{"id":54889,"date":"2019-10-01T23:06:29","date_gmt":"2019-10-02T02:06:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=54889"},"modified":"2019-10-01T23:32:50","modified_gmt":"2019-10-02T02:32:50","slug":"acidas-o-que-salva-o-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-que-salva-o-dia\/","title":{"rendered":"\u00c1CIDAS: O QUE SALVA O DIA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"54890\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-que-salva-o-dia\/acidas18\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/acidas18.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"acidas18\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/acidas18.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/acidas18.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"sebadoh-act-surprised\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-54890\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/acidas18.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/acidas18.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Acordar azedo, com vontade de socar o mundo, \u00e9 uma experi\u00eancia com a qual me deparo com certa frequ\u00eancia nos \u00faltimos tempos. Estou mergulhado na insana banheira \u00e1cida que corr\u00f3i minha vontade de encarar a sociedade. Ficar sozinho seria o rem\u00e9dio certo, caso n\u00e3o tivesse que pagar os boletos e, pra isso, me misturar aos malucos que dominam essa desgraceira que chamamos de conv\u00edvio social.<\/p>\n<p>J\u00e1 tentei me matar e a terapia ajudou a identificar o que me incomodava e sinto que sou hoje um privilegiado no sentido de conseguir conviver numa boa com meus constantes fantasmas. Uso drogas aqui e acol\u00e1, mas todo mundo que viveu esse drama sabe que n\u00e3o \u00e9 a sa\u00edda, sen\u00e3o um paliativo. O que fazer? Encher a cara com os amigos? Transar com a primeira (e a segunda e a terceira e quarta) pessoa que aparecer pela frente? Se fechar? Se lamentar? Chorar? Esquecer do mundo?<\/p>\n<p>Cada um procura sua pr\u00f3pria resposta. Eu n\u00e3o sei as minhas ainda. Mas considero uma ou outra sa\u00edda revigorante. Uma: trabalhar dentro dos limites da sanidade, o suficiente pra pagar os tais boletos. Outra: fazer coisas, quaisquer coisas, sozinho, com amigos, com desconhecidos, vai de cada um, o que vale \u00e9 manter a cabe\u00e7a ativa. E por fim: m\u00fasica, m\u00fasica e m\u00fasica. Serve pra mim, n\u00e3o sei se serve pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00f4 querendo parecer t\u00e3o \u00f3bvio assim, embora eu entenda que estou sendo. Ok. Mas \u00e9 que numa das minhas viagens solit\u00e1rias pelos cafund\u00f3s da mente, comecei a tirar a poeira da minha lista de pend\u00eancias de novidades pra ouvir e me deparei com esse &#8220;Act Surprised&#8221;, disco que o Sebadoh lan\u00e7ou em maio de 2019.<\/p>\n<p>Os caras n\u00e3o lan\u00e7avam nada h\u00e1 seis anos e a bem da verdade eu nem ligava muito. Nunca fui assim t\u00e3o entusiasta da banda. Mas pode ser o momento. Pode ser o \u00e1cido. Pode ser a solid\u00e3o. N\u00e3o sei. Algo me pegou nesse disco. Algo \u00e9 igual aos t\u00edtulos das m\u00fasicas. N\u00e3o prestei aten\u00e7\u00e3o \u00e0s letras, s\u00f3 aos t\u00edtulos. E todos eles fizeram sentido pra mim (eu escrevo essas bobagens me segurando pra n\u00e3o rir, mas a verdade \u00e9 inescap\u00e1vel, oras).<\/p>\n<p>&#8220;Phantom&#8221; e os meus fantasmas. &#8220;Celebrate The Void&#8221; faz muito sentido pra quem tem que encarar o vazio de certas fases da vida. &#8220;Medicate&#8221; n\u00e3o preciso nem dizer, \u00e9 s\u00f3 molha pra minha farm\u00e1cia. &#8220;Vacation&#8221; \u00e9 um tanto o que eu mais preciso n\u00e3o s\u00f3 do trabalho, mas de tudo e de todos. &#8220;Fool&#8221;, oh, \u00e9 um espelho (e a musiquinha mais legal, volto nela daqui a pouco). &#8220;Battery&#8221; \u00e9 a minha vazia. &#8220;Reykyavic&#8221;&#8230; algu\u00e9m me manda uma passagem pra l\u00e1?