{"id":51141,"date":"2018-01-29T17:19:07","date_gmt":"2018-01-29T19:19:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=51141"},"modified":"2018-04-13T14:28:49","modified_gmt":"2018-04-13T17:28:49","slug":"o-legado-de-mark-e-smith-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-legado-de-mark-e-smith-parte-1\/","title":{"rendered":"O LEGADO DE MARK E. SMITH &#8211; PARTE 1"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51161\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-legado-de-mark-e-smith-parte-1\/fall9\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/fall9.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"fall9\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/fall9.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/fall9.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-51161\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/fall9.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/fall9.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;A vida, em si, \u00e9 um ex\u00edlio. O caminho pra casa n\u00e3o \u00e9 o caminho de volta&#8221;.<br \/>\n\u2015 Colin Wilson<\/p>\n<p>Em 2011, <a href=\"http:\/\/thequietus.com\/articles\/07465-mark-e-smith-interview-the-fall\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">numa entrevista ao The Quietus<\/a>. Mark E. Smith disse que gostava de &#8216;O Mundo Submerso&#8221;, romance de J. G. Ballard, no qual a eleva\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis do oceano transformou a Europa em um p\u00e2ntano. \u00c9 desse local sujo que surge a narrativa cr\u00edptica de &#8220;Live At The Witch Trials&#8221; (primeiro disco do The Fall, de 1979), desbocada e t\u00e3o improv\u00e1vel quanto a m\u00fasica esquisita da banda que, dali pra frente, s\u00f3 ficaria mais apote\u00f3tica em uma vis\u00e3o singular acerca das excentricidades da humanidade. Est\u00fapidos, cegos e invejosos povoam a categoria inundada dos cidad\u00e3os ingleses na qual Smith nunca negou com veem\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, parecia am\u00e1-los de uma maneira t\u00e2ntrica. <\/p>\n<p>A feiura surge de maneira ainda mais crua em &#8220;Dragnet&#8221;, tamb\u00e9m de 1979. Dem\u00f4nios, detetives e her\u00f3is desfigurados rondam uma zona espectral, em que figuras cotidianas da Inglaterra adquirem o car\u00e1ter vivaz do horror. A partir da\u00ed, Mark E. Smith elabora cenas de destrui\u00e7\u00e3o intensa, em que, mesmo na aniquila\u00e7\u00e3o mais profunda, alguma sobrevida parece pulsar. A import\u00e2ncia da vida reside no car\u00e1ter abissal do exterm\u00ednio. Os modelos praticamente inexistentes de configura\u00e7\u00e3o sonora (o contrabaixo alto e repetitivo enquanto mal se ouve os t\u00edmidos versos da guitarra) resvalam na feiura ins\u00edpida que Smith tenta resgatar pra auxili\u00e1-lo na busca de tentar dar um lugar pro que \u00e9 in\u00f3spito. A exposi\u00e7\u00e3o dessa verdade retoma o posicionamento violento como parte do caos no mundo, como nas palavras de Georges Bataille: &#8220;eu acredito que a verdade tem uma \u00fanica face: aquela de uma contradi\u00e7\u00e3o violenta&#8221;. Em algum ponto, Mark percebeu que seria o reconciliador do horror com a cria\u00e7\u00e3o de um corpo sonoro e l\u00edrico capaz de reconhecer as figuras esquecidas no p\u00e2ntano onde se encontrava. E fazer m\u00fasica sobre elas enquanto desapareciam numa sociedade que exclui os tipos de car\u00e1ter violento. Ao inv\u00e9s de negociar com essa fria e pl\u00e1stica popula\u00e7\u00e3o, Smith homenageia a parcela decr\u00e9pita. Isso n\u00e3o significa um desprezo pelo mundo, mas uma percep\u00e7\u00e3o de que, em sua nitidez deslumbrante, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar