{"id":56108,"date":"2020-07-10T14:13:48","date_gmt":"2020-07-10T17:13:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=56108"},"modified":"2020-07-10T14:13:48","modified_gmt":"2020-07-10T17:13:48","slug":"resenha-cadu-tenorio-monument-for-nothing","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-cadu-tenorio-monument-for-nothing\/","title":{"rendered":"RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#8211; MONUMENT FOR NOTHING"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"56109\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-cadu-tenorio-monument-for-nothing\/cadutenorio-capa-monumentfornothing\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,540\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cadutenorio-capa-monumentfornothing\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?fit=540%2C540&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?resize=540%2C540\" alt=\"cadu-tenorio-capa-monument-for-nothing\" width=\"540\" height=\"540\" class=\"alignnone size-full wp-image-56109\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?resize=83%2C83&amp;ssl=1 83w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/cadutenorio-capa-monumentfornothing.jpg?resize=55%2C55&amp;ssl=1 55w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Na hora, seus gritos se ativeram \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica e insana palavra, de uma fonte muito bem conhecida: &#8216;Tekeli-li! Tekeli-li'&#8221; (H. P. Lovecraft).<\/p>\n<p>A delicadeza que enuncia os primeiros nomes, que constituem uma esp\u00e9cie de biografia afetiva de Cadu Ten\u00f3rio, traz algo de estranho; uma voz computadorizada, ou alien, que certamente n\u00e3o \u00e9 &#8220;deste&#8221; mundo, embora com certeza produzida com mecanismos tecnol\u00f3gicos dispostos neste tempo, neste planeta.<\/p>\n<p>O decl\u00ednio no absurdo reverbera como uma manipula\u00e7\u00e3o hipn\u00f3tica, mas essa hipnose \u00e9 proporcionada pelo t\u00e3o celebrado real, como se seu eixo fosse o ponto mais desconfigurado. Acontece assim: voc\u00ea entrev\u00ea a queda e se atenta pro ponto nebuloso na ca\u00edda. Esta pode ser em espiral ou vertical, mas voc\u00ea n\u00e3o a percebe como um movimento porque o ponto de perspectiva \u00e9 algo inalien\u00e1vel de sua pr\u00f3pria ess\u00eancia. Voc\u00ea sacode o corpo pra tentar se livrar do desconforto, mas n\u00e3o \u00e9 que ele o persegue, ele, de alguma maneira, \u00e9 voc\u00ea.<\/p>\n<p>Como se em meio a alguma gargalhada, o farfalhar das folhas lhe convocasse; em &#8220;No Longer Human&#8221; (que pode ser uma refer\u00eancia ao romance &#8220;Decl\u00ednio De Um Homem&#8221;), qualquer brecha \u00e9 motivo pra um maravilhamento-estranhamento, uma sensa\u00e7\u00e3o amb\u00edgua que nasce do nojo e da alegria simultaneamente. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dividir o corpo e atribuir a \u00f3rg\u00e3os separados sensa\u00e7\u00f5es conjuntas, os sintetizadores lembram que o tempo acelera pra algum rumo desconhecido, emergindo o espanto. As imagens desmancham-se (os teclados parecem querer fugir de uma homogeneidade), at\u00e9 mesmo a repeti\u00e7\u00e3o est\u00e1 esgotada de sua forma unidimensional, \u00e9 preciso quebrar tal v\u00ednculo (o humano) pra tentar ser outra coisa. Uma voz feminina repete &#8220;I am no longer human&#8221;. Uma quest\u00e3o pulula; &#8220;o que vem depois?&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos sons no mundo e o que se espera \u00e9 que, algum deles, materializado por algu\u00e9m, possa manifestar, ainda que pouco, uma emo\u00e7\u00e3o internalizada. A esmagadora maioria dos sons, no entanto, s\u00e3o como constru\u00e7\u00e3o de algo que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ter uma premoni\u00e7\u00e3o; h\u00e1 uma composi\u00e7\u00e3o formal no disco que irrompe na forma sint\u00e1tica, resgatando refer\u00eancias e colocando-as no eixo criativo do compositor.<\/p>\n<p>Em \u00e9poca que parece que apenas o vocabul\u00e1rio <em>gamer<\/em> passou a adotar frequentemente o termo &#8220;\u201cimers\u00e3o&#8221;, a proposta sonora do disco n\u00e3o desaponta nesse sentido; s\u00e3o sequ\u00eancias diversas que cristalizam um monumento difuso, que recebe melodias (Ju\u00e7ara Mar\u00e7al) pra transform\u00e1-las em significante puro, carecendo de um conceito que determine o signo.<\/p>\n<p>Pra tanto, o monumento de que o disco parece tratar \u00e9 algo suspenso, uma autobiografia fragmentada, constitu\u00edda por retalhos sonoros meticulosamente estruturados pra romper qualquer significa\u00e7\u00e3o unidimensional. Mais do que &#8220;espertas&#8221;, as refer\u00eancias (que v\u00e3o dos t\u00edtulos das pe\u00e7as a colagens sonoras), interv\u00eam na constru\u00e7\u00e3o de uma identidade espelhada e, como um espelho, justaposta, sem horizontalidade linear.