{"id":50487,"date":"2017-12-04T11:04:00","date_gmt":"2017-12-04T13:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=50487"},"modified":"2017-12-04T11:05:16","modified_gmt":"2017-12-04T13:05:16","slug":"resenha-vitor-brauer-o-anjo-azul-m-nosferatu-ou-a-trilogia-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-vitor-brauer-o-anjo-azul-m-nosferatu-ou-a-trilogia-do-cinema\/","title":{"rendered":"RESENHA: VITOR BRAUER &#8211; O ANJO AZUL (+ &#8220;M&#8221; + &#8220;NOSFERATU&#8221; &#8211; OU: A TRILOGIA DO CINEMA)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"50489\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-vitor-brauer-o-anjo-azul-m-nosferatu-ou-a-trilogia-do-cinema\/vitorbrauer-capa-oanjoazul\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,540\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"vitorbrauer-capa-oanjoazul\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?resize=540%2C540\" width=\"540\" height=\"540\" class=\"alignnone size-full wp-image-50489\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?resize=83%2C83&amp;ssl=1 83w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/vitorbrauer-capa-oanjoazul.jpg?resize=55%2C55&amp;ssl=1 55w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><strong>Os sonhos do campon\u00eas<\/strong><br \/>\n&#8220;Os movimentos que operam revolu\u00e7\u00f5es no mundo nascem dos sonhos e das vis\u00f5es no cora\u00e7\u00e3o de um campon\u00eas nas encostas de um morro&#8221;<br \/>\n\u2015 James Joyce, &#8220;Ulisses&#8221;<\/p>\n<p>Assumir que se tornou mais do que imaginava um dia revela uma inquietude brutal no lirismo de Vitor Brauer. A continuidade insistente dos seus mais diferentes trabalhos nos \u00faltimos, ao menos, sete anos pode ser descrita por palavras que o pr\u00f3prio n\u00e3o hesitou ao colocar em &#8220;Minha Banda Pt.2 (Lupe De Lupe)&#8221;: tempo livre e disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Disposi\u00e7\u00e3o pouco vista no circuito independente, onde a paralisia criativa pode ser percebida em repeti\u00e7\u00f5es exaustivas de f\u00f3rmulas e adapta\u00e7\u00f5es a nichos espec\u00edficos, caindo numa zona de conforto em que se estabelece mais uma troca de amizades do que m\u00fasica, necessariamente. A mente de Brauer importa mais do que \u00e9 esperado pelos f\u00e3s de algo t\u00e3o redutivo quanto <em>shoegaze<\/em> ou <em>post-rock<\/em>: seu jeito pouco pol\u00edtico \u00e9 alavancado pela pr\u00f3pria disposi\u00e7\u00e3o em n\u00e3o bancar, sempre, o f\u00e1cil entendimento. Absorvendo diversas sonoridades e transpondo-as a uma est\u00e9tica pr\u00f3pria, tudo o que parece &#8220;epifania&#8221; em seus trabalhos, na verdade, \u00e9 fruto de uma perspic\u00e1cia incisiva perante o ambiente que o cerca. Dirige-se, constantemente, pra locais ainda n\u00e3o explorados e evidencia as influ\u00eancias que o levaram at\u00e9 ali. Nem sempre de f\u00e1cil rastreamento, a explicita\u00e7\u00e3o de tantas refer\u00eancias (desde animes at\u00e9 a m\u00fasica tradicional brasileira) mostra que Vitor n\u00e3o tem vergonha nenhuma de se apropriar dos v\u00e1rios elementos j\u00e1 lapidados e (tentar) dom\u00e1-los \u00e0 sua maneira.