a resid\u00eancia do sombrio e do contradit\u00f3rio. <\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o radical ao que \u00e9 ordin\u00e1rio faz de &#8220;Grotesque (After The Gramme)&#8221;, de 1980, uma celebra\u00e7\u00e3o de todo o mundo varrido pra impossibilidade do crescimento. Pro que n\u00e3o pode crescer porque vive no elemento da destrui\u00e7\u00e3o e sua mera presen\u00e7a no mundo evoca o caos. Os personagens s\u00e3o decididamente reais e, ainda assim, uma \u00e1urea m\u00edstica espectral os ronda em todos os seus fracassos ao perambular por uma Europa ap\u00f3s o colapso da Segunda Guerra Mundial e a indiferen\u00e7a sombria alimentada pela Guerra Fria. O desaparecimento de qualquer grande virtude desperta, no elemento humano, um olhar irm\u00e3o pras contradi\u00e7\u00f5es da sociedade. Os retratos fragmentados de uma esp\u00e9cie subsocial auxiliam na composi\u00e7\u00e3o do painel ambicionado por Mark E. Smith. Manter a integridade \u00e9 mais do que se firmar com seus valores, mas estar disposto a renovar constantemente seu olhar pra perceber o que \u00e9 negado. A luta passa a ser n\u00e3o pela vit\u00f3ria, mas pelo reconhecimento dos que nem t\u00eam a possibilidade de lutar. \u00c9 restabelecido o par\u00e2metro do que \u00e9 ordin\u00e1rio ao negar a percep\u00e7\u00e3o vendida de que distinto \u00e9 aquele o qual ocupa algum lugar de destaque. A regra \u00e9 a ordem e o que a regra vende como exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a performance maior dessa mesma ordem. \u00c9 sua consagra\u00e7\u00e3o. De modo que o que nos parece passageiro tem uma dura\u00e7\u00e3o maior: \u00e9 o subterr\u00e2neo cont\u00ednuo constru\u00eddo durante toda a vida de Smith. <\/p>\n<p>Em &#8220;Hex Enduction Hour&#8221;, de 1982, Mark E. Smith agarra-se, primordialmente, \u00e0 estupidez que ele garante como sua caracter\u00edstica mais pura. A banda toca desgovernadamente enquanto o l\u00edder luta pra que suas coloca\u00e7\u00f5es rastreiem, sob a figura-mor de um ambiente urbano p\u00e1lido, os sopros de vida emanados do submundo. Um olhar na poeira que \u00e9 o presente e vis\u00f5es fragmentadas assomam-se constituindo o teatro da decad\u00eancia: \u00f4nibus com refer\u00eancias nazistas, a promessa de um outro continente poss\u00edvel na jovem Holanda e o ser humano tentando se limpar de todas as coisas p\u00fatridas. Smith tinha o intelectual objetivo pra ficar longe dos destro\u00e7os e poetizar coisas insossas, como quase toda a <em>new wave<\/em> e o pr\u00f3prio <em>punk rock<\/em> estetizado da \u00e9poca. Mas seu nascimento art\u00edstico s\u00f3 foi poss\u00edvel atrav\u00e9s da apreens\u00e3o das figuras escondidas pelos estilha\u00e7os, elas (quase) todas em carne viva. Testemunhar essas atraentes faces desfiguradas tornou imposs\u00edvel uma (re)concilia\u00e7\u00e3o com o mundo id\u00edlico. Depois de um show do Sex Pistols e depois de uma leitura devorada de Albert Camus, seu olhar pra realidade jamais seria o mesmo. O sentido de &#8220;ambi\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 invertido: foi necess\u00e1rio estabelecer um monumental corpo sonoro na esperan\u00e7a de restituir fragmentos abandonados.<\/p>\n<p>A loquacidade tempestiva continua em &#8220;Room To Live (Undilutable Slang Truth!)