{"id":51637,"date":"2018-04-02T19:08:19","date_gmt":"2018-04-02T22:08:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=51637"},"modified":"2018-04-24T19:55:15","modified_gmt":"2018-04-24T22:55:15","slug":"acidas-um-idolo-improvavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-um-idolo-improvavel\/","title":{"rendered":"\u00c1CIDAS: UM \u00cdDOLO IMPROV\u00c1VEL"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51639\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-um-idolo-improvavel\/acidas12\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/acidas12.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"acidas12\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/acidas12.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/acidas12.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-51639\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/acidas12.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/acidas12.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Nunca tirei uma foto com ele. A bem da verdade, n\u00e3o havia motivo. Eu e Capita, como Maximiliano era chamado, t\u00ednhamos uma rela\u00e7\u00e3o basicamente comercial: eu ia ao seu bar sozinho, ficava por l\u00e1 tomando uma meia d\u00fazia de cerveja, pensando na vida, ouvindo sua sele\u00e7\u00e3o musical e nossa comunica\u00e7\u00e3o era bem breve, resumida ao seco &#8220;mais uma, Capita!&#8221; ou o protocolar &#8220;fecha!&#8221;.<\/p>\n<p>Mas frequentar seu p\u00e9-sujo por tanto tempo me fez admir\u00e1-lo pelo jeito paciente e sol\u00edcito. N\u00e3o era de muitas palavras. Nas caixas de som, dava a entender mais ou menos como pensava. Rolava ali um mist\u00e3o de can\u00e7\u00f5es vindas dos anos oitenta, de The Clash a The Cure, passando por Siouxsie &#038; The Banshees, Jesus &#038; Mary Chain, Inocentes, C\u00f3lera e tudo o mais que parecesse uma decente &#8220;r\u00e1dio rock&#8221;. Lembrava-me um botec\u00e3o que eu frequentava quando era molecote em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Suas vestimentas, por outro lado, o adornavam como o mais tranquilo e desapegado suburbano, sem v\u00ednculos com os c\u00f3digos de moda do pessoal da zona sul. Chinelo era de praxe, com sol ou chuva.<\/p>\n<p>Se figura e trilha sonora n\u00e3o davam liga, Capita dava de ombros, at\u00e9 porque ningu\u00e9m jamais o questionou. O seu p\u00fablico talvez nem soubesse do que se tratava aqueles artistas e can\u00e7\u00f5es &#8211; normalmente aposentados e desempregados que se encostavam pra uma partida de domin\u00f3 enquanto cacha\u00e7a vai e cacha\u00e7a vem. Eu e o Capita \u00e9 que fug\u00edamos do quadro geral.<\/p>\n<p>Ali na zona norte carioca, com o calor quase sempre inconveniente, aquela biboca, uma antiga garagem transformada em botequim, era meu porto seguro. Sabia que n\u00e3o seria encontrado, que n\u00e3o seria perturbado e que poderia ouvir um pouco de m\u00fasica decente porque um aben\u00e7oado tinha o mesmo gosto que eu.<\/p>\n<p>Essa semana fiquei sabendo que Maximiliano, o Capita (nunca soube o porqu\u00ea deste apelido), morreu. O botequim que nem nome tem estava fechado. N\u00e3o sei o motivo, mas tomei coragem pra tocar a campainha do vizinho pra tentar entender o motivo de estar fechado. Foi quando soube da morte dele. O vizinho me avisou pra tocar na casa ao lado, que era onde a fam\u00edlia morava. Mais uma vez, sem motivo aparente, tomei-me de uma pouco usual coragem e segui o conselho. Foi assim que conheci Junior, filho mais velho de Capita. Ele quem atendeu a porta, com um sorriso for\u00e7ado, mas sol\u00edcito como o pai. Eram um a cara do outro.<\/p>\n<p>Depois de uma meia hora de conversa, fiquei sabendo do fulminante ataque card\u00edaco sofrido pelo seu pai. Em poucos minutos, Capita j\u00e1 n\u00e3o era mais sol\u00edcito, nem poderia trazer mais uma, nem fechar. Falei pra Junior que quase atravessava a cidade s\u00f3 por um par de horas no botequim do seu pai, ouvindo aquela trilha sonora. O ambiente era meu analista silencioso: bar, cerveja, m\u00fasica.