{"id":53764,"date":"2019-02-12T18:01:46","date_gmt":"2019-02-12T20:01:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=53764"},"modified":"2019-04-02T17:52:48","modified_gmt":"2019-04-02T20:52:48","slug":"riot-grrrl-a-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/riot-grrrl-a-revolucao\/","title":{"rendered":"RIOT GRRRL, A REVOLU\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"53766\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/riot-grrrl-a-revolucao\/artigo-riotgrrrl\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/artigo-riotgrrrl.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"artigo-riotgrrrl\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/artigo-riotgrrrl.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/artigo-riotgrrrl.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-53766\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/artigo-riotgrrrl.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/artigo-riotgrrrl.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;O Riot Grrrl foi um movimento coletivo de um pequeno grupo de mulheres que acabou se tornando not\u00edcia nacional e influenciou toda uma gera\u00e7\u00e3o de garotas. Surgido das cenas <em>punk<\/em> em Olympia, Washington, no extremo noroeste dos Esteites, no in\u00edcio dos anos 1990, o movimento pedia a emancipa\u00e7\u00e3o de mulheres jovens, tomando os meios de controle de produ\u00e7\u00e3o cultural dos subterr\u00e2neos. Apontou os contrastes da cultura <em>mainstream<\/em> &#8211; e subterr\u00e2nea &#8211; de forma a unificar as meninas, eliminando o ci\u00fame culturalmente enraizado e a competitividade entre as mulheres, ao mesmo tempo reconhecendo e aceitando as diferen\u00e7as individuais delas. O movimento visava reacender o feminismo, destacando a viol\u00eancia sexual e ps\u00edquica contra as mulheres, apoiando a express\u00e3o sexual das jovens e o direito ao prazer. Uma resposta direta ao dom\u00ednio de homens heterossexuais na cena <em>punk<\/em>, o Riot Grrrl encorajou as mulheres a tocarem instrumentos, montar e liderar bandas, escrever e distribuir zines e compartilhar experi\u00eancias nos espa\u00e7os seguros pra garotas&#8221;.<\/p>\n<p>O par\u00e1grafo acima foi escrito por Lisa Darms, organizadora da &#8220;The Riot Grrrl Collection&#8221;, na Fales Library And Special Collections da Universidade de Nova Iorque, livro publicado em 2013, com apoio da universidade e ajuda inestim\u00e1vel de Johanna Fateman (Le Tigre e MEN) e Kathleen Hanna (Le Tigre e Bikini Kill).<\/p>\n<p>A cole\u00e7\u00e3o \u00e9 um apanhado de arquivos organizados por Darms, graduada na institui\u00e7\u00e3o e que trabalha hoje em dia na Fales Library And Special Collections, juntando peda\u00e7os da hist\u00f3ria de um movimento que tendia \u00e0 nebulosa for\u00e7a do esquecimento do tempo, t\u00edpica do ac\u00famulo de outras prefer\u00eancias das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por certo, bandas como Bikini Kill jamais ser\u00e3o esquecidas, mas a representatividade do movimento precisava ser sublinhada pela autoridade acad\u00eamica. Com o livro &#8211; que n\u00e3o \u00e9 \u00fanico sobre aqueles fervorosos tempos de explos\u00e3o de consci\u00eancia &#8211; o Riot Grrrl est\u00e1 devidamente documentado nos anais da academia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mZxxhxjgnC0\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Darms explica, no pref\u00e1cio do livro, a import\u00e2ncia do movimento: &#8220;as jovens usavam os zines pra compartilhar hist\u00f3rias de abuso dentro da fam\u00edlia, abusos sexuais e estupros. Os zines podiam ser privados