<\/p>\n<p>Pra al\u00e9m dos t\u00edtulos: &#8220;Phantom&#8221; estourou nos meus ouvidos como se fosse uma espoleta intermin\u00e1vel. Aumentei o volume. Comecei a pular. Eram, fiquei sabendo de imediato, ao toque do interfone, com a voz raivosa do vizinho de baixo reclamando do barulho, onze da noite. Uma noite quente de inverno-quase-primavera, daqueles veranicos que pro\u00edbem qualquer ser normal de simplesmente dormir. &#8220;Celebrate The Void&#8221; \u00e9 uma baladinha pra fazer <em>air intrumento<\/em> qualquer e ignorar solenemente o vizinho. A campainha, por\u00e9m, tocou. Era a vizinha, esposa do cidad\u00e3o reclam\u00e3o. Linda. Linda (o nome dela \u00e9 Linda, em homenagem \u00e0 esposa de Paul). Ela pedia encarecidamente que eu baixasse o volume. Fiz chantagem: baixo, mas voc\u00ea dan\u00e7a uma comigo.<\/p>\n<p>Ela riu. Riu desconfiada. Quando come\u00e7ou a bateria acelerada de &#8220;Follow The Breath&#8221;, viu que eu falava s\u00e9rio, saltitando sem camisa como um maluco. Ela colocou as m\u00e3os na boca pra n\u00e3o gargalhar. Olhou pros lados, fechou a porta e entrou. Dan\u00e7amos, pulamos. Ela parecia liberta. Eu tamb\u00e9m. A cumplicidade era de duas pessoas presas em suas vidinhas rotineiras e impr\u00f3prias pros esp\u00edritos livres residentes ali. A minha sorte \u00e9 que &#8220;Medicate&#8221; segue a mesma toada e n\u00e3o paramos de pular e rir e agitar os bra\u00e7os como se quis\u00e9ssemos alcan\u00e7ar a tal liberdade bem pr\u00f3ximo do nosso alcance, mas t\u00e3o-longe-t\u00e3o-perto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TaAP3DJRADU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Q8CU1T7Y-vg\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O disco transcorreu com certa independ\u00eancia do modo como dan\u00e7\u00e1vamos: &#8220;See-Saw&#8221;, &#8220;Vacation&#8221; (raivosa e requebrante ao mesmo tempo), &#8220;Stunned&#8221; (que merecia uns berros al\u00e9m dos pulos) e, finalmente, &#8220;Fool&#8221;, com seu balan\u00e7o pop irresist\u00edvel. Est\u00e1vamos h\u00e1 mais de quinze minutos pulando e dan\u00e7ando. J\u00e1 ping\u00e1vamos de suor. Ao fim de &#8220;Fool&#8221;, ela se jogou no ch\u00e3o cansada, suspirou alto e se deu conta que precisava ir embora. Baixei o volume, como prometido. Dei um &#8220;boa noite&#8221; \u00e0 dist\u00e2ncia que mais pareceu um &#8220;muito obrigado&#8221;. Ela correspondeu com um aceno entusiasmado.<\/p>\n<p>Aquele dia que parecia perdido foi salvo por um disco e por uma nova amiga. Eu e Linda nos falamos nos dias que se seguiram como se conhec\u00eassemos de crian\u00e7a. \u00c9 s\u00f3 o que precisamos, vez por outra: um disco e um amigo pra salvar o dia. Naquele dia desesperador, essa tarefa coube a um disco que eu nunca havia ouvido e que passou a ser um grande companheiro a partir dali (e n\u00e3o sei at\u00e9 quando), e a uma vizinha-desconhecida que se permitiu ser alegrada e impregnada por esse extravasamento.<\/p>\n<p>Escolha o que salva o seu dia. Nem tudo est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p><iframe style=\"border: 0; width: 400px; height: 472px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3920470079\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/artwork=small\/transparent=true\/\" seamless><a href=\"http:\/\/sebadohfire.bandcamp.com\/album\/act-surprised\">Act Surprised by Sebadoh<\/a><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-sem-passado-e-sem-futuro\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO\">\u00c1CIDAS &#8211; SEM PASSADO E SEM FUTURO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-quatro-discos-quatro-vozes-so-mulheres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES\">\u00c1CIDAS: QUATRO DISCOS, QUATRO VOZES, S\u00d3 MULHERES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-o-voo-sem-sentido-asas-pra-se-apoiar\/\" title=\"\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR\">\u00c1CIDAS: O VOO SEM SENTIDO, ASAS PRA SE APOIAR<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-a-adaptacao-de-flores-silvestres\/\" title=\"\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES\">\u00c1CIDAS: A ADAPTA\u00c7\u00c3O DE FLORES SILVESTRES<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/acidas-uma-voz-e-tudo\/\" title=\"\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO\">\u00c1CIDAS &#8211; UMA VOZ E TUDO<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordar azedo, com vontade de socar o mundo, \u00e9 uma experi\u00eancia com a qual me deparo com certa frequ\u00eancia nos \u00faltimos tempos. 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