{"id":48499,"date":"2017-04-25T15:43:40","date_gmt":"2017-04-25T18:43:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=48499"},"modified":"2018-04-13T14:32:33","modified_gmt":"2018-04-13T17:32:33","slug":"mica-levi-o-salto-dos-palcos-pras-telas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/mica-levi-o-salto-dos-palcos-pras-telas\/","title":{"rendered":"MICA LEVI &#8211; O SALTO DOS PALCOS PRAS TELAS"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"48511\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/mica-levi-o-salto-dos-palcos-pras-telas\/micalevi1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/micalevi1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"micalevi1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/micalevi1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/micalevi1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-48511\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/micalevi1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/micalevi1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Foi uma experi\u00eancia bem profunda, fiquei obcecada com aquilo. Levei algo em torno de nove meses trabalhando com afinco. Criei meus pr\u00f3prios instrumentos no passado, mas nesse trabalho, usei basicamente viola pra compor e gravar, embora n\u00f3s tiv\u00e9ssemos outros m\u00fasicos de apoio, pra dar volume ao neg\u00f3cio (&#8230;) Compor pra um filme \u00e9 um novo territ\u00f3rio pra mim&#8221;, escreveu Mica Levi com exclusividade pro Guardian, em mar\u00e7o de 2014 (<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2014\/mar\/15\/mica-levi-under-the-skin-soundtrack\" target=\"_blank\">leia o original aqui<\/a>), relatando a experi\u00eancia de pisar no terreno cinematogr\u00e1fico pela primeira vez, com &#8220;Sob A Pele&#8221;, suspense que mostra Scarlett Johansson como uma alien\u00edgena sugando a pele, a vida e a ess\u00eancia de seus homens-presas.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o pouco habilidosa de Jonathan Grazer (de &#8220;Reencarna\u00e7\u00e3o&#8221;, 2004, com Nicole Kidman; e do interessante &#8220;Sexy Beast&#8221;, 2000, com Ben Kingsley) acabou sendo salva pelo clima criado pela fotografia escura de Daniel Landin e pela m\u00fasica soturna de Mica. Nessa obra, o ex-diretor de v\u00eddeos musicais (Massive Attack, Blur, The Dead Weather e Radiohead est\u00e3o no seu curr\u00edculo) deve muito aos dois, em especial \u00e0 senhorita Levi.<\/p>\n<p>&#8220;Ouvi a palavra &#8216;sobrenatural&#8217; sendo usada um par de vezes pra descrever a m\u00fasica, mas isso n\u00e3o era uma instru\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de Jon e Pete (<em>Peter Raeburn, produtor musical<\/em>). A ideia era seguir o personagem de Scarlett Johansson e tentar reagir em tempo real ao que ela estava experimentando, pra n\u00e3o antecipar-se ou refletir sobre as coisas que j\u00e1 aconteceram no filme. Algumas passagens tinham a inten\u00e7\u00e3o de ser bem dif\u00edceis mesmo. Se a sua vida est\u00e1 sendo sugada por um alien, n\u00e3o vai necessariamente soar muito agrad\u00e1vel&#8221;, segue ela.<\/p>\n<p>Mica Levi nasceu em 1987 em Watford, uma cidade suburbana a noroeste de Londres. Seus pais eram como &#8220;<em>nerds<\/em> da m\u00fasica&#8221;, ela gosta de dizer. O pai era um professor de m\u00fasica na Royal Holloway, da Universidade de Londres. A m\u00e3e, uma professora de violoncelo. Logo cedo, ainda crian\u00e7a, Levi aprendeu a viola, o violino e violoncelo. Ela estudou no Guildhall School Of Music And Drama, tamb\u00e9m em Londres.