{"id":48524,"date":"2017-04-28T14:18:38","date_gmt":"2017-04-28T17:18:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=48524"},"modified":"2018-04-13T14:32:16","modified_gmt":"2018-04-13T17:32:16","slug":"the-perfect-kiss-o-video-que-definiu-a-imagem-de-uma-banda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-perfect-kiss-o-video-que-definiu-a-imagem-de-uma-banda\/","title":{"rendered":"&#8220;THE PERFECT KISS&#8221;: O V\u00cdDEO QUE DEFINIU A IMAGEM DE UMA BANDA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"48528\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-perfect-kiss-o-video-que-definiu-a-imagem-de-uma-banda\/neworder11\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/neworder11.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"neworder11\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/neworder11.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/neworder11.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-48528\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/neworder11.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/neworder11.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Michael H. Shamberg \u00e9 um produtor de v\u00eddeo e cinema estadunidense. Seu nome voltou a ganhar as manchetes em 1\u00ba de novembro de 2014, quando os membros do New Order divulgaram uma nota de pesar pela sua morte (aos 62 anos): &#8220;estamos profundamente tristes por saber que nosso amigo e colega Michael H. Shamberg faleceu, ap\u00f3s uma longa luta contra uma doen\u00e7a neurol\u00f3gica&#8221;.<\/p>\n<p>Peter Hook, j\u00e1 n\u00e3o mais na banda, tamb\u00e9m soltou uma nota: &#8220;Michael foi um cara am\u00e1vel, seu trabalho em nossos v\u00eddeos, t\u00e3o importantes naquela \u00e9poca, definiram nossa imagem e uma era. Ele era um verdadeiro revolucion\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Ele dirigiu apenas um longa-metragem, chamado &#8220;Souvenir&#8221;, em 1996, que quase ningu\u00e9m viu ou se importou. Porque sua marca estava em outra \u00e1rea, a de v\u00eddeos promocionais de m\u00fasica, e como fundador da Factory Records nos Esteites (a Factory US) &#8211; al\u00e9m de grande amigo dos quatro integrantes do New Order.<\/p>\n<p>O Baltimore Sun, jornal da cidade que ele escolheu morar na sua \u00faltima d\u00e9cada de vida (ele nasceu em Nova Iorque), destacou sua import\u00e2ncia como uma &#8220;for\u00e7a art\u00edstica da natureza, produzindo videoclipes antes de qualquer um sequer ter ouvido falar de MTV&#8221;.<\/p>\n<p>A MTV \u00e9 de 1981 e o primeiro passo de Shamberg foi produzindo nesse mesmo ano o v\u00eddeo de um concerto do New Order em Nova Iorque. <\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, nascido dos escombros do suic\u00eddio de Ian Curtis, o New Order pouco mostrava o rosto em materiais oficiais. O primeiro disco, &#8220;Movement&#8221;, de 1981, e o segundo, &#8220;Power Corruption &#038; Lies&#8221;, de 1983, n\u00e3o tinham uma s\u00f3 imagem de qualquer integrante. Os <em>singles<\/em>, igualmente. Nos cartazes dos shows, idem. Numa \u00e9poca sem Internet e sem celulares pra tirar fotos a todo e qualquer momento, era bem dif\u00edcil manter esse distanciamento est\u00e9tico (aqui, no caso, a ideia era basicamente n\u00e3o parecer que a banda estivesse querendo aproveitar o suic\u00eddio do ex-companheiro pra se promover). O New Order tentou at\u00e9 onde foi poss\u00edvel ser a &#8220;banda sem rosto&#8221;.<\/p>\n<p>Ou at\u00e9 Shamberg. Suas cria\u00e7\u00f5es pra pe\u00e7as visuais como &#8220;True Faith&#8221;, &#8220;Blue Monday&#8221; (a vers\u00e3o 1988), &#8220;Touched By The Hand Of God&#8221; e &#8220;Round &#038; Round&#8221; se tornaram ic\u00f4nicas pra banda. Al\u00e9m do New Order, ele desenvolveu uma vis\u00e3o particular pra v\u00eddeos pro R.E.M., pro The B-52&#8217;s, pro Talking Heads e pra Patti Smith. Mas foi com um v\u00eddeo em particular que ele mudou a hist\u00f3ria da banda: &#8220;The Perfect Kiss&#8221;.