{"id":52530,"date":"2018-08-05T08:41:52","date_gmt":"2018-08-05T11:41:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=52530"},"modified":"2018-09-06T19:35:29","modified_gmt":"2018-09-06T22:35:29","slug":"a-historia-por-tras-de-marquee-moon-o-classico-do-television","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-historia-por-tras-de-marquee-moon-o-classico-do-television\/","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA POR TR\u00c1S DE &#8220;MARQUEE MOON&#8221;, O CL\u00c1SSICO DO TELEVISION"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"52540\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-historia-por-tras-de-marquee-moon-o-classico-do-television\/television3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/television3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"television3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/television3.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/television3.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-52540\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/television3.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/television3.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Em 2012, o escoc\u00eas Damien Love publicou na Uncut uma entrevista com Richard Lloyd, guitarrista fundador do Television. Ele e Tom Verlaine (junto com Richard Hell e Billy Ficca) criaram uma das bandas mais importantes da hist\u00f3ria da m\u00fasica e h\u00e1 uma certa aura de mist\u00e9rio sobre como essa banda gravou t\u00e3o pouco e como eram as rela\u00e7\u00f5es entre os integrantes, que impulsionaram a cena nova iorquina do <em>punk<\/em> de um jeito muito peculiar.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos textos sobre o assunto, \u00e9 verdade, principalmente sobre &#8220;Marquee Moon&#8221;, um dos discos principais dessa \u00e9poca pra entender todo o contexto e que ainda hoje segue influenciando jovens a empunhar guitarras e fazer m\u00fasicas. Um bom texto \u00e9 <a href=\"http:\/\/observer.com\/2017\/02\/television-marquee-moon-album-anniversary-review\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">esse de Ron Hart pro Observer<\/a>, publicado em 2017.<\/p>\n<p>Mas a entrevista realizada por Love \u00e9 mais contundente porque mostra toda a paix\u00e3o e rancor de Lloyd pra com Verlaine e sua vis\u00e3o da hist\u00f3ria. \u00c9 <em>uma vis\u00e3o<\/em> da hist\u00f3ria, talvez n\u00e3o seja <em>a verdade<\/em>. Tempos depois, Love <a href=\"https:\/\/damienlove.com\/writing\/friction-the-making-of-televisions-marquee-moon\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">publicou em seu pr\u00f3prio <em>site<\/em> o texto completo<\/a> (a Uncut, claro, publicou s\u00f3 o editado), com o pr\u00f3prio Lloyd escrevendo como tudo aconteceu, desde quando chegou a Nova Iorque e conheceu Verlaine, at\u00e9 os dias atuais, passando pelos bastidores da grava\u00e7\u00e3o de &#8220;Marquee Moon&#8221;. \u00c9 esse texto que est\u00e1 traduzido abaixo (de forma bem livre).<\/p>\n<p>Apesar de ser a vis\u00e3o bem particular e carregada de emo\u00e7\u00f5es e pontos de vista pessoais de Lloyd, \u00e9 rico o suficiente em hist\u00f3ria, emo\u00e7\u00e3o, bom humor e descobertas.<\/p>\n<p><strong>FRICTION: THE MAKING OF TELEVISION\u2019S MARQUEE MOON<\/strong><br \/>\n<em>Por Richard Lloyd e Damien Love<\/em><br \/>\n<em>Tradu\u00e7\u00e3o livre: Floga-se<\/em> <\/p>\n<p><em>1. CONHECENDO TOM VERLAINE<\/em><\/p>\n<p>No outono de 1973, eu acabara de voltar pra Nova Iorque e precisava de um lugar pra ficar.<\/p>\n<p>Eu me mudei muito durante toda a vida. Nasci nos arredores de Pittsburgh e fui criado em Nova Iorque, e queria ser m\u00fasico. Estudei bateria quando crian\u00e7a antes de tocar guitarra. Quando sa\u00ed de casa pela primeira vez, fui a Boston pra ver a cena musical, porque \u00e9 onde todos da minha idade estavam indo. Eu dormi na rua, com meu viol\u00e3o como travesseiro. Eu comi sandu\u00edches de maionese por um ano. Ent\u00e3o, estive em Los Angeles por alguns anos. Foi um tempo em que as gravadoras gastavam um bocado, eram extravagantes, ent\u00e3o sempre havia uma festa pra ir, comida de gra\u00e7a. Estava com meus vinte e poucos anos e estava, creio, praticamente levando uma vida de vagabundo. Ent\u00e3o, ouvi falar sobre uma banda chamada The New York Dolls, e que havia uma cena crescendo em Nova Iorque, e ent\u00e3o resolvi voltar de novo.<\/p>\n<p>Eu estava indo muito ao Max&#8217;s Kansas City e conheci um sujeito chamado Terry Ork. Terry tinha um <em>loft<\/em> muito grande em Chinatown, e ele tinha um quarto vago na frente, ent\u00e3o foi pra l\u00e1 que me mudei.<\/p>\n<p>Basicamente, o que eu fazia durante o dia era tocar meu viol\u00e3o, sem amplificador. N\u00e3o queria que ningu\u00e9m me ouvisse at\u00e9 estar tocando bem. O trabalho de Terry era como gerente de uma loja de memorabilia de cinema na 13th Street, chamada Cinemabilia. Eles vendiam livros de cinema, cartazes, <em>stills<\/em> de publicidade. Voc\u00ea podia entrar e dizer: &#8220;voc\u00ea tem alguma foto autografada do Cary Grant em &#8216;Intriga Internacional&#8217;?&#8221;, e Terry diria ao seu assistente: &#8220;Richard, voc\u00ea procura isso?&#8221;. Ent\u00e3o, esse cara, Richard, ia emburrado olhar todos as fotos. E esse era Richard Meyers, que mais tarde se tornaria Richard Hell.<\/p>\n<p>Um dia, Terry chegou pra mim e disse: &#8220;ei, conhe\u00e7o um cara que faz o que voc\u00ea faz&#8221;.<\/p>\n<p>Eu disse: &#8220;huh? O que eu fa\u00e7o?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea toca guitarra sozinho, o dia todo. Isso \u00e9 tudo que voc\u00ea faz. Isso \u00e9 tudo que esse cara faz&#8221;.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que esse era o melhor amigo de Richard Meyers, um cara chamado Tom Miller, que logo ficaria conhecido como Tom Verlaine.<\/p>\n<p>Terry me disse que esse cara, o Tom, ia tocar no Reno Sweeney&#8217;s e perguntou se eu queria ir. O Reno Sweeney&#8217;s era um restaurante no Village que era como o CBGB da Broadway: Liza Minnelli, Peter Lemongello, <em>drag artists<\/em>, cantores <em>gays<\/em> de <em>wannabe<\/em> Broadway, esse tipo de pessoa. Eu n\u00e3o estava muito interessado. Mas Terry estava indo de qualquer maneira, e eu n\u00e3o tinha mais nada pra fazer. Ent\u00e3o, pegamos um t\u00e1xi e Richard Hell veio com a namorada, e nos sentamos, com duas bebidas cada, esperando que Tom chegasse.<\/p>\n<p>Ele entrou com sua guitarra e o velho amplificador Fender, e ficou ali parado j\u00e1 parecendo irritado, como se fosse muito dif\u00edcil at\u00e9 mesmo abrir a porta. Richard correu pra ajud\u00e1-lo com o amplificador, e ele o colocou no palco. Ent\u00e3o, ele voltou pro Tom.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o parece bem&#8221;, disse Richard.<\/p>\n<p>Tom vestia o que parecia uma camisa de 1932. Era velha, amarelada, gasta, quase nojenta. Richard colocou os dedos em um buraco no ombro e o rasgou. Ent\u00e3o, ele alargou outro buraco, pra que um dos mamilos de Tom pudesse ser visto. Fiquei observando-os, sentindo-me como um antrop\u00f3logo observando animais estranhos e seus h\u00e1bitos sociais.<\/p>\n<p>Tom ligou o amplificador, e o gerente correu direto em p\u00e2nico, gritando: &#8220;voc\u00ea tem que baixar isso!&#8221;. Tom ainda n\u00e3o tinha tocado uma nota sequer. Foi apenas o barulho que sai quando se liga um desses amplificadores antigos. Ent\u00e3o, Richard come\u00e7ou uma discuss\u00e3o com o gerente, e foi assim por um tempo. Richard e Tom tinham entre eles o que eu s\u00f3 posso descrever como desprezo universal. Mas finalmente, Tom tocou. Tr\u00eas m\u00fasicas. A segunda m\u00fasica foi &#8220;Venus Di Milo&#8221;.