<\/p>\n<p>Aos trinta anos, j\u00e1 experimentou um bocado na vida. Conhecida como Micachu, criou o Micachu And The Shapes (com Raisa Khan nos teclados e Marc Pell na bateria) e lan\u00e7ou tr\u00eas conceituados discos, que foram avaliados como &#8220;<em>pop music<\/em> com <em>noise<\/em> e distor\u00e7\u00e3o&#8221;. Por causa dos compromissos com a banda, ela nunca se formou na faculdade.<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 que tudo ia bem. O primeiro disco, &#8220;Jewellery&#8221;, de 2009, ganhou cr\u00edticas variadas, embora na maioria das vezes elas se encontravam no lado do positivo. \u00c9 que Micachu fazia quase um pop infantil: era bonito, acess\u00edvel e melodioso, ao mesmo tempo em que tinha can\u00e7\u00f5es quebradas por instrumentos n\u00e3o usuais, por barulhos e por estranhezas diversas.<\/p>\n<p>V\u00eddeo de &#8220;Golden Phone&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8TRkZpFgJcI\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>V\u00eddeo de &#8220;Turn Me Well&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/d4OhRVn_b80\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Antes de Mica se aventurar pelas telas, com &#8220;Sob A Pele&#8221;, o trio ainda lan\u00e7ou &#8220;Never&#8221;, em 2012. O terceiro \u00e1lbum, de 2015, &#8220;Good Sad Happy Bad&#8221; curiosamente fez a banda mudar de nome pra&#8230; Good Sad Happy Bad. Mas ningu\u00e9m pareceu se importar muito, de fato.<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, chamando aten\u00e7\u00e3o da imprensa &#8220;alternativa&#8221; ou &#8220;indie&#8221;, acabou excursionando e tocando em festivais como V Festival, Bestival, CMJ, SXSW e o All Tomorrow&#8217;s Parties de maio de 2011, que teve curadoria do Animal Collective.<\/p>\n<p>&#8220;A m\u00fasica que eu compunha na faculdade era pra quarteto de cordas, usando um bocado de harmonias e t\u00e9cnicas. Pra &#8216;Sob A Pele&#8217;, n\u00f3s quer\u00edamos achar algo humano no som natural de um instrumento, pra da\u00ed ent\u00e3o desacelerar ou mudar o andamento e o tom e assim parecer desconfort\u00e1vel. O resultado soa assustador, mas quer\u00edamos que fosse <em>sexy<\/em>&#8220;, escreveu.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi em trilhas pra filmes que Mica Levi se inspirou pra estrear no cinema. Ela admite que teve influ\u00eancia de um monte de coisas do s\u00e9culo XX, como Giacinto Scelsi, Iannis Xenakis e John Cage, &#8220;esses grandes compositores que mudaram a m\u00fasica&#8221;, mas que tamb\u00e9m foi buscar no mundano uma leitura da personagem de Johansson: &#8220;tamb\u00e9m me inspirei na m\u00fasica de clubes de <em>striptease<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma experi\u00eancia totalmente diferente de fazer m\u00fasica como Micachu And The Shapes&#8221;, resume.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a na \u00edntegra a trilha de &#8220;Sob A Pele&#8221;:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/97853822\" width=\"540\" height=\"360\" frameborder=\"0\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Sim, parece \u00f3bvio que a m\u00fasica pop, a mais &#8220;alternativa&#8221; ou a &#8220;de mercado&#8221;, \u00e9 totalmente diferente da m\u00fasica pras telas. Elas seguem objetivos distintos. A m\u00fasica pop entret\u00e9m por si s\u00f3 &#8211; mesmo contestadora que seja, ela tem um cunho social bem aplic\u00e1vel &#8211; enquanto a m\u00fasica de cinema se presta a um produto mais amplo, o filme, que \u00e9 a obra de outros artistas, o diretor, o montador, o roteirista. Entretanto, Mica Levi acabou se destacando por justamente n\u00e3o fazer trilhas que se enquadram no usual. Suas notas n\u00e3o redundam a a\u00e7\u00e3o que se v\u00ea na tela.