{"id":57703,"date":"2021-09-24T17:28:05","date_gmt":"2021-09-24T20:28:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=57703"},"modified":"2021-12-02T18:55:43","modified_gmt":"2021-12-02T21:55:43","slug":"30-anos-de-nevermind-como-o-album-foi-avaliado-em-1991","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/30-anos-de-nevermind-como-o-album-foi-avaliado-em-1991\/","title":{"rendered":"30 ANOS DE NEVERMIND: COMO O \u00c1LBUM FOI AVALIADO EM 1991"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"57704\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/30-anos-de-nevermind-como-o-album-foi-avaliado-em-1991\/nirvana8\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/nirvana8.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"nirvana8\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/nirvana8.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/nirvana8.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"nirvana\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-57704\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/nirvana8.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/nirvana8.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Neste 24 de setembro de 2021, um dos discos mais importantes da hist\u00f3ria da m\u00fasica pop e jovem completa trinta anos. &#8220;Nevermind&#8221;, o segundo disco do Nirvana &#8220;mudou tudo&#8221;, \u00e9 o que costuma-se afirmar por a\u00ed, sem muito criatividade ou medo de errar.<\/p>\n<p>Obras de arte normalmente geram impacto no momento de sua primeira aprecia\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 mesmo sua matura\u00e7\u00e3o, com o tempo, \u00e9 que se percebe a influ\u00eancia ou a import\u00e2ncia. Tem disco que envelhece mal. Tem disco que segue ok e tem disco que melhora com o tempo. Exemplos n\u00e3o faltam. E &#8220;Nevermind&#8221; \u00e9 um desses que d\u00e9cadas depois, ainda segue atual, pujante, vibrante, instigante.<\/p>\n<p>Quer dizer, hoje emoldurar o trabalho com esses e outros tantos adjetivos \u00e9 mole. O problema \u00e9 o cidad\u00e3o sentar na frente do computador  (ou m\u00e1quina de escrever, j\u00e1 que 1991) e oferecer suas impress\u00f5es. Assim como disco ser\u00e1 julgado, tais palavras tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>No caso de &#8220;Nevermind&#8221;, a unanimidade (nem toda \u00e9 burra, caro Nelson) \u00e9 algo not\u00e1vel. Todos os grandes ve\u00edculos ca\u00edram de joelhos pra obra, ressaltando como o grupo conseguiu enfrentar a passagem pra uma grande gravadora (a DGC Records) com louvor.<\/p>\n<p>Aqui, separamos algumas cr\u00edticas originais do disco.<\/p>\n<p>Na New Music Express (NME), Steve Lamacq disse que &#8220;o Nirvana faz aqui o que o Sonic Youth fez enfaticamente com &#8216;Goo&#8217; no ano passado (<em>o trabalho \u00e9 de junho de 1990<\/em>) &#8211; passando de <em>indie cult<\/em> pra grande gravadora sem nem mesmo solu\u00e7ar. Na verdade, assim como os Sonics impressionaram e superaram as expectativas dos c\u00e9ticos, o Nirvana fez um LP que n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 melhor do que qualquer coisa que eles j\u00e1 fizeram antes, mas tamb\u00e9m ser\u00e1 um novo ponto de refer\u00eancia pra futura gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-hardcore&#8221; (ponto pra Lamacq!).