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Escrito por Fernando Augusto Lopes

Em “Nos Bastidores da Notícia” (Broadcast News, EUA, 1987, direção: James L. Brooks), um grupo de jornalistas discute um dilema moral: um jornalista e sua equipe (câmera e produtor) vão cobrir a execução de um bandido, de um caso famoso, de comoção nacional, condenado à morte por eletrocussão. Você vê o evento até o final e filma tudo. Ao chegar à redação, as cenas fortes assustam o editor de imagens e até o seu chefe. Começa uma discussão se aquilo deve ir ao ar ou não. Começa o dilema. Não bastaria só informar o ato final, usando imagens externas do presídio, com você empunhando ao microfone toda a revanche da sociedade? A quem interessa ver tal cena, senão as testemunhas cooptadas pelo Estado?

No filme, é uma conversa de corredor, dessas que se tem em qualquer ambiente de trabalho, enquanto se mata o tempo tomando um cafezinho. Uma conversa leve, cotidiana pros jornalistas dali.

Porém, a cena reflete o fato de que em alguns casos extremos, é possível tomar decisões baseadas em princípios morais sem medo de julgamento acintoso por isso. São decisões que levam em conta uma gama ampla de pilares sociais e pessoais. Em casos mais extremos ainda, como o canibalismo dos “sobreviventes dos Andes”, são decisões estritamente de foro íntimo, calcadas no desespero, no ímpeto primitivo. Entretanto, em casos nada extremos, cotidianos, o procedimento passa desapercebido, e é comum que nem nos demos conta de que passamos o peso de várias decisões pra outras pessoas – e até, lá no fundo, agradecemos por ser assim.

Não é o caso dos jornalistas do filme, que embora tratem o caso extremo como cotidiano, como papo-de-botequim, o fazem porque ainda estão tratando-o na esfera da alegoria. A crise do dilema moral se dá apenas na realidade, porque afeta inclusive organicamente, fisicamente, os tomadores de opinião.

Mude a órbita e veja o caso do mundo virtual. É comum no Google e no Facebook, por exemplo, que certas decisões sejam tomadas em bases algorítmicas. Se duas pessoas no mesmo exato momento procurarem no Google o termo “Lula”, é quase certo que receberão páginas de respostas com links dispostos em ordens totalmente diferentes, ou, mais do que isso, conteúdos diferentes. Isso se dá por uma série de entendimentos dos algoritmos que a empresa usa a partir do rastreamento das preferências do usuário. Pra muitos, “Lula” é um cara bacana, um presidente que ajudou o Brasil e os menos favorecidos. Pra outros, “Lula” é um pulha que deveria tratar seu câncer no SUS e apedrejado moralmente em praça pública.

Ambos internautas não usam o Google apenas pra buscar “Lula”, e vão deixando rastros preferenciais, ideológicos e culturais em uma infinidade de outros cliques que determinam ao Google um perfil de usuário. De modo a “facilitar” a busca nas próximas vezes, o site rearranja os resultados com as preferências do visitante – ou com o que ele acredita sejam suas preferências. O Google está pensando por você e tomando decisões que deveriam ser suas: ele te dá como resposta a uma busca algo que ele acredita que irá te agradar.

O Facebook faz algo parecido. Aquelas pessoas que você mais interage aparecem na sua linha do tempo, enquanto aquelas outras que você simplesmente ignora acabam excluídas. Na teoria, todas as pessoas são suas “amigas”, entretanto no livro aberto que são as redes sociais, algumas pessoas que você conhece apenas por jogar tênis com elas, mas não possui nenhuma intimidade ideológica; ou aquele cidadão que você gosta de tomar cerveja vez por outra porque é engraçado, porém diverge politicamente contigo; por mais que eles mandem links e peçam pra você clicar nesse ou naquele, isso é algo que você não fará, porque não se sente confortável. Essas pessoas são excluídas da sua linha do tempo. O Facebook acredita que se você não clica ou nunca clicou ou clicou pouco nos links dessas pessoas, é porque de fato você não se interessa pelo o que elas têm a dizer. Elas são sumariamente eliminadas de sua vida virtual. O Facebook também está decidindo por você.

