PENSE OU DANCE: EM BUSCA DO SALVADOR

Volta e meia em discussões sobre se uma banda é “boa” não, “relevante” ou não, algum gaiato sai com o argumento do tipo: “mas ela seria uma boa capa de Bizz (ou de Rolling Stone ou de Billboard ou – insira aqui a sua revista preferida)?”.

A resposta é sempre um nariz torcido, uma dúvida, uma incerteza. Mas, aparentemente, todo mundo gostaria de ter essa certeza, afinal esse parece ser o argumento definitivo. Bem… Há de se levantar dúvidas sobre se ser capa de revista representa ou não relevância comprovada ou qualidade artística.

Revistas de música tiveram sua importância lá nas décadas de 1980 e 1990 – em se tratando de Brasil, obviamente. Era onde se bucava informação, novidades, opinião, observava-se tendências. No retorno da Bizz nos anos 2000, já no início da Internet ampla, as vendas em torno de cinco mil exemplares mostraram que o público pra esse tipo de publicação talvez não passe muito disso.

A agilidade da Internet supre a necessidade da maioria em se informar, de modo que as revistas que persistem abnegadamente buscam sobreviver editorialmente com matérias mais aprofundadas, algo que a superficialidade dos blogues e sites não atende. É uma saída, mas não é a solução. Nenhuma revista de música vende 50 mil, 100 mil exemplares.

E que artista que atinge cinco, dez mil pessoas pode ser chamado de relevante comercialmente ou culturalmente? A conta deveria ser pra mais, bem pra mais.

A não ser que se entenda que revistas devam cumprir o papel de farol das novidades, indicando caminhos, tendências, o que de certa forma abre o leque pra além daquilo que “vende bem”, não há motivo pra se preocupar com as capas de revista.

A pergunta “esse artista seria uma boa capa de revista?” questiona, de fato, se ele vende bem, se ele tem apelo comercial. Mas o embasamento pra tal patamar mudou bastante nos últimos anos – e certamente tende a continuar mudando – de modo que os artistas realmente populares no Brasil (sertanejo, axé, funk, brega etc.) atingem um (enorme) público que lê publicações diferentes, e dão importância a outras variáveis que não a música, ou que não só a música. É aquele tipo de consumo de informação que talvez o fã de “rock”, “indie”, “pop de matiz internacional” não consome. Não é pior, nem melhor, é outro mercado.

O nicho de público que “discute música” no Brasil, colocando a música num nível de importância cultural/artística não percebida por quem não é desse nicho, é tão menor e desimportante comercialmente, em termos de números, de impacto nos balanços anuais das companhias, que as capas de revistas, nos moldes entendidos, deveriam ser povoadas por duplas sertanejas, MCs com letras de duplo sentido, cantores românticos, forrozeiros e afins, nomes realmente populares e relevantes pra cultura e mercado brasileiros. São esses nomes que chamariam anunciantes e dariam apelo comercial às publicações. Mas, então, por que não há revistas sobre música pra esse grande público? Talvez porque, vale repetir, a música não seja exatamente o grande barato do negócio, de modo que a comunicação com esse público se dá em outras esferas – e, como se vê nas propagandas na tevê, recheadas de jingles sertanejos, por exemplo, sempre se dá um jeito de se comunicar.

Não é choro. A música jovem já foi o rock/pop/guitarras/o que seja no Brasil. Mudou. O jovem de hoje quer outro tipo de música, você goste ou não, sem julgamentos aqui. O leitor da Bizz e de “revistas de música” (de entretenimento) como Rolling Stone Brasil virou um pequeno nicho, há mais de uma década, e vai diminuindo ano a ano.

Mas enquanto diminui como público consumidor, esse nicho ainda espera surgir aquele salvador da pátria, no estilo do punk, do Nirvana, do Strokes, do Los Hermanos ou do sabe-se lá o quê, que leve as guitarras de volta às listas de mais executadas e mais vendidas e, num cenário mais “modesto”, crie uma singela revolução comportamental, dessas que possa valer capas de revistas não só musicais.

Se esse salvador não parece nem de longe querer dar as caras, e as revistas de música não podem se extinguir (torço pra que elas continuem por aí), a percepção sobre o que é sucesso precisa mudar e talvez seja aí que se possa dar a virada. Artistas bons existem (como existem aos montes na música superpopular brasileira – mesmo que você não goste), mas deles ainda se espera um novo entendimento desse mercado diminuto, de como dialogar com um público mais amplo, embora os esforços até aqui consigam até dar bons frutos nessa direção, como fazer a Rede Globo ficar de olho nesse mercadinho.

Ou, como sempre respondo na hora da dúvida levantada pelos gaiatos: acho que a gente não precisa de salvadores pra nada. A música é o que é, perdoe-me por essa saída pela tangente, pelo simplismo. O problema é das revistas pensarem dessa maneira, elas é que precisam se virar. Enquanto isso, como uma pessoa sem atenção num relacionamento, o grande público foi procurar em outro lugar quem o entendesse, dialogasse com ele, falasse a língua dele. Sobrou ao velho amor, sozinho, a tarefa de dar a volta por cima.

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Comentários

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Um comentário

  1. Se eu pensar nesse “salvador”, nem consigo associar com Strokes… Nirvana sim (e Los germanos talvez, em outra escala).

    No Brasil acho que o último “movimento”, ligado ao rock, relativamente viável, tanto em termos artísticos como comerciais, foi quando os expoentes do mangue-bit saíram de Pernambuco para o eixo.

    Com a popularização da Internet realmente capa de revista não serve mais de parâmetro como servia há algum tempo…

    Gostei muito do texto. Achei bom de ler, claro e fluido.

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