{"id":57582,"date":"2021-08-13T14:01:51","date_gmt":"2021-08-13T17:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=57582"},"modified":"2021-10-26T17:08:58","modified_gmt":"2021-10-26T20:08:58","slug":"revisitando-barbara-dis-quand-reviendras-tu-1962","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-barbara-dis-quand-reviendras-tu-1962\/","title":{"rendered":"REVISITANDO: BARBARA &#8211; DIS, QUAND REVIENDRAS-TU? (1962)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"57583\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-barbara-dis-quand-reviendras-tu-1962\/barbara1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/barbara1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"barbara1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/barbara1.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/barbara1.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"barbara-dis-quand-reviendras-tu\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-57583\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/barbara1.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/barbara1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Talvez as pessoas n\u00e3o saibam que foi Hubert Ballay, nascido em 1928 e morto em 2013. Mas ele tem uma importante participa\u00e7\u00e3o na m\u00fasica francesa popular.<\/p>\n<p>Ballay era um t\u00edpico aventureiro, alma livre, que virou her\u00f3i durante a Segunda Grande Guerra. O itiner\u00e1rio de vida deste personagem j\u00e1 era not\u00e1vel aos 14 anos: em 1942, durante o caso do V\u00e9lodrome d&#8217;Hiver (o maior aprisionamento de massa de judeus realizado na Fran\u00e7a durante a Segunda Guerra Mundial), salvou dois colegas. Quatro anos depois, foi nomeado para a Ordem da Na\u00e7\u00e3o, t\u00edtulo honroso dado pelo pa\u00eds, por sua bravura durante a Liberta\u00e7\u00e3o de Paris dos nazistas.<\/p>\n<p>Ele se tornou diplomata, sendo um ator importante na descoloniza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica negra.<\/p>\n<p>Em novembro de 1959, Hubert Ballay tinha tinha pouco mais de 30 anos quando, em uma viagem a Paris, conheceu Monique Andr\u00e9e Serf, uma mo\u00e7a de 29 anos (nascida em 1930), que atuava em badalados cabar\u00e9s parisienses sob o nomes de Barbara (Brodi). Os dois, claro, se apaixonaram. E foi a\u00ed que come\u00e7ou a hist\u00f3ria de um dos cl\u00e1ssicos populares franceses.<\/p>\n<p>Foram tr\u00eas anos de intensa paix\u00e3o. Antes de Ballay, Barbara n\u00e3o cansou de dizer em entrevistas, ela s\u00f3 escrevia can\u00e7\u00f5es pro amor das outras, sobre outras mulheres. Mas essa paix\u00e3o arrebatadora mudou tudo.<\/p>\n<p>Ballay passou a atuar em Abidj\u00e3, a maior cidade e capital pol\u00edtica da Costa do Marfim. Ele passava mais tempo fora do que na resid\u00eancia que passaram a morar os dois, na pequena rua R\u00e9musat, no 16 arrondissement de Paris, a tr\u00eas quadras do Sena, e bem pr\u00f3ximo da Torre Eiffel &#8211; uma rua buc\u00f3lica, com a cal\u00e7ada ladeada por pl\u00e1tanos.<\/p>\n<p>No desesperador fogo da saudade, Barbara chegou a ir pra Abidj\u00e3 com seu amado, onde ela passou a levar uma vida de casada, mas s\u00f3 ela. Ballay, tinha suas escapadas infi\u00e9is. Barbara, claro, se irrita: &#8220;seus convidados s\u00e3o uma merda, Hubert! E nem mesmo em meias de seda! Mas eu admito que neste ponto, eles t\u00eam a desculpa do clima! E saiba, por favor, que n\u00e3o estou aqui pra enrolar as lindas mulheres que o &#8216;Sr. Gerente Geral do Fundo de Benef\u00edcios Sociais&#8217; (<em>t\u00edtulo que ele carregava<\/em>) teve a gentileza de beijar!&#8221;.<\/p>\n<p>Barbara chegou a admitir que havia se apaixonado por esse sedutor (que, n\u00e3o importa a \u00e9poca, n\u00e3o passava de um canalha machista) e que era dif\u00edcil se desvencilhar. N\u00e3o s\u00f3 em beleza, Ballay era h\u00e1bil negociador, era sens\u00edvel e passou a escrever m\u00fasicas com ela. Ballay chegou a ser diretor-art\u00edstico da Barclay Records (hoje da Universal), pra se ter uma ideia.