<\/p>\n<p>Em &#8220;History Eraser&#8221;, Courtney Barnett revela que  -em seus sonhos &#8211; escreveu a melhor can\u00e7\u00e3o que j\u00e1 havia escrito e, ao acordar, n\u00e3o se lembrou de como ela era. Os sonhos, pra Vitor, s\u00e3o algo al\u00e9m: eles t\u00eam estrutura suficiente pra configurar um tra\u00e7o do real e n\u00e3o s\u00e3o menos importantes do que \u00e9 concreto, ou seja, n\u00e3o s\u00e3o intang\u00edveis. O m\u00e9todo pra isso \u00e9 quebrar com provincianismos que domam a totalidade da experi\u00eancia humana. Utilizando diversas formas de c\u00f3digos, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de &#8220;democracia da abordagem&#8221; que refrata uma totaliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Sonhar e praticar os sonhos \u00e9 destituir a pris\u00e3o que o prende. Partilhar as propriedades de uma biografia e potencializar sonhos em can\u00e7\u00f5es origina um movimento impulsivo n\u00e3o s\u00f3 no m\u00fasico, mas em quem consome suas produ\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. Por n\u00e3o estar satisfeito com o espectro de &#8220;provincianismo&#8221;, que ronda qualquer pessoa ambiciosa, jamais se pode falar numa &#8220;aspira\u00e7\u00e3o&#8221; ao total em suas m\u00fasicas, mas sim microrrompimentos que tentam for\u00e7ar mudan\u00e7as constantes.<\/p>\n<p>Regras da m\u00fasica nacional contempor\u00e2nea n\u00e3o aparecem em suas composi\u00e7\u00f5es: h\u00e1 sempre um preenchimento apaixonado que rompe com os la\u00e7os sonoros que estruturam outros trabalhos. A recusa aos procedimentos espec\u00edficos, no entanto, n\u00e3o impossibilita o aspecto de uni\u00e3o esbo\u00e7ado em suas letras. Caminhar com suas pr\u00f3prias pernas n\u00e3o significa, de maneira alguma, que a for\u00e7a origin\u00e1ria de sua produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o cause rea\u00e7\u00f5es (positivas e negativas) em quem ou\u00e7a suas m\u00fasicas com alguma aten\u00e7\u00e3o. Uma jornada em que a autoconsci\u00eancia da necessidade de &#8220;grandeza&#8221; (sem certeza alguma de que isso vai ocorrer) possibilita admitir sonhos como aliados em uma busca obstinada e alienada. O efeito de suas can\u00e7\u00f5es e a d\u00favida constante sobre as formas de enxergar a tal da &#8220;produ\u00e7\u00e3o musical&#8221; diminuem a lacuna entre o que \u00e9, supostamente, real e o que \u00e9 ilus\u00e3o (ou sonhos).<\/p>\n<p>Brauer \u00e9 um artista em forma\u00e7\u00e3o, cujos sonhos comandam a maioria de suas op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas. O &#8220;forjamento&#8221; do real, a fic\u00e7\u00e3o sobre si mesmo e a inclus\u00e3o do on\u00edrico s\u00e3o ferramentas que o auxiliam na d\u00favida do que \u00e9 considerado l\u00facido. A manifesta\u00e7\u00e3o da grandiosidade vem dum esfor\u00e7o ao relacionar essa tr\u00edade errante em um processo no qual &#8220;pedir desculpas&#8221; n\u00e3o \u00e9 admitido. Mira-se: acerta ou erra, mas ficar parado \u00e9 nocivo. Apesar de ser imposs\u00edvel esbo\u00e7ar uma estrat\u00e9gia de xadrez no jogo contra deus ou algum tipo de &#8220;pensamento original&#8221;, voltar-se ao que se tem e voltar-se a todas as potencialidades encarceradas na mesma carne s\u00e3o mecanismos de renova\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o. Pra forjar essa luta e continuar jogando o jogo que voc\u00ea mesmo inventa (afinal, produzir m\u00fasica independente \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria) \u00e9 necess\u00e1rio abra\u00e7ar seus limites e transformar seus defeitos em algo produtivo.<\/p>\n<p><strong>Entidade azul<\/strong><br \/>\nDefeitos que aparecem como fardos no caminho espinhoso sobre a autoconsci\u00eancia dolorosa em &#8220;Nosferatu&#8221; (2012 &#8211; <a href=\"https:\/\/vitorbrauer.bandcamp.com\/album\/nosferatu\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">ou\u00e7a aqui na \u00edntegra<\/a>). O andamento do disco \u00e9 um trajeto sobre amor e morte de um ser assumidamente narcisista e sua obstina\u00e7\u00e3o (consciente ou n\u00e3o) por uma grandeza indefin\u00edvel, que \u00e9 muito mais uma forma de viver do que um objeto bem desenhado.