{"id":53709,"date":"2019-02-04T19:35:24","date_gmt":"2019-02-04T21:35:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=53709"},"modified":"2019-02-12T18:10:36","modified_gmt":"2019-02-12T20:10:36","slug":"interpol-historias-de-excesso-turn-on-the-bright-lights","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/interpol-historias-de-excesso-turn-on-the-bright-lights\/","title":{"rendered":"INTERPOL &#8211; HIST\u00d3RIAS DE EXCESSO, &#8220;TURN ON THE BRIGHT LIGHTS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"53710\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/interpol-historias-de-excesso-turn-on-the-bright-lights\/interpol15\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/interpol15.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"interpol15\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/interpol15.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/interpol15.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-53710\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/interpol15.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/interpol15.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Carlos Dengler, ou Carlos D, deixou o Interpol em 2010 e n\u00e3o se mostra arrependido. Quando a revista virtual N+1 pediu pra ele escrever algo sobre os quinze anos de &#8220;Turn On The Bright Lights&#8221;, o disco de estreia do Interpol, lan\u00e7ado como sensa\u00e7\u00e3o em 2002, Carlos fez uma longa explana\u00e7\u00e3o comparando um disco que ele considera perfeito, &#8220;Rumors&#8221;, do Fleetwood Mac, e o aniversariante da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Pra ele, os discos se unem por conta das &#8220;controv\u00e9rsias&#8221;, das pol\u00eamicas, dos atritos, das loucuras por tr\u00e1s das suas respectivas cria\u00e7\u00f5es, feitas por pessoas imperfeitas e despreparadas pra lidar com as exig\u00eancias do momento. As duas bandas, claro, viviam momentos completamente distintos na carreira &#8211; uma estava no auge, preparando uma das suas obras-primas mais aclamadas, at\u00e9 hoje; outra estava dando os primeiros passos; mas o universo conspira pros mesmos problemas.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o angustiante de Carlos Dengler, como se elaborasse um roteiro distante do qual ele n\u00e3o fez parte, diz mais sobre si e, consequentemente, sobre suas linhas de baixo sombrias e carregadas, do que suas aventuras pelo mundo subterr\u00e2neo das drogas (que no texto ele cita bem superficialmente).<\/p>\n<p>O disco, ainda tido com uma dos melhores do Interpol (n\u00e3o vou fazer ju\u00edzo aqui), ser\u00e1 constantemente lembrado nas efem\u00e9rides (dezoito anos \u00e9 a pr\u00f3xima, vinte anos vem na sequ\u00eancia), e seria interessante saber como um Carlos Dengler um pouco mais maduro o perceber\u00e1.<\/p>\n<p>No texto abaixo, publicado em 2017 e repercutido por dezenas de sites e blogues \u00e0 \u00e9poca (<a href=\"https:\/\/nplusonemag.com\/online-only\/online-only\/stories-of-excess\/#fn1-9363\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">original aqui<\/a>), seus dem\u00f4nios pessoais ainda se fazem presentes e s\u00e3o esses pequenos esclarecimentos que deixam a obra a ainda mais rica. Pra al\u00e9m da m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>HIST\u00d3RIA DE EXCESSOS<\/strong><br \/>\n<em>Texto: Carlos Dengler<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o livre: Floga-se<\/em><\/p>\n<p>Tem uma passagem em &#8220;Rumors&#8221;, a obra-prima radiante do Fleetwood Mac, que vendeu mais de quarenta milh\u00f5es de c\u00f3pias no mundo todo, quando, em poucos segundos, uma pe\u00e7a de <em>soft rock<\/em> simplesmente brilhante entra num territ\u00f3rio estranho e desconhecido. Perto dos tr\u00eas minutos de &#8220;The Chain&#8221;, as coisas parecem que est\u00e3o chegando ao final. Ent\u00e3o, de repente, uma sinistra e meio p\u00f3s-punk linha de baixo irrompe dos abismos, dando in\u00edcio a um ataque l\u00fagubre de harmonia vocal e de um jocoso ostinato de guitarra. Se prestar aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel ouvir um The Cure da fase &#8220;Seventeen Seconds&#8221;.