{"id":48272,"date":"2017-04-02T12:11:45","date_gmt":"2017-04-02T15:11:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=48272"},"modified":"2017-04-09T15:27:47","modified_gmt":"2017-04-09T18:27:47","slug":"acidas-a-juventude-e-o-rock-triste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-juventude-e-o-rock-triste\/","title":{"rendered":"\u00c1CIDAS: A JUVENTUDE E O ROCK TRISTE"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"48273\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-juventude-e-o-rock-triste\/acidas1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/acidas1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"acidas1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/acidas1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/acidas1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-48273\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/acidas1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/acidas1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea \u00e9 adolescente \u00e9 aquela merda, e n\u00e3o importa a classe social: voc\u00ea tem necessidades de adulto &#8211; basicamente, fazer sexo com todo mundo que voc\u00ea queira fazer sexo e transtornar seu c\u00e9rebro com alguma subst\u00e2ncia que nunca \u00e9 legal juridicamente falando &#8211; mas n\u00e3o tem a maleabilidade de um adulto &#8211; basicamente, grana, porque ainda n\u00e3o tem idade pra ter uma profiss\u00e3o e os trabalhos que voc\u00ea consegue sequer pagam uma cesta b\u00e1sica, que tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 pra muita coisa.<\/p>\n<p>Talvez seja por isso que adolescente \u00e9 muito louco, pelo menos os adolescentes <em>normais<\/em>. O adolescente vive numa briga hom\u00e9rica com os seres da vida adulta, que exigem dele responsabilidade de adultos, mas o tratam como crian\u00e7as incapacitadas de um julgamento positivo.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 por isso que o rock e o <em>punk<\/em> se popularizaram. E o <em>grunge<\/em>. E qualquer tipo de m\u00fasica que seja minimamente agressiva. Adolescente de verdade n\u00e3o fica com frescura de ouvir baladinha porque ele consegue sexo de outra forma, quando consegue. E isso se d\u00e1 quando os adolescentes ficam chapados.<\/p>\n<p>Olha, os adultos j\u00e1 foram adolescentes um dia, claro, e sabem disso. Dificilmente o adolescente vai conseguir sexo levando o cara ou a garota ao cinema e tomando um sorvete depois. Dificilmente, vai gozar fora da masturba\u00e7\u00e3o se ficar com papos existencialistas <em>de cara limpa<\/em>.<\/p>\n<p>Eu, quando adolescente, nunca me dei muito bem com as drogas tradicionais. Maconha \u00e9 coisa de crian\u00e7a. Coca\u00edna \u00e9 coisa de perdedor. <em>Crack<\/em>, nem pensar. Sobram as bolinhas, os barbit\u00faricos, os \u00e1cidos. E o \u00e1lcool, claro, mesmo que a mistura dos dois quase nunca resulte em algo louv\u00e1vel.<\/p>\n<p>E sempre fui um cara solit\u00e1rio. Esse tro\u00e7o de &#8220;ir pra balada&#8221; em gangue me deprimia. Nem mesmo com um amigo ou amiga. Sozinho \u00e9 que voc\u00ea tem que enfrentar seus sucessos &#8211; mesmo que raros &#8211; e seus fracassos. Al\u00e9m do mais, eu sempre gostei de ir a endere\u00e7os menos atraentes. Com dezessete anos, comecei a frequentar um bar que parecia de beira de estrada, embora ficasse no est\u00f4mago de S\u00e3o Paulo. Ali, ningu\u00e9m perguntava sua idade, bastava sentar numa mesa, pedir uma bebida qualquer e esperar ela come\u00e7ar a matar seus neur\u00f4nios.<\/p>\n<p>Nunca soube o nome dos gar\u00e7ons (eram s\u00f3 dois), nem do cara que ficava atr\u00e1s do balc\u00e3o, que eu supunha ser o dono, mas um dos tr\u00eas era o respons\u00e1vel pela trilha sonora daquele lugar. Eu j\u00e1 conhecia das r\u00e1dios o The Cure, The Smiths, The Clash, essas coisas, mas de alguma forma inexplic\u00e1vel nesse universo, nas mi\u00fadas caixas de som daquele lugar, tais bandas andavam em alta rota\u00e7\u00e3o. Era, o que os anos de conv\u00edvio naquele palacete faziam supor, uma ou duas fitas cassete, no m\u00e1ximo, rolando sem parar. Terminava o lado A, vira o lado B. Termina o lado B, trocava de fita, e assim ia a noite inteira. Nos anos que vivi ali, jamais ouvi outro tipo de m\u00fasica e as pessoas simplesmente n\u00e3o se importavam com o que estava tocando. E nunca pediram pra mudar, pelo menos n\u00e3o que eu tenha visto.<\/p>\n<p>Pra mim, aquilo era o retrato da suprema felicidade. Os frequentadores daquele lugar n\u00e3o eram vencedores na vida. Estavam longe sequer de cogitar <em>empatar<\/em> na vida. Alguma coisa naquele ambiente, durante aquelas horas da noite, faziam com que eles se sentissem livres pra serem exatamente o que a chibata do labor di\u00e1rio n\u00e3o deixavam que eles fossem. E n\u00e3o h\u00e1 nada que traga mais felicidade a algu\u00e9m do que experimentar a liberdade, mesmo que fugaz.<\/p>\n<p>O bar n\u00e3o existe mais. Quando fui pro Rio de Janeiro morar algum tempo (foi s\u00f3 onde eu consegui arrumar emprego, gra\u00e7as a um amigo de um amigo que gostava do que eu escrevia), achei outros lugares semelhantes, mas nunca como aquele endere\u00e7o sem nome. Quando voltei a S\u00e3o Paulo, corri pra l\u00e1 e o bar j\u00e1 n\u00e3o existia mais. Hoje, \u00e9 uma loja de m\u00f3veis.