<\/p>\n<p>Uma das m\u00fasicas que a lenda diz que ele ajudou Barbara a escrever foi justamente o maior sucesso dela e aquela inspirada no pr\u00f3prio Ballay: &#8220;Dis, Quand Reviendras Tu?&#8221;, ou &#8220;diga, quando voc\u00ea volta?&#8221;, numa clara alus\u00e3o ao distanciamento que o casal experimentava a cada viagem de Ballay \u00e0 Costa do Marfim.<\/p>\n<p>Sua letra tem trechos irretocavelmente melosos: &#8220;Et j&#8217;ai le mal d&#8217;amour, et j&#8217;ai le mal de toi&#8221; (&#8220;Estou sofrendo de amor e sofrendo de saudades de voc\u00ea&#8221;), &#8220;Voil\u00e0 combien de jours, voil\u00e0 combien de nuits \/ Voil\u00e0 combien de temps que tu es reparti \/ Tu m&#8217;as dit cette fois, c&#8217;est le dernier voyage \/ Pour nos c\u0153urs d\u00e9chir\u00e9s, c&#8217;est le dernier naufrage&#8221; (&#8220;Veja h\u00e1 quantos dias, h\u00e1 quantas noites \/<br \/>\nH\u00e1 quanto tempo, voc\u00ea se foi \/ Voc\u00ea me disse: Desta vez, \u00e9 a \u00faltima viagem \/ Para os nossos cora\u00e7\u00f5es despeda\u00e7ados, \u00e9 o \u00faltimo naufr\u00e1gio&#8221;.<\/p>\n<p>Sem contar o refr\u00e3o espa\u00e7ado, com &#8220;Dis, quand reviendras-tu \/ Dis, au moins le sais-tu \/ Que tout le temps qui passe \/ Ne se rattrape gu\u00e8re \/ Que tout le temps perdu \/ Ne se rattrape plus&#8221; (&#8220;Diga, quando voc\u00ea volta? \/ Diga ao menos se voc\u00ea sabe \/ Que todo o tempo que passa \/ N\u00e3o pode ser recuperado \/ Que o tempo perdido \/ N\u00e3o se recupera mais&#8221;).<\/p>\n<p>A forma regular do poema o tornou um cl\u00e1ssico da can\u00e7\u00e3o francesa. \u00c9 composto de tr\u00eas versos, oito em alexandrinos (versos em doze s\u00edlabas) e um refr\u00e3o, em hexass\u00edlabos. Rimas s\u00e3o seguidas, com respira\u00e7\u00e3o particular, algo que a tida como autodidata Barbara (frequentou por tr\u00eas anos o Conservat\u00f3rio de Paris em canto l\u00edrico), &#8220;com ouvido absoluto&#8221;, exalta Ballay na sua autobiografia, que leva o mesmo t\u00edtulo da can\u00e7\u00e3o, imprimia como marca pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O refr\u00e3o \u00e9 composto por duas frases interrogativas, mas termina com um ponto de exclama\u00e7\u00e3o ao evocar o tempo perdido.<\/p>\n<p>O texto do poema n\u00e3o informa o g\u00eanero nem o sexo dos personagens, exceto nas duas \u00faltimas linhas (&#8220;Je ne suis pas de celles qui meurent de chagrin \/ Je n&#8217;ai pas la vertue des femmes de marin&#8221; &#8211; ou &#8220;N\u00e3o sou daquelas que morrem de luto \/ n\u00e3o tenho a virtude das esposas de marinheiros&#8221;).<\/p>\n<p>Mas \u00e9 Barbara pura. E essa apresenta\u00e7\u00e3o em 1965, na Su\u00ed\u00e7a, deixa claro:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nUE80DTNxK4\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Sua trilha come\u00e7ou cedo. Aos 20 anos. Querendo a todo custo conseguiu realizar seu sonho de se tornar uma &#8220;pianista cantora&#8221;. Pra isso, ela deixou Paris em fevereiro de 1950 e foi para Bruxelas.<\/p>\n<p>Na capital belga,viveu com um advogado que frequentou o meio cultural local dos anos 1950. Foi musa do poeta Paul Noug\u00e9, cujos textos cantava. Seu fasc\u00ednio vai para artistas realistas: Edith Piaf, Fr\u00e9hel, Harry Fragson, Marianne Oswald. Essa B\u00e1rbara, com tremolos l\u00edricos, consegue quebrar a voz at\u00e9 encontrar uma brincadeira musical, po\u00e9tica e sonora que ela admira. Ela foi contempor\u00e2nea de Serge Gainsbourg e Claude Nougaro.<\/p>\n<p>Cantou em cabar\u00e9s l\u00e1 e em Paris, inclusive no famoso L&#8217;Ecluse, de onde sai seu primeiro disco, de 1958, &#8220;Barbara \u00c0 L&#8217;Ecluse&#8221;.<\/p>\n<p>Ela acreditou que poderia chegar ao Olympia, quando F\u00e9lix Marten, estrela cadente da can\u00e7\u00e3o, impulsionado por Edith Piaf, sua amante, sua mentora, se ofereceu pra se apresentar na primeira parte de seus shows no Bobino.