<\/p>\n<p>Aquele momento sorumb\u00e1tico e existencial &#8211; de longe o mais sombrio num disco rigorosamente ensolarado &#8211; extrai &#8220;Rumours&#8221; da sua &#8220;era (Jimmy) Carter, do arredores do megarock cl\u00e1ssico (uma banda <em>folk<\/em> dos anos 1970 capaz de apelar ao seu &#8220;toque&#8221; punk \u00e9 uma banda que transcendeu o g\u00eanero). Isso rola bem no meio do disco (<em>&#8220;The Chain&#8221; \u00e9 exatamente a primeira do lado B<\/em>), um buraco negro sombrio em torno do qual todo o resto do disco gira. Que &#8220;The Chain&#8221; seja a \u00fanica m\u00fasica do \u00e1lbum que tem como cr\u00e9dito toda a banda n\u00e3o parece coincid\u00eancia: parece que todo mundo se uniu pra uma s\u00e9ria revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ignom\u00ednia reprimida \u00e9, na maioria das vezes, o contraponto l\u00f3gico pra ascens\u00e3o de uma banda \u00e0 fama global, e pro Fleetwood Mac, &#8220;Rumors&#8221; foi o come\u00e7o de um fim aparentemente inevit\u00e1vel. A hist\u00f3ria da banda, como de tantas outras, termina em cl\u00ednicas e brigas (embora, ainda bem neste caso, sem suic\u00eddios ou processos judiciais). Mesmo sem as drogas, houve um drama t\u00f3xico suficiente no est\u00fadio pra mais do que um document\u00e1rio em longa-metragem: div\u00f3rcio (os McVies), separa\u00e7\u00f5es (Stevie Nicks e Lindsey Buckingham) e trai\u00e7\u00f5es (Nicks com Mick Fleetwood). Foi uma bela novela &#8211; um aumento nas lendas habituais de drogas e sexo com f\u00e3s.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JDG2m5hN1vo\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Como essas sa\u00edram da cama pra compor um dos grandes \u00e1lbuns de todos os tempos? N\u00e3o posso falar pela rotina di\u00e1ria deles, mas de acordo com meu conhecimento do processo de grava\u00e7\u00e3o, toda aquela tens\u00e3o de alguma forma foi filtrada na hora de compor, como um sexo avassalador. As sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o foram incrementadas pela tens\u00e3o do pessoal da banda &#8211; o est\u00fadio funcionando como uma opera\u00e7\u00e3o de minera\u00e7\u00e3o desses sentimentos profundos. Com energia suficiente, havia diamantes em potencial bruto pra serem descobertos. \u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o persuasiva, ainda preciso me convencer disso.<\/p>\n<p>H\u00e1 um n\u00edvel de perversidade aqui, pela seletividade. N\u00e3o tolerar\u00edamos excessos ou irresponsabilidades de nossos pilotos de avi\u00e3o ou de enfermeiras, mas as regras sempre s\u00e3o diferentes pra m\u00fasica, principalmente pro rock. A insanidade ajuda na composi\u00e7\u00e3o (e promove vendas). A s\u00e9rie &#8220;Vinil&#8221;, da HBO, \u00e9 um exemplo revelador do fen\u00f4meno: o assunto principal n\u00e3o era tanto a ingenuidade musical de roqueiros talentosos no centro do espet\u00e1culo, mas as travessuras que aconteciam fora das salas de ensaio. Assistia ao comercial do programa e voc\u00ea ver\u00e1 muitos semideuses tatuados e cheios de joias fechando acordos \u00e9picos e destruindo os m\u00f3veis da sala. A controv\u00e9rsia contribui mais pro drama grandioso do que a m\u00fasica em si.