{"id":54200,"date":"2019-05-06T18:58:55","date_gmt":"2019-05-06T21:58:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=54200"},"modified":"2019-05-28T00:24:39","modified_gmt":"2019-05-28T03:24:39","slug":"acidas-o-disco-que-nao-envelhece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-disco-que-nao-envelhece\/","title":{"rendered":"\u00c1CIDAS: O DISCO QUE N\u00c3O ENVELHECE"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"54201\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-disco-que-nao-envelhece\/acidas17\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/acidas17.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"acidas17\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/acidas17.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/acidas17.jpg?resize=540%2C300\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-54201\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/acidas17.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/acidas17.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Trinta anos. L\u00e1 se v\u00e3o trinta anos. Olho-me no espelho e n\u00e3o vejo a menor mudan\u00e7a. Mas \u00e9 s\u00f3 colocar uma foto daquela \u00e9poca ao lado e perceber que envelheci &#8211; e muito. N\u00e3o \u00e9 pra menos. Ainda n\u00e3o estou carregado de rugas e cabelos brancos, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, s\u00e3o poucos (h\u00e1 alguns na barba, que n\u00e3o deixo crescer, ent\u00e3o \u00e9 irrelevante). Pan\u00e7a ainda t\u00e1 como trinta anos atr\u00e1s, sem aquela protuber\u00e2ncia regada a chope. Cora\u00e7\u00e3o, idem, exames de sangue ok. A medicina evoluiu, nosso conhecimento de alimenta\u00e7\u00e3o e cuidados tamb\u00e9m. N\u00e3o fossem as duas fotos e o tempo eu diria que sou o mesmo de 1989.<\/p>\n<p>Daqui a trinta anos, certamente, n\u00e3o terei a mesma percep\u00e7\u00e3o. Serei um idoso j\u00e1 mais perto do fim da vida do que de avistar alguma perspectiva. S\u00f3 que em 1989, eu era turbo, achava que sabia de tudo, que podia caminhar na velocidade que imaginasse e que ningu\u00e9m &#8211; nem nada! &#8211; podia me parar. Havia muito menos responsabilidades tamb\u00e9m, \u00e9 \u00f3bvio, o que nos deixa ainda mais com essa sensa\u00e7\u00e3o de invencibilidade.<\/p>\n<p>Com menos de vinte anos de idade, voc\u00ea n\u00e3o tem a menor proje\u00e7\u00e3o do que vai acontecer na sua vida, mesmo que seja for\u00e7ado pelas circunst\u00e2ncias a trabalhar\/casar\/ter filhos\/sei l\u00e1 mais o qu\u00ea. Nessa \u00e9poca da vida, voc\u00ea pode usar qualquer tipo de subst\u00e2ncia, que o seu corpo aceita numa boa, como uma experi\u00eancia v\u00e1lida e n\u00e3o como uma agress\u00e3o. Voc\u00ea v\u00ea o mundo com olhos diferentes. Sente o mundo de um jeito diferente.<\/p>\n<p>Acho que John Squire, Ian Brown, Mani e Reni tinham a mesma sensa\u00e7\u00e3o quando lan\u00e7aram &#8220;The Stone Roses&#8221;, em 2 de maio de 1989. Todos tinham entre vinte e cinco e vinte e sete anos, eram doida\u00e7os e queriam ser adorados. Havia uma petul\u00e2ncia em ser o melhor, sem se &#8220;entregar ao sistema&#8221;, uma atitude que atra\u00eda os desajustados e prepotentes como eu &#8211; e \u00e9ramos <em>muitos<\/em>.<\/p>\n<p>O tempo passou e esse lance de &#8220;n\u00e3o se entregar ao sistema&#8221; se mostrou uma balela, como sempre acontece nesses casos. Mas at\u00e9 aquele momento, ouvir o Stone Roses era um caso de triunfo dos invi\u00e1veis. Gente fora dos padr\u00f5es de beleza, suja, desarrumada e doida\u00e7a de drogas podia levantar o dedo do meio pra qualquer imbecil ainda deslumbrado com a &#8220;d\u00e9cada yuppie&#8221; que (ainda bem!) chegava ao fim. Essa galerinha chata pra caralho das Wall Streets da vida, entupida de farinha, estava sendo sobrepujada por um pessoal bem mais desajeitado, entupido de \u00e1cido.<\/p>\n<p>Em &#8220;The Stone Roses&#8221;, tudo parecia fazer sentido &#8211; e, como eu me olhando hoje no espelho, ainda faz, n\u00e3o envelheceu, \u00e9 um apanhado de can\u00e7\u00f5es maravilhosamente constru\u00eddas pra n\u00e3o caducarem. Como conseguir isso? Na base do fazer-como-quer.