e \u00edntimos, como a extens\u00e3o de um di\u00e1rio pessoal, mas as leitoras  talvez tivessem passado pelo o mesmo e podiam atestar sua sanidade&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos zines, o Chaisaw, trazia o seguinte texto: &#8220;Nesse momento, talvez o &#8216;Chaisaw&#8217; seja sobre frustra\u00e7\u00e3o. Frustra\u00e7\u00e3o na m\u00fasica. Frustra\u00e7\u00e3o em viver. Em ser uma garota, em ser homo, em ser um desajustado de qualquer tipo. Ser um idiota, voc\u00ea sabe, como aquele garoto que \u00e9 o \u00faltimo a ser escolhido no time do col\u00e9gio. Que \u00e9 de onde todo o lance <em>punk<\/em> veio, em primeiro lugar. N\u00c3O dos Sex Pistols ou de Los Angeles. Mas dos <em>nerds<\/em> que decidiram ou se tocaram que precisavam &#8216;virar a mesa&#8217; pra serem ouvidos, tomar o controle das suas (nossas) vidas e criar um <em>underground<\/em> de verdade&#8221;.<\/p>\n<p>Nos primeiros anos (1989-1992), o Riot Grrrl se tornou, pra alguns, esse &#8220;<em>underground<\/em> de verdade&#8221; dos &#8220;desajustados&#8221; dissidentes. O Riot Grrrl come\u00e7ou desafiando um movimento <em>punk<\/em> que, em muitos locais, vinha se tornando cada vez mais conformista. Os <em>punks<\/em> j\u00e1 tinham mais de dez anos de estrada nessa \u00e9poca. Alguns tinham bons contratos de gravadoras e j\u00e1 n\u00e3o desafiavam o sistema. Pelo contr\u00e1rio, <em>eles eram<\/em> o sistema.<\/p>\n<p>Isso estava prestes a acontecer com o movimento, quando a revista Newsweek entrou na dan\u00e7a. Em 22 de novembro de 1992, a revista trouxe a mat\u00e9ria &#8220;Revolution, Girl Style&#8221;. O sistema havia chegado ao movimento.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LkrQb19XjtY\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Sara Marcus, autora de &#8220;Girls To The Front: The True Story Of The Riot Grrrl Revolution&#8221;, publicado em 2010, foi uma das impactadas pela mat\u00e9ria. &#8220;Fiquei sabendo do Riot Grrrl no outono de 1992. Eu tinha acabado de chegar em casa, depois de mais um dia desanimador na escola, quando encontrei na mesa da cozinha, no meio das cartas e envelopes que chegam pelo correio, a nova edi\u00e7\u00e3o da Newsweek, que me pegou pelos dois bra\u00e7os e me chacoalhou. A pe\u00e7a, com o t\u00edtulo &#8216;Revolution, Girl Style&#8217;, abre com a cena de uma garota se posicionando contra um caso de ass\u00e9dio na escola: &#8216;n\u00e3o toque em mim ou em minha amigas!&#8217;. Ali vi descrita uma grande rede de adolescentes feministas, que se juntaram pra ajudar umas \u00e0s outras, lutando contra abusadores na escola, e falando de tudo, desde tocar guitarras at\u00e9 se assumir e sair do arm\u00e1rio&#8221;. Marcus, ela pr\u00f3pria, conta na abertura do livro um ass\u00e9dio que sofreu na escola.<\/p>\n<p>Ela se pergunta o que muitas garotas certamente se perguntaram com aquela revista em m\u00e3os: &#8220;seria aquilo verdade? Havia garotas que poderiam de fato entender meus problemas e dilemas?&#8221;. A m\u00e3e dela, como a maioria das m\u00e3es, leu aquilo e advertiu que aquele movimento n\u00e3o era um movimento no qual ela via a filha envolvida. Mas aquele movimento era tudo no qual a filha dela queria se envolver.<\/p>\n<p>Aquele artigo tinha muito mais a ver com comportamento do que com m\u00fasica e refletia, afinal, o que era o movimento, apesar de surgir pela via do mesmo <em>mainstream<\/em> que era atacado pelas ideias &#8220;provocadoras&#8221; das meninas.