{"id":48634,"date":"2017-05-09T20:59:19","date_gmt":"2017-05-09T23:59:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=48634"},"modified":"2018-04-13T14:32:06","modified_gmt":"2018-04-13T17:32:06","slug":"o-punk-edificado-de-guy-debord","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-punk-edificado-de-guy-debord\/","title":{"rendered":"O PUNK EDIFICADO DE GUY DEBORD"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"48635\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-punk-edificado-de-guy-debord\/debord1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"debord1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-48635\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><em>Texto: Cristiano Bastos<\/em><\/p>\n<p>A palavra que melhor define uma paternidade musical do <em>punk<\/em> \u00e9 &#8220;inextric\u00e1vel&#8221;. Ainda que os Sex Pistols n\u00e3o tivessem sido forjados (e lucrado as maiores condecora\u00e7\u00f5es do levante, em 1977), um timbre com essas qualidades, inevitavelmente, teria se imposto: basta levar em conta o legado s\u00f4nico de bandas como, entre outras, New York Dolls, The Sonics, The Stooges, The Who e The Velvet Underground. Ou as centenas de bandas <em>psychopunkgarageiras<\/em> que, durante os anos 1960, literalmente proliferavam-se mundo afora.<\/p>\n<p>No plano da contesta\u00e7\u00e3o de c\u00e2nones art\u00edsticos e da ret\u00f3rica pol\u00edtica, contudo, a genealogia do <em>punk<\/em> tem outra ascend\u00eancia. Uma an\u00e1lise que remonta \u00e0s primeiras vanguardas de revolta contra a arte no S\u00e9culo XX, os &#8220;ismos&#8221;: futurismo, dada\u00edsmo e o obscuro \u2013 mas de significa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica decisiva \u2013 situacionismo.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, o futurismo de Fellipo Marinetti desencadeia uma nova vanguarda de revolu\u00e7\u00e3o contra os moldes impostos pela intelig\u00eancia produtora de arte no in\u00edcio do s\u00e9culo, fundindo, em um s\u00f3 expediente, a din\u00e2mica pintura-poesia-m\u00fasica-moda-pol\u00edtica com a arquitetura.<\/p>\n<p>Entusiastas da publicidade, o Primeiro Manifesto Futurista, redigido por Marinetti, em 1909, louvava a juventude, as m\u00e1quinas, o movimento, a energia, a guerra e a velocidade. Um incontest\u00e1vel pendor juvenil, que muito remete ao <em>punk<\/em>, pela semelhan\u00e7a de atitudes e o \u00edmpeto de reinventar.<\/p>\n<p>O elemento &#8220;destruir&#8221; \u00e9 o am\u00e1lgama entre <em>punk<\/em> e futurismo; a dicotomia est\u00e1 no &#8220;o qu\u00ea&#8221; precisamente destruir. O futurismo almejava dizimar modelos art\u00edsticos senis, imbu\u00eddo na rearquitetura da arte. Um dos n\u00facleos da rebeli\u00e3o <em>punk<\/em> \u00e9 a insubordina\u00e7\u00e3o contra os estandartes que levaram o rock \u00e0 monotonia e \u00e0 opul\u00eancia erudita. O fator musical que conflagrou seu acontecimento.<\/p>\n<p>Se o futurismo havia se maravilhado com a possibilidade est\u00e9tica da guerra (algo &#8220;ruidoso, veloz e teatral&#8221;), antes de ela ocorrer, o dada\u00edsmo insurgiu-se em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s fascina\u00e7\u00f5es desta ordem. Ainda que partilhassem da mesma revolta a determinado tipo de realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica, os dada\u00edstas estavam em disson\u00e2ncia face \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de arte. Surgido em 1916, em Zurique, na Su\u00ed\u00e7a, ao inverso do futurismo, o dada\u00edsmo n\u00e3o era um movimento propriamente art\u00edstico \u2013 &#8220;mais atitude do que estilo&#8221;, o movimento postulava.