<\/p>\n<p>Guitarras pregui\u00e7osas e rebolantes, com um baixo adocicado pulsando devagar e uma bateria sacolejante, tudo emoldurado por um ar transl\u00facido, davam \u00e0s onze m\u00fasicas originais (tem vers\u00f5es com treze, acrescentando o sucesso das pistas &#8220;Elephant Stone&#8221;, antes de &#8220;Waterfall&#8221;, e a quilom\u00e9trica &#8220;Fool&#8217;s Gold&#8221; encerrando o disco) a impress\u00e3o de uma novidade que ainda persiste d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>O jeit\u00e3o mal humorado de Ian Brown antecipou a rabugice dos irm\u00e3os Gallagher, do Oasis, mas seu vocal n\u00e3o era agressivo em disco (ao vivo, era outra coisa): era um tro\u00e7o &#8220;flower power&#8221; sem firulas de paz-e-amor, s\u00f3 com as drogas, o sexo (talvez) e o foda-se pra tudo e todos. Era pra dan\u00e7ar e era pra viajar. Era pra ouvir sozinho e era pra derreter a mente. Era pra se sentir especial.<\/p>\n<p>A bem da verdade, as letras pouco querem dizer. Entre loucuras sobre como as auras brilham, revolu\u00e7\u00f5es violentas com ruas solit\u00e1rias e carros queimando, pessoas submissas, uma sociedade sem perspectiva, o que o Stone Roses queria mesmo era entregar alguma esp\u00e9cie de alternativa a tudo o que os anos 1980 representaram e o que poderia ser um pingo de esperan\u00e7a pra \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo (esperan\u00e7a jamais confirmada). Talvez se esse disco fosse feito dez anos depois (como os dos Radiohead), ele fosse de extremo pessimismo, afinal mesmo com a avalanche da Internet chegando, a gente j\u00e1 dava sinais de que estava derrotado como sociedade.<\/p>\n<p>Por outro lado, somos otimistas ainda, n\u00e3o? Eu olho minha imagem no espelho e sinto que o tempo n\u00e3o passou. Tem dias que me acho at\u00e9 melhor. Isso n\u00e3o \u00e9 de um recorrente e teimoso otimismo? Ou, veja, qual sentido faria ainda estar vivo? Talvez seja por isso que &#8220;The Stone Roses&#8221; ainda pare\u00e7a t\u00e3o refrescante e, digamos, &#8220;atual&#8221;, sem rugas, sem barba e cabelos brancos. \u00c9 porque em tempos de filmes de super-her\u00f3i, na \u00e9poca do furac\u00e3o do <em>hip hop<\/em> e do <em>rap<\/em> (a \u00fanica m\u00fasica <em>punk<\/em> do momento, a \u00fanica realmente contestadora), em tempos de &#8220;divas&#8221; pop pr\u00e9-fabricadas na mesma forma, em anos de comunica\u00e7\u00e3o totalmente impessoal, ter esperan\u00e7a ainda \u00e9 uma boa moeda em busca de equil\u00edbrio e satisfa\u00e7\u00e3o &#8211; afinal, o que \u00e9 essa adora\u00e7\u00e3o por super-her\u00f3is, sen\u00e3o uma busca infantilizada por um salvador da nossa mis\u00e9ria; o que s\u00e3o esses \u00eddolos pr\u00e9-fabricados e id\u00eanticos em beleza e express\u00e3o corporal, sen\u00e3o uma reflexo de nossos desejos de identidade; e o que s\u00e3o esses <em>rapers<\/em> provocadores (e j\u00e1 milion\u00e1rios), sen\u00e3o nossa forma de expressar certa raiva represada pelas injusti\u00e7as cada vez mais entrela\u00e7adas na sociedade?<\/p>\n<p>Sim, &#8220;The Stone Roses&#8221; sobrevive. Completou trinta anos nesse maio de 2019 como um senhor rejuvenescido por t\u00e9cnicas simples de recauchutagem da alma sofrida: distribui\u00e7\u00e3o de sorrisos, aceita\u00e7\u00e3o da beleza como ela \u00e9, leveza e esperan\u00e7a de tempos melhores. \u00c9 tudo o que a gente precisa pra viver bem, em qualquer \u00e9poca que seja.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/klQllZ-y-tc\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-sem-passado-e-sem-futuro\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO\">\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-quatro-discos-quatro-vozes-so-mulheres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES\">\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-voo-sem-sentido-asas-pra-se-apoiar\/\" title=\"\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR\">\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-adaptacao-de-flores-silvestres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES\">\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-uma-voz-e-tudo\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO\">\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trinta anos. 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