&#8221;, igualmente de 1982, como se o balbuciar de Mark E. Smith dissesse muito mais do que palavras, formalmente e foneticamente, constru\u00eddas. A sensa\u00e7\u00e3o do corpo cercado e intoxicado pela clareza dos outros, intoxicado por todo mundo &#8220;parecer, de alguma forma, com David Bowie&#8221; faz de &#8220;Room To Live&#8221; algo mais voltado ao isolamento tamb\u00e9m material. Se nos antecessores ele nutria uma profunda admira\u00e7\u00e3o (ainda que expressada quase sempre satiricamente) pela mistura nebulosa entre os dejetos, neste disco Smith volta ao interior brit\u00e2nico pra construir um paranoico ambiente interno. At\u00e9 os sons s\u00e3o menos animados, abafados por uma aus\u00eancia constante. A desilus\u00e3o com a sociedade brit\u00e2nica evidencia um cansa\u00e7o do jogo humano. Nenhuma ilus\u00e3o \u00e9 manifestada. O costume irrita. Se pra muitos o costume \u00e9 necess\u00e1rio, pra Mark n\u00e3o passava de outro jogo for\u00e7ado a colar as pessoas em suas fr\u00e1geis no\u00e7\u00f5es de realidade. Por isso as letras delirantes, recortando abafadamente cenas surreais, principalmente do norte da Inglaterra. Aproveitando as palavras de Georges Bataille, o que Mark E. Smith realizou n\u00e3o foi apenas a distor\u00e7\u00e3o total das formas da verdade, mas apresentar o que pode ser visto depois da aniquila\u00e7\u00e3o. Se &#8220;Hex Enduction Hour&#8221; pode ser considerado, de fato, sua obra-prima, o que vem depois \u00e9 a reconstitui\u00e7\u00e3o natural na composi\u00e7\u00e3o do painel dos desfigurados. A virtude dele emana da\u00ed: estabelecer diferentes procedimentos que concluir\u00e3o na totalidade exc\u00eantrica dos dejetos. N\u00e3o \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o dos costumes em si, mas o reconhecimento de que a cria\u00e7\u00e3o deles permitiu a oposi\u00e7\u00e3o oculta pelo excesso de zelo, plasticidade e devaneios pseudo progressistas. E tanto os costumes como a m\u00fasica tradicionalmente concebida s\u00e3o coisas que n\u00e3o permitem tal descobrimento. Smith sabia disso e atrav\u00e9s dessa constata\u00e7\u00e3o decidiu investigar as possibilidades negadas. O que normalmente \u00e9 visto como &#8220;sacrif\u00edcio comercial&#8221; foi encarado pelo m\u00fasico como caminho a percorrer. Sempre, \u00e9 claro, reparando no que podia estar escondido atr\u00e1s dos muros dispostos.<\/p>\n<p>Como todos os \u00e1lbuns dos anos de 1980 do The Fall, &#8220;Perverted By Language&#8221;, de 1983, usa uma linguagem (tanto musical quanto l\u00edrica) intricada, cujos peda\u00e7os isolados jamais poderiam ser explicados sem sua totalidade (o que constitui um paradoxo porque \u00e9 um disco de fragmentos, como todos os trabalhos protagonizados por Mark E. Smith at\u00e9 ent\u00e3o). As imagens est\u00e3o devastadas em situa\u00e7\u00f5es cotidianas cujo entendimento s\u00f3 \u00e9 acess\u00edvel atrav\u00e9s do del\u00edrio. A inten\u00e7\u00e3o real da cria\u00e7\u00e3o de Smith n\u00e3o tem valor: ela apenas \u00e9 o meio pelo qual os acessos imprudentes da destrui\u00e7\u00e3o sem sentido tomam express\u00e3o. Todas as imagens forjadas em suas m\u00fasicas s\u00e3o t\u00e3o prov\u00e1veis quanto qualquer outra coisa. O mundo onde elas tomam propuls\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um universo fantasioso da mente de algu\u00e9m imaginativo, mas nas mesmas ruas pelas quais passamos todo dia indiferentes \u00e0s imagens com exce\u00e7\u00e3o \u00e0quelas presentes de forma cristalizada. A filosofia de Mark foi sempre tentar dar vida aos gestos escondidos (claro, com toda a s\u00e1tira que lhe era caracter\u00edstica). E como aceitou a manifesta\u00e7\u00e3o da poeira (e seus rec\u00f4nditos) foi dar luz \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es que as ru\u00ednas encerravam&#8230;<\/p>\n<p>2<br \/>\nA vis\u00e3o repetitiva e aleat\u00f3ria da Inglaterra traz em &#8220;The Wonderful And Frightening World Of The Fall&#8221;, de 1984, primeiro \u00e1lbum com participa\u00e7\u00e3o efetiva da ex-mulher Brix Smith na cria\u00e7\u00e3o tanto instrumental quanto l\u00edrica, um