinte pode somar neste vago espa\u00e7o criativo. Tudo que n\u00f3s precisamos saber \u00e9 que a disposi\u00e7\u00e3o se multiplica e ornamenta\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o\/identifica\u00e7\u00e3o\/consumo\/prefer\u00eancias n\u00e3o deveriam ser evoca\u00e7\u00f5es que desorientem a percep\u00e7\u00e3o de tudo o que a m\u00fasica pode trazer.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-god-pussy-brasil-ep\/\" title=\"RESENHA: GOD PUSSY &#8211; BRA$IL (EP)\">RESENHA: GOD PUSSY &#8211; BRA$IL (EP)<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-natural-nihilismo-anistia\/\" title=\"RESENHA: NATURAL NIHILISMO &#8211; ANISTIA\">RESENHA: NATURAL NIHILISMO &#8211; ANISTIA<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/4-discos-mieta-stase-nobat-god-pussy\/\" title=\"4 DISCOS: MI\u00caTA, STASE, NOBAT, GOD PUSSY\">4 DISCOS: MI\u00caTA, STASE, NOBAT, GOD PUSSY<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/7-eps-ver-ceu-de-venus-cianeto-hc-abdala-god-pussy-zumpiattes-gael-conhece-o-mar-debate\/\" title=\"7 EPS: VER, C\u00c9U DE V\u00caNUS, CIANETO HC, ABDALA + GOD PUSSY, ZUMPIATTES, GAEL CONHECE O MAR, DEBATE\">7 EPS: VER, C\u00c9U DE V\u00caNUS, CIANETO HC, ABDALA + GOD PUSSY, ZUMPIATTES, GAEL CONHECE O MAR, DEBATE<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/bella-thomas-rohrer-inon\/\" title=\"BELLA &#038; THOMAS ROHRER &#8211; INON\">BELLA &#038; THOMAS ROHRER &#8211; INON<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os elementos dispostos nos mais diversos tipos de m\u00fasica podem significar um encontro com o conhecido mas tamb\u00e9m uma abertura entre suas inumer\u00e1veis multiplicidades. 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