<\/p>\n<p>Terry Ork trabalhava como assistente de Andy Warhol durante a noite, e ele queria patrocinar uma banda, quase como Andy havia feito com o Velvet. Sua ideia era que ele iria patrocinar uma banda comigo. Mas quando vi Tom tocando &#8220;Venus Di Milo&#8221;, inclinei-me pra Terry e disse: &#8220;esse \u00e9 o cara&#8221;.<\/p>\n<p>Tom estava tocando todas as notas, tudo certo, mas eu sabia que poderia acrescentar algo ao que ele estava fazendo. Lembro-me de ter me inclinado gritando no ouvido de Terry, porque ele mal podia me ouvir: &#8220;esque\u00e7a minha banda, coloque eu e esse cara juntos e voc\u00ea ter\u00e1 a banda que est\u00e1 procurando&#8221;.<\/p>\n<p><em>2. OS PRIMEIROS ENSAIOS<\/em><\/p>\n<p>Alguns dias depois, Tom e Richard vieram ao <em>loft<\/em> de Terry. A \u00fanica guitarra era a minha. Toquei algumas coisas, ent\u00e3o a passei pra Tom e ele tocou algumas coisas, e perguntou: &#8220;voc\u00ea pode tocar isso?&#8221;. E naqueles dias, se eu visse voc\u00ea tocando alguma coisa, eu poderia tocar tamb\u00e9m. Da\u00ed, Richard e Tom se afastaram um pouco, sussurraram juntos, depois voltaram e disseram: &#8220;tudo bem, vamos tentar&#8221;.<\/p>\n<p>Tom e eu, nossas guitarras se juntaram imediatamente. Eu havia estudado um tanto de rock cl\u00e1ssico. Quando era adolescente, eu tinha um amigo que conhecia Jimi Hendrix, e Jimi dava li\u00e7\u00f5es a esse cara, que passava pra mim, e eu conheci Hendrix e o assisti tocando, ent\u00e3o foi da\u00ed que parti.<\/p>\n<p>Tom tocou com um estilo completamente diferente. Ele usou o vibrato cl\u00e1ssico. \u00c9 t\u00e9cnico pra descrever, mas \u00e9 como um violino: voc\u00ea move o pulso pra frente e pra tr\u00e1s, o dedo n\u00e3o se move, mas o tom sobe e desce. Eu n\u00e3o sei onde ele aprendeu. Era mais como um tocador de c\u00edtara, mas esse era o estilo de Tom, esse magn\u00edfico vibrato cl\u00e1ssico. Ele nunca faria <em>bends<\/em> inteiras, sempre micro-<em>bends<\/em>. Mas nossos dois estilos se encaixaram perfeitamente. N\u00f3s dois t\u00ednhamos todos os diferentes estilos de guitarra que algu\u00e9m poderia querer. Eu estava tocando muito mais rock cl\u00e1ssico, Tom estava tocando sua coisa estranha e intermedi\u00e1ria. Mas se o Tom me mostrasse algo, eu poderia repetir.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima coisa foi convencer Richard Hell a tocar baixo. Tom n\u00e3o conseguiu. Richie disse: &#8220;n\u00e3o sou m\u00fasico, n\u00e3o posso fazer isso&#8221;. Quando Tom n\u00e3o estava por perto, perguntei qual era o problema. Ele disse: &#8220;escute&#8230; tocar com Tom \u00e9 como ir ao dentista. Exceto que voc\u00ea prefere ir ao dentista&#8221;.<\/p>\n<p>Tom e Richard j\u00e1 tinham tentado ter uma banda antes.<\/p>\n<p>Eu disse: &#8220;mas Richard, voc\u00ea tem o estilo. Voc\u00ea parece uma combina\u00e7\u00e3o de Elvis Presley e alguma estrela de cinema. Voc\u00ea pode aprender, vamos ensaiar muito&#8221;. E os elogios o pegaram de jeito. Agora, \u00e9ramos tr\u00eas.<\/p>\n<p>Eu me reuni com o Tom pra falar sobre os bateristas. Eu tinha um pessoal em mente, mas Tom insistia que o melhor baterista do rock que ele conhecia era amigo dele, Billy Ficca. Fiquei um pouco irritado porque ele n\u00e3o estava disposto a experimentar alguns bateristas, mas n\u00f3s ligamos pro Billy. Billy estava em Boston, e ele havia acabado de deixar sua banda, ent\u00e3o ele n\u00e3o tinha mais nada a fazer e veio pra c\u00e1 pra come\u00e7armos a ensaiar. Tr\u00eas dias depois dos ensaios, Tom chamou-me de lado e disse: &#8220;estou prestes a arrancar o cabelo. Eu n\u00e3o aguento. Billy se transformou em um baterista de <em>jazz<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>E Billy estava em todo lugar &#8211; mas de um jeito bom. Eu disse a Tom: &#8220;olhe, todos os maiores guitarristas que conhecemos &#8211; Jimmy Page, Jeff Beck e Jimi Hendrix &#8211; todos eles tinham bateristas loucos&#8221;. O Who tinha Keith Moon, o Zeppelin tinha Bonham. Voc\u00ea sabe, sem um baterista louco, um solo de guitarra pode soar uma droga.<\/p>\n<p>N\u00f3s come\u00e7amos a ensaiar e est\u00e1vamos nos divertindo muito. Mas Tom j\u00e1 estava ficando frustrado com Richard Hell, porque Richard nunca praticava o instrumento. Essa \u00e9 uma raz\u00e3o pela qual acabamos tendo semanas de seis, sete dias de ensaios de cinco horas. O que obviamente n\u00e3o doeu, mas tamb\u00e9m n\u00e3o nos fez melhores, entre a falta de habilidade de Richard no baixo &#8211; e eu amava o baixo de Richard, eu achava que ele era como Paul McCartney &#8211; e Billy na bateria cada vez mais pirado.<\/p>\n<p>\u00c9 triste admitir que, quando chegou a \u00e9poca de Natal, e Billy partiu por uma semana pra visitar seu pai, n\u00f3s fizemos testes com outros bateristas sem avis\u00e1-lo. Tentamos Clem Burke, que acabou no Blondie, fizemos um teste com alguns caras que tocaram nos Ramones. E eles eram \u00f3timos. Mas foi ensaiando com eles que nos fez perceber que ningu\u00e9m se encaixava como Billy. Acho que o papel de Billy \u00e9 uma raz\u00e3o muito forte pela qual o Television ainda \u00e9 considerado uma grande banda.<\/p>\n<p><em>3. PRIMEIRO SHOW<\/em><\/p>\n<p>Come\u00e7amos a planejar nosso primeiro show. Mas n\u00e3o havia lugar pra tocar. Literalmente. Finalmente, alugamos o The Townhouse Theatre, um teatro de oitenta e oito lugares na 44th Street.<\/p>\n<p>Distribu\u00edmos panfletos que Hell criou. N\u00f3s quatro andamos por a\u00ed com pasta e pinc\u00e9is, e colamos por quase toda Manhattan. Pedimos que jornalistas viessem nos ver ensaiar. Como Danny Fields &#8211; o assessor de imprensa do The Doors e Jimi Hendrix no passado, e que empresariou os Stooges. Ele disse: &#8220;n\u00e3o, eu n\u00e3o vou ver sua banda. Mas qualquer um que tenha a coragem de me abordar na rua e me pedir uma opini\u00e3o, bem, eu sei que esse algu\u00e9m deve ser bom&#8221;. Da\u00ed, ele escreveu sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Terry conhecia pessoas da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica e pediu a Nicholas Ray, o diretor de &#8220;Juventude Transviada&#8221; (<em>de 1955, com James Dean<\/em>), pra vir nos ver ensaiar. Nick n\u00e3o queria vir. Terry ofereceu-lhe um gal\u00e3o de vinho. Nick disse: &#8220;ok&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Nicholas Ray veio e sentou-se na beira da cama, com seu tapa-olho, bebendo vinho, enquanto ouvia nosso rid\u00edculo repert\u00f3rio. N\u00f3s derrub\u00e1vamos as coisas, e se um microfone ca\u00edsse no ch\u00e3o, n\u00f3s nos deit\u00e1vamos e cant\u00e1vamos, ainda tocando. Quando o vinho estava quase no fim, Nicholas disse: &#8220;bem, eu vou te dizer, Terry: s\u00e3o quatro gatos com uma paix\u00e3o&#8221;. E usamos a cita\u00e7\u00e3o de Nick.<\/p>\n<p>Publicamos um pequeno an\u00fancio no jornal Village Voice e, na noite, ficamos surpresos: oitenta e oito assentos e enchemos a maioria deles. E, bem, n\u00f3s \u00e9ramos como o Sex Pistols que n\u00e3o sabiam tocar. N\u00f3s est\u00e1vamos com tudo. Especialmente ao cantar. Nem Tom nem Hell conseguiam segurar um maldito andamento. N\u00e3o sou Frank Sinatra, mas posso cantar no ritmo. Entramos nessas enormes discuss\u00f5es sobre quem estava fora.