Mark E. Smith viciado na aleatoriedade da vida. As intricadas imagens s\u00e3o consequ\u00eancia de uma busca, tamb\u00e9m ela, rendida \u00e0 casualidade (de certa forma, uma persegui\u00e7\u00e3o sempre renovada). As m\u00fasicas t\u00eam dura\u00e7\u00e3o muito parecida e parecem falar, cada uma delas, sobre as mesmas neuroses a partir de diferentes per\u00edodos observados. Como um pintor que pinta sempre a mesma paisagem em diversas horas do dia. Na dificuldade que elas aparentam, no entanto, est\u00e1 uma simplicidade irrevog\u00e1vel: sempre atendemos a uma parcela da realidade imposs\u00edvel de decodificar. Conhece-se o mundo pela simples gra\u00e7a e gravidade dele existir. Curioso que pra chegar a este ponto deve-se passar por tantas complexidades.<\/p>\n<p>A intemp\u00e9rie de indiferen\u00e7a cr\u00f4nica contra os &#8220;sentimentos&#8221; convencionados ambienta-se na atmosfera meio g\u00f3tica de &#8220;This Nation&#8217;s Saving Grace&#8221;, disco de 1985. A estranheza com o que a Inglaterra se tornou invade as letras: seja numa esquina que se via algum estrangeiro ensanguentado, seja no fato de viver numa ilha que parecia t\u00e3o perto mas t\u00e3o distante da impon\u00eancia europeia ou com a mente nacionalista opressiva do pa\u00eds. \u00c9 o paradoxo que alimenta a aleatoriedade e a verdade: ama-se e odeia-se algo paralelamente. Essa complexidade consiste no fato de sentir-se estrangeiro num lugar em que voc\u00ea se reconhece a partir dos exclu\u00eddos. Mas n\u00e3o h\u00e1 irmandade poss\u00edvel, h\u00e1 sempre uma dist\u00e2ncia impenetr\u00e1vel entre voc\u00ea e aquele quem voc\u00ea deseja abordar e incitar uma conex\u00e3o com.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o com a tem\u00e1tica g\u00f3tica prossegue em &#8220;Bend Sinister&#8221;, de 1986, em que &#8220;pessoas razo\u00e1veis&#8221; s\u00e3o expostas aos estigmas sinistros como se estes fossem formadores de personalidade. Qualquer imagem simples (at\u00e9 o ponto em que qualquer imag\u00e9tica criada por Mark E. Smith pode ser considerada &#8220;simples&#8221;) adquire um vi\u00e9s obscuro, como, por exemplo, um simples momento antes de algum show do The Fall, que incorpora uma estranha medita\u00e7\u00e3o sobre as for\u00e7as sinistras. Pra Smith, mais do que uma depend\u00eancia \u00e0 ordem, \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o do acaso (que carrega intrinsecamente doses de brutalidade e estranheza) que configura as disposi\u00e7\u00f5es humanas. Por este motivo qualquer afirma\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica, na vasta bizarrice universal, soa como fr\u00e1gil e impotente. Dentro dessa percep\u00e7\u00e3o de Mark, as afirma\u00e7\u00f5es podem ser examinadas como estruturas falidas cujas brechas, essas sim, merecem uma visita\u00e7\u00e3o. O grande problema \u00e9 que tudo soar\u00e1 incorreto e impreciso, vago e fantasioso. Se tudo isso pode tornar a pessoa uma v\u00edtima do mist\u00e9rio (substantivo \u00faltimo de tudo que \u00e9 sinistro), tamb\u00e9m pode dar a for\u00e7a do enfrentamento, a revers\u00e3o dos processos can\u00f4nicos do fracasso. Estamos sempre mais perto do enigma e do mist\u00e9rio. A racionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tentativa de negar o caos em que estamos mergulhados.