<\/p>\n<p>&#8220;Nosferatu&#8221;, ao que me parece, n\u00e3o \u00e9 um nome por acaso. Como o conde (que na verdade \u00e9 um vampiro) que espalha terror por onde passa, o disco de Vitor \u00e9 uma tentativa de demarcar o caminho do compositor, compreender-se atrav\u00e9s de letras extremas que mostram um ser vulner\u00e1vel. Ele tem todas as qualidades e defeitos que \u00e9 poss\u00edvel criar a partir da figura que se esbo\u00e7a das confid\u00eancias no \u00e1lbum: arrog\u00e2ncia, a presun\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que traz uma enorme bagagem cultural e suas complexas rela\u00e7\u00f5es com amigos, fam\u00edlia e a arte. Entretanto, ao ampliar com um microsc\u00f3pio tanto suas qualidades quanto defeitos, a transpar\u00eancia objetiva de &#8220;Nosferatu&#8221; \u00e9 algo que continua irradiando cinco anos depois. O que &#8220;Nosferatu&#8221; realiza, com perfei\u00e7\u00e3o em seu prop\u00f3sito, \u00e9 um passeio pela consci\u00eancia de algu\u00e9m que \u00e9 direto demais e n\u00e3o tem nada a esconder. De algu\u00e9m que \u00e9 t\u00e3o transparente que \u00e9 uma piada. Brauer retrata um narrador que desconfia do progresso e da ordem e de Belo Horizonte e, ainda assim, ama isso tudo.<\/p>\n<p>Como uma ironia, o eu-l\u00edrico percebe-se preso num labirinto contra o qual ele mesmo esbraveja. \u00c9 necess\u00e1rio a compreens\u00e3o desse local-pris\u00e3o, porque sem ela nunca seria poss\u00edvel a liberta\u00e7\u00e3o protagonizada em &#8220;O Anjo Azul&#8221; (2017): de que, sim, existe algo al\u00e9m.<\/p>\n<p>Ainda que mostrar orgulho de si pr\u00f3prio \u00e9 (quase) sempre algo v\u00e1lido, ficam pequenos questionamentos sobre a &#8220;qualidade&#8221; aferida pelo orgulho do narrador: \u00e9 apenas por pensar &#8220;diferente da cabecinha belo horizontina&#8221; ou \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de si no mundo? N\u00e3o \u00e9 uma suposi\u00e7\u00e3o minha, pois &#8211; especialmente em &#8220;Nosferatu&#8221; &#8211; Vitor duvida de si v\u00e1rias vezes e coloca em cheque suas reais inten\u00e7\u00f5es. O labirinto psicol\u00f3gico erguido neste disco \u00e9 uma pot\u00eancia na qual o mundo se evidencia e sair dele \u00e9 a maior tarefa pro narrador das m\u00fasicas. A pris\u00e3o constru\u00edda por si pr\u00f3prio muitas vezes \u00e9 confundida com liberdade.<\/p>\n<p>E as feridas decorrem justamente desse labirinto que foi criado a partir de algo que soa t\u00e3o bonito como &#8220;integridade art\u00edstica&#8221; ou algo parecido. As feridas a partir do pr\u00f3prio ego\u00edsmo s\u00e3o as que oferecem sa\u00eddas mais dif\u00edceis. A poetisa russa Anna Akhmatova, que catalogou como ningu\u00e9m o &#8220;labirinto de si&#8221;, escreveu certa vez: &#8220;Um convidado acidentado neste terr\u00edvel corpo&#8221;.