RESENHA: ATOMS FOR PEACE – AMOK

ARMADILHA AUTO-IMPOSTA

O disco de estreia do Atoms For Peace, “AMOK”, parece uma armadilha que Thom Yorke fez pra se enfiar.

A ideia parecia boa: chamar os amigos, montar um “supergrupo” e fazer algo dinâmico, novo talvez. Yorke pegou sua caderneta de telefones (tenho certeza de que ele tem uma, à moda antiga) e começou a discar. Quem topou foi Flea (baixo, Red Hot Chili Peppers), Nigel Godrich (produtor de longa data do Radiohead), Joey Waronker (baterista que tocou com o REM em “Up”, de 1998, em “Reveal”, de 2001, logo depois da saída de Bill Berry) e Mauro Refosco (músico de apoio do RHCP). A tendência de achar que nada poderia dar errado ganhou fôlego. O nome de Thom Yorke à frente dava uma injeção de credibilidade ainda maior.

Parecia dar certo.

Os fãs do Radiohead correram pra enaltecer o disco. Thom Yorke, pra eles, é infalível. Os fãs do Flea se perguntam onde anda o baixo voraz que se ouve no Red Hot Chili Peppers e aguçaram os ouvidos pra identificá-lo.

Mas algo “novo” a história do álbum tinha tudo pra mostrar que não haveria. A banda tocou as músicas do “The Eraser”, o primeiro disco-solo de Yorke, ao vivo, numa série de shows, pra se ambientar. A crueza da apresentação ao vivo foi alimentada com sessões livres de improviso, um tanto de álcool e drogas e, dizem, audições constantes de Fela Kuti. No meio disso, a execução das criações do líder do Radiohead. Yorke e Godrich gravando tudo.

O trabalho que veio a seguir foi exaustivo, embora basicamente com uma ferramenta: os computadores. Um corte-e-cola em camadas, após o tratamento eletrônico de tudo. Yorke queria um som natural, orgânico, mas todos os sons foram processados pelas entranhas eletrônicas. Tudo foi tocado ao vivo, com instrumentos usuais, porém tudo foi igualmente processado por computadores. Menos a voz de Thom Yorke.

Não é de se espantar, pois, a relação incestuosa com “The Eraser”. Quem enxergou uma continuação do disco-solo de Yorke não está totalmente errado, embora “AMOK” não tenha sido feito pra esse fim. Thom Yorke queria se divertir e chamou os amigos pra se divertir juntos. Queria que soasse como uma banda cheia, com nuances de cada instrumento, que fossem perceptíveis na sua magnitude.

Entretanto, é o exagero e os maneirismos criativos de Yorke o travaram na execução de sua intenção. Há uma banda, mas o resultado final não soa como uma banda. Soa como Thom Yorke tem soado nos últimos dez anos. Não é de se espantar que os detratores chamem “AMOK” de uma continuação de “The Eraser”, ou de um novo disco-solo de Yorke, ou ainda de um Radiohead sem o Radiohead.

Mesmo que Refosco tenha inserido uma batida minimalista com sua percussão e Waronker tenha suingado ao máximo a cozinha com Flea, o resultado do modo de operação de Yorke e Godrich já se ouve na primeira canção, “Before Your Very Eyes…”. Se o ouvinte começar por aqui, como sugere a banda, e tiver de saco cheio desse estilão de Yorke, não poderá ser condenado por desistir.

Ouça “Default”:

Aí entra a questão básica da análise: você gosta de “The Eraser”? Se a resposta for “sim”, ótimo, você irá gostar de “AMOK”. Se não gostou, nem tente, é perda de tempo.

Mas é bom avisar: o Atoms For Peace – ou Thom Yorke e Nigel Godrich, você decide – fez um disco bom, agradável, divertido até. A intenção de parecer “diferente”, pelo cenário construído, naufragou. O jeito, então, é aproveitar o que se tem. E pode não ser muito, mas não é de todo ruim.

“Default”, com suas impressões kraftwerkianas, “Ingenue” e “Dropped” (onde o baixo de Flea dá boas-vindas, junto com “Stuck Together Pieces”), suingadas no limite da aceitação de Yorke, mostram que o disco é mais divertido do que “The Eraser”, ou até mesmo do que o “pra baixo”, difícil e experimental “The King Of Limbs”. Há alma e calor por trás daquela frieza que os softwares e hardwares nos estregam. Destaque efusivo pra linha melódica de “Ingenue” e de “Judge, Jury And Executioner”.

Ouça “Judge, Jury And Executioner”:

Quem se acostumou com Thom Yorke instintivamente dando nó na cabeça de todo mundo, musicalmente falando, poderá expor aqui um sonoro bocejo. O argumento de que é um “mais-do-mesmo” não pode ser ignorado. Mas isso depende do que você busca em “AMOK”.

Você só precisa se decidir de que lado está. Thom Yorke escolheu o dele muitos anos atrás e por lá ficou, sem se tocar que impôs limites pra sua criação, ficando preso a essa fórmula. A questão é: terá como sair da armadilha auto-imposta?

NOTA: 7,0
Lançamento: 25 de fevereiro de 2013
Duração: 44 minutos e 41 segundos
Selo: XL Recordings
Produção: Nigel Godrich

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Comentários

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5 comentários

  1. É sequência de The Eraser, só que dessa vez o Yorke manipulou os sons vindos dos instrumentos da banda e não apenas o que ele havia construído sozinho em seu laptop (como o fez em The Eraser). Dá para notar o baixo muito mais em evidência e as peripécias de Mauro Refosco. É Yorke fazendo o que ele sabe fazer melhor, com seu suingue frio, característico. Ele já tem mais de vinte anos de carreira, sempre fazendo música boa, ninguém pode condená-lo por querer fazer seu projeto com os sons que mais gosta. Auto-indulgente, que seja,
    mas é bom. Aliás, muito bom. Amok (ultima musica), uma das melhores que já ouvi dele (solo ou Radiohead), o álbum todo é bem melhor que o próprio The King Of Limbs, do Radiohead.

    Acho que o povo tem muita dificuldade em entender que o Yorke encara fazer album como um trabalho de arte, construído, polido, que não tem que soar como soa ao vivo. Tanto que ele, invariavelmente, modifica as músicas e dá tratamento muito mais evidente aos arranjos nas turnês, soa como outro álbum, ele não se repete. Teve show dele e do Goldrich em Londres, basicamente fazendo um karaokê, e ele já modificou o som das músicas do Amok. Em julho começam os primeiros shows da banda toda, certeza que veremos outra metamorfose.

    Falem o que quiserem, é um dos artistas que ainda fazem a música ser algo excitante de se acompanhar.

  2. A impressão que eu tenho é que os críticos e afins exigem de Yorke uma revolução por cada disco. Se não inova, não funciona. Como assim? Uma coisa não anula a outra. Amok tá longe de ser revolucionário, inovador, é uma continuação do The Eraser, bla bla bla, mas é um puta disco. Não entendo essa exigência homérica com o rapazinho.

  3. sou fã do radiohead e, por conseguinte, do thom yorke, e AMOK foi um dos álbuns que eu mais aguardei pra esse primeiro semestre. não gostei, fui uma das que argumentou com “mais do mesmmo”. mas assino embaixo de tudo dito aqui nesta resenha, achei perfeita!

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