{"id":59490,"date":"2023-01-31T14:58:52","date_gmt":"2023-01-31T17:58:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/?p=59490"},"modified":"2023-01-31T15:33:07","modified_gmt":"2023-01-31T18:33:07","slug":"a-morte-de-tom-verlaine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-morte-de-tom-verlaine\/","title":{"rendered":"A MORTE DE TOM VERLAINE"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"59491\" data-permalink=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-morte-de-tom-verlaine\/tomverlaine2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/tomverlaine2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"540,300\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"tomverlaine2\" data-image-description=\"&lt;p&gt;tom verlaine&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/tomverlaine2.jpg?fit=540%2C300&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/tomverlaine2.jpg?resize=540%2C300\" alt=\"tom-verlaine\" width=\"540\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-59491\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/tomverlaine2.jpg?w=540&amp;ssl=1 540w, https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/tomverlaine2.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Ia escrever sobre a morte de Tom Verlaine, o homem que <a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-historia-por-tras-de-marquee-moon-o-classico-do-television\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">fez &#8220;Marquee Moon&#8221;<\/a> e que um dia <a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/television-no-beco-203-como-foi\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">elogiou um texto meu<\/a> (s\u00e9rio &#8211; um orgulho bobo). A gente se sente \u00edntimo dessas figuras lend\u00e1rias porque ouviu tantas vezes a m\u00fasica ou a obra delas, e acha que tem amplitude moral pra falar delas no hora da morte.<\/p>\n<p>Verlaine tinha completado 73 anos em dezembro \u00faltimo. N\u00e3o era exatamente um ser humano de superidadade, mas at\u00e9 co\u00e7a dizer que ele &#8220;viveu intensamente cada um desses anos&#8221;, porque deve ter sido isso, mas a gente n\u00e3o faz ideia. Devia ser, isso sim, uma vida dif\u00edcil. <\/p>\n<p>N\u00e3o era prol\u00edfico. Lan\u00e7ou dez discos-solo desde 1979. Com o Television, apenas tr\u00eas \u00e1lbuns (sem contar os ao vivos). Treze discos em quarenta e cinco anos de carreira. N\u00e3o quero chutar, mas tamb\u00e9m co\u00e7a: ele devia ficar angustiado vendo pares lan\u00e7ando um a cada ano, com longas excurs\u00f5es. Patti Smith, algo como sua alma g\u00eamea, lan\u00e7ou ainda menos. Mas isso pouco importa.<\/p>\n<p>Dias ap\u00f3s sua morte, em 28 de janeiro de 2023, deixo as palavras com quem realmente era \u00edntimo dele. Patti Smith <a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2023\/02\/13\/he-was-tom-verlaine\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">escreveu as linhas abaixo a pedido da revista New Yorker<\/a>, de quem eu barbaramente roubei o texto e traduzi meio porcamente aqui. Poeticamente (e Smith \u00e9 essencialmente uma poetisa), ela descreve a saudade do amigo.<\/p>\n<p>Na nossa dist\u00e2ncia de f\u00e3, \u00e9 um relato delicioso de ler. Pra gente, \u00e9 s\u00f3 tocar alguma m\u00fasica dele e toda saudade \u00e9 afagada. Pra ela, \u00e9 uma pessoa, n\u00e3o um \u00eddolo. Ent\u00e3o, quem tem que falar sobre ele \u00e9 ela. N\u00e3o me atrevo.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Ele acordou com o som de \u00e1gua pingando em uma pia enferrujada. As ruas abaixo eram banhadas pelo luar medieval, reverberando o sil\u00eancio. Ele ficou l\u00e1 lutando com o terror da beleza, enquanto a noite se desenrolava como uma tela chinesa. Ele ficou tremendo, fascinado por movimentos de alien\u00edgenas e anjos enquanto as palavras e melodias de &#8220;Marquee Moon&#8221; eram formadas, uma a uma, nota por nota, de um estado de excita\u00e7\u00e3o calma, mas sinistra. Ele era Tom Verlaine, e esse era o seu processo: uma tortura primorosa.