{"id":57286,"date":"2021-05-19T20:07:17","date_gmt":"2021-05-19T23:07:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=57286"},"modified":"2021-05-19T20:07:17","modified_gmt":"2021-05-19T23:07:17","slug":"clint-mansell-a-lua-o-silencio-a-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/clint-mansell-a-lua-o-silencio-a-linguagem\/","title":{"rendered":"CLINT MANSELL: A LUA, O SIL\u00caNCIO, A LINGUAGEM"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"57287\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/clint-mansell-a-lua-o-silencio-a-linguagem\/clintmansell-moon\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/clintmansell-moon.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"clintmansell-moon\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/clintmansell-moon.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/clintmansell-moon.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"clint-mansell-trilha-filme-lunar\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-57287\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/clintmansell-moon.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/clintmansell-moon.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Lunar&#8221; (Moon, 2009) \u00e9 o primeiro filme de Duncan Jones, filho de ningu\u00e9m menos que David Bowie. A hist\u00f3ria \u00e9 um tanto simpl\u00f3ria at\u00e9. No futuro, a Lua ser\u00e1 usada pra extrair energia limpa pra Terra, e a empresa Lunar manda Sam Bell, interpretado por Sam Rockwell pra sozinho comandar a opera\u00e7\u00e3o no sat\u00e9lite do nosso planeta.<\/p>\n<p>O filme come\u00e7a com Bell ansioso pela aproxima\u00e7\u00e3o do fim do contrato de tr\u00eas anos. Ele finalmente poder\u00e1 voltar pra Terra e pra sua esposa e filha. Mas algo d\u00e1 errado e uma descoberta bizarra vai levar o astronauta a um pesadelo.<\/p>\n<p>Com ele, nesses tr\u00eas anos, apenas um mecanismo de intelig\u00eancia artificial chamado Gerty, que emula descaradamente o HAL de &#8220;2001 &#8211; Uma Odisseia No Espa\u00e7o&#8221; (&#8220;2001, A Space Odissey&#8221;, 1968, de Stanley Kubrick), e conversa naturalmente com o astronauta.<\/p>\n<p>Tirando Gerty, tudo o que Bell pode ouvir \u00e9 s\u00f3 o que o espa\u00e7o pode oferecer: o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Mas o filho de Bowie n\u00e3o tinha como n\u00e3o herdar do pai a habilidade de, pelo menos, saber o qu\u00e3o importante a m\u00fasica influencia nas emo\u00e7\u00f5es e nos ambientes. \u00c9 a\u00ed que entra a figura de Clinton Darryl Mansell, ou Clint Mansell, assinatura que d\u00e1 ao seu trabalho nas trilhas sonoras pro cinema.<\/p>\n<p>O ingl\u00eas nasceu em 7 de janeiro de 1963 e faz anivers\u00e1rio um dia antes de David Bowie, que nasceu em 8 de janeiro de 1947 e morreu em 10 de janeiro de 2016.<\/p>\n<p>Ele fez parte do Pop Will Eat Itself, grupo de rock alternativo <em>dance-punk<\/em> dos anos 1980, cujo segundo disco, &#8220;This Is the Day&#8230;This Is the Hour&#8230;This Is This!&#8221;, de 1988, rendeu o sucesso &#8220;Def. Con. One&#8221;, escrito por Mansell.<\/p>\n<p>Com o t\u00e9rmino da empreitada, em 1996 (a banda voltou a se reunir em 2010, mas sem ele), mudou-se pra Los Angeles, onde conheceu Darren Aronofsky, o que mudou radicalmente sua vida.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/v7Wm4qXC_j4\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O diretor nova-iorquino colocou Mansell pra fazer a trilha de &#8220;Pi&#8221; (1998), seu aplaudido entusiasmadamente filme de estreia, e a parceria n\u00e3o se desfez mais.