<\/p>\n<p>A humildade \u00e9, de certo, uma ferramenta que o narrador n\u00e3o est\u00e1 disposto a utilizar pra sair dessa intrincada constitui\u00e7\u00e3o de si. O lema de Brauer exige divaga\u00e7\u00f5es e o exagero (letras longas que se estruturam sobre temas espec\u00edficos) \u00e9 o compartilhamento dele com o mundo. Pra algo como lucidez surgir, em &#8220;Nosferatu&#8221; (a \u00faltima m\u00fasica \u00e9 de um enorme reconhecimento e aceita\u00e7\u00e3o da vida), foi necess\u00e1ria uma travessia dolorosa pra haver uma fagulha de sobreviv\u00eancia disposta a contar todas aquelas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Ser um m\u00e1rtir de sua pr\u00f3pria vida pode ser apenas ilus\u00e3o, mas tal disposi\u00e7\u00e3o a carregar os fardos (inventados ou n\u00e3o) merece uma piedade final. Feito um desejo alucinado de provar, a todo instante e em seus estranhos par\u00e2metros, de que se merece uma paz silenciosa. T\u00e3o perto dessa piedade que sempre esteve consigo e inerente a seu mundo &#8211; mas, de alguma forma, escapou. Os motivos de Brauer n\u00e3o me s\u00e3o t\u00e3o claros como posso parecer supor aqui, ou que tudo isso seja papo de quem bebeu demais. Mas, em 2013 quando eu ouvi muito o &#8220;Nosferatu&#8221;, eu tinha a impress\u00e3o, tamb\u00e9m, de que n\u00e3o sabia se estava fazendo as coisas certas. Ent\u00e3o, foi melhor supor que eu mesmo carregava um fardo e atribuir-lhe essa mesma condi\u00e7\u00e3o. Brauer fez. N\u00e3o apenas arriscando as fichas no que tinha muito pra dar errado, mas porque &#8211; aparentemente &#8211; n\u00e3o seria poss\u00edvel fazer outra coisa.<\/p>\n<p><strong>Compromisso Total<\/strong><br \/>\nPra cria\u00e7\u00e3o de um universo musical pr\u00f3prio, \u00e9 necess\u00e1rio que o artista tenha um autoconhecimento de suas limita\u00e7\u00f5es e saiba como manuse\u00e1-las em prol de um repert\u00f3rio com valor sempre diferente. Essa mudan\u00e7a constante de valores talvez seja o tema central de &#8220;O Anjo Azul&#8221;. \u00c9 uma continua\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica de &#8220;Nosferatu&#8221; porque preenche e fortalece as lacunas desesperadas do autor.<\/p>\n<p>Acompanhamos Vitor falando abertamente sobre o porqu\u00ea de criar a Lupe De Lupe e como n\u00e3o quer seguir &#8220;as regras do alternativo&#8221;, porque era bom realizar esse sonho. Enxerga em sua luta algo muito mais generoso do que a mutila\u00e7\u00e3o em &#8220;Nosferatu&#8221;: reconhece que \u00e9 dif\u00edcil continuar, mas focar s\u00f3 &#8220;em si mesmo&#8221; n\u00e3o \u00e9 seu sonho. Brauer ajuda a tocar o mundo um pouco pra frente, ainda atirando forte, mas com alvos melhores definidos. <\/p>\n<p>Em &#8220;O Anjo Azul&#8221;, a impress\u00e3o \u00e9 de um retorno constante dos sonhos de crian\u00e7a que guiam Brauer em passagens contempor\u00e2neas e concretas. A exist\u00eancia n\u00e3o apenas se baseia em anseios como liberdade, mas os sonhos tomam o posto-novo de farol que sinaliza os contornos do fluxo em que o narrador pode transitar: viol\u00eancia, sexo, sonhos n\u00e3o concretizados. O espectro que o persegue \u00e9 uma companhia constante que s\u00f3 toma forma \u00e0 medida que ele abandona a juventude e encontra algo t\u00e3o vago e impreciso quanto &#8220;maturidade art\u00edstica&#8221;. O encontro com esse espectro de si n\u00e3o \u00e9 mais causa pra consequ\u00eancia imediatista e destrutiva de &#8220;Nosferatu&#8221;, mas um envolvimento com o ato de desfazer e renovar.<\/p>\n<p>Portanto, &#8220;O Anjo Azul&#8221; \u00e9 a carta de amor que relata os mesmos temas b\u00e1sicos de &#8220;Nosferatu&#8221; &#8211; mas sem a aliena\u00e7\u00e3o paranoica que corr\u00f3i o narrador do \u00faltimo. As vidas diferentes encontram-se e asseguram-se de respectivas limita\u00e7\u00f5es pra prestar aten\u00e7\u00e3o no que lhes comove e cativa. A presen\u00e7a do abandono ganha sombra pela quantidade dos trabalhos do compositor e estende-se sendo rebatida por reclama\u00e7\u00f5es (especialmente <em>online<\/em>) e \u00e9 deixada de lado por alguns feitos (humanamente incr\u00edveis): a longa turn\u00ea pelo Brasil realizada ao lado de Jonathan Tadeu e Fernando Motta, por exemplo.