{"id":51922,"date":"2018-05-10T18:52:25","date_gmt":"2018-05-10T21:52:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=51922"},"modified":"2018-05-10T18:52:25","modified_gmt":"2018-05-10T21:52:25","slug":"resenha-lolina-the-smoke","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-lolina-the-smoke\/","title":{"rendered":"RESENHA: LOLINA &#8211; THE SMOKE"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51923\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-lolina-the-smoke\/lolina-capa-thesmoke\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,540\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"lolina-capa-thesmoke\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?resize=540%2C540\" width=\"540\" height=\"540\" class=\"alignnone size-full wp-image-51923\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?resize=83%2C83&amp;ssl=1 83w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/lolina-capa-thesmoke.jpg?resize=55%2C55&amp;ssl=1 55w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>M\u00fasicos pop n\u00e3o devem ser julgados antes de voc\u00ea ouvir o sintetizador.<\/p>\n<p>Considere que Lolina (Inga Copeland) esteja te guiando atrav\u00e9s de Londres e voc\u00ea nunca esteve em Londres e ela n\u00e3o est\u00e1 nem um pouco a fim de lhe mostrar os pontos tur\u00edsticos ou cart\u00f5es-postais lotados de visitantes ricos e chatos. Lolina teria sido chamada de &#8220;corajosa&#8221; por algum conterr\u00e2neo, mas ela parece bem e parece conhecer os becos e vielas t\u00e3o bem como as palmas da m\u00e3o. Ent\u00e3o, talvez esses mesmos conterr\u00e2neos ficariam surpresos com os locais que ela tem pra mostrar: como se uma cidade completamente diferente fosse evidenciada quando o \u00e1lbum come\u00e7a.<\/p>\n<p>Lolina \u00e9 o equivalente desse mist\u00e9rio assombroso e sedutor ao evidenciar-se recantos escondidos, qui\u00e7\u00e1 proibidos, do lugar onde se vive. Se Lolina levasse-me pra esses lugares, ficaria amedrontado e surpreso com as coisas que se desenrolariam. Vejam bem, estou falando de um lugar onde n\u00e3o conhe\u00e7o nada e deve existir muito pr\u00f3ximo aos esgotos e ruas esburacadas da minha cidade.<\/p>\n<p>Mas talvez n\u00f3s j\u00e1 tenhamos andado por aqui, poder\u00edamos pensar. N\u00e3o \u00e9 sobre estas pontes desestruturadas e esgotos fedidos por onde passamos, todo dia, pra ir comprar p\u00e3o? Afinal de contas, h\u00e1 uma vida subterr\u00e2nea confluindo sob estas ruas. Nas pe\u00e7as que se desenrolam, uma vida vacilante trafega entre rupturas e sons transpondo sintetizadores, retirando constantemente o ouvinte do lugar-est\u00e1tico e causando uma paranoia com o som incisivo de goteiras e ratos num coro do cosmopolitismo n\u00e3o revelado. Esses s\u00e3o sons-temas que passam escondidos pela percep\u00e7\u00e3o obrigatoriamente tur\u00edstica e hist\u00f3rica que \u00e9 imposta ao se trafegar por esses lugares; quando os lugares-consumo recuperam um pouco de suas manchas que os vest\u00edgios passam a dizer algo verdadeiro. Essa m\u00fasica n\u00e3o nos tira da estupidez perante as for\u00e7as-naturais, mas ela reintegra, atrav\u00e9s dos artif\u00edcios sonoros, o caos da natureza infiltrando cidades-modelos globalizadas.<\/p>\n<p>Pra virar a m\u00fasica em um retrato-flu\u00eddo dos rol\u00eas pela cidade, a produtora tem de ser honesta e manifestar todos os desvios e aleatoriedades alien\u00edgenas encontradas e filtr\u00e1-las o menos poss\u00edvel. Por isso, o disco carrega um peso paranoico, porque ele est\u00e1 carregado com o excesso apreensivo da artista. A hilaridade de Lolina trafega junto com a seriedade de algu\u00e9m que prefere o tr\u00e2nsito-cont\u00ednuo do que o deslumbre.