<\/p>\n<p>Depois, a dupla fez o tamb\u00e9m aplaudido &#8220;R\u00e9quiem Para Um Sonho&#8221; (&#8220;Requiem For A Dream&#8221;, 2000), &#8220;Fonte Da Vida&#8221; (&#8220;The Fountain&#8221;, 2006, pelo qual Mansell foi indicado ao Globo de Ouro), &#8220;O Lutador&#8221; (&#8220;The Wrestler&#8221;, 2008), o premiad\u00edssimo &#8220;Cisne Negro&#8221; (&#8220;Black Swan&#8221;, 2010), e o fraco &#8220;No\u00e9&#8221; (&#8220;Noah&#8221;, 2014). S\u00f3 n\u00e3o estiveram juntos em &#8220;M\u00e3e&#8221; (&#8220;Mother&#8221;, 2017).<\/p>\n<p>A carreira de Mansell no cinema est\u00e1 consolidada. &#8220;Lunar&#8221; \u00e9 a sua vig\u00e9sima segunda trilha escrita pra um filme, o que d\u00e1 uma ideia da escolha segura que Duncan Jones teve pra sua estreia.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque o diretor precisava lidar com um algo que poderia incomodar a audi\u00eancia: a total aus\u00eancia de som na maior parte do filme, por ele ser ambientado na Lua. A sensibilidade de Mansell conseguiu dar \u00e0 obra &#8220;uma atmosfera l\u00facida e sobrenatural&#8221;, segundo a imprensa.<\/p>\n<p>&#8220;Lunar&#8221; \u00e9 uma homenagem ao g\u00eanero cl\u00e1ssico de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com uma hist\u00f3ria pessoal de fundo. Mansell se lembra de ter recebido o roteiro de Jones &#8220;do nada&#8221; e ser imediatamente atingido por sua explora\u00e7\u00e3o do isolamento celestial e da solid\u00e3o, e as quest\u00f5es que isso levanta sobre o que significa ser humano. &#8220;Ainda acho que \u00e9 um dos melhores &#8211; sen\u00e3o o melhor roteiro que j\u00e1 li&#8221;, disse ele, em 2019, quando o filme completava dez anos e sua trilha acabou servindo como pano de fundo pra homenagem aos cinquenta anos da Apolo 11 e sua primeira aterrissagem na Lua.<\/p>\n<p>A London Contemporary Orchestra acabou interpretando a trilha ao vivo, enquanto o filme passava.<\/p>\n<p>&#8220;Pra &#8216;Lunar&#8217;, a trilha sonora de Mansell envolve a rotina e as revela\u00e7\u00f5es de um humano solit\u00e1rio trabalhando em uma instala\u00e7\u00e3o espacial automatizada, encontrando express\u00e3o por meio de linhas de piano cintilantes, por\u00e9m lamentosas, percuss\u00e3o fervente e gritos et\u00e9reos de cordas. Lindamente melanc\u00f3lico, o tema &#8216;Welcome To Lunar Industries&#8217;, que abre o disco, \u00e9 como um solil\u00f3quio de piano pro protagonista Sam. &#8216;Esperan\u00e7osamente, captura a repeti\u00e7\u00e3o de sua vida&#8217;, disse Mansell&#8221;, em mat\u00e9ria pro <a href=\"https:\/\/www.barbican.org.uk\/clint-mansell-moon-15\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">site Barbican<\/a>.<\/p>\n<p>A habilidade de Mansell assimila um tanto do Pop Wiil Eat Itself, com momentos empolgantes e at\u00e9 dan\u00e7antes, mas em &#8220;Lunar&#8221; ele acha espa\u00e7o at\u00e9 mesmo pro <em>krautrock<\/em>, como na faixa final, &#8220;Welcome To Lunar Industries (Three Year Stretch&#8230;.)&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 como se ele buscasse a &#8220;modernidade&#8221; de um cotidiano lunar na melancolia dos sons do passado &#8211; e a escolha do <em>kraut<\/em> \u00e9 justamente pelo o que <em>kraut<\/em> representa: uma eleg\u00e2ncia moderna, embora com d\u00e9cadas de poeira musical.<\/p>\n<p>Quando solicitado a definir seu processo como compositor, Mansell deixa claro que confia em sua intui\u00e7\u00e3o: &#8220;a trilha est\u00e1 a\u00ed, voc\u00ea s\u00f3 tem que faz\u00ea-la surgir&#8221;, ele pondera. &#8220;O filme dir\u00e1 a voc\u00ea onde precisa que voc\u00ea v\u00e1 &#8211; se consegue lidar com a emo\u00e7\u00e3o, se precisa ser mais austero, se precisa ser mais r\u00e1pido ou mais lento&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Lunar&#8221;, apesar da trama simpl\u00f3ria, \u00e9 um filme astuto. Tira muito de onde pouco se espera. \u00c9 divertido e, sim, levanta questionamentos sobre a solid\u00e3o e o isolamentos em uma sociedade cujas ferramentas