VIDRO/PELE – AS CORES QUE RASGAM O SOL

“As Cores Que Rasgam O Sol” é o primeiro disco cheio de Vidro/Pele, o projeto de Diego Robert, de Goiânia. Em janeiro, Robert havia dado ao mundo o primeiro EP, “Mão Nua”, que você pode e deve ouvir aqui.

Houve um momento na história da música subterrânea nacional, como bem se ouve na famosa coletânea “Não São Paulo”, em que esse tipo de som que o Vidro/Pele faz era possível e viável do ponto de vista da crítica – comercial, jamais, jamais! Bandas como Chance, Muzak, Finis Africae, Cabine C e tais tinham um certo desejo de habitar aqueles sobretudos pretos que vestiam os palcos e as expressões artísticas logo após a era punk inglesa.

O tempo passou, milhares de outras ramificações e reinterpretações fizeram com as gerações posteriores fossem incorporando demais subprodutos culturais, do shoegaze ao grunge, do dreampop ao post-rock, do emo ao vaporwave, pra criar uma outra coisa qualquer que não soa como nada novo, mas também não é um mero exercício apático de reaquecimento, tampouco aparenta falta de amplitude cultural.

O Vidro/Pele encaixa seus sons nesse espectro. Cheira a naftalina, tem gosto de passado, o pó se levanta quando os bits e bytes se entendem como som, mas ainda assim há um certo frescor. Não só por fazer parte de um silencioso e não conjugado movimento de renovação desse pós-punk subterrâneo nacional, com o Rakta, o Gattopardo, o Objeto Amarelo, o Crusader De Deus, o Cadáver Em Transe, o Flores Feias, mas porque há uma misteriosa poética envolvida.

A objetividade com que o autor trata seus temas é sedutora. São letras curtíssimas e que falam muito. As decepções amorosas estão nos quatro e únicos versos da dreampop “Azul, Vereda”, que abre o disco (“Ando sobre as nuvens / pois lá encontrei o meu amor / Bem depressa pra chegar / em lugar nenhum”). Frustrações em “Vislumbre” (“O rio ainda vai me levar / Sem querer / Não vou lembrar / Daquele lugar / Que eu insisto em nadar”). Deslocamento e inadequação no único verso de “Hiatos” (“Segundos de realidade”). O Vidro/Pele não é de versar muito, mas diz um bocado. Há um certo clima viajandão pseudo-psicodélico, por certo, mas isso não diminui o resultado final.

Agrada a aparente dificuldade do Vidro/Pele se alocar em algum lugar. As guitarras ora reluzentes e acaloradas (como em “Vislumbre”) logo tornam-se sombrias, circulares e corrompidas (como em “Céu Fumê”, uma das melhores do disco, junto a faixa-título e com “O Mundo Ainda Vai Estar Aqui Amanhã”). “O mundo ainda vai estar aqui amanhã / Não quero ter certezas demais / Não preciso de sentido pra respirar”, ele canta nessa última, que encerra o disco. Ter certezas demais é uma das grandes falhas do artista. Mudar é evoluir; procurar outras direções é inquietação, fuga da acomodação.

Robert é jovem o suficiente pra não ter vivido os anos 1980, mas de alguma forma aquela e tantas outras sonoridades se fundiram pra que ele pudesse formar esse disco intrigante. “Em algum ponto eu caminhei”, ele canta na ótima e contagiante “Nuvens”. Nossos passos em busca dos objetivos pessoais são a nossa história, são nossas cicatrizes, nossas cores e nossa forma. Explica um tanto, mas nunca assume formas definitivas, porque seguimos caminhando. O que nos rasga é a certeza de que um dia vamos parar.

OUça na íntegra:

O disco foi lançado em 19 de setembro de 2017, via Banana Records. O trabalho foi “inteiramente composto, gravado e produzido por Diego Robert em seu quartinho”.

01. Azul, Vereda
02. Vislumbre
03. Céu Fumê
04. Hiatos
05. Nuvens
06. Passando Aqui, Bem De Longe
07. As Cores Que Rasgam O Sol
08. Sua Terrível Simetria
09. E Lacunas
10. O Mundo Ainda Vai Estar Aqui Amanhã

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