WHATERVER HAPPENED TO BABY JANE – INFERNO DE VIDA EP

É um dos inesquecíveis clássicos do cinema a versão de Robert Aldrich pra “O Que Terá Acontecido A Baby Jane?”, livro que Charles “Henry” Farrell lançou em 1960.

“What Ever Happened To Baby Jane?”, no título original, saiu em 1962, com impressionantes atuações de Bette Davis (como Baby Jane Hudson) e Joan Crwaford (como Blanche Hudson), na época de ouro da fotografia em preto-e-branco (aqui, a de Ernest Haller é espetacular).

Há outras versões da história, pro teatro, dança e televisão. Mas a de Aldrich é a considerada “definitiva”. Se você ainda não viu o filme, pode assistir aqui na íntegra e legendado.

Quem viu e também se maravilhou foi Vanessa Labuto, baterista da banda de Vila Velha, Espírito Santo, WHATEVER HAPPENED TO BABY JANE. Vem daí, claro, o nome da banda, um trio formado também por Ignez Capovilla (baixo), Lorena Bonna (guitarra).

O que as três fizeram foi um leve e esperto jogo de palavras, juntando “what” e “ever”, pra acabar grafando “o que quer que tenha acontecido a Baby Jane”, ao invés da pergunta misteriosa que ronda a trama do livro de Farrell. Se a pergunta do título de Farrell é altamente pertinente pra história das duas irmãs Hudson, o “dar de ombros” do nome da banda capixaba é como dizer que não importa o que tenha acontecido a Baby Jane (e consequentemente a Blanche – e, claro, a qualquer mulher), seu destino é fruto de uma sociedade baseada no culto da imagem, no ego, no machismo, no poder do dinheiro e na falência das relações interpessoais.

O que se aprende na marra, mesmo sem fazer ideia quem sejam as personagens de Davis e Crawford, é que é meio que cada um por si nessa vida e o seu inimigo pode estar aí ao lado: marido, namorado, pai, amante, amigo, colega, chefe. Alguém pode, a qualquer momento, te ferrar. E se você é mulher (ou qualquer participante sem poderes na sociedade) a coisa se agrava.

“O Que Terá Acontecido A Baby Jane?”, a história original, é claramente um tapa na cara da indústria cinematográfica e do entretenimento (um dos mais certeiros, junto com dois outros grandes filmes: “Crepúsculo Dos Deuses”, doze anos mais velho, de 1950, dirigido por Billy Wilder; e “Assim Estava Escrito”, de 1952, dirigido por Vincente Minelli), mas o trio de Vila Velha amplia a discussão, não só no jogo de palavras, mas empunhando baixo, bateria e guitarra e chutando as canelas que lhes incomodam.

A banda nasceu em 2016, é uma bebê ainda, mas já lançou um EP vigoroso, chamado “Inferno De Vida”, dia 21 de julho de 2017, via Läjä Records (a mesma da banda Merda e desse disco aqui). Além do punk e do pós-punk intenso (algo que orgulharia as Mercenárias, por exemplo), as três oferecem poesias cruas que mais parecem gritos de libertação, pedidos de socorro ou um sonoro foda-se.

“Sábado A Noite” (sic) grita uns “fuck you” ali no meio, como um punk deve ser, mas o principal recado é que “você não sabe o que é andar no escuro à noite”. “Deixa Ela Em Paz” é curta e grossa contra os abusados e abusadores: “eu acho que eu não gosto de você / Fala pra ele! / Deixa ela em paz!”. Impossível ser mais direto.

“I don’t serve you anymore / And I hate you more and more” é a tradução da impaciência e da raiva, em “Blablabla”. Já “Sister” utiliza da mesma objetividade pra exclamar sobre a violência contra as mulheres: “Sister! Sister! / Why is there blood in all over your hair? / Why is there blood in all over your head?”.

Sim, as letras são exatamente só isso – mas é o suficiente, acredite. A urgência que estoura os amplificadores está também na poética. É punk rock sem discursos fáceis, há inteligência na concisão do discurso, não é preciso muito pra entender, “pra quem sabe ler um pingo é letra”, diz o ditado.

O que quer que tenha acontecido a Baby Jane, sendo Baby Jane toda e qualquer mulher, não importa, porque o trauma vai tá lá, parece inevitável e recorrente. Alguma coisa vai acontecer. Vanessa, Ignez e Lorena vão na contramão do textão, da falsa politização de tela de computador e atacam com verbos precisos.

O disco tem pouco menos de sete minutos e muitos recados são dados, mas todos podem ser resumidos de um único jeito: homens e mulheres deveriam ter direitos, oportunidades e respeito iguais, por que diabos é tão difícil construir uma sociedade assim?

O disco foi gravado num só dia (13 de maio de 2017), no Comanche Recording Co., por André Nucci. As três artistas são responsáveis pelas composições (às vezes em dupla, às vezes sozinhas).

O recado que elas passam aqui é pras pessoas se perguntarem: o que terá acontecido com a humanidade?

1. Sábado A Noite
2. Deixa Ela Em Paz
3. Blablabla
4. Sister

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