<\/p>\n<p>O que elas queriam era igualdade, claro, mas era ter voz ativa. Elas n\u00e3o queriam ficar vendo meninos andando de <em>skate<\/em> e tocando em bandas de rock legais, elas queriam andar de <em>skate<\/em> elas mesmas e tocar nas suas pr\u00f3prias bandas de rock legais. Elas queriam gritar pro mundo os abusos di\u00e1rios e constantes que sofrem ou sofreram, na escola e em casa, por amigos e por familiares, queriam que a sociedade entendesse que h\u00e1 muitas formas de amar. E, mais do que isso, elas mesmas queriam dizer isso, produzindo conte\u00fado, arte, tendo protagonismo.<\/p>\n<p>Angela Smith, no livro &#8220;Women Drummers: A History From Rock And Jazz To Blues And Country&#8221;, de 2014, acrescenta a coisa a um cen\u00e1rio pol\u00edtico: &#8220;o (<em>movimento<\/em>) Riot Grrrl surgiu (<em>tamb\u00e9m<\/em>) em resposta aos atentados a cl\u00ednicas de aborto por grupos extremistas &#8216;pr\u00f3-vida&#8217;, nos anos 1990&#8243;. Por contradit\u00f3rio que pare\u00e7a, esses extremistas &#8220;pr\u00f3-vida&#8221; n\u00e3o se sentiam envergonhados em matar pela sua &#8220;causa&#8221;.<\/p>\n<p>Mas a resposta a tantos abusos corriqueiros do mundo machista (ainda em vigor, infelizmente &#8211; e n\u00e3o importa que ano que voc\u00ea venha a ler este artigo), n\u00e3o veio igualmente em forma de viol\u00eancia, mas de arte. &#8220;O movimento&#8221;, segue Smith, &#8220;viu nascer uma penca de bandas, como Bikini Kill, Bratmobile, L7, Huggy Bear e Team Dresch, colocando em suas m\u00fasicas temas como estupro, abuso dom\u00e9stico, racismo, patriarcado e empoderamento feminino&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 1990, o <em>punk<\/em> era dominado por homens e Piero Scaruffi, no seu livro &#8220;A History Of Rock And Dance Music&#8221;, de 2009, lembra que &#8220;as garotas estavam exclu\u00eddas do <em>hardcore<\/em> da mesma maneira que estavam exclu\u00eddas de outros tantos rituais exclusivamente tidos como masculinos, sejam as gangues de rua, seja o futebol americano. O movimento, ent\u00e3o, mudou o cen\u00e1rio sociopol\u00edtico do <em>punk<\/em>, colocando o &#8216;fator mulher&#8217; na equa\u00e7\u00e3o frustra\u00e7\u00e3o\/depress\u00e3o\/desespero\/raiva&#8221;.<\/p>\n<p>Na trilha da hist\u00f3ria, \u00e9 considerado o primeiro manifesto do Riot Grrrl, o artigo &#8220;Women, Sex And Rock And Roll&#8221;, publicado em 1989. Mas foi s\u00f3 em 1991, quando ocorreu o caso Anita Hill e o juiz Clarence Thomas, que o Riot Grrrl se tornou mais necess\u00e1rio (<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1994\/5\/07\/mundo\/2.html\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">recorde aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Na esteira do caso, Jen Smith escreveu pra Allison Wolfe (ambas da Bratmobile) &#8220;que este ver\u00e3o vai ser uma <em>girl riot<\/em>&#8220;. Logo depois, as duas trabalharam juntas com Kathleen Hannah e Tobi Vai (do Bikini Kill), e criaram um zine feminista chamado Riot Grrrl. As mulheres decidiram remover o &#8220;i&#8221; e triplicar o som do &#8220;r&#8221; como forma de fazer o nome soar depreciativo e raivoso.<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os nem sempre coordenados, dos encontros, das bandas, das m\u00fasicas, das express\u00f5es art\u00edsticas e tudo o mais, foi mesmo o artigo da Newsweek que levou as ideias pra milh\u00f5es e milh\u00f5es de garotas, adolescentes suburbanos que precisavam de um apoio assim.