<\/p>\n<p>Erigido por uma linhagem de &#8220;artistas&#8221; avessos ao trabalho, que acreditavam estar alienados muito al\u00e9m das belas-artes, dos quais os mais loquazes expoentes s\u00e3o o poeta Tristan Tzara e o artista pl\u00e1stico Marcel Duchamp, o <em>dad\u00e1<\/em> agiu com atos subconscientes e formula\u00e7\u00f5es extravagantes nas investidas de sua plataforma ut\u00f3pica. A arte, segundo o credo dada\u00edsta, \u00e9 mera falsifica\u00e7\u00e3o imposta pela sociedade burguesa, uma v\u00e1lvula de seguran\u00e7a moral, id\u00eantica ao trabalho.<\/p>\n<p>Duchamp, o qual se declarava antiartista, dizia que &#8220;aqueles que olham \u00e9 que fazem os quadros&#8221;. Seu pr\u00f3prio caso \u00e9 bastante elucidativo nesse sentido. A contribui\u00e7\u00e3o de Duchamp pra dessacraliza\u00e7\u00e3o da aura de g\u00eanio ostentada pelos artistas, uma reminisc\u00eancia herdada do romantismo, ajudou a solucionar o enigma fant\u00e1stico do \u00e1timo criativo.<\/p>\n<p>Ao utilizar em obras objetos manufaturados, modificados ou n\u00e3o, Duchamp inaugura, assim, os chamados <em>ready-mades<\/em>. A pe\u00e7a &#8220;Fontaine&#8221;, de sua autoria, um mict\u00f3rio elevado ao estatuto de arte, \u00e9 mais perfeita configura\u00e7\u00e3o dessa possibilidade. Embora o <em>street punk<\/em> londrino tenha origens n\u00e3o-intelectuais, absorvidas de ferozes <em>slogans<\/em> de torcidas de futebol, como o Stretford End do Mancheste United (&#8220;N\u00f3s Odiamos os Humanos!&#8221; era o grito de guerra entoado) e a literatura <em>skinhead<\/em> de Richard Allen, alguns proto-punks politizados, egressos das academias de arte brit\u00e2nicas, como os membros da banda The Clash e o empres\u00e1rio Malcom McLaren, posteriormente retomaram doutrinas futuristas e dada\u00edstas. A absor\u00e7\u00e3o do conte\u00fado anarquista das duas escolas, um dia vanguardas, talvez tenha ocorrido justamente pelo car\u00e1ter monol\u00edtico dessas institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>Nos anos sessenta, McLaren era estudante da Croydon Art School, onde se tornou colega de Jamie Reid, futuro <em>designer<\/em> do Sex Pistols que, entre outros grafismos, foi respons\u00e1vel pela capa do <em>single<\/em> anti-jubileu &#8220;God Save The Queen&#8221;. &#8220;Eu aprendi pol\u00edtica e entendi o mundo atrav\u00e9s da hist\u00f3ria da arte&#8221;, rejubilava-se McLaren.<\/p>\n<p>A tem\u00e1tica antiarte\/anti-labor dos dada\u00edstas \u00e9 retomada de forma mais contundente, na d\u00e9cada de 50, na It\u00e1lia, pela Internacional Situacionista, sob a luz de Guy Debord. O termo &#8220;situacionismo&#8221;, que numa significa\u00e7\u00e3o estrita remete a posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas reacion\u00e1rias, conforme o panfleto n\u00famero 9 da Internacional Situacionista, de 9 de agosto de 1964, &#8220;\u00e9 uma palavra que cont\u00e9m em si mesma sua pr\u00f3pria cr\u00edtica; uma atividade que pretende fazer as situa\u00e7\u00f5es e n\u00e3o as examina em fun\u00e7\u00e3o de um valor explicativo ou qualquer outro&#8221;.<\/p>\n<p>Foi desse fil\u00e3o intelectual, na n\u00e3o reconhecida se\u00e7\u00e3o inglesa situacionista intitulada King Mob, que Malcolm McLaren usurparia ideias e emblem\u00e1ticos <em>slogans<\/em> pro estopim da <em>blank generation<\/em> \u2013 outro lampejo alheio, vislumbrado pelo prot\u00f3tipo <em>punkster<\/em> Richard Hell, do Television. Elementos visuais da cultura <em>underground<\/em> nova-iorquina, a comitiva <em>pop art<\/em> reunida em torno de Andy Warhol, na Factory, e os New York Dolls, tiveram assimila\u00e7\u00e3o de natureza distinta nessa g\u00eanese, assim como o extempor\u00e2neo <em>crossover<\/em> envolvendo pop, <em>power pop<\/em>, grupos revolucion\u00e1rios como, por exemplo, os Motherfuckers e os White Panthers e os estridentes MC5.