<\/p>\n<p>Com o fracasso, a paci\u00eancia da cantora foi tomando, ent\u00e3o, uma forma de amargura. Virou a &#8220;cantora da meia-noite&#8221;, sempre de preto, tinha vergonha de mostrar o corpo.<\/p>\n<p>Mas &#8220;Dis, Quand Reviendras Tu?&#8221; lhe abriu portas. Ela realmente ficou famosa. Fez teatro, <a href=\"https:\/\/www.imdb.com\/name\/nm0053219\/?ref_=fn_nm_nm_6\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">fez cinema<\/a>.<\/p>\n<p>Hubert Ballay teve grande participa\u00e7\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o do seu grande sucesso, e cedeu seus direitos sobre a m\u00fasica. &#8220;Aquela B\u00e1rbara que na \u00e9poca estava no L&#8217;\u00c9cluse, a cantora que lutava pra entrar no Music Hall precisava de seus poss\u00edveis benef\u00edcios financeiros mais do que eu, era \u00f3bvio pra mim&#8221;, contou Ballay, j\u00e1 um alto funcion\u00e1rio p\u00fablico em Abidj\u00e3.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 hoje uma das mais aclamadas e importantes do repert\u00f3rio popular franc\u00eas.<\/p>\n<p>O casal n\u00e3o ficou junto pra sempre. Barbara teve outros amores, a fila andou com classe e ela se divertiu. Poderia ser, sim, um final feliz. Mas ela morreu em 24 de novembro de 1997, pelo tanto de estimulantes e medicamentos pra ansiedade que tomou, al\u00e9m de corticosteroides pras cordas vocais. Ela tinha 67 anos.<\/p>\n<p>Seu enterro levou uma pequena multid\u00e3o chorosa por saber que aquela for\u00e7a jamais voltaria. Mas o tempo n\u00e3o foi desperdi\u00e7ado e ele pode ser recuperado, pelo menos na arte.<\/p>\n<p>H\u00e1 in\u00fameras e in\u00fameras vers\u00f5es de sua mais importante can\u00e7\u00e3o. Da original, abaixo, se retirou \u00f3timas interpreta\u00e7\u00f5es, embora nenhuma com sua voz e seus detalhes:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VG37rXKQMx0\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A mais famosa vers\u00e3o, por\u00e9m, est\u00e1 no filme (filma\u00e7o!) &#8220;H\u00e1 Tanto Tempo Que Te Amo&#8221; (&#8220;Il Y A Longtemps Que Je T&#8217;Aime&#8221;, 2008, dire\u00e7\u00e3o de Philippe Claudel), feita por Jean-Louis Aubert, com uma verve mais <em>folk<\/em>, o que, definitivamente, agrada mais \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma can\u00e7\u00e3o t\u00e3o contundente sobre o amor, sobre a saudade, sobre a dor de viver longe de quem se ama, obviamente ficaria pra eternidade. Por mais que os amores (e a vida) sejam passageiros.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/F6cIPwUwtZg\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-catherine-spaak-lesercito-del-surf-1964\/\" title=\"REVISITANDO: CATHERINE SPAAK &#8211; L&#8217;ESERCITO DEL SURF (1964)\">REVISITANDO: CATHERINE SPAAK &#8211; L&#8217;ESERCITO DEL SURF (1964)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-quincy-jones-the-pawnbroker-1964\/\" title=\"REVISITANDO: QUINCY JONES &#8211; THE PAWNBROKER (1964)\">REVISITANDO: QUINCY JONES &#8211; THE PAWNBROKER (1964)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-nat-king-cole-id-rather-have-the-blues-1955\/\" title=\"REVISITANDO: NAT KING COLE &#8211; I&#8217;D RATHER HAVE THE BLUES (1955)\">REVISITANDO: NAT KING COLE &#8211; I&#8217;D RATHER HAVE THE BLUES (1955)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/revisitando-de-la-soul-eye-know-1989\/\" title=\"REVISITANDO: DE LA SOUL &#8211; EYE KNOW (1989)\">REVISITANDO: DE LA SOUL &#8211; EYE KNOW (1989)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/the-smiths-as-citacoes-de-morrissey-no-cinema\/\" title=\"THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA\">THE SMITHS: AS CITA\u00c7\u00d5ES DE MORRISSEY NO CINEMA<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez as pessoas n\u00e3o saibam que foi Hubert Ballay, nascido em 1928 e morto em 2013. 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