<\/p>\n<p>Junior ent\u00e3o me contou que seu pai colocava essas m\u00fasicas pra espantar os clientes chatos, que ficavam e ficavam e ficavam, sempre pedindo uma pinguinha a mais. Quando isso acontecia, ele simplesmente aumentava o volume no m\u00e1ximo e o mala ia embora com os ouvidos estourando. As muitas sele\u00e7\u00f5es em CD-R foram sendo criadas ao longo do tempo, gra\u00e7as ao empurr\u00e3o inicial de um &#8220;primo roqueiro estranh\u00e3o&#8221; que era guitarrista e adorava essas m\u00fasicas. Capita, com o tempo, se tornou apreciador tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8220;Mas agora n\u00e3o faz sentido&#8221;, me disse Junior, &#8220;manter esses CDs aqui&#8221;. Mas voc\u00ea vai fechar o bar? Perguntei com uma mix\u00f3rdia de desespero, indigna\u00e7\u00e3o e lamenta\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00e3o sei ainda&#8230; Mas essas m\u00fasicas&#8230; n\u00e3o d\u00e1!&#8221;, respondeu quase rindo. &#8220;Voc\u00ea quer os CDs pra voc\u00ea? Metade eu j\u00e1 dei, sobrou essa outra caixa aqui&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>A pergunta me pegou de surpresa. Junior n\u00e3o frequentava o bar do pai, ou pelo menos eu jamais o havia visto por ali e certamente ele n\u00e3o me conhecia. Mas eu devo ter sido bastante inciso nos elogios \u00e0quele inusitado ponto de encontro comigo mesmo, conhecendo detalhes que s\u00f3 quem frequentava conhecia, que ele viu em mim algu\u00e9m em quem confiar. &#8220;Se voc\u00ea gosta dessas m\u00fasicas, e talvez voc\u00ea seja o \u00fanico cliente que gosta, n\u00e3o vejo porqu\u00ea n\u00e3o&#8221;, sentenciou. &#8220;Espere um pouco!&#8221;.<\/p>\n<p>Ele demorou uns poucos minutos antes de voltar com uma caixa. Era uma caixa com muitos, mas muitos CDs &#8211; cento e oitenta, como contei mais tarde, todos numerados e organizados com nome do artista, nome da faixa, disco e ano de lan\u00e7amento. Quem diria? Capita era organizado pacas e tinha pegado gosto pela coisa. Junior falou que ele nem pedia mais ajuda pro primo esquisit\u00e3o e o pr\u00f3prio pai ia pra Internet buscar as coisas que gostava. Navegava por blogues e sites especializados em busca de novidades. Uma r\u00e1pida olhada e tinha ali \u00e1lbuns de 2017, 2018 j\u00e1 gravados. Capita era um pirata pra consumo pr\u00f3prio, como eu e como voc\u00ea. Era curioso, porque eu ouvi quase nenhuma varia\u00e7\u00e3o de artistas ou m\u00fasicas quando estava pelo bar. Talvez ele colocasse sempre os mesmos dois CDs, vai saber&#8230;<\/p>\n<p>Junior tamb\u00e9m me contou uma pequena peculiaridade de seu pai. No bar, logo cedo, ao abrir, quando vendia p\u00e3o na chapa e cafezinho pros trabalhadores que passassem por ali, ele tamb\u00e9m servia gratuitamente uns poucos moradores de rua que eventualmente pediam algo. Ao inv\u00e9s de dinheiro, dava um pingado e um p\u00e3o na chapa. Junior ria com satisfa\u00e7\u00e3o ao saber que o pai fazia tal caridade seguido de um presente inusitado: um CD. Ele dava um CD pro morador de rua depois do caf\u00e9-da-manh\u00e3 gratuito!<\/p>\n<p>Soou-me como uma crueldade tal presente. Como afinal um morador de rua poderia ouvir o CD? Mas Junior disse-me que um deles, aparentando bem mais velho que seu pai, quando deu de cara com o bar fechado, no dia seguinte \u00e0 morte de Capita, ficou sentado ali em frente, esperando o caf\u00e9 que aquele dia n\u00e3o veio. Nem no dia seguinte e nem no outro. Em todos, restava ao morador de rua uma esperan\u00e7a. No quarto ou quinto dia, Junior foi falar com aquela figura e lhe ofereceu o caf\u00e9. O cidad\u00e3o agradeceu pela gentileza, mas disse que estava ali mesmo pelo CD. O espanto de Junior o fez contar a hist\u00f3ria do presente inusitado e di\u00e1rio &#8211; sim, di\u00e1rio! &#8220;Eu estou sempre aqui pelo CD&#8221;, contou.