<\/p>\n<p>O ano era 1985. O New Order precisava mudar sua abordagem com o p\u00fablico, depois do sucesso arrebatador de &#8220;Blue Monday&#8221;, dois anos antes. A banda precisava literalmente &#8220;mostrar a cara&#8221;. Shamberg foi ent\u00e3o escalado pra produzir uma pe\u00e7a visual que fosse a identidade da banda.<\/p>\n<p>Pouco antes, ele havia sido apresentado a Jonathan Demme, diretor que tinha alguns filmes no curr\u00edculo (nada muito relevante, a n\u00e3o ser a trama pseudo-<em>hitchcockiana<\/em> &#8220;O Abra\u00e7o Da Morte&#8221;, de 1979) e que havia ganho fama pela vibrante vis\u00e3o criada pro Talking Heads no document\u00e1rio &#8220;Stop Making Sense&#8221;, com David Byrne exibindo um terno enorme e, por conta disso, uma dan\u00e7a assombrosamente pl\u00e1stica.<\/p>\n<p>Shamberg resolveu convid\u00e1-lo pro trabalho. Os dois se encontraram no finado Caf\u00e9s Des Artistes (hoje funciona l\u00e1 o The Leopard At Des Artistes), do cr\u00edtico e chef h\u00fangaro George Lang, no n\u00famero um da West 67th Street, coladinho ao Central Park de Nova Iorque.<\/p>\n<p>Segundo Shamberg, comeram ovos de codorna e falaram sobre m\u00fasica: &#8220;por acaso, ele citou &#8216;Subway\/Sudan&#8217;, do Thick Pigeon, sem saber que a garota por tr\u00e1s daquela obra, Stanton Miranda, era minha namorada&#8221;, disse Shamberg.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BAb-ohCzD8s\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/i8ORwXc_Vp8\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Apesar de se entenderem sobre gostos musicais, Demme pediu vinte mil d\u00f3lares pra fazer o trabalho. Era um bocado de dinheiro, mas Shamberg acabou concordando. A ideia era fazer um curta-metragem. &#8220;A m\u00fasica tinha nove minutos e o New Order n\u00e3o faria uma vers\u00e3o editada&#8221;, escreveu certa vez Shamberg, &#8220;a mesma coisa tinha rolado com &#8216;Blue Monday&#8217;: as r\u00e1dios imploraram por uma &#8216;Blue Monday&#8217; editada quando ela virou sucesso; mas esse era uma grande qualidade da banda: n\u00e3o s\u00f3 ela fazia m\u00fasica boa, como fazia quest\u00e3o de manter certos valores e n\u00e3o se curvava \u00e0 ind\u00fastria&#8221;.<\/p>\n<p>A aposta alta de Shamberg em Demme se revelou um caso &#8220;quebrar a banca&#8221;. N\u00e3o dava pra saber ainda em 1985, mas aquele diretor se tornaria um dos maiores da hist\u00f3ria do cinema e isso aconteceria muito em breve.<\/p>\n<p>No ano seguinte, Demme lan\u00e7ou seu primeiro sucesso juvenil, &#8220;Totalmente Selvagem&#8221; com uma exuberante Melanie Griffith nos seus impactantes 29 anos. Depois, veio outra com\u00e9dia tipicamente novaiorquina, &#8220;De Caso Com A M\u00e1fia&#8221;, de 1988, sobre um agente do FBI que se apaixona pela vi\u00fava de um mafioso &#8211; a vi\u00fava \u00e9 ningu\u00e9m menos que Michelle Pfeiffer, ent\u00e3o com n\u00e3o menos exuberantes 30 anos.<\/p>\n<p>Da\u00ed, corte de tr\u00eas anos e&#8230; a gl\u00f3ria. Demme lan\u00e7ou em 1991 &#8220;Sil\u00eancio Dos Inocentes&#8221;, um filme que j\u00e1 nasceu cl\u00e1ssico, mostrando a uni\u00e3o de uma agente do FBI (Jodie Foster) com um perigoso psicopata, Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), pra tentar capturar um <em>serial killer<\/em>. A obra foi o grande sucesso de cr\u00edtica do ano e entrou pra hist\u00f3ria tamb\u00e9m pelos pr\u00eamios que conquistou. &#8220;O Sil\u00eancio Dos Inocentes&#8221; se igualou a &#8220;Aconteceu Aquela Noite&#8221; (Frank Capra, 1934) e a &#8220;Um Estranho No Ninho&#8221; (Milos Forman, 1975), como os \u00fanicos ganhadores dos cinco Oscar principais: filme, diretor, atriz, ator e roteiro.