<\/p>\n<p>A filosofia professada por McLaren era mais ou menos a seguinte: &#8220;se voc\u00ea n\u00e3o roubar as coisas que percebe a sua volta, s\u00f3 porque elas a inspiraram, ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 um est\u00fapido. O mundo \u00e9 feito de pl\u00e1gios&#8221;. Guy Debord, fil\u00f3sofo, agitador social, cineasta e aut\u00eantico misantropo de sua pr\u00e1xis, teve uma trajet\u00f3ria envolta em leg\u00edtimos desastres do destino, o que torna a confronta\u00e7\u00e3o com Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols, e o americano Darby Crash, vocalista do grupo The Germs (ambos vitimados pelo estilo de vida <em>punk<\/em>), uma extravagante coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>Autor da desdenhada obra &#8220;A Sociedade Do Espet\u00e1culo&#8221;, em 1967, mas de vital import\u00e2ncia pra alas extremistas em maio de 68, Debord viveu no isolamento, sendo ignorado tanto pela imprensa elitista quanto pelos l\u00fampen intelectuais. Desprezo que talvez encontre explica\u00e7\u00e3o no fato de ele mesmo intitular-se &#8220;doutor em nada&#8221;: nunca frequentou bancos acad\u00eamicos, tampouco abandonou as teorias que formulou. Retratos seus s\u00e3o raros e jamais concedeu uma entrevista sequer em toda vida.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"48636\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-punk-edificado-de-guy-debord\/debord2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"debord2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord2.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-48636\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord2.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord2.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Aumenta nele a m\u00e1cula de maldito o pai ter exaurido a fortuna da fam\u00edlia, acumulada durante gera\u00e7\u00f5es, e ter sido implicado no assassinato do amigo e editor G\u00e9rard Lebovici, em 1984, em Paris, incidente que justifica como &#8220;uma emboscada n\u00e3o explicada&#8221;. Debord publicou &#8220;A Sociedade Do Espet\u00e1culo&#8221; com o objetivo de legar um ap\u00eandice te\u00f3rico plaus\u00edvel aos situacionistas, at\u00e9 ent\u00e3o \u00f3rf\u00e3os de um, e obteve alguma repercuss\u00e3o nos meios intelectuais e estudantis franceses. Atrav\u00e9s de uma aleat\u00f3ria compila\u00e7\u00e3o de conceitos de concis\u00e3o afor\u00edstica sobre a l\u00f3gica de funcionamento do imp\u00e9rio midi\u00e1tico, o livro perfila uma acurada an\u00e1lise acerca da moderna sociedade de consumo.<\/p>\n<p>O desdobramento de imagens manufaturadas, transmitidas no feitio de eventos palp\u00e1veis de pol\u00edtica e de cultura, como substitutas da veemente a\u00e7\u00e3o criadora, \u00e9 a principal ins\u00edgnia situacionista contra a sociedade espetacular an\u00e1loga \u00e0 arte. Tal sociedade, no horizonte vislumbrado por Debord, fincada nos alicerces do espet\u00e1culo, \u00e9 &#8220;o capital em tal grau de acumula\u00e7\u00e3o que se personifica em imagem&#8221;.