<\/p>\n<p>&#8220;Pra come\u00e7ar, isso \u00e9 uma mudan\u00e7a refrescante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 safra recente de grupos &#8211; tanto brit\u00e2nicos quanto americanos &#8211; que usaram o som Dinosaur Jr \/ H\u00fcsker D\u00fc como ponto de partida. O Nirvana, em vez disso, baseia-se em suas ra\u00edzes no <em>grunge<\/em> Sub Pop, mas tamb\u00e9m leva peda\u00e7os de baixo e guitarras pesadas dos anos 70 e ideologia&#8221;, seguiu.<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto v\u00e1rias bandas <em>grunge<\/em> americanas parecem contentes em mergulhar em seus respectivos subg\u00eaneros de <em>hardcore<\/em> &#8211; embora com algum sucesso e lucidez &#8211; o Nirvana optou por sair do <em>underground<\/em> sem fugir do processo criativo. &#8216;Nevermind&#8217; \u00e9 um disco pra pessoas que queriam gostar do Metallica, mas n\u00e3o suportam a falta de melodia; enquanto, por outro lado, leva um pouco do brilho do Pixies com as m\u00fasicas e d\u00e1 \u00e0 ideia um novo m\u00fasculo. Um choque pro sistema. Faixas como a excelente &#8216;In Bloom&#8217; e a melhor de todas, &#8216;Come As You Are&#8217;, mostram uma destreza que combina uma tens\u00e3o e uma vibra\u00e7\u00e3o descontra\u00edda e que funcionam uma na outra pra produzir algumas voltas e reviravoltas legais&#8221;.<\/p>\n<p>Lamacq cita &#8220;Smells Like Teen Spirit&#8221;, o grande sucesso do \u00e1lbum, recheado de outros sucessos, sem saber o que a m\u00fasica viraria: &#8220;&#8216;Come As You Are&#8217; tem algo estranho, enquanto a faixa de abertura (e o pr\u00f3ximo <em>single<\/em>) &#8216;Smells Like Teen Spirit&#8217; tem uma &#8216;sensa\u00e7\u00e3o pegajosa&#8217; inerente \u00e0 sua estrutura oscilante. Em outras ocasi\u00f5es, o trio se inclina para um territ\u00f3rio mais <em>thrashier<\/em> com a fren\u00e9tica &#8216;Territorial Pissings&#8217; e o estouro estridente de &#8216;Breed&#8217;. Esta \u00e9 a progress\u00e3o natural de seu \u00e1lbum de estreia &#8216;Bleach&#8217; (1989), explorando diferentes caminhos. Eles s\u00e3o menos espec\u00edficos liricamente do que o SY, \u00e0s vezes irritantemente, mas ainda assim eles produzem esses humores v\u00edvidos com &#8216;Drain You&#8217;, &#8216;Polly&#8217; e o final mais silencioso com &#8216;Something In The Way'&#8221;.<\/p>\n<p>E termina com uma cautela que chega a impressionar: &#8220;&#8216;Nevermind&#8217; \u00e9 o grande disco alternativo americano do outono. Mas, melhor ainda, vai durar at\u00e9 o ano que vem&#8221;. A NME deu nota 9, de 10, pro disco (a imagem que abre este arquivo \u00e9 a mesma da edi\u00e7\u00e3o da NME).<\/p>\n<p>Na Rolling Stone gringa, Ira Robbins diz que, &#8220;apesar da ang\u00fastia que os fanzines fazem cada vez que um her\u00f3i do rock <em>indie<\/em> assina um contrato com uma grande gravadora, as estrelas do p\u00f3s-punk, de H\u00fcsker D\u00fc a Soundgarden, se juntaram ao mundo corporativo sem degradar sua m\u00fasica. Na maioria das vezes, bandas ambiciosas agarram-se galantemente a seus princ\u00edpios enquanto mergulham nas profundezas do fracasso comercial. Integridade \u00e9 um fardo pesado pra quem est\u00e1 tentando escalar os gr\u00e1ficos de vendas&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Liderado pelo cantor e guitarrista Kurt Cobain&#8221;, ele ressalta de forma curiosa, afinal Cobain ainda n\u00e3o era o mega astro, &#8220;o Nirvana \u00e9 o \u00faltimo b\u00f4nus <em>underground<\/em> pra testar a toler\u00e2ncia do <em>mainstream<\/em> pra m\u00fasica alternativa. Dado o pequeno canto do gosto do p\u00fablico que o rock agora comanda, a vers\u00e3o da