<\/p>\n<p>Claro, n\u00e3o \u00e9 assim que a maioria das pessoas experimenta o rock: elas ouvem rifes e linhas de baixo, n\u00e3o linhas, carreiras de coca. Pra aqueles de n\u00f3s que entraram nessa antes da ascens\u00e3o do MP3, o ato de tocar um disco, especialmente durante as m\u00e1gicas horas da noite, soava algo cerimonial, at\u00e9 mesmo eclesi\u00e1stico (meus domingos ouvindo The Cure inclu\u00edam incenso). Esses ritos sofisticados n\u00e3o poderiam ser realizados sem m\u00fasica de qualidade: estou me fazendo parecer mais velho ao dizer isso, mas a era de ouro do disco de rock, agora uma forma de arte morta, reinou entre o primeiro disco do Led Zeppelin e o &#8220;Disintegration&#8221;, do The Cure. Eu n\u00e3o estava atr\u00e1s de controv\u00e9rsias, entretanto: a m\u00fasica era suficiente.<\/p>\n<p>Mas as hist\u00f3rias de excesso persistem por uma raz\u00e3o &#8211; e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a HBO baforando na bunda do consumidor. Como co-fundador da banda Interpol (toquei baixo com eles de 1998 a 2010), n\u00e3o posso deixar de concordar &#8211; embora de forma reticente &#8211; com aqueles que preferem inflar os mitos e a m\u00edstica do rock pra al\u00e9m das m\u00fasicas. Porque, a julgar pela minha pr\u00f3pria experi\u00eancia pessoal, parece que &#8220;Rumors&#8221; funcionou t\u00e3o bem justamente por conta de toda a insanidade com drogas e sexo que acompanhou a produ\u00e7\u00e3o do disco.<\/p>\n<p>Quando penso no som do primeiro disco da minha antiga banda e nas condi\u00e7\u00f5es em que foi gravado, n\u00e3o posso deixar de pensar em &#8220;Rumors&#8221;, cuja perfeita combina\u00e7\u00e3o de p\u00e9rolas doces e triunfalismo estridente contrasta com as circunst\u00e2ncias de sua grava\u00e7\u00e3o permitidas apenas pra maiores de idade (exceto, claro, pra aqueles poucos segundos dissonantes de incurs\u00e3o p\u00f3s-punk). &#8220;Turn On The Bright Lights&#8221; \u00e9 o oposto musical de &#8220;Rumors&#8221;. Mas, como em &#8220;Rumors&#8221;, decididamente tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um \u00e1lbum festivo, e tamb\u00e9m est\u00e1 muito em desacordo com as circunst\u00e2ncias de sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de gravar &#8220;Turn On The Bright Lights&#8221; em Bridgeport, Connecticut, foi insana (mor\u00e1vamos em Nova Iorque), mas as viagens na linha New Haven ofereciam certas vantagens. Durante um passeio matutino, me vi raspando os restos esfarrapados de um envelope de papel cuidadosamente dobrado, segurando os \u00faltimos vest\u00edgios de coca\u00edna que eu tinha comprado na noite anterior, num clube (foi na verdade <em>a mesma noite<\/em>, j\u00e1 que eu n\u00e3o tinha dormido). Assumi que quando esses co\u00e1gulos \u00famidos de p\u00f3 branco encontravam seu destino final nas minhas narinas, eles tinham sido cortados muitas vezes, e percebi que a mistura final incluiu algumas migalhas de fiapos e barra de chocolate. O sol do in\u00edcio da manh\u00e3 e o maquinista deram o golpe final num ato com tal sutileza clandestina que teria feito orgulhoso um batedor de carteiras franc\u00eas do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Outros idiossincrasias comportamentais da \u00e9poca: o racionamento de preservativos, e minha dieta s\u00f3-amido, que, juntamente com o \u00e1lcool e coca\u00edna di\u00e1rios &#8211; contribuiu pra uma certa, direi, tom de pele (pense na s\u00e9rie &#8220;Os Monstros&#8221; colorizada, algo do tipo). Em outras palavras, nada disso parecia t\u00e3o fascinante, embora seja certamente decadente. No entanto, estou quase certo de que, poucas horas depois daquela viagem de trem, eu coloquei uma linha de baixo em &#8220;Turn On The Bright Lights&#8221; que levou a muitos elogios e e-mails de amigos e f\u00e3s na pr\u00f3xima d\u00e9cada e meia. Causa ou correla\u00e7\u00e3o? \u00c9 uma velha pergunta. Provavelmente vou passar o resto da minha vida tentando descobrir a resposta.