<\/p>\n<p>No artigo de 1988, &#8220;Coment\u00e1rios Sobre A Sociedade Espetacular\u201d \u2013 com dedicat\u00f3ria a Lebovici \u2013, Debord revela ter suprimido de &#8220;A Sociedade Do Espet\u00e1culo&#8221; in\u00fameras conclus\u00f5es relevantes. O intuito, segundo ele, foi privar os agentes do espet\u00e1culo de conhecerem detalhes sobre o organismo desta sociedade e gerar, deliberadamente, o ru\u00eddo que produz a desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No mesmo ensaio, Debord acautelava-se: &#8220;\u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o que, dessa elite que vai se interessar pelo texto, quase metade \u00e9 formada pelos que se esfor\u00e7am pra manter o sistema de domina\u00e7\u00e3o espetacular, e a outra metade por aqueles que se obstinam em agir em sentido oposto. Como devo levar em conta leitores muito atentos e de tend\u00eancias diversas, \u00e9 evidente que n\u00e3o posso falar com inteira liberdade. Devo ter cautela pra n\u00e3o ensinar demais&#8221;. Mas o protecionismo de informa\u00e7\u00f5es de Debord justifica-se, levando em conta que Malcolm McLaren certamente deveria ser um desses leitores bastante atentos.<\/p>\n<p>O homem que &#8220;inventou o <em>punk<\/em>&#8220;, egresso da King Mob, abandonou a causa revolucion\u00e1ria situacionista e transformou a cr\u00edtica anticapitalista e antiarte numa forma de encher os bolsos de dinheiro. A King Mob, na verdade, apesar da ret\u00f3rica situacionista, tinha sua ascens\u00e3o de outros grupos. McLaren, por exemplo, vinha da cena <em>freak<\/em> anarquista em Notting Hill, oeste de Londres. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 limites \u00e0 nossa total aus\u00eancia de lei&#8221;, promulgavam no volante impresso King Mob Echo.<\/p>\n<p>Da King Mob, McLaren deu prosseguimento \u00e0 farsa ao encampar frases de efeito da cartilha situacionista e aplic\u00e1-las aos Sex Pistols, dando-lhes sem\u00e2ntica e alvos novos. &#8220;Fique Puto, Destrua&#8221; (&#8220;Get Pissed, Destroy&#8221;), de &#8220;Anarchy In The UK&#8221; \u2013 banida das r\u00e1dios \u2013 e &#8220;Sem Futuro&#8221; (&#8220;No Future&#8221;), da m\u00fasica hom\u00f4nima, epistemologicamente, muito traduzem o apocalipse situacionista da arte, a qual, pra ser realizada, antes deve ser destru\u00edda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cBojbjoMttI\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BIlUvEOhFos\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Debord e seu s\u00e9quito, todavia, n\u00e3o estavam nem um pouco interessados quanto \u00e0 representa\u00e7\u00e3o da King Mob em solo brit\u00e2nico. Um coment\u00e1rio realizado na Internacional Situacionista 12 evidenciava a avers\u00e3o dos debordistas \u00e0 fra\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica: &#8220;uma trupe chamada King Mob (&#8230;) passa-se, de maneira bastante err\u00f4nea, por ligeiramente pr\u00f3-situacionista&#8221;. Pro filosofo, o espet\u00e1culo \u00e9 apenas o aspecto mais vis\u00edvel e superficial de uma verdadeira maquinaria de manipula\u00e7\u00f5es que fragmenta a vida cotidiana em imagens. Essa imag\u00e9tica, veiculada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, induz os indiv\u00edduos a consumir, passivamente, tudo o que efetivamente lhes falta na vida real.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo \u00e9 administrado pelo pr\u00f3prio espet\u00e1culo, uma entidade viva governando a sociedade. Esse fen\u00f4meno, fruto independente de sua cogni\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma artimanha, esp\u00e9cie de conluio maligno engendrado pelas sociedades capitalistas, que tornaram a economia um fim e a aliena\u00e7\u00e3o, subsidiada pelo espet\u00e1culo, uma forma de dom\u00ednio. Debord critica at\u00e9 mesmo os meta-debates realizados sobre o espet\u00e1culo, atribuindo-lhes o ep\u00edteto de &#8220;discuss\u00f5es vazias&#8221;. As diretrizes dessas discuss\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o ditadas pelo espet\u00e1culo, a fim de que n\u00e3o revelem absolutamente nada sobre sua