verdade do trio do estado de Washington \u00e9 provavelmente t\u00e3o confi\u00e1vel quanto a de qualquer um. Uma mistura din\u00e2mica de acordes vibrantes, energia man\u00edaca e restri\u00e7\u00e3o s\u00f4nica, o Nirvana ergue estruturas mel\u00f3dicas robustas &#8211; <em>hard rock<\/em> pra cantar junto, conforme definido por grupos como Replacements, Pixies e Sonic Youth -, mas depois os ataca com gritos fren\u00e9ticos e estragos na guitarra. Quando Cobain muda sua voz vers\u00e1til de uma car\u00edcia tranquila pra uma f\u00faria crua, o controle decisivo do baixista Chris Novoselic e do baterista Dave Grohl \u00e9 tudo o que mant\u00e9m as m\u00fasicas funcionando dentro do caos. Se o Nirvana n\u00e3o \u00e9 nada totalmente novo, &#8216;Nevermind&#8217; possui as can\u00e7\u00f5es, car\u00e1ter e esp\u00edrito confiante pra ser muito mais do que uma reformula\u00e7\u00e3o dos sucessos de alta octanagem das r\u00e1dios universit\u00e1rias&#8221;.<\/p>\n<p>Robbins, aqui, acerta na vei: &#8220;a estreia indistinta do &#8216;Nirvana&#8217; em 1989, &#8216;Bleach&#8217;, contou com rifes de <em>metal<\/em> aquecidos dos anos setenta, mas o violento &#8216;Nevermind&#8217; ostenta um cora\u00e7\u00e3o pop adrenalizado e material incomparavelmente superior, capturado com clareza estrondosa pelo coprodutor Butch Vig&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Com erros ocasionais (e presumivelmente intencionais), a maioria das m\u00fasicas &#8211; como &#8216;On A Plain&#8217;, &#8216;Come As You Are&#8217; e &#8216;Territorial Pissings&#8217; &#8211; exemplificam a habilidade da banda em inscrever sutileza em rock denso e barulhento. Nos extremos estil\u00edsticos do \u00e1lbum, &#8216;Something In The Way&#8221; flutua com uma nuvem transl\u00facida de viol\u00e3o e violoncelo, enquanto &#8216;Breed&#8217; e &#8216;Stay Away&#8217; correm a toda velocidade, o \u00faltimo terminando em um estrondo de fus\u00e3o incr\u00edvel. Muitas vezes, bandas <em>underground<\/em> esbanjam sua coragem em discos que n\u00e3o est\u00e3o prontos pra fazer e, em seguida, gastam sua energia e inspira\u00e7\u00e3o com uma turn\u00ea dif\u00edcil. &#8216;Nevermind&#8217; encontra o Nirvana em uma encruzilhada &#8211; guerreiros da garagem fragmentados voltando seus olhos pra uma terra de gigantes&#8221;, encerrou.<\/p>\n<p>Com poucas palavras (o espa\u00e7o na revista era curto), a Spin notou que, &#8220;depois de um excelente almo\u00e7o em um dia ensolarado de Nova York,&#8217;Nevermind&#8217; est\u00e1 explodindo a caixinha na minha mesa e o departamento financeiro aqui nos ador\u00e1veis escrit\u00f3rios da SPIN provavelmente est\u00e1 enlouquecendo&#8221;, sem identifica\u00e7\u00e3o do autor.<\/p>\n<p>&#8220;Mas e da\u00ed? Esque\u00e7a o novo exagero duplo do Guns N &#8216;Roses (<em>referindo-se a &#8216;Use Your Illusion&#8217;, lan\u00e7ado no mesmo ano, mas sete dias antes<\/em>). Esque\u00e7a &#8216;Roll The Bones&#8217;, do Rush (<em>lan\u00e7ado vinte dias antes<\/em>). O Nirvana construiu este pra  testar sua velocidade &#8211; velocidade com V mai\u00fasculo &#8211; e com certeza \u00e9 divertido. Um pouco punk, um pouco <em>metal<\/em>, um pouco <em>country<\/em>, um pouco rock&#8217;n&#8217;roll. O que mais voc\u00ea quer? &#8216;Nevermind&#8217; tem um ataque de rock tradicional em &#8216;Territorial Pissings&#8217;, e uma bela harm\u00f4nica &#8216;On A Plain&#8217; e uma m\u00fasica muito legal chamada &#8216;Breed'&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>A revista acertou pra posteridade: &#8220;de qualquer forma, eu juro que voc\u00ea vai cantarolar todas as m\u00fasicas pelo resto da sua vida &#8211; ou pelo menos at\u00e9 que seu CD-fita-\u00e1lbum se esgote&#8221;. De fato.