O que se vê é que essas empresas estão assumindo o traquejo de ser ou pensar por você.

Dessa forma, entramos no que Eli Pariser, executivo da organização não-governamental estadunidense MoveOn.org, chama de “o filtro-bolha”. “E o seu filtro-bolha é o seu próprio, pessoal e único universo de informação com o qual você vive online. E o que está no filtro-bolha depende de quem você é, e depende do que você faz. Mas a questão é que você não decide o que entra. E, mais importante: você, na verdade, não vê o que fica de fora”, alerta Pariser.

Virtualmente, somos colocados por essas empresas e muitas outras (como Amazon, Submarino, UOL etc.) em determinadas bolhas de informação onde só achamos o que se acredita seja do nosso interesse. O que pode vir argumentado como um facilitador da nossa vida na Internet, é na verdade um gueto, onde nos é dificultado o ato de entrar em contato com o “importante”, o “desconfortável”, o “desafiador” e com “outros pontos de vista”. Baseados no que acreditam ser “relevante” pra nós, nos enfiam nesse “filtro-bolha”.

Isso pode te incomodar pouco, a princípio, mas deveria preocupar bastante. É uma censura subterrânea, invisível. Deixar que os outros pensem por nós não é minimamente interessante – muito menos compreensível a seres com cérebro avantajado e polegar opositor. Nossa visão do mundo deveria estar cheia de opiniões contrárias, de desafios e de desconfortos, pra que haja um pouco de gana pra seguir em frente.

Fazemos isso na vida real. Quando estamos sem dinheiro, precisamos trabalhar e nos esforçar mais pra merecer o salário no fim do mês ou o aumento num futuro próximo. Há quem vá mais longe e descarte a ética e o senso de sociabilidade pra conseguir o que quer. A esses, é preciso outros pontos de vista pra mostrar que o rumo seguido não está certo (incluindo aí as leis). De qualquer forma, o inconformismo com nossa vida profissional, social e amorosa nos faz seguir em frente. Por que diabos, então, quando se trata de informação e formação de ideias e mudanças de princípios que nos impuseram na infância e adolescência, o discurso passa a ser do conformismo, da preguiça e da submissão?

A diferenciação se dá porque aqui se tem algo primitivo, pra saciar necessidades imediatas: quem não trabalha, não ganha dinheiro, não come, não progride, não é reconhecido como o macho alfa e não procria, não dá seguimento à vida (feministas, calma).

No campo das ideias, vemos um abalroamento da lógica.

Nos tempos de vida virtual e real totalmente interligadas, o projeto da insignificância mental se torna ainda mais fácil de obter sucesso por gerações e gerações, graças a esse inimigo invisível que é o “cerceamento” da informação (ela não é de fato “cerceada”, mas escondida, obscurecida).

Pense em tudo o que você ouve, lê e assiste. Pense se quando você procura uma música na Internet as páginas de resposta não te oferecem sempre as mesmas alternativas de resenhas, indicações ou similaridades. Ou mesmo as informações de filmes, resenhas, livros, histórias… Há uma enorme chance de você estar dentro de uma bolha de ideias formatadas por outras tantas pessoas e nem se dá conta de que há outros filmes, livros, assuntos, músicas, bandas e estilos por aí, que nem sequer lhe são apresentados.

Você lê sempre os mesmos sites, blogues, jornais e revistas? Vê sempre os mesmo programas? Escuta sempre as mesmas pessoas? Procure outros, aqueles que não são apresentados dentro de sua bolha. Eles existem.

Nos parece lógico que suas ideias conceituais sobre música (ou filmes ou livros ou até mesmo gastronomia, bares, vinhos ou cervejas) se forma na própria experiência; mas essa experiência é estimulada por aqueles críticos ou canais de informação que chegam até você, por indicações, relatos de experiências gratificantes, resenhas deliciosas de se ler. Não há nada mais apropriado pra uma marca do que o boca-a-boca bem sucedido.

Se você crê no crítico ou no veículo de comunicação, por afinidade ideológica ou por proximidade com o escritor é ali que você irá buscar sempre suas informações e formará uma bolha pra quaisquer outros críticos.