<\/p>\n<p>&#8220;The River&#8221;, quarta faixa, abre uma cis\u00e3o com a cidade e o ambiente opressivo at\u00e9 ent\u00e3o: as batidas continuam esmagando enquanto as intromiss\u00f5es malucas de sons n\u00e3o identific\u00e1veis evidenciam que algo est\u00e1 fora de controle, que algo nunca vai ser apreendido n\u00e3o importa o qu\u00e3o r\u00e1pido se ande pela cidade. Ent\u00e3o Lolina, ao se deparar com o rio (que \u00e9 o nome traduzido da m\u00fasica), fica suspensa: aquele \u00e9 o ponto-zero da ilha londrina, aquilo delimita sua cidade, sua m\u00fasica e seus movimentos expansivos. Nesse momento em que os olhos encontram a pris\u00e3o f\u00edsica enquanto o caminho lotou o transeunte de experi\u00eancias: &#8220;minha dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea&#8221;, ela repete em &#8220;A Path Of Weeds And Flowers&#8221; e, assim como o nome dessa faixa, o disco \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o do caminho e as emo\u00e7\u00f5es nascidas das frestas que invadem a cidade e, ao mesmo tempo, a limitam. Mas, como em &#8220;Murder&#8221;, o desenho dos resqu\u00edcios retrai uma obscuridade perif\u00e9rica e isso inunda o pr\u00f3prio autorreflexo da m\u00fasica: por conter ondas de sintetizadores que se debatem, nascem e somem que o atrito \u00e9 tudo, \u00e9 a origem que desenrola e motiva a caminhada, as tens\u00f5es e a suspens\u00e3o no movimento do rio. Por volta dos vinte e seis minutos do curto disco, os sintetizadores ficam nitidamente mais altos do que a voz da cantora, como se aquele fosse o momento m\u00e1ximo de confirmar a nega\u00e7\u00e3o que a vista da continuidade do rio atesta (Tudo vai fluir pra outra coisa. At\u00e9 deixar de ser Londres, at\u00e9 deixar de ser continente. &#8220;Roulette&#8221;, a faixa inicial, detalha uma antecipa\u00e7\u00e3o: ao se ouvir o disco pela segunda ou terceira vez, percebe-se a determina\u00e7\u00e3o da pessoa em trafegar pela cidade e chegar a algum destino. A cidade banhada por um rio que \u00e9 sua nega\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m continuidade: delimita-a e completa-a &#8211; a cidade afincada no solo, o rio erodindo na submers\u00e3o. Est\u00e1 ali, pode-se v\u00ea-lo, mas em um processo de transmuta\u00e7\u00e3o constante, sempre deteriorando e nascendo e prestes a ser outra coisa).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/259896307?byline=0&#038;portrait=0\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A cidade como constante amni\u00f3tica, t\u00e3o onipresente que \u00e9 dif\u00edcil distinguir seus barulhos, t\u00e3o parte da gente que \u00e9 dif\u00edcil pescar seu sil\u00eancio: o rio abaixo do cart\u00e3o de metr\u00f4, o fluxo subterr\u00e2neo pra se deparar com o fim do continente e a \u00e1gua cobrindo alguns degraus que fazem a liga\u00e7\u00e3o entre l\u00edquido e concreto. Se Miguel de Cervantes escreveu que &#8220;A verdade pode ser esticada, mas nunca quebra, e sempre aparece acima das mentiras, como o \u00f3leo flutua na \u00e1gua&#8221;, Lolina, no videoclipe, mostra que na superf\u00edcie da \u00e1gua h\u00e1 a sujeira da cidade acumulada, flutuando e corrompendo a estrutura do muro concreto. Essa corros\u00e3o do mundo estrutural \u00e9 constante e as experi\u00eancias acumuladas sempre v\u00e3o acabar nela, \u00e9 um tr\u00e2nsito finito regulado por uma lenta degrada\u00e7\u00e3o. Cervantes destinou-se a falar sobre um mundo todo, abra\u00e7ado no ber\u00e7o crist\u00e3o, enquanto Lolina \u00e9 claramente uma representante maior desta modernidade e todo o registro pode ser encarado como uma descri\u00e7\u00e3o da cidade lentamente corrompida e sobre a rea\u00e7\u00e3o instintiva a essa submers\u00e3o gradual. Esses t\u00eanues momentos tensos que comp\u00f5e o rol\u00ea pela cidade mostram-se como algo complexo, que liga a transposi\u00e7\u00e3o da vida afetiva com 1) lar, 2) ruas, 3) metr\u00f4 e 4) rio (h\u00e1 algo nessas apar\u00eancias que refletem parte da intimidade e tamb\u00e9m a coexist\u00eancia do exterior. Esse videoclipe \u00e9 a comunh\u00e3o visual das coisas descritas no disco: a familiaridade submersa, de repente, em estranheza).