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Billy fazia aqueles solos de bateria&#8230; O jeito que eu vejo Billy \u00e9 que ele vem fazendo um solo de bateria desde 1973, ocasionalmente interrompido por m\u00fasicas. N\u00f3s costum\u00e1vamos fazer uma m\u00fasica chamada &#8220;Kingdom Come&#8221; &#8211; muito, muito diferente da vers\u00e3o que Tom fez mais tarde, solo e tamb\u00e9m tocada por Bowie &#8211; e tinha um solo de bateria nela. Durante os ensaios, quando cheg\u00e1vamos ao solo de bateria de Billy, o resto de n\u00f3s sa\u00eda pra almo\u00e7ar em Chinatown, fumava alguns cigarros, e quando volt\u00e1vamos Billy continuava solando.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p2g4NPMlr6A\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jQnlXIomPGs\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Eu tinha decidido que queria que meu cabelo fosse azul pro show, mas eu estava com medo de ter minha bunda chutada na rua. Ent\u00e3o, antes do show, descolori meu cabelo e comprei um monte de corante de comida. Eu imaginei que poderia colocar isso e depois lav\u00e1-lo. Por isso, fiquei com o cabelo azul e verde, vermelho e amarelo. N\u00f3s fizemos um <em>set<\/em> de duas partes, e durante a primeira parte as luzes estavam t\u00e3o quentes que toda a cor come\u00e7ou a escorrer do meu cabelo, pelo meu rosto, pingando sobre a minha camiseta e guitarra. \u00c9 por isso que em algumas das primeiras fotos voc\u00ea me ver\u00e1 meio&#8230; loiro.<\/p>\n<p><em>4. O NASCIMENTO DO CBGB<\/em><\/p>\n<p>Depois que tivemos que alugar nosso pr\u00f3prio teatro pra fazer um show, come\u00e7amos a conversar sobre onde mais havia para tocar. E n\u00e3o havia lugar algum.<\/p>\n<p>Na minha cabe\u00e7a, estava pensando nos Beatles, quando eles tocavam quatro ou cinco shows por noite em Hamburgo. Eu pensei, n\u00f3s precis\u00e1vamos disso: tocar v\u00e1rias vezes por noite, pra realmente nos aprimorarmos e construir um p\u00fablico.<\/p>\n<p>Tom morava no Lower East Side, e ensaiamos em Chinatown, o que significava que, quando Tom ia ao ensaio, descia a The Bowery. Agora, The Bowery tem uma reputa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o era um lugar perigoso, porque estava cheio de b\u00eabados. Os mais b\u00eabados no m\u00e1ximo v\u00e3o implorar por dinheiro, mas s\u00f3 o suficiente pra comprar uma bebida. Voc\u00ea pode simplesmente passar por cima deles na rua. Um dia, Tom entrou no ensaio e disse: &#8220;encontrei um lugar. Est\u00e1 na The Bowery. \u00c9 um inferninho&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 o que n\u00f3s quer\u00edamos. N\u00f3s precis\u00e1vamos de um lugar que soasse bem, mas que estivesse fora da rota, onde ningu\u00e9m mais iria querer entrar e tocar, pra que pud\u00e9ssemos nos tornar a banda da casa. Esse era o plano: conseguir um clube que permitisse m\u00fasica e meio que assumi-lo.<\/p>\n<p>Tom disse que tinha visto um cara do lado de fora, trabalhando na frente, e perguntou se algum de n\u00f3s voltaria com ele pra conversar com o cara. Hell estava ocupado bebendo u\u00edsque, e Billy n\u00e3o era um cara que queria ir e come\u00e7ar uma conversa. Ent\u00e3o, eu disse que iria.<\/p>\n<p>Vimos o propriet\u00e1rio, Hilly Kristal, em uma escada do lado de fora do pr\u00e9dio, firmando o toldo: CBGB OMFUG. Fomos at\u00e9 ele.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea vai ter m\u00fasica ao vivo?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Sim. Pode ter certeza.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Que tipo?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Espere um minuto. Deixe-me terminar isso, e vou mostrar a voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Hilly nos levou pra dentro. E havia um pequeno palco \u00e0 esquerda, que ele queria mudar pra frente, virado pras tr\u00e1s. N\u00f3s falamos com ele sobre isso. N\u00f3s dissemos: &#8220;voc\u00ea receber\u00e1 reclama\u00e7\u00f5es de barulho se estiver de frente pra rua&#8221;.<\/p>\n<p>Ele disse: &#8220;n\u00e3o, aqui n\u00e3o rola m\u00fasica alta&#8221;.<\/p>\n<p>E n\u00f3s: &#8220;bem, mas a pior parte \u00e9 o moral. Se as pessoas passarem ao lado da banda, como elas v\u00e3o sair, passando na frente da banda? Isso \u00e9 ruim pro moral dos m\u00fasicos&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Hilly disse: &#8220;bem, onde voc\u00ea acha que eu deveria colocar o palco?&#8221;<\/p>\n<p>O palco estava do lado esquerdo, no meio. N\u00e3o fazia o menor sentido. E ele tinha todos esses quartos abertos nos fundos, em dire\u00e7\u00e3o a uma cozinha que nunca teria passado pela inspe\u00e7\u00e3o. Quero dizer, Jesus Cristo! Mas era um dos mais longos bares de madeira de Nova Iorque, constru\u00eddo na d\u00e9cada de 1890, e tinha a maior cole\u00e7\u00e3o de letreiros de <em>neon<\/em> do mundo, era um lugar muito interessante.<\/p>\n<p>N\u00f3s dissemos: &#8220;bem, voc\u00ea n\u00e3o quer colocar no fundo, porque o clube \u00e9 muito longo. Provavelmente, o melhor lugar \u00e9 instal\u00e1-lo no meio e depois usar os quartos dos fundos como camarins e algo do tipo. Dessa forma, as pessoas sentadas no bar podem ver a banda, e voc\u00ea pode colocar algumas mesas&#8221;.<\/p>\n<p>Da\u00ed, n\u00f3s fisicamente ajudamos Hilly a mover o palco, de onde estava, pra onde acabou ficando. N\u00f3s projetamos aquele palco. N\u00f3s pens\u00e1vamos na grande bateria do Ringo. N\u00f3s fizemos tr\u00eas degraus: o mais alto pra bateria, o do meio pros amplificadores e o degrau inferior pros outros m\u00fasicos. E deu certo &#8211; o clube parecia bem bom (<em><a href=\"https:\/\/www.cbgb.com\/photos?ga=16\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">vale dar uma olhada nessas fotos pra ter uma ideia como era o famoso clube, que fechou as portas em 2006<\/a><\/em>).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"52532\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-historia-por-tras-de-marquee-moon-o-classico-do-television\/cbgb1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cbgb1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb1.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-52532\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"52533\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-historia-por-tras-de-marquee-moon-o-classico-do-television\/cbgb2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cbgb2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb2.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-52533\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb2.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cbgb2.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Hilly nos perguntou que tipo de m\u00fasica n\u00f3s tocamos. N\u00f3s dissemos rock. Ele disse: &#8220;bem, n\u00e3o tenho nada assim na programa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00f3s dissemos: &#8220;Hilly, n\u00e3o \u00e9 o tipo de rock que voc\u00ea est\u00e1 pensando. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o alto assim. Nos d\u00ea uma chance&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o, acho que n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>No dia seguinte, voltei pro clube com Terry Ork e tentamos convencer Hilly a deixar a banda tocar. Terry foi muito inteligente. Ele disse a Hilly: &#8220;Qual \u00e9 a sua melhor noite?&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e1bados&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;E qual \u00e9 a sua pior noite?