<\/p>\n<p>Nascido Thomas Joseph Miller, criado em Wilmington, Delaware, ele deixou a casa dos pais e trocou seu nome, uma pele descartada enrolada no canto de uma garagem modesta entre pilhas de aparelhos de ar-condicionado usados que exigiam a aten\u00e7\u00e3o profissional constante de seu pai. Havia tacos de h\u00f3quei, uma bicicleta e pilhas de jornais velhos de Tom espalhados no fundo, cobertos com contornos fantasmag\u00f3ricos de objetos distorcidos; ele amassava latas at\u00e9 ficarem achatadas, quase irreconhec\u00edveis, e depois borrifava ouro nelas, suas esculturas bidimensionais, cada uma representando uma frase musical arrebatadora. No col\u00e9gio, ele tocava saxofone, abra\u00e7ando John Coltrane e Albert Ayler. Ele tamb\u00e9m jogava h\u00f3quei e, quando um disco quebrou seus dentes da frente, foi obrigado a largar o saxofone e se dedicar \u00e0 guitarra el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Ele morava a vinte e oito minutos de onde fui criada. Poder\u00edamos ter nos encontrado, duas ovelhas negras, em algum trecho rural, cada um carregando livros de poesia dos simbolistas franceses &#8211; mas n\u00e3o o fizemos. N\u00e3o at\u00e9 1973, na East Tenth Street, em frente \u00e0 Igreja de S\u00e3o Marcos, onde ele me parou e disse: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 Smith&#8221;. Ele tinha cabelo comprido, ambos ecoando o futuro, ambos usando roupas que n\u00e3o se usavam mais. Percebi a maneira como seus longos bra\u00e7os pendiam e suas m\u00e3os igualmente longas e bonitas, e ent\u00e3o seguimos caminhos separados. Isso foi at\u00e9 a noite de P\u00e1scoa, 14 de abril de 1974. Lenny Kaye e eu pegamos um raro t\u00e1xi do Ziegfeld Theatre depois de assistir \u00e0 estreia de &#8220;Ladies And Gentlemen: The Rolling Stones&#8221;, direto pro Bowery pra ver uma nova banda chamada Television.<\/p>\n<p>O clube era o CBGB. Havia apenas um punhado de pessoas presentes, mas Lenny e eu ficamos imediatamente encantados, com sua mesa de sinuca, bar estreito e palco baixo. O que vimos naquela noite foi fraterno, nosso futuro, uma fus\u00e3o perfeita de poesia e <em>rock and roll<\/em>. Enquanto observava Tom tocr, pensei: se eu fosse um menino, teria sido ele.<\/p>\n<p>Eu ia ver Television sempre que eles tocavam, principalmente pra ver Tom, com seus olhos azul-claros e pesco\u00e7o de cisne. Ele abaixou a cabe\u00e7a, segurando sua Jazzmaster, liberando nuvens ondulantes, estranhos becos povoados por homenzinhos, um assassinato de corvos e os gritos de p\u00e1ssaros azuis correndo por uma r\u00e9plica do espa\u00e7o. Tudo transmutado atrav\u00e9s de seus longos dedos, quase estrangulando o bra\u00e7o de seu viol\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas semanas seguintes, nos aproximamos. Enquanto caminh\u00e1vamos pelas ruas da cidade, improvisar\u00edamos hist\u00f3rias em andamento, nossas pr\u00f3prias &#8220;Noites da Ar\u00e1biaA. Descobrimos que ambos am\u00e1vamos a obra do compositor arm\u00eanio-americano Alan Hovhaness, sendo nossa obra favorita &#8220;Prayer oOf St. Gregory&#8221;. Examinando as estantes uns dos outros, ficamos surpresos ao descobrir que nossos livros eram quase id\u00eanticos, mesmo aqueles de autores dif\u00edceis de encontrar. Cosseria, Hedayat, Tutuola, Mrabet. N\u00f3s dois \u00e9ramos exploradores liter\u00e1rios independentes e passamos a compartilhar nossas fontes secretas.