<\/p>\n<p>Isso me d\u00e1 uma profunda tristeza. Uma pessoa precisa ter um bar pra chamar de seu. Aquele era o meu.<\/p>\n<p>Um amigo que tem rede social me contou que hoje em dia existe um tro\u00e7o chamado &#8220;rock triste&#8221;. Fiquei abismado com tamanho idiotice. Como um neg\u00f3cio que \u00e9 feito pra chutar canelas, enfrentar os pais, cuspir na cara da pol\u00edcia, derrubar governos e conquistas gal\u00e1xias pode virar uma coisa triste? No <em>meu bar<\/em>, o The Cure e o The Smiths &#8211; que s\u00e3o bandas basicamente melanc\u00f3licas, trilha pra certos suic\u00eddios e enforcamentos, a trajet\u00f3ria cantada dos perdedores &#8211; ofereciam m\u00fasicas pra momentos alegres e pra pessoas que simplesmente se transformavam na personifica\u00e7\u00e3o da felicidade, escarrando involuntariamente felicidade na cara de uma sociedade que resolveu vender felicidade at\u00e9 em propaganda de sabonete (eu j\u00e1 escrevi propaganda de sabonete vendendo felicidade, ent\u00e3o, acredite em mim).<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 pra se conformar com adolescentes que fazem rock triste. Na verdade, qualquer m\u00fasica triste. A m\u00fasica adolescente tampouco tem a obriga\u00e7\u00e3o de ser alegre, veja bem. A felicidade, como eu disse, hoje \u00e9 coisa pra publicit\u00e1rio. Adolesc\u00eancia \u00e9 uma fase triste pra caralho, eu sei disso. Mas se felicidade virou argumento pra publicit\u00e1rio vender produtos, por que tristeza virou r\u00f3tulo pra vender m\u00fasica?<\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o mais preocupadas em perseguir sua reden\u00e7\u00e3o da maneira que quiserem &#8211; e isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, normalmente \u00e9 um beco sem sa\u00edda, e pra tristezas eu aconselho o <em>blues<\/em>, algumas p\u00e9rolas do <em>jazz<\/em> ou at\u00e9 mesmo o tango, mas <em>jamais<\/em>, em hip\u00f3tese alguma, eu recomendaria qualquer rock pra uma pessoa triste. Quanto mais uma excresc\u00eancia como essa de &#8220;rock triste&#8221;.<\/p>\n<p>Pra n\u00e3o parecer um idiota completo, eu fui ouvir o que chamam de &#8220;rock triste&#8221;, mas j\u00e1 imaginando o que me esperava do outro lado. Sei que o editor deste site at\u00e9 curte umas coisas (pobre alma) e publica em suas p\u00e1ginas as m\u00fasicas dessa turma, mas essa gente n\u00e3o precisa de espa\u00e7o, talvez precise de compreens\u00e3o, de carinho ou mesmo de uma palmadas. Ou arrumar um emprego. Ou arrumar um bar pra chamar de seu, pra perceber a sua vida de uma outra maneira.<\/p>\n<p>No disco novo do <a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-the-jesus-mary-chain-damage-and-joy\/\" target=\"_blank\">Jesus &#038; Mary Chain<\/a> tem uma m\u00fasica chamada &#8220;Always Sad&#8221;. Ela \u00e9 a imita\u00e7\u00e3o de uma outra m\u00fasica que eles fizeram vinte anos atr\u00e1s, sem tirar nem por, &#8220;Sometimes Always&#8221; &#8211; o que \u00e9 deprimente, afinal como pode uma banda carecer tanto de criatividade a ponto de ter que se autoplagiar? &#8211; mas mesmo assim tem uma letra que vale o destaque, que \u00e9 simpl\u00f3ria como qualquer letra do Jesus &#038; Mary Chain: &#8220;acho que sempre estou triste \/ acho que estou sempre triste \/ porque voc\u00ea \u00e9 o melhor que eu posso ter&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que aprendemos a mec\u00e2nica dos novos tempos: h\u00e1 quem use a tristeza como ferramenta de cria\u00e7\u00e3o e h\u00e1 quem use a tristeza como uma trampolim de aproxima\u00e7\u00e3o e r\u00f3tulo de identifica\u00e7\u00e3o. A depress\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a e esse pessoal trata como se fosse algo nobre.<\/p>\n<p>Vou roubar um conselho j\u00e1 dado: &#8220;jovens, por favor, cres\u00e7am!&#8221; &#8211; mas n\u00e3o todos, s\u00f3 alguns.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-sem-passado-e-sem-futuro\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO\">\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-quatro-discos-quatro-vozes-so-mulheres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES\">\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-voo-sem-sentido-asas-pra-se-apoiar\/\" title=\"\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR\">\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-adaptacao-de-flores-silvestres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES\">\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-uma-voz-e-tudo\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO\">\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando voc\u00ea \u00e9 adolescente \u00e9 aquela merda, e n\u00e3o importa a classe social: voc\u00ea tem necessidades de adulto &#8211; basicamente, fazer sexo com todo mundo [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":48273,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1144],"tags":[2414],"class_list":["post-48272","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especiais","tag-acidas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/acidas1.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-cyA","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48272"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48272\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}