pragm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Algumas teoriza\u00e7\u00f5es envolvendo a Internacional Situacionista e o <em>punk<\/em>, por\u00e9m, est\u00e3o inventariadas em an\u00e1lises das quais se depreende certo nonsense ao concatenar as duas unidades. O jornalista americano Greil Marcus, utilizando o m\u00e9todo de livre associa\u00e7\u00e3o no livro &#8220;Lipstick Traces&#8221; (&#8220;Marcas De Batom&#8221;), de 1990, faz interliga\u00e7\u00f5es geneal\u00f3gicas que culminam em fatos referentes a ambos. Por exemplo: a semelhan\u00e7a fon\u00e9tica entre John of Leyden (pertencente \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do &#8220;Livre Esp\u00edrito&#8221; das heresias medievais) e Johnny Lydon (nome de Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols), \u00e9 encarada por Marcus como uma &#8220;releitura radical e extravagante da hist\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p>Marcus, entre outras considera\u00e7\u00f5es, postula que &#8220;a Internacional Situacionista foi uma bomba, que passou despercebida no seu tempo, e iria explodir d\u00e9cadas depois sob a forma de &#8216;Anarchy In The Uk&#8217; e &#8216;Holydays In the Sun'&#8221;. O autor credita a McLaren uma conex\u00e3o entre os dois movimentos. O ide\u00e1rio fa\u00e7a-voc\u00ea-mesmo, todavia, praticado singularmente pelo <em>punk<\/em>, cuja principal alavanca foi McLaren, na encarna\u00e7\u00e3o do Sex Pistols, j\u00e1 \u00e9 semeado pelos situacionistas em 1960. Na Internacional Situacionista 4, de 17 de maio, o papel do sujeito comum \u2013 imberbe nas grandes massas \u2013 pode ser o de realizador art\u00edstico e o nascimento da m\u00e1xima fa\u00e7a-voc\u00ea-mesmo fica visivelmente percept\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;Inauguramos agora o que ser\u00e1, historicamente, o \u00faltimo dos of\u00edcios. O papel de situacionista, de amador-profissional, de antiespecialista, \u00e9 ainda uma especializa\u00e7\u00e3o at\u00e9 o momento da abund\u00e2ncia econ\u00f4mica e mental no qual todo mundo se tornar\u00e1 &#8216;artista&#8217;, num sentido que os artistas n\u00e3o alcan\u00e7aram: a constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida&#8221;.<\/p>\n<p>E a quest\u00e3o da erudi\u00e7\u00e3o sonora proposta pelos praticantes do chamado rock progressivo (que reinou despoticamente em respeit\u00e1vel parte dos anos 70 e terminou por desencadear outra leg\u00edtima revolta <em>punk<\/em>), \u00e9 hom\u00f3loga ao desgosto tanto de <em>punks<\/em> quanto de situacionistas, na figura de Debord, ao car\u00e1ter experimental da m\u00fasica. Johnny Rotten celebrizou-se ao vestir uma camiseta com os enf\u00e1ticos dizeres &#8220;I Hate Pink Floyd&#8221; na \u00e9poca em que a banda era a divindade intocada da gera\u00e7\u00e3o progressiva e gigante da m\u00fasica pop de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1967, \u00e0s v\u00e9speras de o Pink Floyd lan\u00e7ar o primog\u00eanito \u00e1lbum &#8220;The Piper At The Gates Of Dawn&#8221;, o baixista Roger Waters escreveu uma esp\u00e9cie de mini manifesto, distribu\u00eddo pela gravadora inglesa EMI como parte da estrat\u00e9gia de divulga\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e9poca, o r\u00f3tulo &#8220;rock progressivo&#8221; nem havia sido cunhado e o sistema nervoso da banda ainda era Syd Barret, que vitimado de outra modalidade de misantropia, a lis\u00e9rgica, foi literalmente segregado da banda no disco seguinte, &#8220;A Saucerful Of Secrets&#8221; (1968). Waters parece escarnecer do sentido &#8220;anti&#8221; que certos movimentos se revestem. O que pronuncia no manifesto soa como uma r\u00e9plica \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da m\u00fasica experimentalista que Debord tanto execrava e um anticorpo \u00e0 avers\u00e3o e o \u00f3dio dos <em>punks<\/em> ao rock sinf\u00f4nico de exatamente dez anos depois. &#8220;Tocamos como queremos e o que achamos de novo. Somos a orquestra do movimento alternativo porque tocamos o que as pessoas livres querem ouvir. N\u00e3o somos um anti-grupo, n\u00e3o somos anarquistas: somos a favor da liberdade, da criatividade e da beleza&#8221;.