<\/p>\n<p>Em vez de descrever visualmente o que ocorre no ambiente urbano, a for\u00e7a do \u00e1lbum reside em estimular um tr\u00e2nsito entre as composi\u00e7\u00f5es est\u00e1ticas que estruturam cidades globais. Como eu disse no in\u00edcio, voc\u00ea est\u00e1 sendo guiado por movimentos insistentes, que desvendam a primeira apar\u00eancia dos lugares inertes. Muitos elementos est\u00e9ticos m\u00ednimos contribuem pra essa locomo\u00e7\u00e3o: a capa desfocada, o videoclipe, a continuidade infrequente dos sintetizadores em cima de batidas constantes e o apelo da m\u00fasica ao reposicionar significativamente os locais pelo qual se passa, devolvendo-lhes o movimento e convidando-nos a reavaliar as ruas pelas quais andamos.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 406px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3248127989\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/lolina.bandcamp.com\/album\/the-smoke\">The Smoke by Lolina<\/a><\/iframe><\/p>\n<p>Por algum motivo, h\u00e1 muita m\u00fasica que rejeita o movimento, ainda assim carrega barulhos comodificados que confortam o ouvinte, mas h\u00e1 outras que preferem a transi\u00e7\u00e3o entre o local seguro e o ambiente externo puro, em que nada exatamente habita um polo ou outro, pois se carrega a intimidade do lugar de origem e h\u00e1 sempre algo externo \u00e0s simula\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Por agora, n\u00f3s estamos confort\u00e1veis sobre planos est\u00e1ticos, mas a probabilidade de eles estra\u00e7alharem-se aumenta significativamente quando o movimento passa a ser a base da vida. H\u00e1 for\u00e7a o suficiente na \u00e1gua que isola um peda\u00e7o de terra pra varrer tudo. Se o desastre completo chegar, aquele que vivia no constante movimento n\u00e3o vai estranh\u00e1-lo de todo. Talvez v\u00e1 at\u00e9 se amigar da situa\u00e7\u00e3o (este tipo de m\u00fasica se retroalimenta de impress\u00f5es, por isso tudo borrado e codificado. O que significa lidar com tempos divergentes no mesmo instante, enquanto eles s\u00e3o processados em comunh\u00e3o com a paisagem atual. A m\u00fasica termina numa superf\u00edcie suja e caudalosa, corroendo as poucas certezas que se tem sobre qualquer coisa).<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>1. Roulette<br \/>\n2. Fake City, Real City<br \/>\n3. Style And Punishment<br \/>\n4. The River<br \/>\n5. The Missing Evidence<br \/>\n6. A Path Of Weeds And Flowers<br \/>\n7. Murder<br \/>\n8. Betrayal<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><strong>NOTA: 9,5<\/strong><br \/>\nLan\u00e7amento: 14 de mar\u00e7o de 2018<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 28 minutos e 03 segundos<br \/>\nSelo: Independente<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Lolina<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-shit-and-shine-new-confusion-e-persher-man-with-the-magic-soap\/\" title=\"RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;\">RESENHA: SHIT AND SHINE &#8211; &#8220;NEW CONFUSION&#8221;; E PERSHER &#8211; &#8220;MAN WITH THE MAGIC SOAP&#8221;<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-skullcrusher-quiet-the-room\/\" title=\"RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM\">RESENHA: SKULLCRUSHER &#8211; QUIET THE ROOM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-feliz-fm-nome-morto-j-p-caron-a-juventude-do-rio-de-janeiro-respira-por-aparelhos-ruidosos\/\" title=\"RESENHA: FELIZ FM, NOME MORTO &#038; &#038; J.-P. 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