<\/p>\n<p>Como Sara Marcus aponta, o artigo come\u00e7a contando um caso bastante comum: &#8220;Jessica Hopper estava a caminho da aula de fotografia em sua escola de ensino m\u00e9dio em Minneapolis, quando viu que espalhada em seu arm\u00e1rio uma obscenidade rabiscada. Uma efusiva garota de dezesseis anos com longos cabelos castanhos, Hopper adorava tirar fotos, era coisa que mais gostava no mundo, a n\u00e3o ser m\u00fasica <em>punk-rock<\/em>. Quando ela viu os rabiscos, achou que sabia quem era: um dos dois caras que regularmente a chamavam de &#8216;feminazi&#8217;. Apenas alguns dias antes, ela estava sozinha na sala da escola com um deles &#8211; um menino, ela diz, &#8216;que passa a m\u00e3o nas garotas&#8217;. De acordo com Hopper, ele veio e colocou ambas as m\u00e3os nos ombros dela. Ela pediu pra ele parar. &#8216;Ele fez&#8217; &#8211; finge um gemido baixo e sugestivo &#8211; &#8216;Oooh&#8217;. E eu disse: &#8216;t\u00f4 falando s\u00e9rio&#8217;. Ent\u00e3o, logo depois ele come\u00e7ou a fazer o mesmo com outra garota ali do lado. E ela disse: &#8216;N\u00e3o toque em mim ou nas minhas amigas!'&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Todas as garotas s\u00e3o assediadas&#8221;, segue o artigo. &#8220;A maioria aprende durante a adolesc\u00eancia a ignorar, esperando que isso passe. Mas Hopper tinha uma sa\u00edda pra sua frustra\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 uma Riot Grrrl &#8211; parte de uma rede de apoio de &#8216;garotas&#8217; ativistas de 14 a 25 anos, que s\u00e3o vagamente ligadas por algumas bandas <em>punk<\/em>, grupos de discuss\u00e3o semanais e mais de cinquenta fanzines caseiros. Hopper come\u00e7ou seu pr\u00f3prio fanzine no ano passado, que ela fotocopiou pra amigos. Ela chama de Hit It Or Quit It, e a cada poucos meses ela se dedica a seus ensaios muito feministas, muito exuberantes, como o recente que come\u00e7ou timidamente: &#8216;Eu costumava dizer que eu odiava homens&#8217;, apenas pra seguir com o nocaute, &#8216;e acho que realmente odeio'&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uzCdRIuhfPI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o da Newsweek pro movimento \u00e9 que o Riot Grrrl \u00e9 &#8220;a nova voz feminista da gera\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo, n\u00e3o tanto inflamada pelos problemas econ\u00f4micos quanto pelos sociais &#8211; incesto, abuso infantil, aborto, desordem alimentar, ass\u00e9dio. Reunindo id\u00e9ias descontroladamente misturadas da Madonna, da revista Sassy e de cr\u00edticas feministas como Susan Faludi e Naomi Wolf, elas se propuseram a tornar o mundo seguro pra sua exist\u00eancia: sexy, assertiva e barulhenta. O credo do Riot Grrrl diz: &#8216;n\u00f3s estamos com raiva numa sociedade que nos diz que Garota = Tola, Garota = Ruim, a Garota = Fraca&#8230; N\u00f3s podemos e vamos mudar o mundo de verdade&#8217;. Elas podem ser a primeira gera\u00e7\u00e3o de feministas a identificar sua raiva t\u00e3o cedo e a us\u00e1-la&#8221;. Era um discurso, numa revista <em>mainstream<\/em>, que n\u00e3o podia ser ignorado, ele teria algum efeito.<\/p>\n<p>&#8220;O Riot Grrrl segue os passos dos anos de outros grupos, como o Queer Nation ou o <em>rap<\/em> Niggers With Attitude (N.W.A.), que aplica uma esp\u00e9cie de jiu-jitsu ling\u00fc\u00edstico contra seus inimigos. Em vez de minimizar os estere\u00f3tipos negativos usados \u200b\u200bcontra eles, eles os exageram &#8211; come\u00e7ando com a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de &#8216;meninas&#8217;. Na conven\u00e7\u00e3o Riot Grrrl do \u00faltimo ver\u00e3o em Washington, DC, que atraiu muitos fi\u00e9is a Dupont Circle pra falar sobre o feminismo adolescente e ouvir <em>punk rock<\/em>, Riot Grrrls marcou seus corpos com letras de cinco polegadas de altura lendo RAPE ou SLUT. Era uma maneira de dizer: &#8216;isso \u00e9 o que voc\u00ea pensa de mim; enfrente sua pr\u00f3pria intoler\u00e2ncia&#8221;, diz o texto, que segue: &#8220;Courtney