<\/p>\n<p>&#8220;The Frenz Experiment&#8221; \u00e9 o conto de fadas do The Fall, lan\u00e7ado em 1988 (at\u00e9 o ponto em que algo criado por Mark E. Smith pode ser considerado um conto de fadas), em que as aberturas teoricamente pessoais adquirem for\u00e7a ao se irmanar do mundo fantasioso. A impress\u00e3o \u00e9 de que se chega tarde demais no universo acontecido e o que resta, apenas, s\u00e3o os detritos de um acontecimento recente, mas cujo exerc\u00edcio chegou ao fim. N\u00e3o \u00e0 toa, a estranheza em todos os trabalhos de Smith, pois, o que pode acontecer quando tudo j\u00e1 existiu? \u00c9 a consequ\u00eancia principal de quem testemunha o oculto dos acontecimentos, o n\u00e3o revelado pela disposi\u00e7\u00e3o espacial. \u00c9 um processo de investiga\u00e7\u00e3o cont\u00ednuo. Capturado na tens\u00e3o de flagrar o que \u00e9 considerado bizarro e sentir um amor por essas manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o seguir pelo pedregoso caminho decidido por si antes mesmo de ter a <em>autono\u00e7\u00e3o<\/em> de que fez essa decis\u00e3o. Se esse mundo sempre o chamava, n\u00e3o havia outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o ceder aos seus entroncamentos.<\/p>\n<p>3<br \/>\nO The Fall era uma esp\u00e9cie de praga e em &#8220;I Am Kurious Oranj&#8221;, tamb\u00e9m de 1988, h\u00e1 uma p\u00e9rfida narra\u00e7\u00e3o sobre exatamente isso: a suposta origem da praga de sofrimento que percorre o mundo. Pra isso, a forte imagem de Mark E. Smith andando por uma terra arruinada associando a hist\u00f3rica Jerusal\u00e9m a cenas que beiram a escatologia. N\u00e3o h\u00e1 lugar do mundo que n\u00e3o esteja infestado e a banda n\u00e3o seria diferente: a necessidade de dar voz a sua pr\u00f3pria infesta\u00e7\u00e3o locomoveu-o a esse ponto. Essa estrat\u00e9gia de narra\u00e7\u00e3o difusa sobre um mundo contaminado \u00e9 o categ\u00f3rico onipresente nas letras de Smith. A alegria \u00e9 frequente nelas, mas n\u00e3o sem doses de sarcasmo e corros\u00e3o. Mas mesmo o sarcasmo e a ironia parecem elementos constituintes, prim\u00e1rios e n\u00e3o derivativos. Formas de sair e de envenenar a aliena\u00e7\u00e3o. Pra Mark, essa corros\u00e3o \u00e9 um elemento natural e que foi esquecido pelos processos tradicionais de se fazer m\u00fasica.<\/p>\n<p>O per\u00edodo dos anos 1990, na longa e estranha carreira do The Fall, n\u00e3o \u00e9 muito explorado a n\u00e3o ser pelos f\u00e3s da banda. Particularmente, n\u00e3o vejo raz\u00e3o pra isso, pois \u00e1lbuns como &#8220;Extricate&#8221; apresentam uma abordagem mais mel\u00f3dica do que os discos experimentais. Os instrumentos de sopro e o contrabaixo menos dissonante ajudam a criar uma ambi\u00eancia detalhada e de f\u00e1cil contato. Essa moldura musical menos agressiva e as letras mais descritivas (at\u00e9 o ponto em que as letras de Mark E. Smith consegue se reter \u00e0 descri\u00e7\u00e3o) criam possibilidades melhores de abertura ao ouvinte. A repeti\u00e7\u00e3o, no entanto, talvez seja maior e explica, em parte, o fato da pouca aten\u00e7\u00e3o nessa fase. \u00c9 claro que Smith tinha o permanente reconhecimento de uma realidade n\u00e3o n\u00edtida, mas suas impress\u00f5es impuseram ao \u00e1lbum imagens que s\u00e3o capazes de se recondicionarem continuamente, apesar da repeti\u00e7\u00e3o. A Inglaterra foi deixando, aos poucos, de ser a musa-mor da bizarrice liter\u00e1ria de Mark &#8211; ganharam contornos as fantasmagorias de um mundo com tra\u00e7os pouco rebeldes, que necessitavam da interven\u00e7\u00e3o do compositor para adquirir alguma for\u00e7a.  Se os temas sobre a p\u00e1tria estavam esgotados, ele voltou ao vago conceito de Room To Live para mostrar que tinha uma inspira\u00e7\u00e3o disciplinada inabal\u00e1vel. Pode-se falar que talvez fosse melhor o sil\u00eancio, mas esse nunca foi seu forte. Ao contr\u00e1rio, n\u00e3o saber se calar foi uma de suas maiores for\u00e7as criativas.