<\/p>\n<p>Ele devorou poesia e rosquinhas Entenmann com cobertura de chocolate amargo, engolido com caf\u00e9 e cigarros. \u00c0s vezes, ele parecia sonhador e distante, ent\u00e3o de repente explodia em gargalhadas. Ele era angelical, mas levemente demon\u00edaco, um personagem de desenho animado com a gra\u00e7a de um dervixe. Eu o conhecia ent\u00e3o. Gost\u00e1vamos de dar as m\u00e3os e passar horas folheando as prateleiras do Flying Saucer News e indo pra rua 48 e olhando guitarras que ele nunca poderia comprar e pegando a Staten Island Ferry depois de tr\u00eas <em>sets<\/em> no CBGB e subindo seis lances de escada at\u00e9 o apartamento na East Eleventh Street e deitados juntos em um colch\u00e3o olhando pro teto e ouvindo a chuva e ou outra coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia ningu\u00e9m como Tom. Ele possu\u00eda o dom infantil de transformar uma gota d&#8217;\u00e1gua em um poema que de alguma forma gerou m\u00fasica. Em seus \u00faltimos dias, ele teve o apoio altru\u00edsta de amigos dedicados. N\u00e3o tendo filhos, ele acolheu com agrado o amor que recebeu de minha filha, Jesse, e de meu filho, Jackson.<\/p>\n<p>Em suas \u00faltimas horas, vendo-o dormir, viajei no tempo. Est\u00e1vamos no apartamento e ele cortou meu cabelo, e algumas mechas ficaram espalhadas, ent\u00e3o ele me chamou de Winghead. Nos anos seguintes, simplesmente Wing. Mesmo quando ficamos mais velhos, sempre Wing. E ele, o menino que nunca cresceu, no alto do \u00d4mega, um filamento dourado na vibrante luz violeta.<\/p>\n<h3 class='related_post_title'>Leia mais:<\/h3><ul class='related_post'><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/ouca-real-estate-days-television-cover\/\" title=\"OU\u00c7A: REAL ESTATE &#8211; DAYS (TELEVISION COVER)\">OU\u00c7A: REAL ESTATE &#8211; DAYS (TELEVISION COVER)<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/a-historia-por-tras-de-marquee-moon-o-classico-do-television\/\" title=\"A HIST\u00d3RIA POR TR\u00c1S DE &#8220;MARQUEE MOON&#8221;, O CL\u00c1SSICO DO TELEVISION\">A HIST\u00d3RIA POR TR\u00c1S DE &#8220;MARQUEE MOON&#8221;, O CL\u00c1SSICO DO TELEVISION<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/television-no-brasil-em-abril-de-2013\/\" title=\"TELEVISION NO BRASIL EM ABRIL DE 2013\">TELEVISION NO BRASIL EM ABRIL DE 2013<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/tennis-faz-cover-do-television-guiding-light\/\" title=\"TENNIS FAZ COVER DO TELEVISION &#8211; GUIDING LIGHT\">TENNIS FAZ COVER DO TELEVISION &#8211; GUIDING LIGHT<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/tom-verlaine-e-jimmy-rip-voltam-ao-brasil-em-setembro-de-2011\/\" title=\"TOM VERLAINE E JIMMY RIP VOLTAM AO BRASIL EM SETEMBRO DE 2011\">TOM VERLAINE E JIMMY RIP VOLTAM AO BRASIL EM SETEMBRO DE 2011<\/a><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ia escrever sobre a morte de Tom Verlaine, o homem que fez &#8220;Marquee Moon&#8221; e que um dia elogiou um texto meu (s\u00e9rio &#8211; um [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":59491,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2363],"tags":[2115,2864],"class_list":["post-59490","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-television","tag-tom-verlaine"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/tomverlaine2.jpg?fit=540%2C300&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pBlnN-ftw","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59490","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59490"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59490\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":59495,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59490\/revisions\/59495"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59491"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.botequimdeideias.com.br\/flogase\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}