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o teria s\u00f3 essa experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica. Embora &#8220;Sob A Pele&#8221; n\u00e3o tenha sido bem recebido pela cr\u00edtica (aqui dou um chute baseado apenas no achismo: aposto que vai se tornar alguma esp\u00e9cie de <em>cult movie<\/em> em uma ou duas d\u00e9cadas, porque ele <em>tem cara<\/em> de filme B, o que pode gerar alguma nova vis\u00e3o e an\u00e1lise de uma pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o), Mica causou boa impress\u00e3o, a ponto de ser indicada ao Bafta. Nesse ano, ela concorreu com outro grande compositor sa\u00eddo do &#8220;indie&#8221; (desculpe-me pelo termo) e que tamb\u00e9m vem se firmando no cinema, J\u00f3hann J\u00f3hannsson (com &#8220;A Teoria De Tudo&#8221;). Ambos perderam pra Alexandre Desplat, por &#8220;O Grande Hotel Budapeste&#8221;.<\/p>\n<p>O chileno Pablo Larra\u00edn, diretor do inquietante &#8220;No&#8221;, de 2012, com Gabriel Garcia Bernal, ficou impressionado com o trabalho de Levi e a quis pra biografia de Jacqueline Kennedy que iria filmar em 2016. &#8220;Jackie&#8221; \u00e9 um filme exuberante muito gra\u00e7as ao roteiro sempre beirando o cl\u00edmax, ao show de interpreta\u00e7\u00e3o de Natalie Portman (sempre prestes a entrar em colapso), ao figurino e \u00e0 trilha de Levi, que acabou tamb\u00e9m sendo indicada ao Bafta (dois filmes, duas indica\u00e7\u00f5es, 100% de aproveitamento, e mais uma vez contra J\u00f3hannsson, que concorreu com &#8220;A Chegada&#8221;) e ao Oscar, vindo a perder ambos pra Justin Hurwitz, de &#8220;La La Land&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 um refor\u00e7o a ser feito: Levi \u00e9 s\u00f3 a quinta mulher a concorrer ao Oscar da categoria e a primeira mulher em dezesseis anos a ser indicada &#8211; a \u00faltima havia sido Rachel Portman, por &#8220;Chocolate&#8221;, de 2000 (que \u00e9 a \u00fanica mulher a ganhar na categoria, por &#8220;Emma&#8221;, de 1996).<\/p>\n<p>Em ambos os trabalhos, Mica n\u00e3o estava fazendo nem a sua m\u00fasica pop-torta, nem tampouco estava seguindo padr\u00f5es de trilha pra cinema. Ned Beauman, em fevereiro de 2017, resolveu escrever <a href=\"http:\/\/www.newyorker.com\/culture\/persons-of-interest\/mica-levis-anti-musical-soundtracks\" target=\"_blank\">um artigo sobre a obra cinematogr\u00e1fica dela<\/a>, pra revista New Yorker, com o t\u00edtulo &#8220;as trilhas intensamente n\u00e3o-convencionais de Mica Levi&#8221;, e com o subt\u00edtulo &#8220;a compositora indicada ao Oscar faz m\u00fasica que se recusa a acompanhar a a\u00e7\u00e3o&#8221;. No artigo, ela aponta a Beauman duas &#8220;escolas&#8221; de compositores pra cinema: o que tenta fazer algo novo e diferente e o que busca acelerar a trilha, como em filmes de a\u00e7\u00e3o, suspense, infantis.