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Bem, aos domingos. \u00c0s vezes nem sequer abrimos&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Terry disse: &#8220;ok, deixe minha banda tocar em um domingo, e garanto que voc\u00ea ganhar\u00e1 pelo menos tanto dinheiro quanto ganha no s\u00e1bado. Porque eu vou convidar muitas pessoas. E todo mundo que conhe\u00e7o \u00e9 alco\u00f3latra. Ent\u00e3o, eles v\u00e3o comprar muitos drinques e, se n\u00e3o, eu vou comprar rodadas pra todo mundo at\u00e9 que corresponda \u00e0 sua melhor noite&#8221;.<\/p>\n<p>Como poderia Hilly dizer n\u00e3o a isso? Ent\u00e3o, Hilly disse: &#8220;tudo bem, mas eles n\u00e3o podem tocar t\u00e3o alto&#8221;. Como ele poderia dizer n\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o toc\u00e1vamos <em>t\u00e3o alto<\/em> assim, de qualquer forma. N\u00f3s tocamos atrav\u00e9s de <em>super-reverbs<\/em>, sem <em>peddles<\/em>, sem <em>stomp boxes<\/em>. Apenas um som bem limpo. N\u00f3s lig\u00e1vamos o suficiente pra distorcer um pouco, mas n\u00e3o muito. Fizemos nosso primeiro show no CBGB em um domingo e, por deus, conseguimos. Hilly fez dinheiro suficiente para pensar: &#8220;hmmm&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto isso, depois de tirar o dinheiro pra pessoa que contratamos pra fazer a porta e as tarifas de t\u00e1xi pra trazer nossos equipamentos, cada um de n\u00f3s ganhou um d\u00f3lar. Um d\u00f3lar. Mas isso nos fez m\u00fasicos profissionais, ent\u00e3o est\u00e1vamos em \u00eaxtase. Foi um sucesso.<\/p>\n<p>Hilly nos deu quatro domingos seguidos no come\u00e7o. Logo, outras bandas come\u00e7aram a ouvir sobre o que tava rolando e come\u00e7aram a aparecer pedindo um show. Hilly n\u00e3o conhecia nada sobre rock. Voc\u00ea sabe: <em>country blues<\/em> e <em>bluegrass<\/em>, foi da\u00ed que Hilly veio (<em>a sigla CBGB OMFUG quer dizer Country, BlueGrass &#038; Blues Other Music For Uplifting Gormandizers<\/em>). Basicamente, n\u00f3s o atropelamos. Terry se ofereceu pra come\u00e7ar a fazer a agenda do clube, desde que fosse entendido que aquele era o lugar do Television.<\/p>\n<p>Bandas viriam na noite de testes pra tentar a sorte, e Terry perguntou o que eu achava: Talking Heads, The Ramones, Blondie. Foi assim que eles come\u00e7aram a tocar no CBGB. Porque precis\u00e1vamos de mais bandas al\u00e9m do Television, pelo amor de deus. Tom surgiu com essa ideia, baseada em sess\u00f5es duplas do cinema: duas bandas a cada noite. Nunca mais, nunca menos. Cada um tocaria dois <em>sets<\/em>. Ent\u00e3o, em uma noite, voc\u00ea teria Talking Heads, depois Television, depois Talking Heads, depois Television.<\/p>\n<p>Pra mim, quando est\u00e1vamos levando o CBGB, escolhendo as bandas e tocando, foi como organizar uma grande festa de Ano Novo durante tr\u00eas anos e meio. O CBGB era <em>o lugar<\/em>. Ficou lotado, muito lotado, muito rapidamente. Patti Smith levou o cr\u00e9dito pelo sucesso do CBGB, e ela trouxe muita gente. Mas ela veio depois que j\u00e1 est\u00e1vamos enchendo o lugar. Ela veio originalmente com seu trio: ela, Lenny Kaye e Richard Sohl no piano. Mas quando eles viram o que estava acontecendo, come\u00e7aram a se mover em uma dire\u00e7\u00e3o mais rock (<em>curiosamente, Hell casou-se em 1985 com Patty Smyth, tamb\u00e9m cantora, com quem teve uma filha; eles se separaram em 1987 e ela foi se casar, dez anos depois, com o tenista John McEnroe, com quem tem duas filhas e est\u00e1 casada at\u00e9 hoje<\/em>).<\/p>\n<p>Claro, o lugar era um inferninho. Era muito dif\u00edcil achar pessoas de terno por l\u00e1, ou at\u00e9 mesmo a gera\u00e7\u00e3o mais velha da sala dos fundos do Max&#8217;s. \u00c9ramos como <em>hobos<\/em> pra eles &#8211; mas havia quase um <em>glamour<\/em> na pobreza. Ningu\u00e9m realmente havia feito o que est\u00e1vamos fazendo. At\u00e9 ent\u00e3o, no <em>rock and roll<\/em>, todo mundo queria estar na maior estica. Todo mundo estava perseguindo essa alta vida glamourosa.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o. N\u00f3s quer\u00edamos ter sucesso, \u00e9 claro. N\u00f3s quer\u00edamos que as pessoas nos ouvissem. Mas quando voc\u00ea ouve bandas que dizem que n\u00e3o se importam com nada, eu garanto: elas se importam. N\u00f3s \u00e9ramos provavelmente os mais pr\u00f3ximos de uma banda que realmente n\u00e3o se importava com o que qualquer pessoa pensava.<\/p>\n<p><em>5. BRIAN ENO DEMOS &#038; E A SA\u00cdDA DE HELL<\/em><\/p>\n<p>Nessa altura do campeonato, conforme o CBGB come\u00e7ava a decolar, os selos mostravam interesse. Richard Williams, da Island Records, queria que n\u00f3s entr\u00e1ssemos em est\u00fadio com ele pra fazer uma demo, mas ele disse: &#8220;eu n\u00e3o entendo muito sobre est\u00fadio. Posso levar um cara que vai ajudar? Seu nome \u00e9 Brian Eno, ele estava no Roxy Music&#8221;.<\/p>\n<p>Brian chegou com v\u00e1rias ideias malucas. &#8220;Vamos colar os amplificadores no teto&#8221;. &#8220;Vamos cortar as letras e jog\u00e1-las no ar&#8221;. N\u00e3o t\u00ednhamos nada com aquilo. N\u00f3s s\u00f3 quer\u00edamos gravar nossa m\u00fasica. Cada sugest\u00e3o que Eno fez, n\u00f3s ferramos a sugest\u00e3o: &#8220;De. Jeito. Nenhum.&#8221;<\/p>\n<p>Finalmente fizemos cerca de cinco m\u00fasicas pra aquela demo. E Richard Hell estava chateado porque ele s\u00f3 tinha uma ou duas de suas m\u00fasicas na fita, enquanto Tom tinha tr\u00eas ou quatro. Richard ficou chateado. Tom estava come\u00e7ando a empurr\u00e1-lo pra fora da banda.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o, quando tocamos ao vivo, Tom ficava no p\u00e9 de Richard Hell pra ele parar de se mexer. Dizia que aquilo o estava distraindo. Tamb\u00e9m achava que parecia artificial. Eu tentava contrapor: &#8220;olha, n\u00f3s estamos apenas tocando <em>rock&#8217;n&#8217;roll<\/em>, cara. Esses movimentos n\u00e3o s\u00e3o falsos, eles s\u00e3o apenas parte do sentimento&#8221;. Mas, uma vez que Tom coloque uma ideia na cabe\u00e7a, ficar\u00e1 l\u00e1 por meses, anos, importunando-o at\u00e9 que ele consiga o que quer.<\/p>\n<p>Tom tinha um irm\u00e3o g\u00eameo, chamado John, que morreu h\u00e1 muito tempo. Eu realmente acho que Tom tem uma coisa de rivalidade entre irm\u00e3os que j\u00e1 come\u00e7ou no \u00fatero. \u00c9 o \u00fanico motivo psicol\u00f3gico que posso inventar pro comportamento de Tom.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7amos a tocar, eu costumava ficar no meio de Richard e Tom no palco. Eu era o George com o John e o Paul de cada lado. Mas ent\u00e3o Tom de repente decidiu que queria estar no meio, com Richard e eu nos lados. Esse foi o come\u00e7o do fim do primeiro Television &#8211; o Television que era desleixado, <em>punk<\/em> e uma bagun\u00e7a; mas tamb\u00e9m extremamente excitante. Essa banda era como estar em um circo. Voc\u00ea nunca sabia o que iria acontecer. Um acidente de trem, claro, mas divertido.<\/p>\n<p>Estava levando Tom \u00e0 loucura, no entanto. E se voc\u00ea escutar &#8220;a fita de Eno&#8221;, voc\u00ea vai perceber. Sem um baixista s\u00f3lido, especialmente com Billy Ficca sendo louco o tempo todo na bateria, n\u00e3o havia base pra banda.<\/p>\n<p>Tom estava come\u00e7ando a falar sobre a substitui\u00e7\u00e3o de Hell, mas Richard desistiu, o que tornou tudo mais f\u00e1cil. Eu quase desisti nesse momento, porque pensei que, sem Richard, toda a divers\u00e3o se foi. Eu estava pronto pra sair e fazer minhas pr\u00f3prias coisas. Mas Tom pediu a Fred Smith que deixasse o Blondie e se juntasse a n\u00f3s, e ele me pediu: &#8220;vamos l\u00e1, apenas venha tocar&#8221;. E em dez minutos eu tive que admitir, Fred estava mantendo o ritmo, o que significava que Billy poderia enlouquecer, mas ainda soava como uma banda. De repente, tudo fazia sentido.