<\/p>\n<p>Sete anos depois de receber vinte mil d\u00f3lares pra filmar &#8220;The Perfect Kiss&#8221;, um videoclipe, Demme colocaria sua foto tr\u00eas por quatro na galeria dos maiores do cinema. E faria mais pela s\u00e9tima arte: embora tarde demais, &#8220;Filad\u00e9lfia&#8221; levou a quest\u00e3o da AIDS ao cinem\u00e3o; &#8220;O Casamento De Rachel&#8221; (2008) entregou uma obra transbordando sensibilidade; e ainda fez uma nova vers\u00e3o pra &#8220;The Manchurian Candidate&#8221; (2004), hist\u00f3ria quem em 1962 John Frankenheimer j\u00e1 havia levado ao cinema, com Frank Sinatra.<\/p>\n<p>Shamberg parece ter tido sorte, mas est\u00e1 mais pra um caso de algu\u00e9m que tem percep\u00e7\u00e3o apurada pro talento. Al\u00e9m de Demme, ele tamb\u00e9m contratou uma diretora em come\u00e7o de carreira, com apenas 37 anos, Kathryn Bigelow. A proposta de Shamberg pra Bigelow era bem mais ousada que a feita a Demme em &#8220;The Perfect Kiss&#8221;. Em 1989, a diretora que viria a ser a primeira mulher a ganhar um Oscar de dire\u00e7\u00e3o, por &#8220;Guerra Ao Terror&#8221; (2008), assumiu as lentes de &#8220;Touched By The Hand Of God&#8221;, m\u00fasica que nem em disco apareceu, pra mostrar que o New Order n\u00e3o era uma banda carrancuda, que era um quarteto que podia brincar e tirar sarro de si mesmo.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo caracteriza o New Order como uma banda de metal farofa, num palco farofa, com luzes-farofa, gelo seco e muita pose.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/T9M_bqIB6EU\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mas isso s\u00f3 seria poss\u00edvel porque a dupla Shamberg e Jonathan Demme moldaram a imagem do New Order como ela passaria a ser a partir dali. Pela primeira vez, em material promocional, os f\u00e3s veriam os rostos dos integrantes da banda que estourara com &#8220;Blue Monday&#8221;. Mesmo aqueles que conheciam os integrantes pelo Joy Division tinham um distanciamento visual e precisavam ser &#8220;apresentados&#8221; ao grupo.<\/p>\n<p>Nesse intuito, no acerto feito no Caf\u00e9 Des Artistes, Demme ficou sabendo que a banda n\u00e3o usaria <em>playback<\/em>: a performance teria que ser ao vivo e aconteceria no local de ensaios do grupo, na Inglaterra.<\/p>\n<p>Shamberg n\u00e3o pensava pequeno. Pra dire\u00e7\u00e3o de fotografia, pensou em ningu\u00e9m menos que Jack Cardiff, o &#8220;mestre das luzes e cores&#8221;, indicado quatro vezes ao Oscar e que j\u00e1 havia trabalhado em cl\u00e1ssicos de Alfred Hitchcock, John Huston, Joseph L. Mankiewicz e no &#8220;Guerra E Paz&#8221; filmado por King Vidor em 1956. S\u00f3 que Cardiff declinou, porque estava escrevendo sua autobiografia (&#8220;Magic Hour: A Life In Movies&#8221;, que saiu em 1997).<\/p>\n<p>Com a recusa, o produtor partiu pra outro grande nome, Henri Alekan, autor da fotografia do delicioso &#8220;A Princesa E O Plebeu&#8221;, de 1953, dirigido por William Wyler. Alekan foi indicado ao Oscar por esse filme, mas \u00e9 conhecido especialmente pela sua parceria com Joseph Losey, por &#8220;O Estado Das Coisas&#8221;, filme de 1982 de Win Wenders, e pelo cl\u00e1ssico absoluto de &#8220;A Bela E A Fera&#8221;, de Jean Cocteau, de 1946.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas disseram que ele n\u00e3o estaria interessado em fazer um v\u00eddeo de m\u00fasica pop, que n\u00e3o viajaria pra Manchester, e que de qualquer forma ia ser muito caro. Elas estavam erradas em todas essas senten\u00e7as. Como produtor, eu sempre ia at\u00e9 o fim no que eu queria. Se era o certo, acabava acontecendo&#8221;, escreveu Shamberg.