<\/p>\n<p>&#8220;Algumas das mais queridas primeiras experi\u00eancias de Levi com m\u00fasica orquestral foram as trilhas pra filmes da Disney, que ela via insistentemente quando crian\u00e7a &#8211; e ela considera &#8216;La La Land&#8217; (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/cidade-das-estrelas-a-musica-em-la-la-land\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">leia sobre essa trilha aqui<\/a>), que ela curtiu, como parte dessa tradi\u00e7\u00e3o. &#8216;O que &#8216;La La Land&#8217; tentou fazer \u00e9 trazer de volta uma forma de entretenimento, ao contr\u00e1rio de um bocado de outros filmes que t\u00eam por a\u00ed, incluindo &#8216;Jackie&#8217;, que \u00e9 um tanto m\u00f3rbido. Hoje em dia ainda se consegue esse tipo de entretenimento na Disneyl\u00e2ndia ou em filmes como &#8216;Ela Dan\u00e7a, Eu Dan\u00e7o 2&#8217;, mas as pessoas sentem falta disso em filmes pra adultos&#8221;, disse ela no artigo.<\/p>\n<p>&#8220;Nessa tradi\u00e7\u00e3o &#8211; e, de fato, na grande maioria dos filmes -, o que se espera \u00e9 que a m\u00fasica conjumine perfeitamente no espet\u00e1culo&#8221;, completa.<\/p>\n<p>Levi d\u00e1 a Beauman uma vis\u00e3o interessante: os expectadores n\u00e3o se tocam que os filmes t\u00eam m\u00fasica. \u00c9 bizarro ouvir tal afirma\u00e7\u00e3o, mas talvez seja pelo fato de que a m\u00fasica sempre esteve l\u00e1, ela simplesmente faz parte de um filme. Por isso, pouca gente nota. A m\u00fasica tem o poder de fazer crescer uma cena &#8211; inclusive nesses arrasa-quarteir\u00f5es <em>hollywoodianos<\/em>. Experimente tirar a m\u00fasica da cena de um filme qualquer e \u00e9 capaz do espectador n\u00e3o notar que falta algo, mas, no oposto, experimente colocar m\u00fasica numa cena sem m\u00fasica e ver\u00e1 como ela encorpa.<\/p>\n<p>&#8220;Randall Poster, um supervisor musical que j\u00e1 trabalhou em filmes de Martin Scorsese e Wes Anderson, \u00e9 um admirador da obra de Levi&#8221;, escreve Beauman. &#8220;Ele me disse que o que faz a trilha de &#8216;Jackie&#8217; ser incomum \u00e9 que ela \u00e9 elementar pra hist\u00f3ria e n\u00e3o um aditivo, \u00e9 a medula da narrativa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Pablo Larra\u00edn especialmente manifestou tal caracter\u00edstica com suas escolhas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica de Levi: ele aumentou a trilha no <em>mix<\/em> de \u00e1udio, e encontrou lugares inesperados pra encaix\u00e1-la. Uma das composi\u00e7\u00f5es mais marcantes na trilha de &#8216;Jackie&#8217; \u00e9 &#8216;Walk To The Capitol&#8217;. Se voc\u00ea ouve sem saber de que tipo de filme veio, pode imaginar, a partir das conhecidas cordas de Bernard Herrmann, que acompanha uma cena em que a hero\u00edna \u00e9 perseguida numa casa escura por um monstro, mas Larra\u00edn usou o tema pra prociss\u00e3o do funeral de JFK&#8221;, diz no artigo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4VvVCXPC3dQ\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Sobre tal cena, Levi disse a Beauman: &#8220;eu havia sugerido uma m\u00fasica diferente pra cena &#8211; que n\u00e3o era assustadora, que era mais emotiva, mais patri\u00f3tica, porque \u00e9 assim que eu a interpretei&#8221;. Esse \u00e9 um dos exemplos de como o diretor redefiniu a fun\u00e7\u00e3o da m\u00fasica. \u00c9 um trabalho conjunto, onde o autor (no caso, o diretor) tem a palavra final. &#8220;Embora Levi alegue que suas inten\u00e7\u00f5es eram &#8216;mais convencionais&#8217; que as de Larra\u00edn, o pr\u00f3prio diretor me disse o contr\u00e1rio&#8221;, conta Beauman: &#8220;ela n\u00e3o pega o caminho convencional &#8211; ela n\u00e3o encaixa uma nota &#8216;triste&#8217; numa cena triste; ela