<\/p>\n<p><em>6. ASSINANDO COM A ELEKTRA<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s esperamos pra assinar com um selo. Houve muito interesse. N\u00f3s fizemos um teste pra Atlantic. O presidente da companhia, Ahmet Ertegun, ouviu-nos e disse: &#8220;isto n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica daqui da Terra&#8221;. Enquanto isso, todos os outros do CBGB assinaram o mais depressa poss\u00edvel, por quase nada. Esperamos at\u00e9 que a Elektra nos fizesse uma oferta razo\u00e1vel &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel pros padr\u00f5es de hoje, mas era pra \u00e9poca.<\/p>\n<p>As personalidades da banda se alinharam assim. Tom foi o reconhecido diretor musical e l\u00edder. Fred nunca brigou com Tom sobre qualquer coisa. Billy at\u00e9 poderia, musicalmente. E eu lutaria com Tom financeiramente em nome do resto da banda. Eu tinha que defender a mim, Fred e Billy, os quais teriam dito &#8220;sim&#8221; a praticamente qualquer coisa.<\/p>\n<p>Descobri muitos anos depois que, quando finalmente assinamos com Elektra, Tom tentou desesperadamente, nas nossas costas, fazer o contrato pra que ele fosse o \u00fanico assinado como Television, enquanto o resto de n\u00f3s assinaria como m\u00fasicos contratados. Mas a Elektra n\u00e3o caiu nessa; eles disseram que queriam todos os quatro, ou nenhum. Assim, eles colocaram Tom contra a parede e ele teve que desistir.<\/p>\n<p>Tom, em seguida, come\u00e7ou a pressionar-nos pra que ele recebesse tanto, e todo mundo deveria receber um outro tanto. E eu disse: &#8220;porra, n\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 brincando comigo?&#8221;.<\/p>\n<p>Tom disse: &#8220;Eu trabalho duas vezes mais duro&#8221;.<\/p>\n<p>Eu disse: &#8220;voc\u00ea trabalha duro duas vezes mais porque voc\u00ea insiste em cantar. Estou disposto a cantar algumas m\u00fasicas, mas voc\u00ea n\u00e3o vai permitir. Por que voc\u00ea deveria ser recompensado por conseguir o que quer?&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Tom tamb\u00e9m tomou todas as autorias das m\u00fasicas, na maior parte. Eu pensei: vou ser amaldi\u00e7oado se sair em turn\u00ea por menos, como se fosse seu coadjuvante.<\/p>\n<p><em>7. COMPONDO<\/em><\/p>\n<p>Tom era um man\u00edaco por controle quando se tratava de m\u00fasica. Por mim, tudo bem. Por muito tempo, ele n\u00e3o quis que eu fizesse meus pr\u00f3prios rifes, porque ele tinha seus rifes, mas ele n\u00e3o podia tocar e cantar ao mesmo tempo. Se ele tivesse uma parte de guitarra, ele n\u00e3o conseguia tocar enquanto cantava, ele me dava o papel, e eu interpretaria. Tipo, em &#8220;Marquee Moon&#8221;, basicamente, eu apenas assumi o papel dele pra que ele pudesse solar.<\/p>\n<p>O modo como o Television trabalhava era: quando ele estava cantando, ele tocava os acordes, ritmo, e eu tocava <em>leads<\/em> &#8211; n\u00e3o solos, mas <em>leads<\/em>. Eu toquei muito mais guitarra do que o Tom. E quando chegasse a hora dos solos de guitarra, n\u00f3s trocar\u00edamos de um lado pro outro. A ideia era 50-50 nos solos, ou no m\u00e1ximo 60-40 em favor de Tom. T\u00ednhamos um acordo sobre isso.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi assim com a cria\u00e7\u00e3o de todas as m\u00fasicas. Um dia, eu estava tocando esse rife no ensaio e Tom disse: &#8220;continue tocando isso, acho que tenho a coisa perfeita pra colocar em cima&#8221;. E assim surgiu &#8220;Friction&#8221;. S\u00f3 que se voc\u00ea ouvir &#8220;Friction&#8221;, se voc\u00ea tirar minha parte de guitarra, voc\u00ea mal tem nada.<\/p>\n<p>Ou uma m\u00fasica como &#8220;See No Evil&#8221;. Pegue a minha parte, tudo o que voc\u00ea tem \u00e9 &#8220;duh-du-du-duh-du-du-du-du-du-duh&#8230;&#8221; A coisa \u00e9 que eu n\u00e3o fiquei com qualquer cr\u00e9dito da composi\u00e7\u00e3o. Mas eu estava disposto a desistir pelo bem da banda. N\u00f3s tivemos discuss\u00f5es sobre isso por alguns anos. Mas Tom pode ser muito teimoso, muito teimoso, muito paranoico e n\u00e3o h\u00e1 como lutar com isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RwrCUEMl76U\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/a7L0IYPXKj8\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Chegou ao ponto em que, quando eu inventei a linha &#8220;Guiding Light&#8221;, e ele veio e fez a mesma coisa, eu disse: &#8220;voc\u00ea tem que me colocar como co-autor, Lloyd-Verlaine&#8221;. Ele negou: &#8220;os direitos autorais n\u00e3o s\u00e3o assim&#8221;. Tivemos essa grande discuss\u00e3o sobre direitos autorais. Por fim, eu disse: &#8220;olha, voc\u00ea usa minha parte e eu recebo cr\u00e9dito, ou voc\u00ea escreve outra parte, e eu toco pra voc\u00ea&#8221;. Isso foi o que tive que fazer pra ter cr\u00e9dito por ter escrito essa m\u00fasica.<\/p>\n<p>Era a mesma coisa com &#8220;Friction&#8221;, mas a parte era boa demais &#8211; nada mais poderia substitu\u00ed-la. O engra\u00e7ado, com &#8220;Friction&#8221;, \u00e9 que o ritmo dessa parte \u00e9 baseado no som de uma banda <em>oom-pah<\/em>, como Lawrence Welk, polca alem\u00e3. Sabendo disso, da pr\u00f3xima vez que voc\u00ea ouvir a parte de abertura em &#8220;Friction&#8221;, voc\u00ea entender\u00e1.<\/p>\n<p><em>8. GRAVANDO &#8220;MARQUEE MOON&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Quando finalmente chegou a hora de gravar o \u00e1lbum, Tom e Fred sa\u00edram pra procurar um est\u00fadio. Eles analisaram v\u00e1rios est\u00fadios e finalmente escolheram este local na 48th Street, A&#038;R, que era o est\u00fadio pessoal de Phil Ramone. O Velvet Underground, Bob Dylan, John Coltrane, essas pessoas tinham todas gravado l\u00e1. Era uma sala pequena e retangular, com uma sala de controle que ainda tinha os velhos equipamentos de tubo, bot\u00f5es de volume que eram curvados, como os velhos consoles dos Beatles.<\/p>\n<p>N\u00e3o quer\u00edamos um produtor. N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos feito &#8220;Little Johnny Jewel&#8221; como um <em>single<\/em> independente que Terry lan\u00e7ou. N\u00f3s sab\u00edamos como quer\u00edamos soar. Tom, especialmente, n\u00e3o queria um produtor, e ainda mais, especialmente, depois da experi\u00eancia com Eno. Ele n\u00e3o queria que algu\u00e9m viesse com outras ideias. Quer\u00edamos a liberdade de fazer o disco que quer\u00edamos fazer.<\/p>\n<p>Tom ficava dizendo: &#8220;quero fazer um disco ao vivo&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/K2lHt3YFIW4\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Agora, o \u00fanico problema com isso era que, quando Tom Verlaine dizia isso, o que ele realmente queria dizer era: &#8220;quero que o resto de voc\u00eas fa\u00e7am as suas partes em dois dias, pra eu andar por a\u00ed no est\u00fadio gastando todo o nosso dinheiro por seis meses&#8221;. O jeito que Tom trabalhava sempre era doido pra mim.<\/p>\n<p>Com &#8220;Marquee Moon&#8221;, no entanto, todas as m\u00fasicas eram m\u00fasicas que j\u00e1 t\u00ednhamos desenvolvido e aperfei\u00e7oado por dois ou tr\u00eas anos. N\u00f3s as tocamos ao vivo centenas de vezes. N\u00f3s est\u00e1vamos prontos. Mas a Elektra n\u00e3o nos permitiu que produz\u00edssemos n\u00f3s mesmos. Ent\u00e3o, decidimos que ter\u00edamos um cara que era um grande engenheiro &#8211; algu\u00e9m que sabia o que queria, e queria ser um produtor &#8211; mas que estava apenas come\u00e7ando.