<\/p>\n<p>O caso envolvendo a m\u00fasica \u2013 talvez a \u00fanica ramifica\u00e7\u00e3o das artes que possa se dar ao luxo de renegar padr\u00f5es r\u00edgidos de educa\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m foi a fagulha de desencontros ideol\u00f3gicos na Internacional Situacionista. Dicotomias internas, envolvendo conceitos d\u00edspares de um mesmo credo, deixaram \u00e0 mostra a aus\u00eancia de din\u00e2mica interna. Um desses embates sucedeu-se entre Debord e o m\u00fasico situacionista Walter Olmo, que apresentou um texto chamado &#8220;Por Um Conceito De M\u00fasica Experimental&#8221;. O escrito, radicalmente recha\u00e7ado por Debord, onde Olmo relatava suas pesquisas musicais referentes a constru\u00e7\u00f5es de ambi\u00eancias, \u00e9 relegado \u00e0 &#8220;atitude t\u00edpica do pensamento de direita&#8221;. O ensaio custou a expuls\u00e3o sum\u00e1ria de Olmo da Internacional Situacionista. Outra pol\u00eamica de Olmo em torno das experimenta\u00e7\u00f5es \u00e9 relacionada \u00e0 inven\u00e7\u00e3o do teremin\u00f3fano, uma traquitana emissora de notas, vari\u00e1veis conforme o ir e vir de pessoas em uma galeria de arte.<\/p>\n<p>No cerne dos situacionistas, nova incompatibilidade \u00e9 denotada pela ala de Munique, representada pela revista Spur, editada pelo grupo Spur, em 1960. O Spur apostava na produ\u00e7\u00e3o coletiva e n\u00e3o competitiva da arte, contrastando com os arraigados objetivos de supress\u00e3o propostos por Debord. &#8220;A arte n\u00e3o tem nada a ver com verdade. A verdade est\u00e1 entre entidades. Querer ser objetivo \u00e9 ser parcial. Ser parcial \u00e9 pedante e entediante&#8230; N\u00d3S EXIGIMOS O KITSCH, A SUJEIRA, A GOSMA PRIMORDIAL, O DESERTO. A arte \u00e9 o monte de excremento no qual o <em>kitsch<\/em> cresce. Em vez de idealismo abstrato, queremos niilismo honesto&#8221;, atestava a reclamat\u00f3ria de 1961, publicada no peri\u00f3dico.<\/p>\n<p>Em 1978, o ativista situacionista David W., centrado em Guy Debord, no texto &#8220;The End Of Music&#8221;, reprova o trabalho do programador visual do Sex Pistols, Jamie Reid. O <em>designer<\/em> era colaborador de um ve\u00edculo oficial dos situacionistas, o Point Blank, e utilizou algumas das imagens que produziu na capa do <em>single<\/em> &#8220;Pretty Vacant&#8221;. Pelo ponto de vista de W., Reid estava suprindo a renegada King Mob de trabalhos pertencentes \u00e0 Internacional Situacionista.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"48637\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-punk-edificado-de-guy-debord\/debord3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"debord3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord3.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-48637\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord3.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/debord3.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Malcolm McLaren&#8221;, protesta ele, &#8220;empres\u00e1rio dos Sex Pistols, foi amigo de indiv\u00edduos versados na cr\u00edtica situacionista na Inglaterra e se apropriou de alguns dos <em>slogans<\/em> e atitudes daquele ambiente. O EP &#8220;Pretty Vacant&#8221; foi promovido por um p\u00f4ster com fotos cortadas de dois \u00f4nibus indo na dire\u00e7\u00e3o das palavras &#8220;t\u00e9dio&#8221; e &#8220;lugar nenhum&#8221; \u2013 imagem tirada direto das p\u00e1ginas de Point Blank&#8221;.