<\/p>\n<p>As concep\u00e7\u00f5es de constru\u00e7\u00e3o de identidade, mito e refer\u00eancia misturam-se pra edificar um projeto h\u00edbrido. O Mito de Cthulhu, de Lovecraft, surge (&#8220;Yog-Sothoth Is The Gate&#8221;) ao lado de outras entidades fict\u00edcias (ou n\u00e3o) pra propor uma narrativa de permanente assombro.<\/p>\n<p>Apesar de ser imposs\u00edvel padronizar as m\u00fasicas de Cadu em algum cat\u00e1logo relacion\u00e1vel, a varia\u00e7\u00e3o de repouso\/disson\u00e2ncia transp\u00f5e, como a mem\u00f3ria, a manifesta\u00e7\u00e3o de dejetos que jamais seriam correspond\u00eancias precisas (nem intencionam tanto) do trajeto de uma vida; como se os cantos escuros fossem a extens\u00e3o de um impenetr\u00e1vel dia nublado, da dist\u00e2ncia f\u00edsica que funciona como materializa\u00e7\u00e3o do colapso emocional.<\/p>\n<p>Aliadas ao clima de decad\u00eancia (que tamb\u00e9m \u00e9 um microcosmo do mundo), as dores s\u00e3o tentativas de mergulho no inevit\u00e1vel, num processo de desuni\u00e3o que fragmenta a queda em reminisc\u00eancias e cria\u00e7\u00f5es, libertar-se de uma inomin\u00e1vel presen\u00e7a pra caracterizar-lhe, ainda que de maneira sedimentada, obscura e nebulosa. Atuam sem uma autoconsci\u00eancia hiper-racionalizada, mas como desabrochar que constitui um mundo novo de perdas a partir dos sons que brotam.<\/p>\n<p>Pro m\u00fasico, formular esses sons \u00e9 intervir diretamente na sua constitui\u00e7\u00e3o afetiva, comunicando a passagem de suas influ\u00eancias pra seus sentimentos, sua percep\u00e7\u00e3o do mundo influenciada e tamb\u00e9m influenciadora, ambas as inst\u00e2ncias em cont\u00ednuas perpetua\u00e7\u00f5es uma da outra.<\/p>\n<p>Se tais rastros se podem afirmar porque materializam-se com o disco, \u00e9 porque os res\u00edduos coletados em uma \u00e9poca de colapso, paradoxalmente, podem afirmar uma vida, ainda que atrav\u00e9s de d\u00favidas e indefini\u00e7\u00f5es, como se ouvir o \u00e1lbum fosse a apreens\u00e3o dum ponto de interroga\u00e7\u00e3o em cont\u00ednuo desmanche.<\/p>\n<p>A incerteza da afirma\u00e7\u00e3o consome as noites, distante dos terrenos claros em que as formas est\u00e3o bem delimitadas; cada passo pra frente, s\u00e3o dois pra tr\u00e1s. Em busca de um momento que n\u00e3o existe mais, atr\u00e1s do rastro de que uma vez foi for\u00e7a e vitalidade. Este n\u00e3o \u00e9 um disco did\u00e1tico, mas seu conceito consiste numa enorme jornada de redescobrimento das inst\u00e2ncias origin\u00e1rias, da recria\u00e7\u00e3o de la\u00e7os afetivos que garantam um enraizamento no universo constitu\u00eddo.<\/p>\n<p>A grande ansiedade que reside no \u00e1lbum (<a href=\"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/cadu-tenorio-monument-for-nothing\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">ou\u00e7a aqui na \u00edntegra<\/a>) parece um reflexo das proje\u00e7\u00f5es mais realistas destes tempos. Ainda que as respostas surjam cada vez mais cient\u00edficas, o que aguarda do outro lado n\u00e3o tem cura: o medo persiste. Mesmo que todas as portas estejam trancadas, mesmo que se more na rua mais segura de sua cidade, mesmo que seja jovem e saud\u00e1vel; h\u00e1 uma enorme massa obscura, indefin\u00edvel, \u00e0 espreita. E depois, nada.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><strong>NOTA: 9,5<\/strong><br \/>\nLan\u00e7amento: 8 de junho de 2020<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 88 minutos e 57 segundos<br \/>\nSelo: QTV<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Cadu Ten\u00f3rio<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-cadu-tenorio-room-memoirs\/\" title=\"RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#8211; \u5b64\u7acb: ROOM MEMOIRS\">RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#8211; \u5b64\u7acb: ROOM MEMOIRS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-cadu-tenorio-isekai\/\" title=\"RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#8211; ISEKAI&lt;BLUE THIRTY-FOUR&gt;\">RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#8211; ISEKAI<BLUE THIRTY-FOUR><\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-cadu-tenorio-corrupted-data2\/\" title=\"RESENHA: CADU TENORIO &#8211; CORRUPTED DATA\u5b64\u72ec\u6b7b\">RESENHA: CADU TENORIO &#8211; CORRUPTED DATA\u5b64\u72ec\u6b7b<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-cadu-tenorio-thomas-rohrer-forceps\/\" title=\"RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#038; THOMAS ROHRER &#8211; F\u00d3RCEPS\">RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#038; THOMAS ROHRER &#8211; F\u00d3RCEPS<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/resenha-cadu-tenorio-rimming-compilation\/\" title=\"RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#8211; RIMMING COMPILATION\">RESENHA: CADU TEN\u00d3RIO &#8211; RIMMING COMPILATION<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Na hora, seus gritos se ativeram \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica e insana palavra, de uma fonte muito bem conhecida: &#8216;Tekeli-li! 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