<\/p>\n<p>Alekan tinha 76 anos em 1985. N\u00e3o era um mo\u00e7o como Demme (ent\u00e3o com 41), de modo que ele trouxe seu t\u00e9cnico Louyis Cochet junto. O diacho \u00e9 que Cochet tamb\u00e9m estava na casa dos setenta, com 71 anos. O primeiro grande v\u00eddeo do New Order estava na m\u00e3os e nos olhos de uma turma que podia ser de pai a av\u00f4 dos quatro integrantes.<\/p>\n<p>&#8220;Quando Alekan e Cochet chegaram ao aeroporto de Manchester, eu peguei a bagagem de Cochet pra ajudar, e ele bateu na minha m\u00e3o: queria ele mesmo carregar sua bagagem. E ao longo das filmagens ele se mostrava t\u00e3o \u00e1gil quanto um macaco, pra cima e pra baixo nas escadas, montando as luzes, sob a dire\u00e7\u00e3o de Alkean&#8221;, lembra Shamberg.<\/p>\n<p>Outro grande nome envolvido na produ\u00e7\u00e3o era Agn\u00e8s Godard, francesa que viria a ser uma das melhores diretores de fotografia do mundo, trabalhando nos filmes de Claire Denis.<\/p>\n<p>A primeira coisa que Alekan fez foi colocar grandes luzes pra iluminar o est\u00fadio, no lugar das entradas de luz natural. O que se v\u00ea no v\u00eddeo n\u00e3o \u00e9 o sol. Pros <em>closes<\/em> dos integrantes, Cochet teve que suavizar o fundo com um material tipo gaze. Como a banda estava tocando ao vivo, havia uma estrutura multicanal gravando cada tomada.<\/p>\n<p>&#8220;Uma vez que t\u00ednhamos um mestre em fotografia nos guiando, tive que filmar em pel\u00edcula de 35mm&#8221;, conta. &#8220;Imaginei que isso poderia ser um curta-metragem. Gravei as filmagens em Super-8 e tal filmagem pode ser vista no v\u00eddeo de &#8216;Shellshock&#8217;. Acho que Tony Wilson tinha esse material e o editor quis colocar os v\u00eddeos juntos. Eu gosto dele, mas toda vez que eu vejo o v\u00eddeo fico triste porque todo o material original foi perdido&#8221;, revela.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IdQW9eXJ4yY\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Depois da filmagem, fomos ao Hacienda. N\u00e3o s\u00f3 Alekan e Couchet foram com a gente, como eles ainda partiram pra paquera!&#8221;, se diverte Shamberg.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo foi feita em Londres. Quem assina a edi\u00e7\u00e3o \u00e9 outro grande nome: Tony Lawson, respons\u00e1vel por &#8220;Sob O Dom\u00ednio Do Medo&#8221; (1971) e &#8220;A Cruz De Ferro&#8221; (1977), ambos de Sam Peckimpah, que inovou nas montagens de seus filmes nos anos 1960 e 1970, e por &#8220;Barry Lyndon&#8221; (1975), de Stanley Kubrick. Foi Demme quem colocou Lawson na jogada. O filme foi editado na moviola e s\u00f3 com o material final alcan\u00e7ado \u00e9 que tudo foi transposto pra v\u00eddeo.<\/p>\n<p>Houve depois um problema b\u00e1sico: quando a edi\u00e7\u00e3o foi encerrada, era preciso mixar a m\u00fasica tocada ao vivo em v\u00e1rias tomadas. Depois da mixagem, foi preciso bater cada corte pra ver se havia sincronia. Isso demandou certo tempo &#8211; e dinheiro al\u00e9m do previsto.<\/p>\n<p>Com tudo encerrado, &#8220;The Perfect Kiss&#8221; acabou sendo exibido nos cinemas. Primeiro, por ajuda de Alekan, num cinema na Champs Elys\u00e9e, em Paris. Em Nova Iorque, o clipe passou como um curta antes da exibi\u00e7\u00e3o de &#8220;Stop Making Sense&#8221;. Em Londres, foi exibido antes da com\u00e9dia &#8220;Mal\u00edcia At\u00f4mica&#8221; (1985), de Nicolas Roeg. Tamb\u00e9m foi exibido em alguns festivais de cinema.