<\/p>\n<p>Karen Schoemer, do New York Times, chamou o Nirvana de a &#8220;banda que trata da apatia&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 muitas coisas com as quais os membros do Nirvana n\u00e3o se importam. &#8216;Sunday morning is every day for all I care&#8217;, entoa o guitarrista e vocalista Kurt Cobain em &#8216;Lithium&#8217;, uma can\u00e7\u00e3o sobre um homem que se senta sozinho em seu quarto depois que sua namorada o rejeita. Cobain fecha &#8216;Smells Like Teen Spirit&#8217;, um estudo de apatia geracional, com a frase: &#8216;I found it hard, it&#8217;s hard to find, oh well, whatever, never mind&#8217;. &#8216;Breed&#8217;, uma can\u00e7\u00e3o que parece ser sobre a dificuldade de se constituir uma fam\u00edlia, come\u00e7a com as palavras &#8216;I don&#8217;t care&#8217; afirmadas seis vezes, pra dar \u00eanfase&#8221;, ela observou.<\/p>\n<p>&#8220;Mais importante, o grupo n\u00e3o liga para as f\u00f3rmulas ou conven\u00e7\u00f5es t\u00edpicas do rock&#8221;, ela ressaltou, pra em seguida dizer que &#8220;&#8216;Nevermind&#8217; est\u00e1 acima de uma categoriza\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. Seus ritmos acelerados e rifes poderosos de tr\u00eas acordes v\u00eam do punk, mas as guitarras densas e fortes s\u00e3o t\u00e3o pesadas quanto <em>metal<\/em>; Cobain tem um rosnado amea\u00e7ador que poderia competir com os caras mais ferozes do <em>metal<\/em>, mas quando as m\u00fasicas ficam mais leves, ele mostra uma voz que \u00e9 adequada ao pop mel\u00f3dico. \u00c0s vezes, o Nirvana abre uma balada inserindo um refr\u00e3o punk em grande escala ou constr\u00f3i uma m\u00fasica com viol\u00e3o, baixo e sem percuss\u00e3o, exceto alguns batimentos de prato bem sincronizados. As can\u00e7\u00f5es parecem seguir um prop\u00f3sito interno pr\u00f3prio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Com &#8216;Nevermind&#8217;, o Nirvana certamente teve sucesso em gravar um bom disco. Existem texturas intrigantes, mudan\u00e7as de humor, fragmentos instrumentais e jogos de palavras inventivos suficientes pra fornecer horas de entretenimento. &#8216;Lounge Act&#8217; termina com um acorde de guitarra estendido que de repente se distorce e perde a forma como um giz de cera derretendo em um radiador. &#8216;On a Plain&#8217; termina com um <em>fade-out<\/em>, mas suas harmonias deliciosas de tr\u00eas acordes permanecem no volume m\u00e1ximo por alguns segundos extras. &#8216;Polly&#8217;, uma can\u00e7\u00e3o lenta e perturbadora sobre uma mulher tentando escapar de um estuprador, apresenta pouco mais do que o toque seco de um viol\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Como resultado, &#8216;Nevermind&#8217; \u00e9 mais sofisticado e cuidadosamente produzido do que qualquer coisa que bandas como Dinosaur Jr. e Mudhoney j\u00e1 tenham oferecido&#8221;. A resenha encerra-se com uma corajosa declara\u00e7\u00e3o de Novoselic: &#8220;sexismo \u00e9 t\u00e3o ruim quanto racismo. E somos totalmente esquerdistas. Vamos exigir a socializa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria da m\u00fasica. Os discos ser\u00e3o gratuitos pra todos&#8221;. Bom, hoje sabemos que isso at\u00e9 chegou perto de acontecer com o MP3, mas logo a ind\u00fastria tratou de dar um jeito, certo, Spotify e Deezer?