de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o conhecem mais obst\u00e1culos, muito menos da dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao preencher os sil\u00eancios, o diretor Jones fez uma escolha f\u00e1cil (\u00e9 de se imaginar como o filme poderia ser sem a m\u00fasica de Mansell, substitu\u00edda, por exemplo, pelo som da respira\u00e7\u00e3o do personagem de Rockwell). Foi uma escolha que poderia destruir a reputa\u00e7\u00e3o do filme, porque a m\u00fasica (desculpe-me pelo clich\u00ea) se tornou de fato um personagem, caso n\u00e3o tivesse encontrado um compositor t\u00e3o habilidoso.<\/p>\n<p>&#8220;Escrever uma trilha de filme \u00e9 um passatempo bastante solit\u00e1rio, na maioria das vezes, mas tamb\u00e9m \u00e9 muito colaborativo. N\u00e3o s\u00f3 com o diretor, mas tamb\u00e9m com o pr\u00f3prio filme. Voc\u00ea n\u00e3o pode simplesmente colocar o que quiser l\u00e1 &#8211; o filme dir\u00e1 se est\u00e1 respondendo a ele ou n\u00e3o. Suponho que seja uma quest\u00e3o de saber se voc\u00ea est\u00e1 em sintonia com isso&#8221;, explicou, quase dissecando a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio &#8220;Lunar&#8221;.<\/p>\n<p>Outro ponto alto do filme, a dire\u00e7\u00e3o de arte, com cen\u00e1rios que beiram o sombrio, com a Terra iluminada volta e meia ao fundo, um deserto desesperados (ainda mais por tr\u00eas anos!), e o interior da estrutura meio sujo, embora amplo e sem a sensa\u00e7\u00e3o de claustrofobia, ajudou a orientar Mansell.<\/p>\n<p>&#8220;Do meu ponto de vista, ele construiu a estrutura, as funda\u00e7\u00f5es, o telhado e eu tive que embelez\u00e1-lo&#8221;, explicou. &#8220;Voc\u00ea se inspira no que os atores fazem e no que as palavras dizem, e no ritmo, dire\u00e7\u00e3o e ilumina\u00e7\u00e3o, o que o ajuda a ter essas ideias mel\u00f3dicas e tem\u00e1ticas. Mas \u00e9 trabalhar com eles em torno das performances e da atmosfera do filme, onde tudo se junta&#8221;.<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia entre a Lua e a Terra \u00e9 de pouco mais de trezentos e oitenta e quatro mil quil\u00f4metros. A estrada que Jones e Mansell constru\u00edram de l\u00e1 at\u00e9 aqui nos aproxima e \u00e9 estranho como liga os quase oito bilh\u00f5es de seres humanos: uma lua nos ilumina todos os dias e ela pode ser sintetizada por uma l\u00edngua \u00fanica, a m\u00fasica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TZbfugwy7YU\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-smiths-as-citacoes-de-morrissey-no-cinema\/\" title=\"THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA\">THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-catherine-spaak-lesercito-del-surf-1964\/\" title=\"REVISITANDO: CATHERINE SPAAK &#8211; L&#8217;ESERCITO DEL SURF (1964)\">REVISITANDO: CATHERINE SPAAK &#8211; L&#8217;ESERCITO DEL SURF (1964)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/david-shire-a-trilha-apocaliptica-nao-usada\/\" title=\"DAVID SHIRE &#8211; A TRILHA APOCAL\u00cdPTICA N\u00c3O USADA\">DAVID SHIRE &#8211; A TRILHA APOCAL\u00cdPTICA N\u00c3O USADA<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/meridian-west-a-banda-obscura-sem-disco-e-quase-esquecida\/\" title=\"MERIDIAN WEST &#8211; A BANDA OBSCURA, SEM DISCO E QUASE ESQUECIDA\">MERIDIAN WEST &#8211; A BANDA OBSCURA, SEM DISCO E QUASE ESQUECIDA<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/o-colecionador-sequestros-serial-killers-groupies-e-musica-pop\/\" title=\"O COLECIONADOR: SEQUESTROS, SERIAL KILLERS, GROUPIES E M\u00daSICA POP\">O COLECIONADOR: SEQUESTROS, SERIAL KILLERS, GROUPIES E M\u00daSICA POP<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Lunar&#8221; (Moon, 2009) \u00e9 o primeiro filme de Duncan Jones, filho de ningu\u00e9m menos que David Bowie. 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