<\/p>\n<p>Quando, em 1989, Debord publicou um dos seus \u00faltimos escritos, &#8220;Coment\u00e1rios Sobre A Sociedade Espetacular\u201d, arguindo que as premoni\u00e7\u00f5es feitas 1967 tornaram-se verdades, fez apenas uma ressalva: a sociedade espetacular, no mundo contempor\u00e2neo, transmutou-se numa nova forma, definitivamente integrada ao espet\u00e1culo. De maneira an\u00e1loga ao <em>punk<\/em>, Debord privilegiou um estilo de vida \u00e0s margens dos oficialismos; das artes, da pol\u00edtica e das institui\u00e7\u00f5es. Em dezembro de 1994, contando ent\u00e3o 64 anos e vivendo no mais restrito isolamento, Debord escolhe pelo suic\u00eddio.<\/p>\n<p>A imprensa francesa, que o havia repudiado durante mais de quarenta anos, de maneira absurdamente ir\u00f4nica, constr\u00f3i sobre ele o estere\u00f3tipo de celebridade hollywoodiana, reprocessando seu libelo, de p\u00edfio subproduto cultural, a objeto de culto em diversos pa\u00edses. Tal como ocorreu com o <em>punk<\/em>, \u00e0 medida que, de <em>underground<\/em>, passou a &#8220;Top Of The Pops&#8221;. A &#8220;Sociedade Espetacular&#8221;, contra a qual Debord e o <em>punk<\/em> debateram-se a vida inteira, n\u00e3o concederia indulg\u00eancias nem mesmo aos seus maiores vision\u00e1rios.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=q0AJ66Rb-1o\" target=\"_blank\">Clicando aqui, voc\u00ea pode ver na \u00edntegra o filme sobre a &#8220;Sociedade Do Espet\u00e1culo&#8221;<\/a>, legendado em portugu\u00eas. Fa\u00e7a isso.<\/p>\n<p><em>Cristiano Bastos \u00e9 jornalista. Autor dos livros &#8220;Gauleses Irredut\u00edveis&#8221; e &#8220;Julio Reny \u2013 Hist\u00f3rias De Amor &#038; Morte&#8221;. Atualmente biografa o artista J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3. O texto acima foi publicado originalmente em duas partes nas edi\u00e7\u00f5es de agosto e setembro de 2000 da revista portuguesa Mondo Bizarre (o texto tamb\u00e9m pode ser encontrado em outros sites e publica\u00e7\u00f5es, bastando achar em seu mecanismo de busca preferido). A publica\u00e7\u00e3o aqui foi revisada pelo pr\u00f3prio Cristiano Bastos, especialmente pro Floga-se<\/em><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/10-videos-em-versao-lego\/\" title=\"10 V\u00cdDEOS EM VERS\u00c3O LEGO\">10 V\u00cdDEOS EM VERS\u00c3O LEGO<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-primeiro-show-do-public-image-limited-a-negacao-de-um-heroi\/\" title=\"O PRIMEIRO SHOW DO PUBLIC IMAGE LIMITED &#8211; A NEGA\u00c7\u00c3O DE UM HER\u00d3I\">O PRIMEIRO SHOW DO PUBLIC IMAGE LIMITED &#8211; A NEGA\u00c7\u00c3O DE UM HER\u00d3I<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/video-sex-pistols-holiday-in-the-sun\/\" title=\"V\u00cdDEO: SEX PISTOLS &#8211; HOLIDAY IN THE SUN\">V\u00cdDEO: SEX PISTOLS &#8211; HOLIDAY IN THE SUN<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/veja-na-integra-o-ultimo-show-do-sex-pistols\/\" title=\"VEJA NA \u00cdNTEGRA O \u00daLTIMO SHOW DO SEX PISTOLS\">VEJA NA \u00cdNTEGRA O \u00daLTIMO SHOW DO SEX PISTOLS<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/os-discos-mais-valiosos-da-historia\/\" title=\"OS DISCOS MAIS VALIOSOS DA HIST\u00d3RIA\">OS DISCOS MAIS VALIOSOS DA HIST\u00d3RIA<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Cristiano Bastos A palavra que melhor define uma paternidade musical do punk \u00e9 &#8220;inextric\u00e1vel&#8221;. 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