<\/p>\n<p>A Entertainment Weekly saiu com uma resenha curta \u00e9 bastante objetiva: &#8220;o problema com o rock atual das r\u00e1dios universit\u00e1rias \u00e9 que a maioria das chamadas bandas alternativas deseja desesperadamente soar normal. Em seu segundo \u00e1lbum, &#8216;Nevermind&#8217;, e seu primeiro pra uma grande gravadora, o trio de Seattle, Nirvana, nunca considerou essa ideia. Todos os personagens das can\u00e7\u00f5es do cantor e guitarrista Kurt Cobain parecem vagamente patol\u00f3gicos e alheios a isso. A estranha ideia de Cobain de uma can\u00e7\u00e3o de amor, &#8216;Come As You Are&#8217;, tem um refr\u00e3o com &#8216;E eu juro que n\u00e3o tenho uma arma&#8217;, como se isso fosse reconfortante; em outras can\u00e7\u00f5es, ele murmura versos como &#8216;os animais que prendi tornaram-se meus animais de estima\u00e7\u00e3o'&#8221;.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o se equivoca apenas no final: &#8220;o Nirvana pode n\u00e3o ter a chance de vender tantos discos quanto o Guns N &#8216;Roses, mas n\u00e3o conte a Cobain; voc\u00ea nunca sabe como ele vai reagir&#8221;. Bom, &#8220;Nevermind&#8221; deixou qualquer lan\u00e7amento naquele ano pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>A hoje cultuada revista Bizz, o farol brasileiro sobre m\u00fasica, chegou atrasada na onda. A resenha sobre &#8220;Nevermind&#8221; foi publicada apenas em mar\u00e7o de 1992, quando a banda j\u00e1 havia vendido milh\u00f5es de c\u00f3pias do disco, o que orienta bem as impress\u00f5es antes de escrever.<\/p>\n<p>Mas a revista abre a resenha assinada por Andr\u00e9 Forastieri com uma cita\u00e7\u00e3o de Bruce Pavitt, dono da Sub Pop, inclu\u00edda na edi\u00e7\u00e3o de junho de 1990, um ano e tr\u00eas meses antes: &#8220;esses caras v\u00e3o nos enriquecer&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Mas as vendas que se danem&#8221;, come\u00e7ava. &#8220;A quest\u00e3o fundamental \u00e9, como sempre: vale a pena desembolsar aquela suada bufunfa pra comprar &#8216;Nevermind&#8217;?. Se voc\u00ea gosta de Pixies ou Damned ou Stooges ou Kinks\/Who ou Gang Of Four fase &#8216;Entertainment&#8217; ou Mudhoney ou rock de garagem sessentista ou qualquer tipo de rock \u00e1spero, puto e sem polimento, vale. Principalmente se voc\u00ea gosta de punk californiano politizado, vale a pena. Vale vale vale. Compre tr\u00eas, d\u00ea um pro seu amor e outro pro seu melhor amigo&#8221;.<\/p>\n<p>Forastieri seguiu com uma segunda quest\u00e3o: &#8220;que significa a velocidade <em>warp<\/em> com que o Nirvana saiu dos cafund\u00f3s do estado de Washingtom pros cora\u00e7\u00f5es, as mentes e os toca-discos do p\u00fablico americano, qui\u00e7\u00e1 mundial? Significa que <em>punk&#8217;s not dead<\/em>, oba! Quinze anos depois, os espertos da nova gera\u00e7\u00e3o assumiram o punk como sua melhor representa\u00e7\u00e3o musical. \u00c9, o Nirvana \u00e9 punk, sim, punk paca &#8211; ainda que seu vocalista-letrista-guitarrista Kurt Cobain, 24, seja muito novo pra ter curtido punk na \u00e9poca&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;E punk n\u00e3o s\u00f3 na avalanche animalesca de distor\u00e7\u00e3o e horm\u00f4nios que jorra dos instrumentos. As letras tamb\u00e9m s\u00e3o violent\u00edssimas, negras, radicais mesmo (sem escorregar pro niilismo burro que impera no <em>underground<\/em> americano). Falam de