<\/p>\n<p>O acerto de contas cont\u00ednuo consome Brauer e a necessidade de provar a si mesmo que \u00e9 capaz de sair do labirinto provoca os tr\u00e2nsitos em suas can\u00e7\u00f5es. Pra isso, cria uma estrutura que, segundo ele mesmo, pega emprestado o talento de outrem pra melhor articular seu sistema de fuga e afirma\u00e7\u00e3o. Cada epis\u00f3dio do disco &#8211; excetuando as sequ\u00eancias &#8220;sem sentido&#8221;, como &#8220;Drogas&#8221; -, mesmo os mais on\u00edricos, representa o esp\u00edrito de anos e anos aguardando uma eclos\u00e3o. Dessa forma, as m\u00faltiplas afirma\u00e7\u00f5es surgidas nas mais distintas vozes fazem o ouvinte pensar em sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria (at\u00e9 pelas letras serem, notadamente, autobiogr\u00e1ficas).<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Brauer, bem explicitado em &#8220;Kos&#8221;, a piedade e a grandeza andam em conjunto e s\u00e3o transformadas na subst\u00e2ncia do nascimento da palavra e da m\u00fasica. Estar deslocado e sem p\u00e1tria e ser testemunha da hist\u00f3ria de si, que \u00e9 de certa forma a hist\u00f3ria restrita da humanidade, em que abomina\u00e7\u00e3o, fogo, sangue e l\u00e1grimas batizam um retorno cont\u00ednuo a qualquer esp\u00e9cie de &#8220;ess\u00eancia&#8221;. Entretanto, essa &#8220;sofistica\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 bruta: ela tem de passar pelo provincianismo moralista que a cerca pra poder fazer tal esbo\u00e7o afirmativo.<\/p>\n<p>O confronto com o labirinto interno s\u00f3 ser\u00e1 resolvido a partir do acolhimento do que \u00e9 externo (uni\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o). Brauer quis fazer de &#8220;O Anjo Azul&#8221; um relato pessoal que, justamente em sua intimidade, dialoga com a ang\u00fastia e a decad\u00eancia do que chamamos &#8220;mundo contempor\u00e2neo&#8221;. Da\u00ed, as refer\u00eancias aos jogos de videogame, \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es (mais presentes em &#8220;M&#8221; [2013]), a Mikhail Tal, aos \u00eddolos da cultura pop etc.<\/p>\n<p>Contudo, de nada adiantaria essas refer\u00eancias se ele n\u00e3o as confrontasse. Em &#8220;Mikhail Tal&#8221;, Brauer descreve um confronto n\u00e3o apenas com o lend\u00e1rio jogador de xadrez, mas &#8211; ao atribuir \u00e0 imagem do outro as figuras not\u00e1veis que muito provavelmente desempenharam papel importante em sua forma\u00e7\u00e3o &#8211; ele est\u00e1 numa partida contra a certeza que formou das coisas que mais lhe s\u00e3o importantes. Ele dirige-se aos sonhos n\u00e3o como ref\u00fagio, mas como arma de enfrentamento. A lembran\u00e7a dos sonhos surge como mem\u00f3ria: como forma\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca, estampada na pele e nas palavras.<\/p>\n<p>As mem\u00f3rias tornam-se compostas por sonhos e tudo se embara\u00e7a, mas essa constante renova\u00e7\u00e3o pode ser vista como um novo come\u00e7o. Qualquer esp\u00e9cie de representa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre uma media\u00e7\u00e3o entre estes dois estados: estar no mundo e transcender a realidade. Ambos s\u00e3o mold\u00e1veis, ambos caracterizam uma pergunta cuja resposta poss\u00edvel \u00e9 um movimento cont\u00ednuo em que a produ\u00e7\u00e3o incessante, esperan\u00e7osamente, vai resultar em algum tipo de beleza. Como numa boa partida disputada no xadrez, em que os pe\u00f5es &#8211; at\u00e9 mesmo do lado vencedor &#8211; ser\u00e3o todos recolhidos, \u00e9 o movimento que vai retirar o ser da prov\u00edncia. O maior pecado \u00e9 n\u00e3o fazer algo de valor a partir dessa constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo pode se dizer de n\u00f3s mesmos. A atribui\u00e7\u00e3o unilateral do que \u00e9 exatamente a vida erradica qualquer possibilidade complexa e contradit\u00f3ria. \u00c9 o embate entre mem\u00f3rias, dinheiro, sonho, certeza, &#8220;legado art\u00edstico&#8221; e o espectro aterrorizador da autoconsci\u00eancia. O que \u00e9 motivo pra uma das can\u00e7\u00f5es mais divertidas em &#8220;Nosferatu&#8221;, &#8220;Se Idiotas Fossem Avi\u00f5es&#8221;, em que o narrador fala sobre os idiotas que o cercam e que mesmo assim se diverte com tudo isso.<\/p>\n<p>A anuncia\u00e7\u00e3o de um tempo &#8220;nosso, contempor\u00e2neo&#8221; guarda uma possibilidade de partilha em comum. A mistura de uma biografia forjada, divaga\u00e7\u00f5es sobre a vida e del\u00edrio petulante fazem-me pensar de porque ter citado uma das melhores passagens de um dos melhores livros &#8220;totais&#8221; que eu j\u00e1 li, no in\u00edcio deste ensaio. O que choca \u00e9 a aranha que parece o satan\u00e1s (ou a Taylor Swift), sonhos que tiram o criador da condi\u00e7\u00e3o comum &#8211; pois tudo o que \u00e9 comum \u00e9 fant\u00e1stico, \u00e9 pass\u00edvel de transposi\u00e7\u00e3o. Ainda em &#8220;Ulisses&#8221;, a personagem Stephen Dedalus afirma que os erros s\u00e3o volunt\u00e1rios e portais de descoberta. Essa \u00e9 a forma que isso \u00e9 encarado, como o movimento errante dilacera bases s\u00f3lidas e convoca tudo o que \u00e9 emp\u00edrico pro campo tamb\u00e9m conceitual.<\/p>\n<p>Essa apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a forma de combate da qual Vitor utiliza quando diz que n\u00e3o quer ser brasileiro, tocar instrumental ou que sua banda se torne uma empresa. Ele n\u00e3o deixa que a culpa fale primeiro e por isso lan\u00e7a essas m\u00fasicas. Isso e porque tem gente que quer ouvi-lo. Mas, no fundo, ele sabe que o foda \u00e9 falar disso tudo ao mesmo tempo, por uma linguagem espec\u00edfica (a m\u00fasica) e soar intrigante a ponto do ouvinte sentir vontade de tentar de novo. N\u00e3o se render \u00e0 imbecilidade coletiva (como todos fazemos) e tentar um movimento conciliat\u00f3rio \u00e9 um dos grandes desafios na era do Facebook e compartilhamento de <em>links<\/em>, em que a incompreens\u00e3o e incompatibilidade alheia parece ser uma regra que grita bem forte, mandando \u00e0 solit\u00e1ria qualquer fiapo de &#8220;voz pr\u00f3pria&#8221;.<\/p>\n<p>Estar fraco n\u00e3o \u00e9 desculpas pra n\u00e3o se fazer as coisas e n\u00e3o h\u00e1 porque fingir ser forte ou, tamb\u00e9m, ocultar seus reais del\u00edrios de grandeza (sonhos que passam a ser objetivos). Um dos movimentos mais reveladores na trilogia \u00e9 a simples &#8220;Freestyle do Fim Do Mundo&#8221;, em que uma reuni\u00e3o \u00e9 sugerida, junto com amigos, na tentativa de criar um momento memor\u00e1vel e que a vida pode, sim, ser maravilhosa.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse instante que Brauer parece ser capaz de entender todo o segredo que atribui a si mesmo. N\u00e3o querer ir \u00e0 Europa ou aos Estados Unidos e valorizar o bar com os amigos, saber que o mundo tem problemas maiores e mais s\u00e9rios e que essa fagulha m\u00ednima est\u00e1 conectada, de alguma forma, a tudo que rege o universo. O que ele fala em voz alta &#8211; denunciar um mundo de idiotas &#8211; na verdade protege uma cren\u00e7a veemente na grandeza da vida.