vai encontrar um tom emotivo que adicione mais emo\u00e7\u00e3o ao filme; sua sensibilidade revela uma outra dimens\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>As duas experi\u00eancias cinematogr\u00e1ficas de Levi foram amplas e distintas. Enquanto com a Micachu And The Shapes &#8211; a <em>m\u00fasica pop em si<\/em> &#8211; Mica Levi assumia um personagem que dava aos f\u00e3s at\u00e9 ali conquistados (e \u00e0 imprensa e ao selo Rough Trade) um certo e aguardado tipo de m\u00fasica, assumida como identidade do grupo, como compositora de trilha sonora, Levi precisa sempre come\u00e7ar do zero, inventando a partir da cria\u00e7\u00e3o de outras pessoas &#8211; o diretor e o roteirista. Na sua curta experi\u00eancia, teve dois filmes distintos.<\/p>\n<p>No primeiro, uma hist\u00f3ria <em>noir<\/em> passada na Esc\u00f3cia. Marcelo Hessel escreveu sobre o filme (<a href=\"https:\/\/omelete.uol.com.br\/filmes\/criticas\/sob-a-pele\/?key=87327\" target=\"_blank\">leia aqui<\/a>): &#8220;coincid\u00eancia ou n\u00e3o, o cabelo moreno da predadora alien\u00edgena vivida no filme por Scarlett Johansson est\u00e1 igualzinho ao de Monica Vitti em &#8216;A Noite&#8217;, o segundo filme da Trilogia da Incomunicabilidade de Antonioni. Pra espelhar a incompletude do ser, Glazer e sua protagonista refazem o trajeto do cineasta italiano por dias e noites, ruas e festas, num lugar onde tudo parece meio abandonado ou \u00e0 beira do fim &#8211; Mil\u00e3o no caso de &#8216;A Noite&#8217;, a Esc\u00f3cia e seus vazios em &#8216;Sob A Pele&#8217; (&#8230;) Glazer recorre a paisagens de impacto pra criar essa opressiva geografia humana &#8211; como a floresta de galhos-espinhos que &#8216;violentam&#8217; a protagonista &#8211; enquanto estiliza, com a ajuda da trilha sonora saliente de Mica Levi, as cenas das &#8216;refei\u00e7\u00f5es&#8217; da alien&#8221;.<\/p>\n<p>No segundo, um drama massacrante sobre as horas e dias que se seguem a partir do momento em que a esposa mais famosa do mundo perde o marido mais famoso do mundo, com os miolos dele espalhados em sua roupa elegante, tendo que dar satisfa\u00e7\u00e3o aos filhos e \u00e0 imprensa, parecer forte e determinada e enfrentar os novos habitantes do poder. Uma hist\u00f3ria real, ao contr\u00e1rio da alegoria do primeiro trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Porque ela era uma figura hist\u00f3rica real, porque ela era americana (<em>Levi, vale lembrar, \u00e9 inglesa<\/em>), fecha-se a caixa do que voc\u00ea pode fazer&#8221;, ela disse a Beauman. &#8220;Levi inspirou-se na pr\u00f3pria Jackie: &#8216;ela era leve e arejada e felina, ent\u00e3o pensei que a flauta seria bastante apropriada&#8217; &#8211; e partiu de uma m\u00fasica que os Kennedy poderiam gostar. (&#8230;) Ela evitou ouvir quaisquer grava\u00e7\u00f5es reais, de, por exemplo, Paul Winter Sextet dando o primeiro concerto de <em>jazz<\/em> na Casa Branca, em 1962. &#8216;Caso contr\u00e1rio, eu poderia apenas copi\u00e1-lo&#8217;, disse ela&#8221;.