amor, sexo, preconceito, intelig\u00eancia; estado das coisas e do sentido da vida. Confirma &#8216;Smells Like Teen Spirit&#8217;, sobre a apatia <em>teen<\/em>. Mas a melhor \u00e9 &#8216;Breed&#8217;. \u00c9, segundo Cobain, sobre &#8216;ser de classe m\u00e9dia, casar jovem, ter filhos, assistir TV toda noite &#8211; e detestar tudo isso&#8217;. O escritor encerra com uma frase de efeito que tem pouco efeito hoje em dia: &#8220;a d\u00e9cada de 90 j\u00e1 tem seus Dead Kennedys &#8211; e, desta vez, eles est\u00e3o no topo das paradas&#8221;.<\/p>\n<p>O Estado de S.Paulo, da mesma maneira, fez uma mat\u00e9ria sobre o fen\u00f4meno apenas dois meses depois, em dezembro, com o t\u00edtulo &#8220;Nirvana inaugura nova era pro rock&#8221;, de autoria de Marcel Plasse. N\u00e3o era, entretanto, uma resenha.<\/p>\n<p>&#8220;A banda foi apressadamente rotulada de novo <em>metal<\/em>, rea\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica de uma imprensa descrente em rock. Mas Nirvana \u00e9 t\u00e3o <em>headbanger<\/em> quanto os Sex Pistols soariam tocando Led Zeppelin. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica passagem <em>trash<\/em> em &#8216;Nevermind&#8217;, mas ao menos um <em>hardcore<\/em> cl\u00e1ssico, &#8216;Territorial Pissings&#8217;. Eles pr\u00f3prios descrevem sua m\u00fasica como Black Flagg (<em>grafado assim mesmo<\/em>) fazendo <em>cover<\/em> de &#8216;My Sharona&#8217;, <em>hit new wave<\/em> de The Knack. Na verdade, o elo perdido chama-se H\u00fcsker D\u00fc. O extinto trio de Minneapolis, que nos 80 inventou o <em>hardcore<\/em> mel\u00f3dico, \u00e9 pai e tio de todo o atual <em>underground<\/em> americano, de Pixies a Dinosaur Jr&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p>Na compara\u00e7\u00e3o com o disco anterior, &#8220;Bleach&#8221;, Plasse diz que &#8220;&#8216;Nevermind&#8217; \u00e9 outra hist\u00f3ria&#8221;: &#8220;Kurt Cobain sola o m\u00ednimo poss\u00edvel, jogando distor\u00e7\u00e3o de suas guitarras no \u00faltimo volume, enquanto Chris Novoselic demonstra ser um man\u00edaco no baixo, acompanhando o pique do baterista Dave Grohl, o sexto martelador a se juntar \u00e0 dupla. Uma r\u00e1pida audi\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de fazer o ouvinte sair chutando o ar com vontade de mandar tudo pra 1977 de novo&#8221;.<\/p>\n<p>Em outra passagem, ele segue a mesma linha do New York Times: &#8220;Cobain fala sobre a gera\u00e7\u00e3o da apatia. Esta gera\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Em 14 de dezembro de 1991, Andr\u00e9 Barcinski escreveu pra Folha com o jogo j\u00e1 jogado tamb\u00e9m &#8211; embora ele, especificamente, <a href=\"https:\/\/www.andrebarcinski.com.br\/barulho\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">com seu livro &#8220;Barulho&#8221;<\/a>, publicado em 1992, tenha visto tudo isso de bem perto (na capa, Cobain).<\/p>\n<p>Seu texto pra Folha saiu quando o disco j\u00e1 havia vendo mais de um milh\u00e3o e duzentas mil c\u00f3pias: &#8220;o Nirvana foi subitamente elevado \u00e0 categoria de superbanda. Cr\u00edtica e p\u00fablico americano est\u00e3o babando at\u00e9 agora. O sucesso \u00e9 mais do que merecido: &#8216;Nevermind&#8217; \u00e9 o melhor disco do ano&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O que mais impressiona do LP \u00e9 a sua capacidade de agradar a todos os p\u00fablicos, sem apelar pra f\u00f3rmulas f\u00e1ceis. &#8216;Nevermind&#8217; tem a dose certa de peso pra encher de alegria de f\u00e3s