<\/p>\n<p>Brauer faz esse pedido pra que o p\u00fablico atente nessa raz\u00e3o e o que ele realmente quer dizer. Tratam-se de m\u00fasicas em que, mesmo falando de um rompimento de relacionamento, sempre \u00e9 revelada uma cren\u00e7a maior e, ainda que em seus momentos mais rancorosos, um di\u00e1logo ativo com o tempo no qual vivemos.<\/p>\n<p>Ele se reconhece como um representante de um local provinciano cujas fronteiras parecem limitar suas possibilidades, mas no qual os versos de atravessamento podem ser encarados como uma colorida corda acenando a outrem num local desapropriado. A divaga\u00e7\u00e3o sobre outras influ\u00eancias n\u00e3o \u00e9 apenas pedantismo ou refer\u00eancia, mas uma forma ativa de evitar um saudosismo que muito facilmente pode ser confundido com passividade. O esp\u00edrito de nossa \u00e9poca \u00e9 difuso e pode ser representado numa neblina de conceitos que encobre tudo, n\u00e3o permitindo nem que acreditemos em n\u00f3s mesmos. E o que se pode fazer?<\/p>\n<p>A vida apaga nossas mem\u00f3rias e o pr\u00f3prio ato de &#8220;lembrar&#8221; torna-se uma escava\u00e7\u00e3o e decodifica\u00e7\u00e3o de algo t\u00e3o abstrato como passado. Eu n\u00e3o me lembro de porque ter ouvido Lupe De Lupe pela primeira vez, mas lembro-me de que n\u00e3o simpatizei nem um pouco e desisti de tentar de novo, at\u00e9 v\u00ea-los numa casa de shows que j\u00e1 fechou na Vila Madalena (SP) e, a partir dali, a banda ter sido trilha-sonora pra muitos momentos marcantes. Hoje, eu me deparo com essa tr\u00edade de trabalhos solos de Brauer e vejo o narrador como um espectro que me acompanhou ao longo desses anos. Talvez todos os atos sejam, de fato, motivados pelo desespero de que logo vamos morrer e qualquer del\u00edrio \u00e9 apenas uma euforia ef\u00eamera que nos tira desse mundo. Os t\u00e3o chamados &#8220;problemas e preocupa\u00e7\u00f5es reais&#8221; n\u00e3o entendem e n\u00e3o compreendem esse vislumbre de grandeza: \u00e9 justamente o caminho que n\u00e3o podemos ver que nos recoloca nos trilhos.<\/p>\n<p>Versos ruins depois de uma certa idade deixam de parecer menos est\u00e9ticos e passam a ser vistos como fontes de vontade. Apesar de qualquer esp\u00e9cie de reserva que deva ser realizada, \u00e9 o que propulsiona a vida que passa a chamar mais aten\u00e7\u00e3o. No fim, ap\u00f3s tantos vai-e-vens e repeti\u00e7\u00f5es nauseabundas, o que nos cativa fica grudado e nunca nos abandona. &#8220;O Anjo Azul&#8221; \u00e9 um manifesto delicado sobre as coisas que nos cativam &#8211; sonhos, m\u00fasicas, jogos e despedidas. O encontro com Taylor Swift \u00e9 o compromisso com o imposs\u00edvel e, por isso, com todas as coisas que residem quietas debaixo da superf\u00edcie. Sem elas, &#8220;O Anjo Azul&#8221; n\u00e3o existiria e Cristo e L\u00facifer seriam alegorias distantes de uma gente antiquada.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3990016871\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/vitorbrauer.bandcamp.com\/album\/o-anjo-azul\">O Anjo Azul by Vitor Brauer<\/a><\/iframe><\/p>\n<p><strong>A luta<\/strong><br \/>\nContudo, vociferar verdades ocultas &#8211; em mundos t\u00e3o opostos quanto o da santidade e do inferno &#8211; deixa feridas. Cinco anos depois do lan\u00e7amento de &#8220;Nosferatu&#8221;, Brauer lan\u00e7a o que &#8211; segundo seu Bandcamp &#8211; \u00e9 seu \u00faltimo trabalho de <em>spoken word<\/em>. Num disco que apela tanto pro que \u00e9 invis\u00edvel, corre-se o risco de um reencontro eterno entre mundos que se op\u00f5em, e os relatos tornarem-se mera fic\u00e7\u00e3o e t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de quem escreveu essa trilogia tentou fixar no tempo uma identidade como prova da exist\u00eancia. Se o universo pode ser moldado, o que n\u00e3o falar de nossos pequenos pap\u00e9is desempenhados no dia-a-dia?