<\/p>\n<p>Do sobrenatural ao drama hist\u00f3rico, Levi deu um jeito de mesclar as duas experi\u00eancias. Beauman aponta que o &#8220;que faz as trilha de &#8216;Jackie&#8217; ser memor\u00e1vel \u00e9 que as texturas orquestrais familiares das prestigiadas biografias <em>hollywoodianas<\/em> foram mescladas com alguma coisa estranha, como se top\u00e1ssemos com a alien\u00edgena de &#8216;Sob A Pele&#8217; escondida do quarto de Abraham Lincoln&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UPxKRUgi5vs\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O universo da m\u00fasica pop\/rock sempre esteve rondando o cinema e seus personagens sendo reconhecidos por isso. Cher foi agraciada com o Oscar de melhor atriz, uma baita honraria, pelo boboca &#8220;Feiti\u00e7o Da Lua&#8221;, de Norman Jewison, de 1987. Jennifer Hudson n\u00e3o era uma cantora de sucesso como Cher quando ganhou o Oscar de atriz coadjuvante em 2007, por &#8220;Dreamgirls: Em Busca De Um Sonho&#8221;, de Bill Condon, mas a projetou ainda mais do que o programa &#8220;American Idol&#8221;. Os Beatles levaram a estatueta em 1971, por &#8220;Let It Be&#8221;, de Michael Lindsay-Hogg. Pelo filme de 2010, &#8220;A Rede Social&#8221;, de David Fincher, Trent Reznor, do Nine Inch Nails, surpreendeu e levou o Oscar de melhor trilha original. Annie Lennox (do Eurythmics), Stevie Wonder, Eminem, Elton John, Sam Smith, John Legend, Bob Dylan, Lionel Ritchie, Adele, Carly Simon, Phil Collins, Bruce Springsteen e Prince j\u00e1 levaram o Oscar de melhor can\u00e7\u00e3o. A lista segue.<\/p>\n<p>Mas Mica Levi parece j\u00e1 pertencer a uma esp\u00e9cie de casta de compositores, como Ryuichi Sakamoto (que levou o Oscar junto com David Byrne pela trilha de &#8220;O \u00daltimo Imperador&#8221;, 1987, de Bernardo Bertolucci), Reznor e J\u00f3hann J\u00f3hannsson, por exemplo, que transitam muito bem entre os palcos, as cr\u00edticas positivas, as vendas de discos e as telas de cinemas.<\/p>\n<p>Beauman pontua dizendo que &#8220;Levi n\u00e3o \u00e9 o tipo de experimentalista que persegue a aniquila\u00e7\u00e3o das velhas formas de atuar. &#8216;Voc\u00ea pode fazer algo novo, mas se voc\u00ea fizer isso com \u00f3dio das outras coisas, \u00e9 um tanto desagrad\u00e1vel, e o resultado n\u00e3o vai ser muito bom&#8217;. Pra ela, o maior valor \u00e9 a autenticidade. &#8216;Eu tenho que ficar com meus instintos. \u00c9 tudo o que eu tenho'&#8221;.<\/p>\n<p>Na linha t\u00eanue entre acertar e ser desastroso que um compositor de trilhas se equilibra, o instinto deve ser o instrumento mais afinado a soar.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-smiths-as-citacoes-de-morrissey-no-cinema\/\" title=\"THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA\">THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-catherine-spaak-lesercito-del-surf-1964\/\" title=\"REVISITANDO: CATHERINE SPAAK &#8211; L&#8217;ESERCITO DEL SURF (1964)\">REVISITANDO: CATHERINE SPAAK &#8211; L&#8217;ESERCITO DEL SURF (1964)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/david-shire-a-trilha-apocaliptica-nao-usada\/\" title=\"DAVID SHIRE &#8211; A TRILHA APOCAL\u00cdPTICA N\u00c3O USADA\">DAVID SHIRE &#8211; A TRILHA APOCAL\u00cdPTICA N\u00c3O USADA<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/meridian-west-a-banda-obscura-sem-disco-e-quase-esquecida\/\" title=\"MERIDIAN WEST &#8211; A BANDA OBSCURA, SEM DISCO E QUASE ESQUECIDA\">MERIDIAN WEST &#8211; A BANDA OBSCURA, SEM DISCO E QUASE ESQUECIDA<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-colecionador-sequestros-serial-killers-groupies-e-musica-pop\/\" title=\"O COLECIONADOR: SEQUESTROS, SERIAL KILLERS, GROUPIES E M\u00daSICA POP\">O COLECIONADOR: SEQUESTROS, SERIAL KILLERS, GROUPIES E M\u00daSICA POP<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Foi uma experi\u00eancia bem profunda, fiquei obcecada com aquilo. 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