<\/p>\n<p>Finalmente, chegamos a Andy Johns. Andy tinha sido o engenheiro em um grande n\u00famero de \u00f3timos \u00e1lbuns, dos Rolling Stones, Led Zeppelin, s\u00f3 escolher. Ele era irm\u00e3o de Glyn Johns, e em qualquer coisa que Glyn produzisse, Andy era o engenheiro.<\/p>\n<p>No primeiro dia no est\u00fadio, t\u00ednhamos marcado um hor\u00e1rio. Chegamos l\u00e1 e Andy n\u00e3o estava no local. N\u00f3s esperamos e esperamos, pensando: qual \u00e9 o problema desse cara? Aconteceu alguma coisa com ele?<\/p>\n<p>\u00c0s quatro e meia da tarde, quase tr\u00eas horas depois do combinado, Andy finalmente chega. Ele diz: &#8220;decidi vir ontem, pra ver como era, e&#8230; eu n\u00e3o posso trabalhar aqui! Eles n\u00e3o t\u00eam 1176s! Eles n\u00e3o t\u00eam um LA-2A! Eles n\u00e3o t\u00eam&#8230;&#8221;. Ele come\u00e7a listando todas essas coisas que eram suas principais ferramentas, que esse est\u00fadio n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>Estamos tentando acalm\u00e1-lo: &#8220;Andy, voc\u00ea pode alugar esses, n\u00e3o se preocupe com isso&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Andy diz: &#8220;bem, consegui colocar a bateria na noite passada, e consegui um bom som. Voc\u00eas querem ouvir?&#8221;<\/p>\n<p>Ele colocou a fita que fez na noite anterior. E, por Deus, dos alto-falantes vem este som de bateria de John Bonham. Tom come\u00e7a a surtar. &#8220;N\u00e3o! N\u00e3o n\u00e3o n\u00e3o n\u00e3o n\u00e3o! N\u00f3s n\u00e3o queremos isso! N\u00e3o queremos um grande som de bateria! Voc\u00ea precisa desmontar isso e deixar a bateria menor!&#8221;.<\/p>\n<p>Andy est\u00e1 indignado. &#8220;Ent\u00e3o, por que voc\u00ea me contratou? \u00c9 por isso que sou famoso. Foda-se! Estou conseguindo um voo de volta, pro inferno com isso!&#8221;.<\/p>\n<p>Veja, agora estamos todos tentando acalmar Andy. Eu disse: &#8220;Andy, n\u00f3s contratamos voc\u00ea porque voc\u00ea gravou todos os maiores guitarristas do mundo&#8221;. Finalmente, Tom e Andy foram pro corredor, e eu n\u00e3o sei o que foi dito, mas quando eles voltaram, Andy disse: &#8220;ah, tudo bem&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda assim, pelos pr\u00f3ximos dois ou tr\u00eas dias, Andy iria murmurar coisas como: &#8220;oh, ent\u00e3o, isso \u00e9 algum tipo de coisa de Nova Iorque. Voc\u00ea quer soar mal como o Velvet Underground. Voc\u00ea quer soar como The Stooges ou algo assim. Entendo. Bem, n\u00f3s poder\u00edamos fazer isso, mas voc\u00ea tem que lembrar que estou colocando meu nome nele&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s come\u00e7amos a gravar. E tudo estava bem. Exceto, bem, Andy \u00e9 um verdadeiro filho do <em>rock &#8216;n&#8217; roll<\/em>. Ele estava acostumado a estar com pessoas que tamb\u00e9m s\u00e3o <em>rock &#8216;n&#8217; roll<\/em>, e voc\u00ea pode imaginar o que isso significava nos anos 70. Ele estava acostumado com pessoas que n\u00e3o se importavam em ficar largadas no est\u00fadio. Voc\u00ea sabe: voc\u00ea marcou \u00e0s duas da tarde e o engenheiro aparece \u00e0s quatro e meia, o guitarrista aparece \u00e0s cinco e o cantor chega \u00e0 meia-noite.<\/p>\n<p>Mas o Television n\u00e3o era assim. N\u00f3s fomos pontuais. E levamos a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Eu sempre quis ser um produtor e estava pensando: o que posso fazer pra evitar que isso soe como uma grava\u00e7\u00e3o ao vivo? Uma habilidade que eu sempre tive \u00e9 que, qualquer coisa que eu toque, posso fazer isso de novo, exatamente da mesma forma. E de novo, e de novo, e de novo. Tom n\u00e3o \u00e9 assim. Quando Tom toca um solo, ele nunca toca o mesmo solo duas vezes.<\/p>\n<p>Eu estava pensando sobre algumas partes de &#8220;Venus De Milo&#8221;, e disse: &#8220;deixe-me dobrar isso&#8221;. Tom e Andy disseram: &#8220;H\u00e3?&#8221;. Eu: &#8220;bem, deixe-me tocar de novo, ent\u00e3o voc\u00ea pode tem um par est\u00e9reo&#8221;. E eles: &#8220;uh, bem, v\u00e1 em frente e tente&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, toquei. Quando ouviu o resultado, Tom disse: &#8220;caramba. Deus &#8211; isso parece \u00f3timo. Fa\u00e7a isso pra tudo!&#8221;.<\/p>\n<p>Por exemplo, em &#8220;Elevation&#8221;, esse solo de guitarra sou eu tocando duas vezes, duas vezes seguidas, exceto no final: voc\u00ea pode ouvir uma leve diferen\u00e7a na \u00faltima passagem, quando eu saio. Quer\u00edamos alugar um alto-falante girat\u00f3rio pra obter o som pra essa faixa, mas o pessoal do aluguel queria demais. Ent\u00e3o, Andy teve uma ideia. Ele pegou um microfone, e enquanto eu fazia o solo de guitarra pra &#8220;Elevation&#8221;, ele parou na minha frente no est\u00fadio, balan\u00e7ando este microfone em volta da cabe\u00e7a como um la\u00e7o. Ele quase arrancou a porra do meu nariz. Eu ficava me esquivando, recuando enquanto tocava, pra n\u00e3o ser atingido.<\/p>\n<p>Andy era hil\u00e1rio, apesar de tudo. Um dia, ele n\u00e3o apareceu at\u00e9 as seis da tarde. Acontece que ele encontrou algumas senhoras da noite na noite anterior, e todas foram pro seu quarto de hotel, onde essas garotas de alguma forma o convenceram a deix\u00e1-las algema-lo na cama. \u00c9 claro que, assim que fizeram isso, eles enfiaram as m\u00e3os nas suas cal\u00e7as, pegaram sua carteira e depois sopraram beijos pra ele, enquanto sa\u00edam. Elas colocaram uma placa de &#8220;n\u00e3o perturbe&#8221; em sua porta, e o hotel, sendo muito chique, costumava respeitar o aviso at\u00e9 as quatro horas da tarde. Eles tiveram que usar um serrote pra solt\u00e1-lo, e ele ficou sem um centavo &#8211; ele teve que ligar pra casa e fazer com que sua esposa lhe desse dinheiro.<\/p>\n<p>Outra vez, chegamos ao est\u00fadio e Andy estava deitado na cadeira do produtor, roncando. Numa m\u00e3o, mal segurando, havia uma garrafa quase vazia de vinho tinto, com uma caixa de vinho ao lado e tr\u00eas garrafas vazias no ch\u00e3o. E, na outra m\u00e3o, um cigarro que queimara at\u00e9 o filtro.<\/p>\n<p>Olhamos pra Andy e depois olhamos pro operador da fita: &#8220;escute, todos os microfones est\u00e3o configurados, podemos apenas manter o volume aqui e tocar uma m\u00fasica?&#8221;. O operador respondeu: &#8220;n\u00e3o vejo porque n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00f3s entramos e fizemos &#8220;Prove It&#8221;. Da\u00ed, voltamos ao est\u00fadio pra ouvi-la. E soou muito bem. Ent\u00e3o, n\u00f3s tocamos um pouco mais alto. E continuamos aumentando o volume at\u00e9 que finalmente Andy acordou. Ele sentou-se empertigado, em p\u00e2nico, paranoico pra cacete. A m\u00fasica est\u00e1 tocando, e ele est\u00e1 olhando pra tr\u00e1s e pra frente, querendo saber: &#8220;eu gravei isso?&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00f3s dissemos: &#8220;com certeza Andy, voc\u00ea gravou isso antes de adormecer&#8221;. Ele deu um suspiro de al\u00edvio. &#8220;Deus, eu estou bem&#8221;. Andy era assim. E esse \u00e9 o corte de &#8220;Prove It&#8221; que voc\u00ea ouve no disco.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a luta sobre quem tocaria qual solo continuou. Ficou claro entre n\u00f3s que eu tocaria a base, enquanto Tom cantaria e faria o solo. Se eu fosse fazer o solo, ele continuaria tocando a base. A divis\u00e3o deveria ser 50-50, ou 40-60, mas n\u00f3s t\u00ednhamos essa gigante &#8220;Marquee Moon&#8221;, onde Tom come\u00e7a a solar por cinco minutos ou o que fosse, mas era t\u00e3o bom que eu n\u00e3o podia discutir sobre isso. Ent\u00e3o, em &#8220;Marquee Moon&#8221;, a m\u00fasica, me deram esse pequeno solo, n\u00e3o terrivelmente extenso. Isso, e meus solos em &#8220;See No Evil&#8221; e &#8220;Elevation&#8221;, s\u00e3o o que acabei fazendo.