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o era o \u00fanico monstro, \u00e9 claro: o nosso cantor, cuja letra e timbre vocal deram a esse nosso primeiro disco um lugar especial no pante\u00e3o do <em>indie-rock<\/em>, era t\u00e3o propenso a seus coquet\u00e9is de vodca que voc\u00ea pode ouvir o tilintar dos cubos de gelo vazando no microfone durante uma das aberturas de nossa m\u00fasica. Ele e eu, apesar de n\u00e3o sermos os melhores amigos, criamos uma tagarelice de deprava\u00e7\u00e3o durante os primeiros dias da banda.<\/p>\n<p>&#8220;Turn On The Bright Lights&#8221; n\u00e3o \u00e9 um disco de rock perfeito; \u00e9 perfeitamente imperfeito, o que parece um \u00f3timo &#8220;segundo lugar&#8221; (<em>um pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o<\/em>). No entanto, como &#8220;Rumours&#8221;, o \u00e1lbum precisava ser salvo do abismo: ele n\u00e3o pode ser produzido apenas com coca\u00edna e vodca. Eu imagino que o Fleetwood Mac foi mantido \u00e0 tona por produtores, engenheiros e gerentes determinados a chegar ao final do processo. No caso do Interpol, nos beneficiamos muito da idade de nosso baterista (<em>Samuel Fogarino tem seis anos a mais que ele e dez anos a mais que o vocalista Paul Banks<\/em>) e da perspic\u00e1cia gerencial de nosso guitarrista: a por\u00e7\u00e3o mais s\u00f3bria de nossa banda arrastou o peso de sua outra metade alco\u00f3lica.<\/p>\n<p>&#8220;Turn On The Bright Lights&#8221;, agora experimentando uma merecida celebra\u00e7\u00e3o de anivers\u00e1rio de quinze anos (<em>quase vinte, o disco \u00e9 de 2002<\/em>), \u00e9 um \u00e1lbum que poderia definitivamente oferecer uma ou duas horas m\u00e1gicas melanc\u00f3licas. N\u00e3o quero que isso soe como se eu estivesse me gabando: embora eu fosse um dos compositores, agora me sinto mais como um participante confuso ou um sobrevivente de um transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. Vivi pra contar a hist\u00f3ria de um acidente de avi\u00e3o que quase aconteceu, e ainda estou descobrindo como consegui passar no exame de voo e entrar naquela cabine, em primeiro lugar. Com o passar do tempo, minhas hist\u00f3rias de lendas dos bastidores passaram a parecer, acima de tudo, exemplos de in\u00e9pcia e inexperi\u00eancia. Quinze anos depois, agrade\u00e7o \u00e0s for\u00e7as que me impediram de derrubar aquele lindo avi\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma coisa que os \u00faltimos sete anos da vida civil p\u00f3s-rockstar me ensinaram \u00e9 que por tr\u00e1s de cada grande performance existe uma ansiedade de desempenho igualmente grande, contrabalan\u00e7ada, ela mesma cultivada em traumas precoces e muito provavelmente da variedade familiar. Ponha de lado a controv\u00e9rsia e, sem d\u00favida, voc\u00ea ver\u00e1 a realidade menos lisonjeira de uma alma torturada compensando o amor perdido em casa. Meu caso n\u00e3o foi diferente: minha inf\u00e2ncia foi a t\u00edpica mistura infeliz de abandono dos pais e abuso psicol\u00f3gico (vou guardar os detalhes sangrentos pra outro artigo). A ind\u00fastria do entretenimento &#8211; um neg\u00f3cio implac\u00e1vel dedicado cegamente ao seu resultado financeiro e despreocupado com a humanidade no \u00e2mago do &#8220;talento&#8221; &#8211; \u00e9 um simulacro perfeito do est\u00e1gio posterior \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o induzida pelos pais. N\u00e3o surpreende, portanto, que tanto drama e excesso sempre pare\u00e7a girar em torno do estrelato pop.