do Metallica, tem pitadas de <em>hardrock<\/em>, que caem como uma luva no gosto de f\u00e3s de Guns N&#8217; Roses, e tem baladas que podem entrar na programa\u00e7\u00e3o de qualquer r\u00e1dio. &#8216;Smells Like Teen Spirit&#8217; \u00e9 uma das mais bem-feitas colagens pop em muitos anos, uma can\u00e7\u00e3o que mistura agressividade, refr\u00e3o f\u00e1cil e que pega no ouvido \u00e0 primeira audi\u00e7\u00e3o&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p>E acertou numa previs\u00e3o que pouca gente arriscou: &#8220;outra qualidade do LP \u00e9 ter v\u00e1rios candidatos a <em>hit<\/em>. Al\u00e9m de &#8216;Smells Like Teen Spirit&#8217;, o disco tem outras cinco ou seis que facilmente poderiam se tornar sucesso, como &#8216;In Bloom&#8217;, &#8216;Come As You Are&#8217;, &#8216;Breed&#8217; e &#8216;Stay Away&#8217;. &#8216;Nevermind&#8217; \u00e9 um disco que se ouve sem pular uma faixa, das pauladas, como &#8216;Territorial Pissings&#8217;, \u00e0s baladas, como &#8216;Polly'&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, Barcinski, mais uma vez, acertou na antecipa\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia hist\u00f3ria do \u00e1lbum: &#8220;&#8216;Nevermind&#8217; \u00e9 um daqueles discos fenomenais, que s\u00f3 aparecem de tempos em tempos. Em 1990, os Cramps e Iggy Pop fizeram discos perfeitos (na ordem, &#8216;Stay Sick&#8217; e &#8216;Brick My Brick&#8217;). Em 1991, foi a vez do Nirvana&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mKMN5KjEBdI\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/25-anos-da-morte-de-kurt-cobain-o-que-os-jornais-da-epoca-disseram\/\" title=\"25 ANOS DA MORTE DE KURT COBAIN: O QUE OS JORNAIS DA \u00c9POCA DISSERAM\">25 ANOS DA MORTE DE KURT COBAIN: O QUE OS JORNAIS DA \u00c9POCA DISSERAM<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-corrida-do-ouro-do-grunge\/\" title=\"A CORRIDA DO OURO DO GRUNGE &#8211; TR\u00caS ANOS AT\u00cdPICOS NA IND\u00daSTRIA MUSICAL\">A CORRIDA DO OURO DO GRUNGE &#8211; TR\u00caS ANOS AT\u00cdPICOS NA IND\u00daSTRIA MUSICAL<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/10-resenhas-que-foram-desmentidas-pelo-tempo\/\" title=\"10 RESENHAS QUE FORAM DESMENTIDAS PELO TEMPO\">10 RESENHAS QUE FORAM DESMENTIDAS PELO TEMPO<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ouca-kurt-cobain-sappy\/\" title=\"OU\u00c7A: KURT COBAIN &#8211; SAPPY\">OU\u00c7A: KURT COBAIN &#8211; SAPPY<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ouca-kurt-cobain-and-i-love-her-the-beatles-cover\/\" title=\"OU\u00c7A: KURT COBAIN  &#8211; AND I LOVE HER (THE BEATLES COVER)\">OU\u00c7A: KURT COBAIN  &#8211; AND I LOVE HER (THE BEATLES COVER)<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste 24 de setembro de 2021, um dos discos mais importantes da hist\u00f3ria da m\u00fasica pop e jovem completa trinta anos. &#8220;Nevermind&#8221;, o segundo disco [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57704,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363],"tags":[196],"class_list":["post-57703","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-nirvana"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/nirvana8.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-f0H","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57703"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57706,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57703\/revisions\/57706"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}