<\/p>\n<p>&#8220;Elevation&#8221; \u00e9 provavelmente a minha favorita, porque \u00e9 perfeita. Eu costumava tocar imaginando que algumas das pessoas que eu conhecia quando era mais novo &#8211; Hendrix ou Jimmy Page &#8211; estavam olhando por cima do meu ombro, dizendo: &#8220;h\u00e3-h\u00e3, n\u00e3o \u00e9 bom o suficiente&#8221;. Mas com &#8220;Elevation&#8221;, eu me orgulharia de tocar assim. Eu podia ouvi-los dizendo: &#8220;sim, \u00e9 isso a\u00ed&#8221;.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, havia uma esp\u00e9cie de f\u00f3rmula pra gravar um \u00e1lbum: duas semanas pro b\u00e1sico, duas semanas pra <em>overdubs<\/em>, duas semanas pra mixagem. N\u00f3s fomos por a\u00ed em &#8220;Marquee Moon&#8221;, e entregamos pra gravadora no final de 1976. Ele saiu oficialmente em 8 de fevereiro de 1977. Sa\u00edmos em turn\u00ea, e fomos muito bem no Reino Unido. Glasgow foi nosso primeiro show, no The Apollo. Todos os lugares que tocamos estavam esgotados, todos esses dois mil assentos nos cinemas.<\/p>\n<p>O que era interessante sobre a Gr\u00e3-Bretanha era que eles nunca tinham realmente nos ouvido. Algumas das bandas de Nova Iorque tinham passado por l\u00e1 antes de n\u00f3s: os Ramones e Richard Hell e The Voidoids, e todos foram agredidos pelos <em>punks<\/em>. Quando sa\u00edmos em turn\u00ea, decidimos: um maldito cuspe, um \u00fanico cuspe e o show acabou. Fizemos um acordo, todos n\u00f3s apenas paramos, instrumentos pra baixo, deixamos o palco, e seria isso. Mas o engra\u00e7ado \u00e9 que nunca fomos atacados, nem uma \u00fanica vez. Havia algum tipo de respeito ou algo assim, e ningu\u00e9m cuspiu na gente.<\/p>\n<p>Embora tenhamos nos sa\u00eddo muito bem no Reino Unido, nos Esteites foi muito diferente. As pessoas esquecem que o Reino Unido \u00e9 do tamanho de um estado nos Esteites. \u00c9 t\u00e3o grande. Voc\u00ea sabe, o Reino Unido tinha tr\u00eas revistas de m\u00fasica semanais naquela \u00e9poca. Nos Esteites, n\u00f3s tivemos a Rolling Stone e algumas outras que s\u00f3 sa\u00edam uma vez por m\u00eas. Ent\u00e3o, no Reino Unido, houve toda uma conversa sobre essa fabulosa cena de Nova Iorque. Mas nos Estados Unidos, fora de Nova Iorque, n\u00e3o rolou da mesma maneira.<\/p>\n<p>Ainda assim, em trinta e cinco anos, &#8220;Marquee Moon&#8221; nunca parou de ser impresso. Ele se tornou um elemento permanente no <em>rock&#8217;n&#8217;roll<\/em>.<\/p>\n<p><em>9. &#8220;ADVENTURE&#8221; E ROMPIMENTO<\/em><\/p>\n<p>Muitas pessoas dizem que ficaram desapontadas com o segundo \u00e1lbum do Television, &#8220;Adventure&#8221;. Eu sou um deles.<\/p>\n<p>Em retrospecto, acho que seria uma boa id\u00e9ia contratar Andy Johns novamente pra esse disco. Mas com suas travessuras, isso n\u00e3o ia acontecer. Essa n\u00e3o foi a coisa mais prejudicial, no entanto.<\/p>\n<p>Quando fizemos &#8220;Marquee Moon&#8221;, desenhamos as m\u00fasicas de um repert\u00f3rio que toc\u00e1vamos ao vivo h\u00e1 anos. E, na verdade, n\u00f3s ainda t\u00ednhamos um outro \u00e1lbum inteiro de m\u00fasicas daquele per\u00edodo &#8211; coisas como &#8220;Kingdom Come&#8221;, &#8220;Double Exposure&#8221;, &#8220;Breakin In In My Heart&#8221;, mas Tom, inconstante como ele \u00e9, n\u00e3o queria toc\u00e1-las. N\u00e3o queria grav\u00e1-las. De todas as m\u00fasicas do &#8220;Adventure&#8221;, apenas &#8220;Foxhole&#8221; e &#8220;Careful&#8221; estavam em nosso repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>E isso, pra mim, foi o fim. Quando voc\u00ea n\u00e3o faz o trabalho de antem\u00e3o &#8211; quando voc\u00ea entra em um est\u00fadio e voc\u00ea n\u00e3o tem as m\u00fasicas; quando voc\u00ea n\u00e3o sabe o que vai fazer, e vai tentar inventar no est\u00fadio&#8230; Isso custa dinheiro.<\/p>\n<p>Em &#8220;Marquee Moon&#8221;, todo mundo sabia o que tinha que fazer. Em &#8220;Adventure&#8221;, ningu\u00e9m sabia. At\u00e9 Tom n\u00e3o sabia o que estava fazendo. Ele experimentava id\u00e9ias e ia em frente. Sonoramente, o \u00e1lbum tem um certo tipo de cor que &#8220;Marquee Moon&#8221; n\u00e3o tem. &#8220;Adventure&#8221; \u00e9 um tipo de disco de cores saturadas. John Jansen, que veio para ajudar Tom a produzir, trabalhou muito em algumas das reedi\u00e7\u00f5es de Hendrix, e ele trouxe isso.<\/p>\n<p>Mas, pra mim, j\u00e1 era uma perspectiva perdida quando n\u00e3o est\u00e1vamos ensaiando pro \u00e1lbum. Entramos no est\u00fadio e era apenas o mundo de Tom. N\u00f3s convers\u00e1vamos sobre essas outras m\u00fasicas que t\u00ednhamos deixado que pod\u00edamos gravar, e Tom apenas dizia: &#8220;n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Pra mim, aquilo era o fim do Television como eu conhecia. O disco saiu em abril de 1978. N\u00e3o deu tr\u00eas meses e a banda se separou.<\/p>\n<p><em>10. SE REUNINDO NOVAMENTE, O TERCEIRO DISCO E SEPARA\u00c7\u00c3O FINAL<\/em><\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 90, meu empres\u00e1rio conheceu o empres\u00e1rio de Tom em uma festa de Natal. E eles tiveram uma conversa que foi assim:<\/p>\n<p>&#8220;Ei, o que Tom est\u00e1 fazendo?&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Bem, n\u00e3o muito. O que Richard est\u00e1 fazendo?&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Bem, n\u00e3o muito&#8221;.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o eles decidiram ver se poderiam nos reunir novamente.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, eu havia contratado um advogado, Fred Davis &#8211; o filho de Clive Davis, da Arista Records -, que pegava demos e conseguia as melhores ofertas, era o seu forte. Ele tinha pego uma demo que eu tinha feito, mas enquanto ele estava trabalhando nisso, o lance de reunir o Television voltou.<\/p>\n<p>N\u00f3s reservamos duas horas de est\u00fadio juntos, e n\u00f3s entramos, e tocamos juntos, de A a D &#8211; e l\u00e1 estava. Era o Television. Ent\u00e3o, liguei pro advogado, Fred, e perguntei: &#8220;que tal voc\u00ea vender um novo disco do Television? Mas existem algumas regras: n\u00e3o haver\u00e1 demo. Ningu\u00e9m vai ouvir m\u00fasica alguma. O acordo vem primeiro&#8221;.<\/p>\n<p>Fred disse: &#8220;eu adoraria, mas ser\u00e1 dif\u00edcil se eles n\u00e3o ouvirem nada&#8221;.<\/p>\n<p>Tom disse: &#8220;n\u00e3o, eu n\u00e3o estou trabalho at\u00e9 que ser pago&#8221;. Tom \u00e9 esse tipo de pessoa. As pessoas pedem que ele assine capas de discos e ele diz &#8220;n\u00e3o sei, voc\u00ea vai colocar isso no eBay e ganhar dinheiro comigo&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Fred come\u00e7ou a oferecer o Television por a\u00ed. E dezessete grandes gravadoras quiseram assinar com a banda. Dessas, cerca de sete estavam falando a s\u00e9rio. Ent\u00e3o, a licita\u00e7\u00e3o come\u00e7ou e chegou a tr\u00eas, e depois a duas, e o dinheiro ficou rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Finalmente, foi entre a Capitol e a A&#038;M, e os neg\u00f3cios foram espetaculares. N\u00f3s nos encontramos com o chefe da Capitol, um homem maravilhoso chamado Hale Milgrim. Este era um cara que pessoalmente possu\u00eda vinte e cinco mil discos de vinil em sua pr\u00f3pria cole\u00e7\u00e3o. Quando ele tirou suas f\u00e9rias, saiu em turn\u00ea com Grateful Dead. Um cara de m\u00fasica de verdade que conseguiu se manter um cara de m\u00fasica de verdade na ind\u00fastria da m\u00fasica. Ent\u00e3o fomos com Hale. E, francamente, tamb\u00e9m porque ele ofereceu mais.