<\/p>\n<p>&#8220;O filme foi bem caro. Se voc\u00ea considerar todos os elementos, deve ter custado mais de duzentas mil libras. Alguns anos depois, essa cifra se tornaria normal, mas pra Factory Records, era uma extravag\u00e2ncia&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Shamberg admite que apesar do alto custo, h\u00e1 erros crassos na obra. O principal motivo \u00e9 que a falta de planejamento n\u00e3o previu uma condi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica elementar: um filme em 35 mil\u00edmetros roda a vinte e quatro quadros por segundo. Quando se passa pro v\u00eddeo no formato europeu (PAL), ele roda a vinte e cinco quadros por segundo e nos Esteites (NTSC), a trinta quadros por segundo. Por isso, quando foi feita a capta\u00e7\u00e3o, Demme teve a preocupa\u00e7\u00e3o de j\u00e1 rodar a vinte e cinco quadros por segundo. Acontece que na exibi\u00e7\u00e3o nos cinemas, os projetores (anal\u00f3gicos) rodam a vinte e quatro quadros. &#8220;Quando o filme foi projetado, percebi que o som estava devagar&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Mas esse \u00e9 um problema pra quem vir a pe\u00e7a num cinema, algo que hoje em dia n\u00e3o acontece mais. S\u00f3 que h\u00e1 outros equ\u00edvocos. Se voc\u00ea olhar com aten\u00e7\u00e3o, ver\u00e1, por exemplo, que na cena final, Peter Hook toca um baixo que n\u00e3o coincide com a m\u00fasica. Ele termina de tocar antes do som do baixo acabar.<\/p>\n<p>Shamber escreveu que esse foi &#8220;um erro, sim, mas conhecido e proposital. N\u00e3o me lembro a raz\u00e3o exata pra isso, mas uma coisa que eu aprendi ao longo dos anos \u00e9 que \u00e9 necess\u00e1rio deixar um problema no produto acabado. Isso lhe d\u00e1 vida. Isso o torna mais arte e menos um produto comercial&#8221;.<\/p>\n<p>No final das contas, o resultado \u00e9 arrebatador. N\u00e3o h\u00e1 c\u00e2meras aceleradas. N\u00e3o h\u00e1 cortes excessivos. Os planos s\u00e3o longos. Os <em>closes<\/em> s\u00e3o amplos. N\u00e3o h\u00e1 efeitos de imagem. N\u00e3o h\u00e1 trucagem. N\u00e3o h\u00e1 movimentos de c\u00e2mera. \u00c9 o espectador e a banda. E a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Andrew Unterberger escreveu pra Billboard: &#8220;v\u00eddeos ao vivo s\u00e3o tradicionalmente orientados pra exaltar o artista, pra captur\u00e1-los no auge da sua for\u00e7a ao vivo e geralmente os fazem parecer como <em>superstars<\/em>. &#8216;The Perfect Kiss&#8217; n\u00e3o tem tais ilus\u00f5es ou ambi\u00e7\u00f5es. Ele captura o New Order num momento extremamente apreensivo, sem uma plateia ou <em>hype<\/em> ou nada disso, al\u00e9m da c\u00e2mera de frente pra eles (e de um par figuras desfocadas em sil\u00eancio observando a banda). \u00c9 de certa forma ir\u00f4nico, mas mostra uma vers\u00e3o bastante imperfeita desse <em>synth-pop<\/em> \u00e9pico. Em todo o v\u00eddeo, o New Order parece bem estressado. O v\u00eddeo capta precisamente o qu\u00e3o dif\u00edcil e estressante \u00e9 essa experi\u00eancia de tocar ao vivo &#8211; especialmente pra uma banda como o New Order, tocando composi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o metade programadas e metade org\u00e2nicas, onde h\u00e1 tantos ganchos diferentes e elementos r\u00edtmicos que Peter Hook tem que fazer malabarismo pra mudar do baixo pra bateria eletr\u00f4nica. Durante todo o v\u00eddeo, Demme capta os artistas em <em>close-up<\/em> &#8211; as suas express\u00f5es de concentra\u00e7\u00e3o sobre o que est\u00e3o tocando (ou se preparando pra tocar), e os dedos fazendo o trabalho real de tocar aquilo que se ouve &#8211; criando uma intimidade desconfort\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o de Demme e Shamberg era mostrar e despir a banda de toda e qualquer <em>mecanicidade<\/em>. Era mostrar que aqueles quatro indiv\u00edduos, a despeito de toda tecnologia e som eletr\u00f4nico que tirassem de seus instrumentos nada org\u00e2nicos, eram humanos, pessoas e n\u00e3o rob\u00f4s. &#8220;Blue Monday&#8221; n\u00e3o foi criada por m\u00e1quinas. O &#8220;som de sapo&#8221; de &#8220;The Perfect Kiss&#8221; tem o dedo humano pra extra\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Demme fez um excelente trabalho. Todo o nervosismo est\u00e1 ali. O New Order est\u00e1 jogando em casa, sem plateia, sem a press\u00e3o de <em>ter que acertar<\/em> (afinal, errando, era s\u00f3 come\u00e7ar a filmar de novo) e mesmo assim est\u00e1 incomodado com alguma coisa, em provavelmente parecer uma banda bem ensaiada e que sabia o que estava fazendo.