Penso no caso dos Strokes, por exemplo. A banda surgiu vendida como alternativa a alguma coisa que não se tem noção exatamente, há pouco mais de dez anos. “Is This It” é um disco brilhante, mas nada desafiador, até porque pouco havia a ser desafiado. Numa época em que a Internet ainda engatinhava pras massas e MP3 era uma sigla estranha, o conhecimento de música da maioria se limitava às FMs insossas, à secura conformista da MTV e às revistas e jornalistas que vez por outra apontavam novos caminhos ou alternativas. Mas não havia nada a ser confrontado, como o metal farofa e as grandes gravadoras que o Nirvana, sem querer, bateu de frente; ou os progressivos que o punk resolveu confrontar.

Há méritos no Strokes, indubitavelmente. É uma banda divertida, com dois ou três discos bons e de fato anima as noites de indies festivos ou não. Só que os méritos se bastam no fenômeno social em si, independente da música: a forma com que os integrantes se vestem, como andam, o que comem, quem comem, se estão gordos ou não… É o equivalente à adoração de qualquer ídolo pop, de Beatles a Justin Bieber: ganhou o escudo e o status de intocável, falar mal dos nova-iorquinos é chamar pra briga, é inaceitável, é ofender a mãe.

Alguém começou isso. Pode ter sido um texto, pode ter sido uma foto, pode ter sido um show. Alguém relatou isso. E esse alguém estava na bolha de informação de um bocado de pessoas, que por sua vez estavam na bolha de informação de outras tantas e por aí se segue. Críticos contrários à banda provavelmente não estavam e seguem não estando no filtro-bolha desses fãs – com o risco de se estiverem serem expulsos, mas isso é outra história, o ápice do fanatismo desenfreado.

Hoje, dez anos depois, com um álbum inapreciável e um vocalista já sem voz, vive do mito surgido dentro das diversas bolhas de informação. Há de se perguntar se fãs xiitas – de qualquer banda, não só do Strokes – não se metem orgulhosamente nessa bolha própria e propositadamente isolam informações sobre novidades, outros grupos ou mesmo de críticas que confrontem qualquer pseudo-qualidade do ídolo. É um escudo pra evitar o auto-enfrentamento da própria ignorância ou um voluntário ato de defesa contra o que é “novo” e “desconhecido” (o medo da morte também não se baseia nisso, no receio da dor e do desconhecido?)?

Isso definitivamente pode acontecer no plano algorítmico, o que já é alarmante, por “culpa” do fã, ávido por só ler e saber sobre a banda – e só coisas positivas; mas quando realizado no plano físico pode ser entendido como cegueira, preguiça ou desastre cultural, porque há uma mundo fora dessa bolha que pode ser apreciado e descoberto: outros tantos Strokes, outros tantos Arcade Fire, Los Hermanos, Wilco, Spielberg, Truffaut, Paulo Coelho, Lispector (acrescente aqui todos os “intocáveis” de cada geração, em cada área cultural, os seus intocáveis)… Eles estão aí.

Mas é óbvio de que não se trata apenas do universo cultural (embora a cultura não possa ser apenas encarada como “diversão” ou fuga). Ele é apenas simbólico. E reflete em tudo o mais na vida de cada um.

Uma crítica, uma novidade, uma desavença ideológica, um outro caminho, nada disso vai desmerecer o que você já tem por paixão ou critério de escolha. Ouvir outro lado, ter outra visão, não é descartar a atual. É ampliar conhecimento e solidificar sua liberdade.

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Escrito por Fernando Augusto Lopes Categorias: Especiais

3 pitacos por enquanto.

  1. Ai reside uma das grandes ironias desses tempos. Numa época onde a informação circula cada vez mais rapidamente e de modo mais facilitado, por outro lado, surgem instrumentos que prejudicam a circulação da mesma. É intrigante!

  2. JP Souza disse:

    Mas é aquela velha história, inventa-se uma forma mais abrangente de descobrir coisas novas, e ao mesmo tempo, as pessoas não estão aptas o suficiente pra desfrutar disso da melhor maneira.

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