<\/p>\n<p>O morador de rua, que se chamava simplesmente Rui, acabou ficando com uma caixa com quase duzentos CDs. Junior fez quest\u00e3o. Queria, na verdade, que ele levasse as duas caixas, mas Rui achou demais. Uma j\u00e1 era suficiente. Pediu um abuso apenas: um fone de ouvido. Junior foi com ele at\u00e9 uma loja ali perto e comprou.<\/p>\n<p>Fico imaginando algu\u00e9m passando pelas ruas da Tijuca e Vila Isabel e de repente ver um senhor de felpuda barba branca, bon\u00e9, empurrando um carrinho de supermercado e fones de ouvido, onde, entre tantos pertences estaria uma caixa com duzentos CDs das bandas mais inusitadas e subterr\u00e2neas do mundo, e um tocador de CD, que sabe-se l\u00e1 onde conseguiu. Ele poderia estar ouvindo desde The Ex (sim, tinha um disco deles na minha pilha), The Cure, Smiths, Eist\u00fcrzende Neubauten, Strokes, Arctic Monkeys, Nirvana (aparentemente, ele adorava Nirvana), Toy Dolls, Pixies (outra prefer\u00eancia), e muita coisa nova, que ele parece que baixava indiscriminadamente.<\/p>\n<p>O \u00faltimo disco que ele baixou, pela data da minha caixa, foi o &#8220;Microshift&#8221;, do Hookwors &#8211; o editor deste site e o Capita talvez sejam os \u00fanicos brasileiros a curtir Hookworms.<\/p>\n<p>Pra quem n\u00e3o conhece a banda, &#8220;Microshift&#8221; \u00e9 o terceiro disco do grupo (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/hookworms-microshift\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">leia aqui<\/a>), natural de Yorkshire, Inglaterra, e o que tem o som mais acess\u00edvel. Os dois primeiros tem berros e guitarras <em>krautrock<\/em>, o que me atrai mais. S\u00f3 que esse disco que o Capita gravou (e que falta uma m\u00fasica, &#8220;Boxing Day&#8221;, n\u00e3o sei o motivo) \u00e9 melhor do que aparenta ser pelas primeiras m\u00fasicas de trabalho, &#8220;Negative Space&#8221; e &#8220;Static Resistance&#8221;. H\u00e1 at\u00e9 uma balada lis\u00e9rgica, &#8220;Each Time We Pass&#8221;. Ele tem uma s\u00e9ria propens\u00e3o ao agrado sem afago. Ser mais acess\u00edvel n\u00e3o quer dizer exatamente ser acess\u00edvel, de modo que as guitarras ainda est\u00e3o l\u00e1, apesar das teclas mais sorridentes.<\/p>\n<p>Se tornou um dos meus discos preferidos do ano, n\u00e3o s\u00f3 pelo conte\u00fado em si, mas pela hist\u00f3ria bastante inusitada por tr\u00e1s dela. \u00c9 um disco que nasceu de uma trag\u00e9dia &#8211; o est\u00fadio alagado que adiou em muito o lan\u00e7amento, o jeito que chegou a mim &#8211; e \u00e9 um disco que contraria o pr\u00f3prio passado da banda.<\/p>\n<p>Ao que consta, \u00e9 um trabalho de renascimento. \u00c9 um <em>synthpop<\/em> sujo pra afastar dem\u00f4nios e aproximar pessoas. Como Capita fez silenciosamente durante sua vida. A boa m\u00fasica ecoa por a\u00ed e chegou at\u00e9 mim por conta desse meu novo \u00eddolo improv\u00e1vel.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 439px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3326679970\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/hookworms.bandcamp.com\/album\/microshift\">Microshift by Hookworms<\/a><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-sem-passado-e-sem-futuro\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO\">\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-quatro-discos-quatro-vozes-so-mulheres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES\">\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-voo-sem-sentido-asas-pra-se-apoiar\/\" title=\"\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR\">\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-adaptacao-de-flores-silvestres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES\">\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-uma-voz-e-tudo\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO\">\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca tirei uma foto com ele. 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