{"id":51918,"date":"2018-05-09T16:25:09","date_gmt":"2018-05-09T19:25:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=51918"},"modified":"2018-06-05T13:42:04","modified_gmt":"2018-06-05T16:42:04","slug":"acidas-os-sonhos-mais-loucos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-os-sonhos-mais-loucos\/","title":{"rendered":"\u00c1CIDAS: OS SONHOS MAIS LOUCOS"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51920\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-os-sonhos-mais-loucos\/acidas13\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/acidas13.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"acidas13\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/acidas13.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/acidas13.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-51920\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/acidas13.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/acidas13.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Eu sou fissurado por sonhos. Tenho uma incr\u00edvel e talvez \u00fanica habilidade de retomar sonhos sonhados em noites anteriores. Crio uma sequ\u00eancia, por assim dizer. Fico procurando explica\u00e7\u00f5es pra eles e me angustia saber que essa \u00e9 a coisa mais dif\u00edcil e cruel a ser feita consigo mesmo, j\u00e1 que a mim \u00e9 inevit\u00e1vel e \u00e9 algo imposs\u00edvel. Sonhos n\u00e3o t\u00eam explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quer dizer, tem gente que vai dizer que h\u00e1 explica\u00e7\u00f5es, sim; a psican\u00e1lise tem d\u00e9cadas nesse meio, mas eles s\u00f3 s\u00e3o inexplic\u00e1veis porque s\u00e3o incompletos. Sonhos s\u00e3o fragmentos, oras! Sonhos n\u00e3o s\u00e3o como filmes ou pe\u00e7as de teatro: n\u00e3o possuem come\u00e7o, meio e fim, nem enredo veross\u00edmil, muito menos uma l\u00f3gica narrativa que determine moral, abrace complexidades humanas e todas as coisas pr\u00e1ticas que fazem uma hist\u00f3ria pegar o espectador.<\/p>\n<p>Quando se conta um sonho todo mundo acha um treco maluco porque n\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica na narrativa deles. H\u00e1 muitos buracos, as passagens s\u00e3o pulos no espa\u00e7o, no tempo e na suposi\u00e7\u00e3o de realidade. Voc\u00ea voa, pilota naves espaciais ao lado de um camelo, luta contra o ex\u00e9rcito indiano numa praia da Su\u00ed\u00e7a, onde nem praia existe, ca\u00e7a borboletas com aspirinas, cria programas de computador que v\u00e3o salvar a exist\u00eancia dos biscoitos de \u00e1gua e sal, ao mesmo tempo em que namora e mo\u00e7a mais bonita que tenha cinco metros de altura e n\u00e3o h\u00e1 empecilho algum ao tentar beij\u00e1-la, voc\u00ea tamb\u00e9m caminha por geleiras feitas de a\u00e7\u00facar mascavo, mas s\u00e3o geleiras branquinhas ainda assim, voc\u00ea \u00e9 amigo das suas bandas preferidas, bate na cara de todos os membros do conselho de seguran\u00e7a da ONU que est\u00e3o sentados contigo numa mesa de bar sujo, e no dia seguinte tudo o que voc\u00ea quer fazer \u00e9 juntar as pontas desse sonho que voc\u00ea achou divertido, riu, teve medo, se sentiu um her\u00f3i, mas n\u00e3o consegue, porque eles n\u00e3o sobrevivem no rastro da mem\u00f3ria de dois minutos acordado e pronto pra mais um dia massacrante.<\/p>\n<p>\u00c9, os sonhos n\u00e3o resistem. Acordados, os matamos sem remorso, certos que outras sandices acontecer\u00e3o na noite seguinte. E tudo realmente acontece de novo, num ciclo que vai durar enquanto a gente viver.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que quando ou\u00e7o a Elis Regina cantando &#8220;os sonhos mais lindos sonhei&#8221; \u00e0s vezes me d\u00e1 um acesso de riso. A m\u00fasica \u00e9 linda, a letra \u00e9 igualmente bela, mas s\u00f3 a poesia pode imaginar &#8220;sonhos lindos&#8221;.<\/p>\n<p>Sonhos s\u00e3o radicalmente \u00e1cidos, viagens alucinantes, del\u00edrios inclassific\u00e1veis, dem\u00eancias perturbadoras. Se tornam &#8220;lindos&#8221; se a gente quiser relacion\u00e1-los a &#8220;desejo&#8221;. Porque &#8220;desejar&#8221; a gente sempre deseja algo de bom pra gente. Se desejos s\u00e3o del\u00edrios quando estamos acordados, se tornam roteiros muito mais pr\u00f3ximos de uma desejada realidade, com sustenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, embora nem sempre longe de uma utopia desvairada.