Love, da banda de Los Angeles Hole &#8211; que n\u00e3o \u00e9 uma Riot Grrrl, mas, como diz Hopper, &#8216;a santa padroeira do Riot Grrrls&#8221; &#8211; usa vestidos de menina que mal passam dos quadris &#8211; tudo pra cantar m\u00fasicas sobre estupro e explora\u00e7\u00e3o. &#8216;Prefiro ser uma minoria porque me faz sentir especial&#8217;, diz Love. Como Camille Paglia diz: &#8216;\u00e9 como Madonna &#8211; ela se veste como uma prostituta, mas ela sempre sabe o que quer. Essas garotas est\u00e3o vestidas pra matar, mas prontas pra lutar'&#8221;.<\/p>\n<p>Muitos adolescentes est\u00e3o com horm\u00f4nios funcionando como pavio pronto pra ser aceso e explodir em raiva contra tudo e todos que acreditam serem os opressores. Podem ser os pais, pode ser o governo, pode ser o homem que a assedia. Ou \u00e9 tudo isso. Numa sociedade onde ningu\u00e9m acredita em seus apelos e pedidos de socorro, o texto da Newsweek mostrava que algumas garotas estavam fazendo alguma coisa, ou ao menos tentando. Estava se expressando.<\/p>\n<p>&#8220;O Riot Grrrls vai desde meninas de quatorze anos que trocam fanzines pra acompanhar suas bandas favoritas at\u00e9 o verdadeiro compromisso. &#8216;N\u00e3o temos uma doutrina&#8217;, diz Molly Neuman, vinte e um anos, que toca bateria na banda Bratmobile, de Olympia. &#8216;N\u00e3o h\u00e1 l\u00edder espec\u00edfico, nenhum programa de dez pontos&#8217;. A coisa mais pr\u00f3xima que elas t\u00eam de uma fundadora \u00e9 Kathleen Hanna, de vinte e tr\u00eas anos, da banda Bikini Kill. Uma ex-stripper que canta e escreve sobre ser v\u00edtima de estupro e abuso infantil, Hanna representa a extrema raiva das Grrrls. Mas Jessica Hopper \u00e9 mais t\u00edpica. Ela \u00e9 jovem, branca, urbana e de classe m\u00e9dia&#8221;, ressalta a revista. Como Sara Marcus. E como muitas e muitas outras meninas que acabaram se reconfortando com o artigo.<\/p>\n<p>&#8220;Hooper tamb\u00e9m \u00e9 filha de pais divorciados: aprecia seu padrasto (ou &#8216;pai&#8217;) e seu pai (&#8216;pai biol\u00f3gico&#8217;), que s\u00e3o amigos. Toda semana ela assiste \u00e0s reuni\u00f5es do Riot Grrrl, onde mentes id\u00eanticas a dela falam sobre tudo, desde afinar cordas de guitarra at\u00e9 sair do arm\u00e1rio. E, como a maioria das adolescentes, ela \u00e9 um pacote de contradi\u00e7\u00f5es. Ela usa o seu zine Hit It Or Quit It pra falar sobre alguns &#8216;baixistas incrivelmente fofos&#8217;, mas ela come\u00e7ou um grupo pr\u00f3-escolha quando tinha doze anos. O Riot Grrrl abra\u00e7a essa contradi\u00e7\u00e3o como a for\u00e7a secreta das garotas, chamando-a de &#8216;for\u00e7a revolucion\u00e1ria da alma'&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Pra pessoas mais acostumadas a modelos mais augustos de feminismo, o Riot Grrrl pode parecer um pouco exagerado&#8221;, lembra a revista. &#8220;Mas como as mulheres do movimento setentista, o Riot Grrrl \u00e9 uma resposta aos velhos tempos. &#8216;Estamos definitivamente em uma \u00e9poca de guerra de g\u00eanero&#8217;, diz Naomi Wolf, autora de &#8216;The Beauty Myth&#8217;, uma cr\u00edtica feminista campe\u00e3 de vendas. &#8216;As adolescentes est\u00e3o mais conscientes e irritadas e impacientes do que as mulheres mais velhas, ou est\u00e3o ainda mais assustadas&#8217;. Numa hora em que o sexo \u00e9 tanto estigmatizado como potencialmente letal, as Grrrls s\u00e3o exuberantemente pr\u00f3-sexo. Na caligrafia adolescente, Hopper escreve: &#8216;SEXO N\u00c3O \u00c9 SUJO&#8230; E N\u00c3O \u00c9 &#8216;RUIM&#8217; A MENOS QUE ALGU\u00c9M ESTIVER FOR\u00c7ANDO VOC\u00ca&#8217;. O fanzine Hungry Girl \u00e9 ainda mais expl\u00edcito: &#8216;SLUT. Sim, eu sou uma puta. Meu corpo pertence a mim. Eu durmo com quem eu quiser&#8230; Eu n\u00e3o sou sua propriedade'&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de toda a sua seriedade mortal, esse movimento n\u00e3o \u00e9 apenas sobre raiva, \u00e9 sobre divers\u00e3o. Cultivada nos clubes de <em>punk rock<\/em> de Olympia, a tend\u00eancia recebe muito de sua energia e estilo da m\u00fasica. \u00c9 sobre sexo e <em>rock and roll<\/em>, mas n\u00e3o sobre drogas. Como parte de sua causa de autopreserva\u00e7\u00e3o, as Grrrls s\u00e3o antidrogas, surgindo em homilias t\u00e3o simples e <em>nerds<\/em> que parecem empoladas em uma assembl\u00e9ia escolar. &#8216;Comidas puras e um estilo de vida limpo &#8211; essa \u00e9 a melhor viagem&#8217;, Hopper escreve animadamente em Hit It&#8221;: \u00e9 a revista apontando uma curiosa contradi\u00e7\u00e3o, talvez achando que os pais ao lerem essa dist\u00e2ncia das drogas, pudessem ficar mais sossegados.<\/p>\n<p>Na reta final, o artigo \u00e9 mais amplo no apelo de aceita\u00e7\u00e3o ao movimento, tratando-o como algo &#8220;formal&#8221; e j\u00e1 dialogando com o &#8220;sistema&#8221;: &#8220;como uma entidade formal, o Riot Grrrl registra apenas algumas centenas de almas, mas sua influ\u00eancia se espalha muito mais. A revista Sassy, \u200b\u200bque agora reivindica um p\u00fablico de tr\u00eas milh\u00f5es, realiza uma troca constante entre o Riot Grrrl e a cultura <em>mainstream<\/em>. &#8216;N\u00f3s tiramos o uso do termo &#8216;garota&#8217; deles&#8217;, diz a editora-chefe Jane Pratt. (&#8230;) &#8216;Acho que o legal s\u00e3o bandas com toques pol\u00edticos, e revistas como a Sassy&#8217;, diz Samantha Shapiro, uma estudante de dezesseis anos de Nova Iorque, que foi convidada pra editar uma edi\u00e7\u00e3o da Sassy. &#8216;As pessoas me elogiam com meus coturnos. Que algo t\u00e3o viril est\u00e1 na moda pras mulheres mostra que as coisas mudaram&#8217;. Shapiro \u00e9 uma t\u00edpica <em>supermulher<\/em> em treinamento: ela \u00e9 volunt\u00e1ria de organiza\u00e7\u00f5es contra a AIDS e de desabrigados, estagi\u00e1ria de uma assembl\u00e9ia, e escreveu um editorial do New York Times elogiando todas as meninas como Chelsea Clinton (<em>filha de Bill Clinton<\/em>). Ela gosta de Bikini Kill, porque &#8216;elas s\u00e3o t\u00e3o sexy e t\u00e3o femininas quanto podem ser&#8230; Eles aceitam e apreciam as diferen\u00e7as'&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Reo4EHil2hI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mas Shapiro, segundo a Newsweek, &#8220;n\u00e3o \u00e9 uma Riot Grrrl, ela est\u00e1 preparada pros mesmos problemas que elas, e com a mesma mistura de idealismo e desilus\u00e3o. &#8216;Eu nunca vou estar na categoria sentar-e-esperar-pelo-meu-marido&#8217;, diz, em seguida acrescentando, auto-depreciativa: &#8216;Tipo, eu meio que quero ser presidente&#8217;. N\u00e3o h\u00e1 como dizer se esse entusiasmo ou a paix\u00e3o cativante das Riot Grrrls por &#8216;Revolution Girl Style&#8217; ir\u00e1 evaporar quando atingir o mundo real adulto. A maioria das Grrrls ainda est\u00e1 nos abrigos da casa dos pais ou da faculdade &#8211; muito longe do que eles enfrentar\u00e3o no competitivo mercado de trabalho ou quando come\u00e7arem a formar suas pr\u00f3prias fam\u00edlias. Mas Wolf, por exemplo, \u00e9 &#8216;absolutamente otimista&#8217;. Afinal, os membros mais velhos dessa gera\u00e7\u00e3o jovem ajudaram a votar no governo Clinton, enquanto adolescentes como Shapiro bateram palmas. Como diz a editora de fanzines de Seattle, Alice Wheeler, uma mulher madura de trinta e um anos, &#8216;agora que ela se mudou pra DC, espero que o Chelsea Clinton se torne uma Riot Grrrl tamb\u00e9m'&#8221;.