<\/p>\n<p>O oceano da idiotice enruga nossa pele de modo que nunca poderemos ver-nos completamente livre do del\u00edrio alheio. No come\u00e7o de &#8220;Se Idiotas Fossem Avi\u00f5es&#8221;, Brauer prop\u00f5e &#8220;fazer diferente&#8221;: dirigir lentamente por a\u00ed, ouvindo alguma m\u00fasica legal enquanto se contempla o cotidiano, como se fosse algo completamente absorto. Ele escreveu essas coisas porque diagnosticou um provincianismo nocivo \u00e0 sua manifesta\u00e7\u00e3o interna. Estar exaurido dessa imposi\u00e7\u00e3o de outrem foi o que deu forma a uma sequ\u00eancia de discos que tratam sobre amor e morte.<\/p>\n<p>Os questionamentos sobre rumos que tomamos na vida e sobre as pessoas que deixamos intrigam n\u00e3o apenas pela falta do outro, mas pelo desespero duma liga\u00e7\u00e3o l\u00f3gica que explique tantas divis\u00f5es desgastantes. Cultiva-se a necessidade de extrapolar o local que nos prende, como forma de desafi\u00e1-lo e tamb\u00e9m de honr\u00e1-lo. N\u00e3o h\u00e1 lucidez nos sonhos e a luz que eles nos jogam \u00e9 uma visita dum passado e da forma que se encara o tempo.<\/p>\n<p>Talvez seja disso que Brauer sofra e por isso um desejo absurdo de enfrentar a paralisia de nosso tempo. Na primeira faixa de &#8220;Nosferatu&#8221;, ele questiona: &#8220;existe algo al\u00e9m?&#8221;. \u00c9 bem prov\u00e1vel que n\u00e3o. Cabe a quem ouve os discos entender como fantasmas e sonhos s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es de uma interpela\u00e7\u00e3o maior: escapar dos labirintos que voc\u00ea mesmo cria.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>01. Mem\u00f3ria E Sonho<br \/>\n02. Inf\u00e2ncia<br \/>\n03. \u5922 &#8211; Yume (participa\u00e7\u00e3o Hugo Noguchi)<br \/>\n04. Minha Banda Pt.1 (Isadora)<br \/>\n05. Mikhail Tal<br \/>\n06. Taylor Swift<br \/>\n07. Ancorados No Espa\u00e7o (participa\u00e7\u00e3o Jujz)<br \/>\n08. Chapecoense<br \/>\n09. Minha Banda Pt.2 (Lupe De Lupe)<br \/>\n10. Drogas<br \/>\n11. Caindo Em Desgra\u00e7a (participa\u00e7\u00e3o Theuzitz)<br \/>\n12. Minha Banda Pt.3 (Vitor Brauer)<br \/>\n13. Dois<br \/>\n14. Id\u00e1lia (participa\u00e7\u00e3o Valci\u00e3n Calixto)<br \/>\n15. Aqui Seria O Aeroporto<br \/>\n16. Kos<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Lan\u00e7amento: 17 de novembro de 2017<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 69 minutos e 20 segundos<br \/>\nSelo: Gera\u00e7\u00e3o Perdida de Minas Gerais<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Vitor Brauer<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-vitor-brauer-br-garage\/\" title=\"RESENHA: VITOR BRAUER &#8211; BR GARAGE\">RESENHA: VITOR BRAUER &#8211; BR GARAGE<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-shit-and-shine-new-confusion-e-persher-man-with-the-magic-soap\/\" title=\"RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;\">RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-skullcrusher-quiet-the-room\/\" title=\"RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM\">RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ouca-nosso-querido-figueiredo-brasil-novo-feat-lula-lupe-de-lupe-cover\/\" title=\"OU\u00c7A: NOSSO QUERIDO FIGUEIREDO &#8211; BRASIL NOVO (FEAT. 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