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a conversar sobre esse \u00e1lbum, sobre os est\u00fadios e o tipo de disco que far\u00edamos. Um dia, no almo\u00e7o, Tom estava reclamando de estar com falta de ar enquanto cantava ao vivo. Claro, Tom fumava como uma chamin\u00e9 e tomava caf\u00e9 o dia todo. Isso \u00e9 tudo que ele fazia. Mas eu disse: &#8220;talvez voc\u00ea possa tomar algumas aulas de canto, apenas pra algumas t\u00e9cnicas de respira\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>E, meu deus, era isso. S\u00f3 que, de repente, Tom estava explodindo pra mim. &#8220;Eu preciso de aulas de canto! Minha voz \u00e9 \u00fanica e \u00e9 isso! Dylan vende assim!&#8221;.<\/p>\n<p>Agora, esse \u00e9 o mesmo cara que, quando eu disse a ele que achava que &#8220;Marquee Moon&#8221; seria um disco importante, disse: &#8220;ah&#8230; Meus vocais s\u00e3o muito estranhos&#8221;.<\/p>\n<p>Tom levantou-se, inclinou-se e gritou comigo: &#8220;n\u00e3o estou fazendo um disco pop! E n\u00e3o estou fazendo um disco de rock!&#8221;. E eu estou sentado l\u00e1, pensando: &#8220;Jesus, em que tipo de neg\u00f3cio ele acha que est\u00e1? Flamenco?&#8221;.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 o mais pr\u00f3ximo da maldita verdade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00f3s fomos fazer o terceiro disco, e a qualquer momento que fosse gravar minhas partes, Tom, na sala de controle, diria algo como &#8220;ou\u00e7o o amplificador zumbindo, voc\u00ea poderia por favor ver isso?&#8221;. V\u00e1rias vezes ele saiu e baixou o volume, at\u00e9 que era quase inaud\u00edvel. De modo que nada sussurrava, nada se movia, nada tremia. E, pra mim, quando o terceiro disco do Television saiu, era um Television-lite. No som, quero dizer, sim, tem um som bonito e legal. Mas n\u00e3o \u00e9 <em>rock&#8217;n&#8217;roll<\/em>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que aconteceu foi: come\u00e7amos a tocar juntos novamente.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que a for\u00e7a genu\u00edna surgiu. Can\u00e7\u00f5es que soavam min\u00fasculas naquele \u00e1lbum realmente floresceram quando n\u00f3s resolvemos tocar ao vivo. Nos anos que se seguiram, quando o Television n\u00e3o existia, eu n\u00e3o tinha feito nada, exceto lan\u00e7ar meus pr\u00f3prios discos e praticar. Eu treinava at\u00e9 minhas m\u00e3os doerem.<\/p>\n<p>Mas Tom n\u00e3o praticou. Pra dar um exemplo, o pequeno solo da m\u00fasica &#8220;1880 Or So&#8221; ao vivo, eu chamei a responsabilidade. Tornou-se algo como &#8220;Marquee Moon&#8221; &#8211; o solo foi em seis, oito minutos ou mais. Era pra ser uma m\u00fasica na qual n\u00f3s troc\u00e1vamos solos, mas Tom disse: &#8220;porra, se voc\u00ea est\u00e1 tocando assim, apenas v\u00e1 em frente&#8221;. Acho que ele deixou porque a diferen\u00e7a entre n\u00f3s era extrema.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 basicamente o que aconteceu no per\u00edodo final do Television, at\u00e9 eu desistir de vez. Continuamos tocando de vez em quando pelos pr\u00f3ximos quinze anos. Acho que eu estava no meu melhor. Mas Tom estava apenas l\u00e1. Ele apenas vagou. E as pessoas notaram isso.<\/p>\n<p>N\u00f3s ensaiamos e tocamos, e n\u00f3s escrev\u00edamos novas m\u00fasicas &#8211; e Tom as jogava fora. Todos os anos, de 1993 a 2007, quando eu finalmente desisti, Tom falava sobre a gente fazer um novo disco. Mas nunca rolou. Em catorze anos, o Television havia escrito oito m\u00fasicas. Tom, eu acho, j\u00e1 era. Acabado.<\/p>\n<p>Ele fez a sua pequena m\u00fasica pra filmes mudos, com um dos seus melhores amigos, Jimmy Rip, e eles recebiam honor\u00e1rios ultrajantes dos museus pra tocar m\u00fasica nesses filmes mudos. E isso n\u00e3o tirou nada de Tom. Ele sentava numa cadeira e n\u00e3o precisava cantar. Ele podia apenas brincar na guitarra. Por que ele deveria ficar com o Television enquanto sua conta banc\u00e1ria estiver cheia?<\/p>\n<p>N\u00e3o gravamos nada. Tom estava cagando pra isso. &#8220;Ah, voc\u00ea n\u00e3o consegue um bom som de bateria aqui. Oh, precisamos ir a outro lugar&#8221;&#8230; Qualquer coisa pra evitar de fazer um disco. N\u00f3s t\u00ednhamos essa nova m\u00fasica que est\u00e1vamos fazendo, &#8220;Balloon&#8221;. Tinha essa linha e, um dia, Tom anunciou: &#8220;Odeio essa frase de guitarra. Esque\u00e7a&#8221;. No ano seguinte, ele lan\u00e7ou dois discos-solo, um instrumental, um com can\u00e7\u00f5es &#8211; e adivinha no qu\u00ea uma dessas m\u00fasicas foi baseada? Essa linha, a linha que ele disse que odiava.<\/p>\n<p>Era como se ele n\u00e3o quisesse deixar nada pro Television. Tom nunca quer realmente compartilhar cr\u00e9dito. Mas por catorze anos o Television falou sobre fazer um novo disco. Pense nisso assim: eu sa\u00ed em 2007, e em seis meses, fiz meu \u00e1lbum &#8220;The Radiant Monkey&#8221; (2007). Desde ent\u00e3o, lancei mais dois \u00e1lbuns e, enquanto isso, me juntei ao Rocket From The Tombs, fizemos turn\u00ea, lan\u00e7amos o \u00e1lbum &#8220;Rocket Redux&#8221; (2004), e ent\u00e3o fizemos dois novos \u00e1lbuns, &#8220;Barfly&#8221; (2011) e &#8220;Black Record&#8221; (2015).<\/p>\n<p>Enquanto isso, em 2007, logo depois que sa\u00ed, Jimmy Rip, que assumiu meu lugar no Television, colocou uma mensagem em sua p\u00e1gina no Facebook, dizendo que estava ansioso pelo novo \u00e1lbum do Television, que estava saindo.<\/p>\n<p>Bem, adivinhe? Os anos passaram e isso ainda n\u00e3o aconteceu. Tom Verlaine \u00e9 maravilhoso pra se divertir. Tom pode ser o cara mais engra\u00e7ado da Terra. S\u00f3 que eu nunca farei neg\u00f3cios com ele novamente.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 sempre a &#8220;Marquee Moon&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o penso nesse \u00e1lbum como apenas uma sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas. Eu penso em &#8220;Marquee Moon&#8221; como uma coisa: cont\u00e9m tantas m\u00fasicas que te pegam de jeito, n\u00e3o h\u00e1 como separ\u00e1-las. Voc\u00ea sabe, hoje em dia, as pessoas baixam uma m\u00fasica ou duas de um \u00e1lbum. Bem, &#8220;Marquee Moon&#8221; n\u00e3o \u00e9 pra isso.<\/p>\n<p>&#8220;Marquee Moon&#8221; \u00e9 a coisa toda. Uma Coisa. Como o Monte Everest.<\/p>\n<p>O disco na \u00edntegra:<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7KvgP8MlEEE\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-morte-de-tom-verlaine\/\" title=\"A MORTE DE TOM VERLAINE\">A MORTE DE TOM VERLAINE<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ouca-real-estate-days-television-cover\/\" title=\"OU\u00c7A: REAL ESTATE &#8211; DAYS (TELEVISION COVER)\">OU\u00c7A: REAL ESTATE &#8211; DAYS (TELEVISION COVER)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/television-no-brasil-em-abril-de-2013\/\" title=\"TELEVISION NO BRASIL EM ABRIL DE 2013\">TELEVISION NO BRASIL EM ABRIL DE 2013<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/tennis-faz-cover-do-television-guiding-light\/\" title=\"TENNIS FAZ COVER DO TELEVISION &#8211; GUIDING LIGHT\">TENNIS FAZ COVER DO TELEVISION &#8211; GUIDING LIGHT<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/tom-verlaine-e-jimmy-rip-voltam-ao-brasil-em-setembro-de-2011\/\" title=\"TOM VERLAINE E JIMMY RIP VOLTAM AO BRASIL EM SETEMBRO DE 2011\">TOM VERLAINE E JIMMY RIP VOLTAM AO BRASIL EM SETEMBRO DE 2011<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2012, o escoc\u00eas Damien Love publicou na Uncut uma entrevista com Richard Lloyd, guitarrista fundador do Television. 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