<\/p>\n<p>&#8220;Shift-Work&#8221;, de 1991, \u00e9 o flerte maior do The Fall com a m\u00fasica tradicional. A pr\u00f3pria forma de Mark E. Smith cantar resvala na m\u00fasica popular da \u00e9poca. As narrativas s\u00e3o tradicionais e buc\u00f3licas, sentimentais e nost\u00e1lgicas. A pol\u00edtica esquizofr\u00eanica cede espa\u00e7o pra contos saudosos sobre imagens imposs\u00edveis de se recuperar. Foi assim que ele resolveu sua tens\u00e3o interior em todos os discos: dar escape \u00e0 loucura, \u00e0 insanidade e \u00e0 bizarrice e, quando esses temas lhe pareceram esgotados, ainda residia uma rica quantidade tem\u00e1tica sobre a qual ele sentia necessidade de se debru\u00e7ar. Sua independ\u00eancia tem\u00e1tica \u00e9 not\u00e1vel e atrav\u00e9s dessa vasta consci\u00eancia de sua capacidade criativa p\u00f4de manter uma quantidade t\u00e3o grande de lan\u00e7amentos ao longo dos anos.<\/p>\n<p>4<br \/>\n&#8220;Code: Selfish&#8221;, de 1992, \u00e9 o tipo de disco que mostra a que veio logo na introdu\u00e7\u00e3o, com sinos distantes e teclados emergentes avisando que \u00e9 outro \u00e1lbum que vai seguir a linha dan\u00e7ante, embora neste as guitarras sejam mais preponderantes do que em &#8220;Shift-Work&#8221;. A risada bizarra sobre a condi\u00e7\u00e3o europeia tem doses de maldade, sarcasmo e certa tristeza: ap\u00f3s o colapso definitivo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o avan\u00e7o ininterrupto do ultraliberalismo, Mark E. Smith percebe-se inundado por futuros homens de neg\u00f3cio que pululam por toda a parte. A dist\u00e2ncia com a Inglaterra \u00e9 cortada pra avisar sobre os novos perigos que residem no pa\u00eds. O retorno tem\u00e1tico, se acompanhado em retrospecto, tem uma dose gritante do decl\u00ednio (ou a indiferente repeti\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica) da humanidade e o prolongamento incans\u00e1vel e inabal\u00e1vel do capital como in\u00edcio, meio e fim absolutos. Mesmo com a ajuda de uma instrumental otimista (at\u00e9 o ponto em que os instrumentais do The Fall podem ser otimistas), &#8220;Code: Selfish&#8221; apresenta inescrupulosos quadros da dem\u00eancia regressiva humana.<\/p>\n<p>A m\u00fasica dan\u00e7ante com instrumentais espirais volta em &#8220;The Infotainment Scan&#8221;, disco de 1993. O peso da no\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica torna-se um fardo e o chamado &#8220;legado art\u00edstico&#8221; \u00e9 visto como um vampiro que tenta tomar toda sua energia vital. Neste ponto, fica n\u00edtida a rela\u00e7\u00e3o de Mark E. Smith n\u00e3o somente com sua p\u00e1tria, mas como ele sempre esteve atento \u00e0 m\u00fasica ao redor e reconhece sua for\u00e7a ancestral. \u00c9 espantoso como Smith retrata essa no\u00e7\u00e3o absoluta em cenas surreais envolvendo criaturas sobrenaturais. A pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo encaixa-se no seu experimento musical. E faz isso com alegria de testemunhar essa abund\u00e2ncia de coisas poss\u00edveis. Aceitou essas coisas e viu o modo como est\u00e3o conectadas e fragmentadas, paralelamente. N\u00e3o h\u00e1 desprezo pela vida. Quando tudo acaba, ele prova que viveu a m\u00e1xima de Georges Bataille at\u00e9 o fim. Suas m\u00fasicas foram registros de formas de alcan\u00e7ar a verdade m\u00e1xima, com todas as suas contrariedades estampadas em carne viva. Essa foi sua certeza irrevog\u00e1vel.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-otherwise-o-roteiro-de-mark-e-smith-que-nao-virou-filme\/\" title=\"THE OTHERWISE &#8211; O ROTEIRO DE MARK E. SMITH QUE N\u00c3O VIROU FILME\">THE OTHERWISE &#8211; O ROTEIRO DE MARK E. SMITH QUE N\u00c3O VIROU FILME<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/mark-e-smith-e-o-the-fall-quem-gostar-gostou\/\" title=\"MARK E. SMITH E O THE FALL: QUEM GOSTAR, GOSTOU\">MARK E. 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