<\/p>\n<p>Da\u00ed que existem exce\u00e7\u00f5es. Os artistas. Esses distorcedores da realidade, os criadores de uma outra realidade, podem tudo. Sonhar acordados. Literalmente. Podem criar uma l\u00f3gica il\u00f3gica e chamar de arte, pois \u00e9 algo belo, enfim. Toda aquela alucina\u00e7\u00e3o que n\u00f3s mortais s\u00f3 conseguimos dormindo ou carregados por subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, os artistas transformam em realidade.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o quer dizer que seja compreens\u00edvel. Ou como Jack White poderia explicar seu &#8220;Boarding House Reach&#8221;? Ouvindo o disco, cheio de boas inten\u00e7\u00f5es, me parece um sonho que ele teve. Um sonho sonoro que ele achou bom demais pra ficar s\u00f3 no mundo dos sonhos. Foi preciso contar a algu\u00e9m, mas, cheio de buracos e sem uma l\u00f3gica qualquer, White teve que preencher as lacunas pra ser algo compreens\u00edvel e palp\u00e1vel comercialmente (ou artisticamente).<\/p>\n<p>Mas tirando uma ou outra can\u00e7\u00e3o &#8220;em linha reta&#8221; (&#8220;Connected By Love&#8221;, &#8220;Ice Station Zebra&#8221;, &#8220;Over And Over And Over&#8221;), o disco inteiro \u00e9 um emaranhado de tentativas de explicar o que parece ser inexplic\u00e1vel. Um del\u00edrio do pr\u00f3prio artista. Eu sei: quem ousaria dizer que o artista n\u00e3o pode delirar? Ele tem que delirar!<\/p>\n<p>Jack White delirou um bocado aqui, s\u00f3 que n\u00e3o parece que foi no sentido l\u00f3gica-del\u00edrio, est\u00e1 mais no rumo del\u00edrio-l\u00f3gica, onde o artista tenta preencher buracos de uma vis\u00e3o que n\u00e3o se conectava a princ\u00edpio, pra que ela pare\u00e7a, um pouco que seja, com algo que possa ser digerido. Assim, h\u00e1 can\u00e7\u00f5es declamadas, &#8220;Ezmerelda Steals The Show&#8221; e &#8220;Get In The Mind Shaft&#8221; (um samba-balan\u00e7o que parece criado numa ind\u00fastria qu\u00edmica), can\u00e7\u00f5es que experimentam barulhos (&#8220;Respect Commander&#8221;), can\u00e7\u00f5es-White Stripes (como as citadas no par\u00e1grafo acima), um lindo <em>blues-torto<\/em> (&#8220;What&#8217;s Done Is Done&#8221;) e uma can\u00e7\u00e3o-cl\u00e1ssica (&#8220;Humoresque&#8221;).<\/p>\n<p>Eis que n\u00e3o sei se seu del\u00edrio foi algo bom. Sonhos s\u00e3o ideias inacabadas. Tentar cimentar seus v\u00e3os naturais pode at\u00e9 criar uma estrutura s\u00f3lida, mas charmosa certamente n\u00e3o vai ser. O resultado disforme talvez n\u00e3o fa\u00e7a sentido nem mesmo pra quem conta o sonho pra algu\u00e9m. Provavelmente quando contar pra outra pessoa o mesmo sonho, tender\u00e1 a preencher as lacunas de forma diferente e mais consistente. Se continuar contando, quem sabe, isso pode virar uma hist\u00f3ria sustent\u00e1vel. Mas ser\u00e1 boa &#8211; ou, mais ainda, n\u00e3o ser\u00e1 apenas um arremedo da loucura sonhada?<\/p>\n<p>Jack White ficou nessa segunda op\u00e7\u00e3o. \u00c9 prov\u00e1vel que os remendos v\u00e3o aperfei\u00e7oar a hist\u00f3ria toda vez que ele apresentar esse seu del\u00edrio no palco e, assim, enfim, chegar a um resultado satisfat\u00f3rio. Por\u00e9m, a pergunta permanece: a\u00ed, n\u00e3o ser\u00e1 apenas um arremedo do primeiro sonho, aquele que o motivou a chegar at\u00e9 aqui, e ent\u00e3o n\u00e3o ter nada mais a ver com ele?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fL_oEWVIo7I\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-sem-passado-e-sem-futuro\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO\">\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/popload-festival-2022-como-foi\/\" title=\"POPLOAD FESTIVAL 2022 &#8211; COMO FOI\">POPLOAD FESTIVAL 2022 &#8211; COMO FOI<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-quatro-discos-quatro-vozes-so-mulheres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES\">\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-voo-sem-sentido-asas-pra-se-apoiar\/\" title=\"\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR\">\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-adaptacao-de-flores-silvestres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES\">\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu sou fissurado por sonhos. 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