<\/p>\n<p>Apesar do artigo ter se tornado o mais amplo sobre o movimento, ainda que em forma de uma mat\u00e9ria careta, ele ajudou tanto a dar esperan\u00e7as pra garotas em situa\u00e7\u00e3o de abuso e que n\u00e3o imaginavam que podiam pedir ajuda a outras semelhantes, como ajudou a desmantelar o movimento, afinal n\u00e3o se consegue lutar contra o <em>mainstream<\/em> sendo absorvido por ele.<\/p>\n<p>A arquivista Lisa Darms reflete: &#8220;embora o Riot Grrrl fosse um movimento era tamb\u00e9m um conglomerado de vozes dissidentes e dissonantes. Dissid\u00eancias internas \u00e9 costume se ver, numa perspectiva hist\u00f3rica, como raz\u00e3o pra movimentos radicais (especialmente de esquerda) falharem. Mas foi a dissid\u00eancia que definiu o Riot Grrrl desde o princ\u00edpio, e caracterizou seu crescimento e sua derrocada&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1993, o zine &#8220;Dunk&#8221; fez esta observa\u00e7\u00e3o: &#8220;o movimento Riot Grrrl luta por mudan\u00e7as, mas a gente questiona quem est\u00e1 inclu\u00eddo&#8230; Digo, a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra n\u00f3s, deve atingir todos os aspectos dessa merda de planeta, ent\u00e3o quando se diz que \u00e9 um movimento Riot Grrrl, sugere-se que h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com tudo, mas s\u00f3 o que se ouve \u00e9 &#8216;eu!&#8217;, &#8216;eu!&#8217;, &#8216;eu!&#8217;. Soa como algo intrag\u00e1vel, mas vimos bem de perto o movimento crescer e parece que pra apenas poucas garotas <em>punks<\/em> brancas de classe m\u00e9dia. \u00c9 como uma sociedade secreta, e algumas acham que \u00e9 uma sociedade secreta o que precisamos&#8221;.<\/p>\n<p>Por volta de 1994, o &#8220;segredo&#8221; j\u00e1 estava nas ruas, e a maioria das mulheres que come\u00e7aram o movimento n\u00e3o se identificavam mais como uma <em>riot grrrl<\/em>. Algumas simplesmente tinham deixado pra tr\u00e1s; pra outras, a inabilidade do movimento de observar privil\u00e9gios em suas nuances e de uma maneira eficaz o tornou in\u00fatil como modelo de ativismo. Embora garotas continuassem a escrever zines e tocar m\u00fasica. Alguma coisa havia mudado, inegavelmente. E pra melhor. Se as garotas podem gritar contra abusos, intoler\u00e2ncia e pedir igualdade \u00e9 porque movimentos como esse reinventam vez por outra o necess\u00e1rio feminismo nosso de cada dia.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/dez-peel-sessions-na-integra\/\" title=\"DEZ PEEL SESSIONS NA \u00cdNTEGRA\">DEZ PEEL SESSIONS NA \u00cdNTEGRA<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Riot Grrrl foi um movimento coletivo de um pequeno grupo de mulheres que acabou se tornando not\u00edcia nacional e influenciou toda uma gera\u00e7\u00e3o de [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":53766,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363],"tags":[1631,2649],"class_list":["post-53764","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-bikini-kill","tag-le-tigre"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/artigo-riotgrrrl.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-dZa","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53764","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53764"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53764\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53769,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53764\/revisions\/53769"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53766"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}