<\/p>\n<p>&#8220;Turn On The Bright Lights&#8221; \u00e9 um assunto doloroso pra mim (<em>ele se refere a sempre que se comemora algum anivers\u00e1rio da obra<\/em>): sinto que estou vendo meus filhos se formarem na faculdade, mas eu n\u00e3o fui convidado pra cerim\u00f4nia. Nem a banda nem sua gravadora me procuraram por qualquer neg\u00f3cio relacionado ao disco, o que \u00e9 surpreendente. Mesmo que hoje eu permane\u00e7a, pra melhor ou pra pior, distante de meus antigos colegas de banda, 25% do DNA desse \u00e1lbum \u00e9 meu. Ao mesmo tempo, n\u00e3o estou preocupado com o legado do Interpol: sei que est\u00e1 em boas m\u00e3os. Minha decis\u00e3o &#8211; como artista e membro de um coletivo &#8211; de deixar um grupo como o Interpol, com todos os seus triunfos e fracassos, foi uma das maiores decis\u00f5es da minha vida. Eu viverei sem arrependimento at\u00e9 meu \u00faltimo suspiro. Mas n\u00e3o h\u00e1 nada como um n\u00famero redondo pra rolar mil &#8220;e se&#8221; angustiados. Eu posso ouvi-los zunindo em minha cabe\u00e7a, como uma horda de vespas.<\/p>\n<p>Por enquanto, aproveito as pequenas coisas, como quando revelo minha identidade como ex-baixista do Interpol e enfrento o olhar arregalado de algu\u00e9m que acaba de experimentar um inesperado contato com a fama. Pode ser em v\u00e3o admitir isso, mas esses encontros me fazem sentir como um Clark Kent que deixou algu\u00e9m entrar em seus velhos tempos de Super-Homem. O que esses momentos significam \u00e9 que muitas pessoas amaram e ouviram Interpol sem nunca se darem conta de como eram as pessoas por tr\u00e1s do grupo. Elas n\u00e3o se importam com os esc\u00e2ndalos ou a cria\u00e7\u00e3o de mitos &#8211; s\u00f3 com a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Em algum lugar ao longo do caminho pra um grande disco de rock, voc\u00ea precisa de alguma controv\u00e9rsia, de alguma pol\u00eamica. Se algu\u00e9m remover todas as minhas atividades extracurriculares da hist\u00f3ria dos primeiros dias do Interpol, posso afirmar sem hip\u00e9rboles que estar\u00edamos nos lembrando da banda de uma forma diferente &#8211; talvez com um pouco menos de paix\u00e3o. Ao mesmo tempo, se eu fizesse tudo de novo, eu poderia parar pra pensar sobre esses f\u00e3s e considerar, antes de cheirar a pr\u00f3xima combina\u00e7\u00e3o de p\u00f3 de talco e extrato colombiano, que um empreendimento atemporal, infinitamente mais sens\u00edvel, como um &#8220;Rumors&#8221; ou um &#8220;Turn On The Bright Lights&#8221;, podem ser divertidos o suficiente pra sustentar minha curiosidade pelo resto da vida.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/video-interpol-grand-hotel\/\" title=\"V\u00cdDEO: INTERPOL &#8211; GRAND HOTEL\">V\u00cdDEO: INTERPOL &#8211; GRAND HOTEL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/video-interpol-something-changed\/\" title=\"V\u00cdDEO: INTERPOL &#8211; SOMETHING CHANGED\">V\u00cdDEO: INTERPOL &#8211; SOMETHING CHANGED<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/interpol-the-other-side-of-make-believe\/\" title=\"INTERPOL- THE OTHER SIDE OF MAKE-BELIEVE\">INTERPOL- THE OTHER SIDE OF MAKE-BELIEVE<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/interpol-a-fine-mess-ep\/\" title=\"INTERPOL &#8211; A FINE MESS (EP)\">INTERPOL &#8211; A FINE MESS (EP)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ouca-interpol-fine-mess\/\" title=\"OU\u00c7A: INTERPOL &#8211; FINE MESS\">OU\u00c7A: INTERPOL &#8211; FINE MESS<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Dengler, ou Carlos D, deixou o Interpol em 2010 e n\u00e3o se mostra arrependido. 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