<\/p>\n<p>Curiosamente, se a ideia era transformar os integrantes em &#8220;humanos&#8221;, o v\u00eddeo acabou fazendo deles uma banda carrancuda, refor\u00e7ado, claro, pelo fato dos shows do New Order daquela \u00e9poca serem extremamente frios na comunica\u00e7\u00e3o com a plateia: nenhum &#8220;boa noite&#8221;, nenhum &#8220;at\u00e9 logo&#8221;, sem sorrisos, sem intera\u00e7\u00f5es, nada. &#8220;The Perfect Kiss&#8221; foi o retrato perfeito do que era aquela banda &#8211; mesmo que <em>pare\u00e7a<\/em> em alguns momentos que Gilliam Gilbert esteja sorrindo. Talvez por isso o trabalho de Kathryn Bigelow, com &#8220;Touched By The Hand Of God&#8221;, seja t\u00e3o importante, desconstruindo essa imagem carrancuda.<\/p>\n<p>Quando &#8220;Low Life&#8221;, o terceiro disco do grupo, foi lan\u00e7ado, no mesmo ano de 1985, ali estava uma vers\u00e3o &#8211; ora veja s\u00f3! &#8211; editada de &#8220;The Perfect Kiss&#8221;, com quatro minutos a menos e fotos de todos os integrantes (Stephen Morris na capa). O New Order estava fazendo o jogo da ind\u00fastria ou s\u00f3 entregando um novo produto, duas &#8220;The Perfect Kiss&#8221; diferentes?<\/p>\n<p>Na Factory, o trabalho, apesar de caro, foi considerado uma obra de arte, nesses termos. O selo, que como qualquer outro enumera suas obras e lan\u00e7amentos conforme eles v\u00e3o saindo, deu ao <em>single<\/em> &#8220;The Perfect Kiss&#8221; a etiqueta &#8220;FAC 123&#8221;, quando foi ao mercado em 13 de maio de 1985. O v\u00eddeo dirigido por Jonathan Demme acabou, por obra do destino (ou por obra da mente amalucada de Tony Wilson, o capo do selo), recebendo a ordem &#8220;FAC 321&#8221;, o inverso da etiqueta do <em>single<\/em>.<\/p>\n<p>Nada parece acontecer ao acaso com o New Order.<\/p>\n<p>Jonathan Demme morreu em 27 de abril de 2017 como um dos grandes do cinema, mas tamb\u00e9m como o sujeito que pra muita gente criou o melhor e mais impressionante videoclipe da hist\u00f3ria da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Veja o v\u00eddeo:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x3XW6NLILqo\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/os-30-anos-da-morte-de-ian-curtis\/\" title=\"OS 30 ANOS DA MORTE DE IAN CURTIS\">OS 30 ANOS DA MORTE DE IAN CURTIS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/radiohead-webcast\/\" title=\"RADIOHEAD WEBCAST\">RADIOHEAD WEBCAST<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/tony-wilson\/\" title=\"TONY WILSON\">TONY WILSON<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/curtas-bem-curtas-e-outras-nem-tao-curtas\/\" title=\"CURTAS, BEM CURTAS E OUTRAS NEM T\u00c3O CURTAS\">CURTAS, BEM CURTAS E OUTRAS NEM T\u00c3O CURTAS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-smiths-as-citacoes-de-morrissey-no-cinema\/\" title=\"THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA\">THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael H. Shamberg \u00e9 um produtor de v\u00eddeo e cinema estadunidense. Seu nome voltou a ganhar as manchetes em 1\u00ba de novembro de 2014, quando [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":48528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363],"tags":[54,98],"class_list":["post-48524","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-cinema","tag-new-order"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/neworder11.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-cCE","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48524"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48524\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}